Cleyde quer ser Helena

Mulher no ônibus indo pra casa.

Cleyde: Ainda bem que tá o maior trânsito hoje. Meu marido, a uma hora dessas, já deve tá bêbado. a Jéssica e o Cleyton devem tá morrendo de fome. Que saco. Não qurero chegar em casa hoje. Se bem que daqui a pouco vai começar a novela. Essa novela eu tô gostando. A Helena é tão bonita. Comprei um shampoo pro meu cabelo ficar que nem o dela. Será que o Denilson vai reparar? Também, problema dele. A Fatinha vai. A Fatinha faz tudo o que eu faço. Aposto até que já comprou o tal shampoo, porque eu já falei pra ela que ia comprar. Tem bem uma promoção na farmácia ali perto de casa. Mas tudo bem, o cabelo da Fatinha não tem jeito mesmo. Mas o meu…. Ah! Vou ficar que nem a Helena. Será que eles vão reparar? Um dia vou bem lá pra Búzios. Nem é tão longe. É só pegar o Manilha-Tanguá, de lá pega a van pra Saquarema e de Saquarema tem um lá que vai direto. Se eu pedir uma folga na sexta dá pra ficar lá três dias na casa da Deuza, ela mora lá há 25 anos e sempre me convidou. Agora que tá na novela, aposto que vai dizer: “Hm… você quer vir aqui só por causa da Helenea.” E é mesmo. Ai, o Shopping São Gonçalo é tão lindo, tão grande. Já prometi pra Jéssica e o Cleyton que vou bem levar eles aí nas férias. Final de semana não dá, tem que preparar a barraca da feira e aquele traste não faz nada, ô carma. Quero ver, se um dia ele acordar e eu não tiver mais lá, o que ele vai fazer. Aquele ali não presta sem mim não. Mas tô cansada. A Fatinha vai me deixar ficar na casa dela que eu já quebrei um monte de galho pra ela. E se não deixar, vai ver só comigo, que eu sei que ela pula muito bem a cerca com o motorista da patroa, mas deixa quieto. Ainda bem que tá trânsito. Não adianta estressar não, gente. Fazer o quê? Parece até que não sabem? Todo dia é isso e todo dia tem gente que reclama. Eu vou ficar é bem aqui me imaginando em Búzios. A Deuza é que feliz. Mora lá. Faz comida pra um restaurante. Se deu bem na vida… Tem a Helena e aquele homem… Ai, se aquele homem aparecesse na minha vida, eu não ia nem pensar duas vezes, largava o Denilson na hora, que traste. Ô traste. Não faz é nada. Presta nem pra lavar a louça e ainda reclama. Ô traste. Tomara que fique aqui parado mesmo. Amanhã é tudo igual. Pra quê? Pra quê? Se o Denilson tiver bêbado, eu juro que pego meus filhos e me mando pra casa da Fatinha. Ah, eu pego. Que traste. Ô carma. Ih, já ta chegando no meu ponto. Tô bem com vontade de não saltar hoje. Hm… Será que eu salto? Hm… nem vou puxar a corda… Hm… Eu devia ir pra Búzios daqui direto. Depois eu mando a Fatinha pegar os meninos e levar lá. Hm… Será? Hm…Eu queria ser a helena. Ela não anda de ônibus, nem tem um traste esperando ela chegar em casa. Hm… A Deuza mora lá… Acho que essa ônibus vai até Itaboraí. De lá tem um que para em Tanguá… Hm…. O traste vai ficar louco. Vai quebrar tudo. Os meninos vão chorar. Mas a Fatinha me ajuda…. Hm… Nossa, hoje o céu ta todo estrelado… Ih, já não saltei!

O bebê apavorado

Largo da Carioca, uma da tarde, Celso e Gusmão fumando o cigarro digestivo.

Celso: (tom grave) Gusmão, quero te falar uma coisa séria.

Gusmão: (sorri) Hoje é sexta feira, rapaz. Não topo seriedade.

Celso: Ouve. É grave.

Gusmão: Espera segunda.

Celso: Escuta, rapaz.

(Gusmão percebe a gravidade do problema)

Gusmão: Ok. Fala.

Celso: (tragada violenta. Voz baixa) Seu nome.

Gusmão: O que tem?

Celso: Está na boca do povo.

Gusmão: (numa careta, sem entender)

Celso: Sou seu amigo, no seu lugar gostaria que fizesse o mesmo por mim.

Gusmão: Do que está falando?

Celso: Um alerta.

Gusmão: Qual é, Celso? Fala de uma vez.

Celso: Tão dizendo aí… Bom…

Gusmão: O que foi? Fala Celso!

Celso: Tão dizendo aí que você vai rodar.

Gusmão: (impactado)

(tempo)

Celso: Gusmão?

Gusmão: Quem tá dizendo isso?

Celso: O povo todo.

(tempo)

Gusmão: Por que?

Celso: Crise. Parece que vai rolar corte e você… Bom.

(tempo)

Gusmão: Dei motivos?

Celso: Não!!! Não… É a crise. Pelo menos é o que estão dizendo.

(tempo)

Gusmão: E por que eu?

Celso: Ah… Tinha que ser alguém.

Gusmão: Mas logo eu? Nunca tive uma reclamação! Umasinha!

Celso: É a crise…

Gusmão: (revoltado) O Paulo. Por que não foi o bosta do Paulo? O Paulo não quer nada com a hora do Brasil. Todo mundo sabe disso! Estou mentindo?

Celso: nada. O Paulo é maior 171.

Gusmão: Ou aquele menino… Qual o nome dele?

Celso: Jean?

Gusmão: O magrelo!

Celso: Jean, pô…

Gusmão: Então, o Jean… Solteiro, não tem filho… É novo. Não vai ter problema de arrumar um trabalho agora…

Celso: É verdade…

Gusmão: E a Dilma! Aquela vaca interesseira… Por que não mandam a Dilma embora? Aquele rabão dela não serve pra nada… O Gustavo também, aquele merda, zero à esquerda. Vive chegando atrasado, indo embora cedo…

Celso: Isso é verdade…

Gusmão: Até você mesmo Celso.

Celso: Que isso, Gusmão…

Gusmão: Desculpa a sinceridade, Celso, mas você é um pilantra.

Celso: Qual é, Gusmão…

Gusmão: Vai me dizer que não? Você é bom pra tomar cerveja, mas pra trabalhar… Vamos combinar que não dá.

Celso: Eu aqui te dando um toque e você me esculhambando!

Gusmão: Toque é um cacete! Esses escroques estão botando na bunda errada e você quer que eu fique na boa?

Celso: Sou o único a tomar partido seu, Gusmão! O povo fica falando que você é um otário e eu tomo as suas dores!

Gusmão: (numa melancolia abrupta) Eu sou melhor que você, sabe disso! Não tem sentido… Não tem…

Celso: (orgulho ferido, palminha no ombro) É, meu querido. Mas é você que vai colocar o bloco na rua e tratar de procurar outra coisa. Vou voltar pro escritório.

(Celso sai)

(Gusmão sozinho em silêncio)

(Gusmão atravessa lento o Largo da Carioca)

(Um indo e vindo infinito de gente)

(Gusmão vai olhando pra cada um. A bunda flácida das outras, a cara feia dos demais, a cor indefinida de todos…)

(No meio de tudo, Gusmão avista uma mulher empurrando um carrinho de bebê. A mulher está distraída conversando com a amiga ao lado.)

(Gusmão está fixo no bebê. Uma criança com um pouco mais de dez meses. Com as duas mãos na cabeça. Esfregando o couro cabeludo. Num pavor mudo. Olhos esbugalhados. Boca desdentada, um fio de baba metalizado pela luz solar. As bochechas suadas. E as mãos. Nervosas por toda a cabeça, arrancando os pensamentos com as unhas.)

(Aquele carrinho atravessando o Largo da Carioca, carregando um bebê apavorado.)

(Gusmão ficou com aquela imagem na cabeça pelo resto do dia)

Fim.

O povo é sempre o outro

Homem – A cada 40 anos, nós esquecemos o que nos aconteceu nos últimos…
Mulher – 40 anos, separada e com três filhos.
Homem – O brasileiro sofre de uma doença grave, a falta de memória.
Mulher – O que eu almocei? Deixa eu lembrar…
Homem – Eu lembro de tudo, eu lembro… eu votei naquele ex-comunista que virou empresário. É, eu lembro que ele era ex-comunista.
Mulher – E desde quando já se viu isso? Porque eu já vi católico não praticante, ex-viciado em drogas, até ex-viado eu já vi! Agora…
Homem – Na verdade, depois que ele ganhou ele disse que era comunista não-praticante. Igual católico não-praticante. Eu acho muito bom, porque o discurso é muito diferente da realidade, não dá pra ser radical.
Mulher – Comigo não tem essa, é 8 ou 80. Não vem com meio termo pra cima de mim… A gente combinou lá na igreja que todo mundo ia votar no bispo pra presidente e no pastor pra governador.Deputado é diferente, é liberado, vota em quem quiser.
Homem – Mas tem sempre o fura greve… Hoje em dia não existe mais esse espírito de coletividade, é cada um por si. Eu tava discutindo exatamente isso numa aula do curso de Filosofia, a única coisa capaz de unir o povo…
Mulher – É o amor. (cantarolando) “Que mexe com minha cabeça, me deixa assim… Faz lembrar de você, esquecer de mim…” O que salva a nossa falta de memória é amor.
Homem – A única coisa capaz de unir o povo… ah, unir o povo pra quê?
Mulher – Eles falam assim “O povo é patati patatá”, “O povo é pototó patati…” Só porque é rico acha que não é povo.
Homem – Admiração demais é inveja.
Mulher – Não, não… Não é inveja. Eu não quero derrubar ninguém, nem quero tirar o que fulaninho conquistou.
Homem – Porque é diferente. Cobiça é a pessoa querer que o outro tem.
Mulher – Inveja é a pessoa querer que o outro não tenha aquilo que ela tem. Que horror! Deus me perdoe… Agora, que lá tem cada mansão, mas cada mansão, isso tem.
Homem – Aumentar o salário eu não posso…
Mulher – A maior merda é receber de favor.
Homem – Mas eu dava almoço, uma sacola de roupa todo mês…
Mulher – Daí você ia lá em casa, sobe o morro pra você vê! Um monte de filho de empregada vestindo Cavalera… e não tem nem o que comer direito em casa! Assim é a nossa cidade… De um lado os que têm muito…
Homem – Do outro os que não tem nada.
Mulher – Eu ainda tenho fé.
Homem – Eu morro de medo de perder o que eu conquistei. Hoje em dia é muito mais fácil, qualquer um pode ficar rico. Basta trabalhar. Claro, claro que tem o…
Mulher – Ele fala assim “Fator sorte”.
Homem – Tem o fator sorte, que é você já ter nascido rico. Mas eu não posso ser crucificado por isso.
Mulher – E nascer pobre é o quê? “Fator azar”?
Homem – Eu convivo todo dia com o medo de perder.
Mulher – Desculpa, mas o que é um peido pra quem tá cagado?
Homem – A maior riqueza que eu tenho é saber que de uma hora pra outra tudo pode mudar… nossa crença tem que ser muito mais sólida, porque quando tudo acaba, o que é que fica?
Mulher – (rindo) Só Jesus! Você vê, quando a gente menos espera, pimba! O mundo dá voltas… Meu sonho era ser rainha. Rainha de Bateria da Mangueira. Eu nasci no morro, eu tenho sangue correndo na veia…
Homem – Eu tive que pagar, né? Minha ex-mulher cismou, botou na cabeça que queria sair na Escola, mas tinha que ser destaque ou Rainha de Bateria. E ela nem sabe sambar…
Mulher – Samba no pé nasce com a gente. Não tem como ensinar! Eu pelo menos, penso assim. Madame vai no morro e acha que sambar é uma transgressão. Quero ver é ralar o cu na ostra todo dia.
Homem – E morria de medo de altura, como é que ia ficar lá em cima? Daí eu fiz melhor. Fui lá no grupo de acesso e comprei o enredo deles. O enredo deles era a minha ex-mulher! (rindo) Acho que a Escola desceu naquele ano…
Mulher – Sobe, sobe, sobe… Quanta gente que eu já vi, de um dia pro outro, ficar rica, milionária.
Homem – Eu não dava valor às coisas…
Mulher – Ele era dono de posto, tinha tudo do bom e do melhor… Mas deu alguma merda, coitado.
Homem – Gasolina adulterada.
Mulher – Ele nunca pagou meus direitos, daí eu processei…
Homem – Me senti traído, apunhalado pelas costas.
Mulher – Eu morria de vontade de transar com um rico, que era pra ver se cama eu me vingava e fazia justiça social. Ele vivia fudendo comigo, na cama eu fudia com ele.
Homem – Foi uma fatalidade, mas não foi por acaso. />
Mulher – Uma única trepada com o meu patrão e engravidei! Claro que ele tentou fingir que não me conhecia… daí fizemos o teste de DNA e eu processei de novo! Já pensou, o pai renegar o próprio filho? Uma vida!
Homem – A mãe da minha ex-mulher viveu até os, sem brincadeira, até os noventa e poucos anos só comendo chocolate. Ela era de família suíça e nos últimos 5, 6 anos, ela não comia mais nada, só uma barrinha de chocolate por dia. Chocolate suíço. Ela tinha uma energia, tinha que ver…
Mulher – Eu contei isso pro meu pai, ele cismou que tinha que comer chocolate todo dia também… Todo santo dia ele comia chocolate batom. Não queria comer mais nada… “Come uma fruta, um monte de gente com vontade de tomar uma laranjada e não pode. Agradece a Deus”. Daí morreu por falta de energia.
Homem – O problema pra falta de memória é a falta de gratidão.
Mulher – É assim: nasceu no cu de Judas e hoje mora no Leblon. Estranho, esquece que já foi pobre um dia.
Homem – Não olho pra trás, porque eu não vou ficar lamentando… Se existe um negócio que impede o progresso é o saudosismo.
Mulher – Mas esquece de olhar pra trás e agradecer a Deus. É um engano, sabia? Achar que Deus tá no alto… Deus não olha ninguém de cima pra baixo, não.
Homem – Prepotente.
Mulher – Deus tá espiando a gente aqui atrás, justamente pra saber quem é que dá as costas pra ele. O céu é a morada do Diabo.
Homem – Quanto maior a altura, maior a queda.
Mulher – Sabe qual o maior prazer de ficar rica? É rir jogando a cabeça pra trás. (rindo. E jogando a cabeça pra trás)
Homem – Sabe qual a pior coisa de ficar pobre?
Mulher – Hoje em dia eu gasto mesmo, gasto um salário mínimo só em shampoo.
Homem – Eu era muito fútil. Ficava cuidando da fachada, quando o lado de dentro tava todo podre.
Mulher – Eu era muito ingênua. Ficava cuidando do lado de dentro, quando meu quintal tava imundo. As pessoas olham de fora e pensam. “Se do lado de fora é assim…”
Homem – Fútil mesmo. Meses eu que eu gastei um salário mínimo só em shampoo. Acredita? Mas uma coisa é verdade… Dinheiro atrai dinheiro.
Mulher – Já reparou que só rico ganha no bingo?
Homem – Se eu só estiver cercado de pobre…
Mulher – O máximo que eu ganhei até hoje foi na raspadinha. E sabe qual foi o prêmio? Outra raspadinha! Não saí do lugar…
Homem – Tem que movimentar. Quanto mais dinheiro a gente gasta, mas dinheiro a gente ganha.
Mulher – Eles tinham que fazer uma lei pra proibir esse tipo de prêmio… Eu já fui pobre, do verbo “não sou mais”. Graças a Deus!
Homem – A única coisa capaz de unir a gente é o amor.
Mulher – Eu acho que tinha que ser assim. Pegar tudo e dividir igual, não ia ter briga. Eu não me importava…
Homem – Do que eu tava falando mesmo?
Mulher – Deixa pra lá, esquece.
FIM

Jeitinho Brasil

PAMELA- Apesar de muito nova, sempre fui muito esperta, e durante toda a minha infância e adolescência, atentei para o fato do desperdício de comida! Sempre, meus caros senhores, sempre restava em meu prato, vamos dizer que pelo menos uns vinte grãos de arroz e dez de feijão, por aí, além de outros pequenos restos que eu desperdiçava atirando-os ao lixo. Muito mais tarde vim a perceber que alguns mendigos remexiam lixões a procura de quê? Eu me perguntava, o que eles procuram nesse lugar fedido, meu Deus? E não é que eles procuravam aqueles grãozinhos que eu havia jogado fora! (Muito orgulhosa.) Então eu criei, com o auxilio financeiro da minha querida mãe, a campanha humanitária “doe seu grãozinho a quem precisa”, e é muito simples. Em vez de raspar o prato na lixeira, reserve esses grãozinhos extras num saquinho plástico destinado apenas para esse fim e mande pra gente! Eu dou minha palavra que esses grãozinhos restantes chegarão a quem precisa sem que essas pobres almas tenham que separar a sua comidinha do lixo comum, restos de plástico, papel, processo este que gasta um tempo precioso e que acaba, por nossos lixões não terem a refrigeração apropriada, estragando o alimento. Doe seu grãozinho para quem precisa! Afinal, é de grão em grão que a gente muda o Brasil! (Para o empregado que está gravando.) Pronto. Pode parar de gravar… Como é bom fazer o bem! Me deixa com o coração mais leve!.. Tá gravando ainda! Para de gravar! Eu tô vendo a luzinha vermelha daqui! Se quebrar eu vou ser obrigada a descontar do teu salário. heim! Desliga essa porra! Desliga!!! Merda! Agora vou ter que editar!!!

MORTE- O povo lá fora aguarda ansioso. Estão todos lá em baixo. As caras brilhando, olhos vidrados. Esperam por você. Fizeram vigília. Desde a outra madrugada, até o outro quarteirão, amontoados. Hão de passar semanas na tua porta. Não é pra vaga na escola, lugar pra lixeiro. É o cheiro do sangue de dentro de ti que retrocedeu no tempo. Eles sabem que o vermelho quente da tua vida vai fluir e é logo e esperam! As bocas escancaradas, línguas enormes pra fora. Sedentos de qualquer gota que seja.

CAMILO- Nooooooooooooooooossa!!! Cuidado, heim! Desse jeito é capaz dela até ficar famosa!

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Tempestade de arroz

JANE: (entredentes) Como para você parece fácil recusar tudo sempre. (tensa) Isso é hora de refletir? (debochada) Vai me dizer que você só consegue pensar melhor com uma grinalda na cabeça? (respira. Serena) Eu preciso ensinar umas coisas para você. (com uma afetação crescente) Eu devia ter rasgado o verbo antes. Mas, agora eu vou cuspir tudo. Porque eu sinto que se eu não falar agora eu vou sufocar. Minhas têmporas estão palpitando e minha glote quer me estrangular… Lá vai: (séria) A vida não é um bombom de cereja ao licor, meu amor. (nervosa) Se você quer viver um carrossel de emoções vá andar de montanha russa! (pausa) Estava tudo pronto para você: (com um gradativo tom de encanto) um sol festivo, um cortejo cívico, uma grande festa, um espetáculo celebrando a honra e o amor; seu casamento seria o acontecimento, (eufórica sem perder o encanto) uma competição de vestidos e cabelos embebidos em laquê, o festival do glamour, “the talk of the town”. (pausa) E você, uma peça pequena e perdida no joguete do destino, recusa tudo sempre. (com desprezo) Embala o presente da felicidade no saco de lixo. (pausa. Terna) Eu guardei um punhado de arroz para jogar em você na sua saída da igreja. (Num estalo de nervosismo) Mas, você criou esse vendaval enlouquecido, esse furacão desenfreado. (sábia) Quem semeia vento colhe tempestade! (pausa. Alterada) Que vergonha! Eu percebo nos cochichos, nos olhares de esguelha o povo comentando… E a voz do povo é a voz de Deus. E Deus é mais! (pausa. Maternal) Agora pare de chorar. Não adianta chorar o leite derramado. (Sôfrega) Ligue para ele e peça desculpas. Ele abandonou a família e até o passado para ficar com você. Com homem não se brinca! (Amorosa) Pare de chorar. Venha cá me dê um abraço… sua filha caçula pode ter uma amiga abrutalhada inseparável, seu filho é um procriador irresponsável, sua filha mais velha uma tola iludida, seu ex-marido um bêbado violento e você… você é grossa e usa modelitos com uma atmosfera vulgar, mas apesar desses detalhes e acima de tudo, você é minha irmã. Me dê um abraço, Lena! (As irmãs se abraçam longamente. Se separam sorrindo. Jane joga para cima o arroz no espaço entre elas)

fim

Antropovogia

Cena – Multidão se aglomera em frente ao Teatro Municipal, estão todos olhando para o alto. Ouvimos um pequeno grupo fazendo comentários: Mulher de uns trinta anos, homem de terno e gravata, 50 anos, e uma senhora de sessenta e poucos anos.

Mulher – Eu sabia que isso ia acabar acontecendo.
Homem – Sabia como?
Mulher – Ela era feliz demais.
Senhora – Alegre demais.
Mulher – Tudo dava certo demais.
Senhora – Sempre deu.
Mulher – Nasceu virada pra lua.
Senhora – Isso que dá.
Homem – Dá o quê?
Senhora – Ser feliz demais. Ter tudo.
Mulher – Felicidade demais a gente desconfia.
Senhora – Um dia a casa cai.
Mulher – A conta chega.
Homem – Ela é que cai. Olha lá!
Senhora – Meu Deus, vai cair!
Homem – Viu?
Mulher – Escorregou! Também, de salto alto, nessa altura.
Senhora – Pra quê um salto desse tamanho, nessa altura, misericórdia!
Homem – Acho que agora ela se atira. Tá na beirinha.
Senhora – Podem falar o que quiser, mas que ela tá bonita, isso tá. Parece que vai pra uma festa.
Homem – Não deixa de ser uma ocasião especial.
Mulher – Sempre foi vaidosa, deve ter se produzido toda. Ido ao cabeleireiro.
Senhora – Não adianta nada, quando bater no chão vai estragar tudo: Maquiagem, cabelo,
vestido longo.
Homem – Dizem que os olhos saltam pra fora por causa do impacto.
Senhora – Será que ela sabe que os olhos saltam pra fora? Tão vaidosa.
Mulher – Gostei do modelo do vestido.
Homem – Como ela conseguiu chegar tão alto?
Senhora – Tem gente que é assim. Tem sorte na vida, faz sucesso, chega lá.
Homem – Não, eu digo lá no alto. (aponta para o Teatro)
Mulher – Lá em cima?
Senhora – Ela já cantou no Municipal?
Mulher – Não, nunca. Até porque não é o estilo de música dela.
Homem – De qualquer forma é a realização de um sonho, não acha?
Mulher – Claro, toda a cantora sonha em chegar ao Municipal.
Senhora – Ah, isso ela conseguiu. Tá lá no topo, ou melhor, no teto. Será que ela se joga mesmo?
Homem – Já reparou que ela está se apoiando na máscara da tragédia?
Mulher – É verdade. Não tinha reparado.
Senhora – Também, só faltava ela estar se segurando na comédia. Não combina.
Mulher – Vestida desse jeito podia ter escolhido um dia de espetáculo. Uma noite de gala. Essa iluminação nova ia valorizar o vestido.
Senhora – É, vestida desse jeito, ao meio dia, no Teatro Municipal, não combina.
Homem – Combina sim. Ao meio dia tem mais gente no Centro da Cidade. Chama mais atenção. Vai dar tempo de sair na edição de amanhã de todos os jornais.
Mulher – Não tinha pensado nisso. Será que ela pensou?
Homem – Mas essas coisas a gente não pensa. Ou pensa?
Senhora – Dizem que o marido a traiu com aquela ex-modelo.
Mulher – Traiu sim. Traiu que eu vi!
Senhora – Você viu os dois? Onde?
Mulher – Eu vi a foto dos dois na revista. Eles na praia, se beijando. Foi um golpe!
Senhora – Golpe de quem?
Mulher – Golpe pra ela! Golpe duro!
Homem – Linda!
Mulher – A modelo?
Homem – Não, ela! A ex-modelo também é bonitona, mas muito magra. Pele e osso.
Senhora – Dizem que ela não canta mais como antes.
Homem – Não alcança mais os agudos como antes.
Senhora – Bebida. Bebida acaba com a voz.
Mulher – O que ela está fazendo?
Homem – Pegou qualquer coisa.
Senhora – O que é aquilo?
Homem – Uma rosa!
Senhora – Vai jogar!
Mulher – Ah, eu quero! (a mulher tenta pegar a rosa que cai lá do alto, a multidão corre em polvorosa) Ai! Ai! Não me empurra!!! Meu pé! Droga! É minha! É minha! Era
minha… Vai valer uma nota essa rosa amanhã. (pausa)
Senhora – Não pára de chegar gente. Tá tão abafado aqui.
Homem – Muita imprensa, já viu a quantidade de jornalistas?
Senhora – Ela ainda tem prestígio.
Mulher – Os bombeiros já subiram há tanto tempo, já deviam ter tirado ela de lá.
Homem – Não é tão simples assim.
Mulher – Viu? Você viu o que ela fez? Beijou outra rosa! Vai jogar! Essa é minha! Tem que ser minha! (a mulher tenta pegar a rosa, mas é atropelada pela multidão novamente) Ai! Ai! Não empurra! Não empurra! Droga! Gente histérica. Bem feito, bem feito, povo sem educação! Bem feito, ninguém ficou com a rosa. Despedaçou toda. Seus ignorantes! (pausa. A multidão começa a aplaudir, olhando para o alto. Os três também batem palmas).
Homem – Agora ela vai perceber como ela é amada!
Senhora – Aposto que isso é coisa do fã clube. Fã clube adora bater palma. Adora aplaudir em
cena aberta.
Mulher – Será que ela avisou ao fã clube que ia se jogar?
Homem – Ela merece todos os aplausos. O povo gosta dela.
Senhora – O problema é que ela não gosta dela.
Mulher – Mas ela aparecia sempre tão bem nas fotos. Sempre bonita. De bem com a vida. Sorrindo. Tem um sorrido lindo. Uns dentes…
Senhora – Aposto que não são verdadeiros, os dentes.
Mulher – Encapados. Todos os artistas têm dente encapado.
Senhora – Assim, até eu fico com um sorriso bonito.
Homem – A gente nunca sabe o que está por trás de um sorriso.
Mulher – Depressão. Ela sofre de depressão.
Senhora – E insônia. Ouvi ela dizer numa entrevista.
Mulher – É por causa do problema do filho.
Homem – Que problema?
Mulher – Drogado! Não sabia? Já foi preso e tudo, subindo o morro.
Senhora – Adolescência é uma fase difícil!
Mulher – O que ela tá fazendo agora?
Homem – Tá tirando o sapato alto.
Senhora – Ih, então agora vai.
Mulher – Será? Tomara que ela não demore. Minha hora de almoço tá quase terminando.
Senhora – Ela ficava melhor de salto alto, não acha? Alonga a silhueta.
Mulher – Eu achava que ela era mais alta.
Senhora – É porque ela ta um pouquinho acima do peso.
Homem – O Municipal nunca mais será o mesmo. Vai ser lembrado como palco de uma tragédia. Pior que Tristão e Isolda, Othelo…
Mulher – Vai ser lembrado como palco de uma tragédia real. Fico até arrepiada!
Senhora – E esses bombeiros? Não vão fazer nada? Vão deixar a mulher se jogar lá de cima?
Mulher – Eu acho que é tudo cena. Não se joga. Tá demorando muito. Droga, minha hora de almoço tá quase terminando.
Homem – Sabe que daqui dá uma foto linda?
Mulher – É verdade, os paetês do vestido nesse sol dão um efeito. Teu celular tem câmera?
Homem – Tem.
Mulher – Tira uma foto?
Homem – Vale uma foto mesmo, momento histórico.
Senhora – Tira uma foto de nós duas pra gente guardar de recordação. (homem pega o celular e faz o enquadramento. Senhora e mulher se abraçam, posando para a fotografia).
Mulher – Dá um zoom pra pegar a expressão.
Senhora – Tá pegando ela de corpo inteiro? Quero copiar o modelo do vestido.
Homem – Vou tirar mais de uma pra garantir. Chega só um pouquinho mais pra direita, Leonor. Aí tá bom. Ô gente, dá um sorriso! Tão parecendo que tão num velório… (elas sorriem. No exato momento em que o homem está tirando a foto, a multidão entra em polvorosa novamente. Um clarão se abre, escuta-se um barulho. Gritos, correria, sirenes. Jaz um corpo no chão).

Fim.