Cleyde quer ser Helena
Cleyde: Ainda bem que tá o maior trânsito hoje. Meu marido, a uma hora dessas, já deve tá bêbado. a Jéssica e o Cleyton devem tá morrendo de fome. Que saco. Não qurero chegar em casa hoje. Se bem que daqui a pouco vai começar a novela. Essa novela eu tô gostando. A Helena é tão bonita. Comprei um shampoo pro meu cabelo ficar que nem o dela. Será que o Denilson vai reparar? Também, problema dele. A Fatinha vai. A Fatinha faz tudo o que eu faço. Aposto até que já comprou o tal shampoo, porque eu já falei pra ela que ia comprar. Tem bem uma promoção na farmácia ali perto de casa. Mas tudo bem, o cabelo da Fatinha não tem jeito mesmo. Mas o meu…. Ah! Vou ficar que nem a Helena. Será que eles vão reparar? Um dia vou bem lá pra Búzios. Nem é tão longe. É só pegar o Manilha-Tanguá, de lá pega a van pra Saquarema e de Saquarema tem um lá que vai direto. Se eu pedir uma folga na sexta dá pra ficar lá três dias na casa da Deuza, ela mora lá há 25 anos e sempre me convidou. Agora que tá na novela, aposto que vai dizer: “Hm… você quer vir aqui só por causa da Helenea.” E é mesmo. Ai, o Shopping São Gonçalo é tão lindo, tão grande. Já prometi pra Jéssica e o Cleyton que vou bem levar eles aí nas férias. Final de semana não dá, tem que preparar a barraca da feira e aquele traste não faz nada, ô carma. Quero ver, se um dia ele acordar e eu não tiver mais lá, o que ele vai fazer. Aquele ali não presta sem mim não. Mas tô cansada. A Fatinha vai me deixar ficar na casa dela que eu já quebrei um monte de galho pra ela. E se não deixar, vai ver só comigo, que eu sei que ela pula muito bem a cerca com o motorista da patroa, mas deixa quieto. Ainda bem que tá trânsito. Não adianta estressar não, gente. Fazer o quê? Parece até que não sabem? Todo dia é isso e todo dia tem gente que reclama. Eu vou ficar é bem aqui me imaginando em Búzios. A Deuza é que feliz. Mora lá. Faz comida pra um restaurante. Se deu bem na vida… Tem a Helena e aquele homem… Ai, se aquele homem aparecesse na minha vida, eu não ia nem pensar duas vezes, largava o Denilson na hora, que traste. Ô traste. Não faz é nada. Presta nem pra lavar a louça e ainda reclama. Ô traste. Tomara que fique aqui parado mesmo. Amanhã é tudo igual. Pra quê? Pra quê? Se o Denilson tiver bêbado, eu juro que pego meus filhos e me mando pra casa da Fatinha. Ah, eu pego. Que traste. Ô carma. Ih, já ta chegando no meu ponto. Tô bem com vontade de não saltar hoje. Hm… Será que eu salto? Hm… nem vou puxar a corda… Hm… Eu devia ir pra Búzios daqui direto. Depois eu mando a Fatinha pegar os meninos e levar lá. Hm… Será? Hm…Eu queria ser a helena. Ela não anda de ônibus, nem tem um traste esperando ela chegar em casa. Hm… A Deuza mora lá… Acho que essa ônibus vai até Itaboraí. De lá tem um que para em Tanguá… Hm…. O traste vai ficar louco. Vai quebrar tudo. Os meninos vão chorar. Mas a Fatinha me ajuda…. Hm… Nossa, hoje o céu ta todo estrelado… Ih, já não saltei!
O bebê apavorado
Celso: (tom grave) Gusmão, quero te falar uma coisa séria.
Gusmão: (sorri) Hoje é sexta feira, rapaz. Não topo seriedade.
Celso: Ouve. É grave.
Gusmão: Espera segunda.
Celso: Escuta, rapaz.
(Gusmão percebe a gravidade do problema)
Gusmão: Ok. Fala.
Celso: (tragada violenta. Voz baixa) Seu nome.
Gusmão: O que tem?
Celso: Está na boca do povo.
Gusmão: (numa careta, sem entender)
Celso: Sou seu amigo, no seu lugar gostaria que fizesse o mesmo por mim.
Gusmão: Do que está falando?
Celso: Um alerta.
Gusmão: Qual é, Celso? Fala de uma vez.
Celso: Tão dizendo aí… Bom…
Gusmão: O que foi? Fala Celso!
Celso: Tão dizendo aí que você vai rodar.
Gusmão: (impactado)
(tempo)
Celso: Gusmão?
Gusmão: Quem tá dizendo isso?
Celso: O povo todo.
(tempo)
Gusmão: Por que?
Celso: Crise. Parece que vai rolar corte e você… Bom.
(tempo)
Gusmão: Dei motivos?
Celso: Não!!! Não… É a crise. Pelo menos é o que estão dizendo.
(tempo)
Gusmão: E por que eu?
Celso: Ah… Tinha que ser alguém.
Gusmão: Mas logo eu? Nunca tive uma reclamação! Umasinha!
Celso: É a crise…
Gusmão: (revoltado) O Paulo. Por que não foi o bosta do Paulo? O Paulo não quer nada com a hora do Brasil. Todo mundo sabe disso! Estou mentindo?
Celso: nada. O Paulo é maior 171.
Gusmão: Ou aquele menino… Qual o nome dele?
Celso: Jean?
Gusmão: O magrelo!
Celso: Jean, pô…
Gusmão: Então, o Jean… Solteiro, não tem filho… É novo. Não vai ter problema de arrumar um trabalho agora…
Celso: É verdade…
Gusmão: E a Dilma! Aquela vaca interesseira… Por que não mandam a Dilma embora? Aquele rabão dela não serve pra nada… O Gustavo também, aquele merda, zero à esquerda. Vive chegando atrasado, indo embora cedo…
Celso: Isso é verdade…
Gusmão: Até você mesmo Celso.
Celso: Que isso, Gusmão…
Gusmão: Desculpa a sinceridade, Celso, mas você é um pilantra.
Celso: Qual é, Gusmão…
Gusmão: Vai me dizer que não? Você é bom pra tomar cerveja, mas pra trabalhar… Vamos combinar que não dá.
Celso: Eu aqui te dando um toque e você me esculhambando!
Gusmão: Toque é um cacete! Esses escroques estão botando na bunda errada e você quer que eu fique na boa?
Celso: Sou o único a tomar partido seu, Gusmão! O povo fica falando que você é um otário e eu tomo as suas dores!
Gusmão: (numa melancolia abrupta) Eu sou melhor que você, sabe disso! Não tem sentido… Não tem…
Celso: (orgulho ferido, palminha no ombro) É, meu querido. Mas é você que vai colocar o bloco na rua e tratar de procurar outra coisa. Vou voltar pro escritório.
(Celso sai)
(Gusmão sozinho em silêncio)
(Gusmão atravessa lento o Largo da Carioca)
(Um indo e vindo infinito de gente)
(Gusmão vai olhando pra cada um. A bunda flácida das outras, a cara feia dos demais, a cor indefinida de todos…)
(No meio de tudo, Gusmão avista uma mulher empurrando um carrinho de bebê. A mulher está distraída conversando com a amiga ao lado.)
(Gusmão está fixo no bebê. Uma criança com um pouco mais de dez meses. Com as duas mãos na cabeça. Esfregando o couro cabeludo. Num pavor mudo. Olhos esbugalhados. Boca desdentada, um fio de baba metalizado pela luz solar. As bochechas suadas. E as mãos. Nervosas por toda a cabeça, arrancando os pensamentos com as unhas.)
(Aquele carrinho atravessando o Largo da Carioca, carregando um bebê apavorado.)
(Gusmão ficou com aquela imagem na cabeça pelo resto do dia)
Fim.
O povo é sempre o outro
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Jeitinho Brasil
MORTE- O povo lá fora aguarda ansioso. Estão todos lá em baixo. As caras brilhando, olhos vidrados. Esperam por você. Fizeram vigília. Desde a outra madrugada, até o outro quarteirão, amontoados. Hão de passar semanas na tua porta. Não é pra vaga na escola, lugar pra lixeiro. É o cheiro do sangue de dentro de ti que retrocedeu no tempo. Eles sabem que o vermelho quente da tua vida vai fluir e é logo e esperam! As bocas escancaradas, línguas enormes pra fora. Sedentos de qualquer gota que seja.
CAMILO- Nooooooooooooooooossa!!! Cuidado, heim! Desse jeito é capaz dela até ficar famosa!
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Tempestade de arroz
fim
Antropovogia
Mulher – Eu sabia que isso ia acabar acontecendo.
Homem – Sabia como?
Mulher – Ela era feliz demais.
Senhora – Alegre demais.
Mulher – Tudo dava certo demais.
Senhora – Sempre deu.
Mulher – Nasceu virada pra lua.
Senhora – Isso que dá.
Homem – Dá o quê?
Senhora – Ser feliz demais. Ter tudo.
Mulher – Felicidade demais a gente desconfia.
Senhora – Um dia a casa cai.
Mulher – A conta chega.
Homem – Ela é que cai. Olha lá!
Senhora – Meu Deus, vai cair!
Homem – Viu?
Mulher – Escorregou! Também, de salto alto, nessa altura.
Senhora – Pra quê um salto desse tamanho, nessa altura, misericórdia!
Homem – Acho que agora ela se atira. Tá na beirinha.
Senhora – Podem falar o que quiser, mas que ela tá bonita, isso tá. Parece que vai pra uma festa.
Homem – Não deixa de ser uma ocasião especial.
Mulher – Sempre foi vaidosa, deve ter se produzido toda. Ido ao cabeleireiro.
Senhora – Não adianta nada, quando bater no chão vai estragar tudo: Maquiagem, cabelo,
vestido longo.
Homem – Dizem que os olhos saltam pra fora por causa do impacto.
Senhora – Será que ela sabe que os olhos saltam pra fora? Tão vaidosa.
Mulher – Gostei do modelo do vestido.
Homem – Como ela conseguiu chegar tão alto?
Senhora – Tem gente que é assim. Tem sorte na vida, faz sucesso, chega lá.
Homem – Não, eu digo lá no alto. (aponta para o Teatro)
Mulher – Lá em cima?
Senhora – Ela já cantou no Municipal?
Mulher – Não, nunca. Até porque não é o estilo de música dela.
Homem – De qualquer forma é a realização de um sonho, não acha?
Mulher – Claro, toda a cantora sonha em chegar ao Municipal.
Senhora – Ah, isso ela conseguiu. Tá lá no topo, ou melhor, no teto. Será que ela se joga mesmo?
Homem – Já reparou que ela está se apoiando na máscara da tragédia?
Mulher – É verdade. Não tinha reparado.
Senhora – Também, só faltava ela estar se segurando na comédia. Não combina.
Mulher – Vestida desse jeito podia ter escolhido um dia de espetáculo. Uma noite de gala. Essa iluminação nova ia valorizar o vestido.
Senhora – É, vestida desse jeito, ao meio dia, no Teatro Municipal, não combina.
Homem – Combina sim. Ao meio dia tem mais gente no Centro da Cidade. Chama mais atenção. Vai dar tempo de sair na edição de amanhã de todos os jornais.
Mulher – Não tinha pensado nisso. Será que ela pensou?
Homem – Mas essas coisas a gente não pensa. Ou pensa?
Senhora – Dizem que o marido a traiu com aquela ex-modelo.
Mulher – Traiu sim. Traiu que eu vi!
Senhora – Você viu os dois? Onde?
Mulher – Eu vi a foto dos dois na revista. Eles na praia, se beijando. Foi um golpe!
Senhora – Golpe de quem?
Mulher – Golpe pra ela! Golpe duro!
Homem – Linda!
Mulher – A modelo?
Homem – Não, ela! A ex-modelo também é bonitona, mas muito magra. Pele e osso.
Senhora – Dizem que ela não canta mais como antes.
Homem – Não alcança mais os agudos como antes.
Senhora – Bebida. Bebida acaba com a voz.
Mulher – O que ela está fazendo?
Homem – Pegou qualquer coisa.
Senhora – O que é aquilo?
Homem – Uma rosa!
Senhora – Vai jogar!
Mulher – Ah, eu quero! (a mulher tenta pegar a rosa que cai lá do alto, a multidão corre em polvorosa) Ai! Ai! Não me empurra!!! Meu pé! Droga! É minha! É minha! Era
minha… Vai valer uma nota essa rosa amanhã. (pausa)
Senhora – Não pára de chegar gente. Tá tão abafado aqui.
Homem – Muita imprensa, já viu a quantidade de jornalistas?
Senhora – Ela ainda tem prestígio.
Mulher – Os bombeiros já subiram há tanto tempo, já deviam ter tirado ela de lá.
Homem – Não é tão simples assim.
Mulher – Viu? Você viu o que ela fez? Beijou outra rosa! Vai jogar! Essa é minha! Tem que ser minha! (a mulher tenta pegar a rosa, mas é atropelada pela multidão novamente) Ai! Ai! Não empurra! Não empurra! Droga! Gente histérica. Bem feito, bem feito, povo sem educação! Bem feito, ninguém ficou com a rosa. Despedaçou toda. Seus ignorantes! (pausa. A multidão começa a aplaudir, olhando para o alto. Os três também batem palmas).
Homem – Agora ela vai perceber como ela é amada!
Senhora – Aposto que isso é coisa do fã clube. Fã clube adora bater palma. Adora aplaudir em
cena aberta.
Mulher – Será que ela avisou ao fã clube que ia se jogar?
Homem – Ela merece todos os aplausos. O povo gosta dela.
Senhora – O problema é que ela não gosta dela.
Mulher – Mas ela aparecia sempre tão bem nas fotos. Sempre bonita. De bem com a vida. Sorrindo. Tem um sorrido lindo. Uns dentes…
Senhora – Aposto que não são verdadeiros, os dentes.
Mulher – Encapados. Todos os artistas têm dente encapado.
Senhora – Assim, até eu fico com um sorriso bonito.
Homem – A gente nunca sabe o que está por trás de um sorriso.
Mulher – Depressão. Ela sofre de depressão.
Senhora – E insônia. Ouvi ela dizer numa entrevista.
Mulher – É por causa do problema do filho.
Homem – Que problema?
Mulher – Drogado! Não sabia? Já foi preso e tudo, subindo o morro.
Senhora – Adolescência é uma fase difícil!
Mulher – O que ela tá fazendo agora?
Homem – Tá tirando o sapato alto.
Senhora – Ih, então agora vai.
Mulher – Será? Tomara que ela não demore. Minha hora de almoço tá quase terminando.
Senhora – Ela ficava melhor de salto alto, não acha? Alonga a silhueta.
Mulher – Eu achava que ela era mais alta.
Senhora – É porque ela ta um pouquinho acima do peso.
Homem – O Municipal nunca mais será o mesmo. Vai ser lembrado como palco de uma tragédia. Pior que Tristão e Isolda, Othelo…
Mulher – Vai ser lembrado como palco de uma tragédia real. Fico até arrepiada!
Senhora – E esses bombeiros? Não vão fazer nada? Vão deixar a mulher se jogar lá de cima?
Mulher – Eu acho que é tudo cena. Não se joga. Tá demorando muito. Droga, minha hora de almoço tá quase terminando.
Homem – Sabe que daqui dá uma foto linda?
Mulher – É verdade, os paetês do vestido nesse sol dão um efeito. Teu celular tem câmera?
Homem – Tem.
Mulher – Tira uma foto?
Homem – Vale uma foto mesmo, momento histórico.
Senhora – Tira uma foto de nós duas pra gente guardar de recordação. (homem pega o celular e faz o enquadramento. Senhora e mulher se abraçam, posando para a fotografia).
Mulher – Dá um zoom pra pegar a expressão.
Senhora – Tá pegando ela de corpo inteiro? Quero copiar o modelo do vestido.
Homem – Vou tirar mais de uma pra garantir. Chega só um pouquinho mais pra direita, Leonor. Aí tá bom. Ô gente, dá um sorriso! Tão parecendo que tão num velório… (elas sorriem. No exato momento em que o homem está tirando a foto, a multidão entra em polvorosa novamente. Um clarão se abre, escuta-se um barulho. Gritos, correria, sirenes. Jaz um corpo no chão).
Fim.

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