Desventuras de Verônica – parte 5 – PRESIDENTA
Desventuras de Verônica – parte 5 – PRESIDENTA JOANA está deitada, desacordada, num leito de hospital. VERÔNICA com seu uniforme de enfermeira rasgado e sujo de sangue por conta da batalha no capítulo anterior. A verdadeira ENFERMEIRA veste um uniforme impecável, talvez com o corte mais moderno, de mulher resoluta que é, e que detesta o peso de sensualidade que repousa absorto em sua profissão. VERÔNICA- Aleijada? Você disse? ENFERMEIRA- Não havia nada que se pudesse fazer. Sua amiga estava presa nos escombros. As pernas dela já eram. VERÔNICA- As duas? As duas pernas? ENFERMEIRA- (IMPACIENTE) Não, minha filha. As três pernas! Quantas pernas sua amiga tinha, por acaso? VERÔNICA- Duas… ENFERMEIRA- Então. Assina aqui, faz favor. VERÔNICA- Como é que eu vou contar isso pra ela? JOANA- Isso o quê, Verônica? VERÔNICA percebe que JOANA está acordada. VERÔNICA- Amorzinho. Você despertou, já? JOANINHA- O que você não vai contar pra mim? VERÔNICA- Nada! Não vou te contar nada! ENFERMEIRA- Você está se sentindo bem, querida? JOANINHA- Um pouco tonta. PRESIDENTA entra no quarto, acompanhada de sua ASSESSORA. PRESIDENTA- É aqui o quarto da nossa pequena heroína? JOANINHA- (ENCANTADA) Excelência! VERÔNICA- Gente! Mas não é nossa presidenta? ASSESSORA- É ela mesma. ENFERMEIRA- Que honra! PRESIDENTA- Vim dar meus parabéns e garantir a você, agente Joana, que o Governo Federal fará de tudo pra conseguir uma cadeira de rodas para você! Sem custo nenhum! Pode deixar tudo por conta do Governo! JOANINHA- (ATORDOADA) Sem custo nenhum…? VERÔNICA- É isso mesmo, Joana. Você não pode mais andar depois do acidente de carro que sofremos. PRESIDENTA- Que bonitinha, emocionou-se. Fica tranqüila, viu? A cadeira chega logo! ASSESSORA- Três meses no máximo depois que eu preencher a papelada. JOANINHA- Eu volto a andar, Verônica. Sei que volto, não precisa me olhar assim. VERÔNICA- Joana, você não entende… JOANINHA- Vou me esforçar dia a dia, faço fisioterapia, faço pilates, faço yoga… ENFERMEIRA- Suas pernas ficaram nas ferragens, moça. Eu sinto muito. ASSESSORA- (P/ PRESIDENTA) O coronel, Excelência. PRESIDENTA- PassENFERMEIRA-me aqui! (AO CEL) Coronel? (P) Como estamos? (P) Manda chumbo! Manda chumbo grosso nos bolivianos! O gás natural é nosso!!! PRESIDENTA bate o telefone. VERÔNICA- (SÓ P JOANA) Mas que louca! Ela vai armar uma guerra contra a Bolívia! JOANINHA- Verônica, diz que não é verdade! Sobre as minhas pernas… VERÔNICA- Infelizmente… PRESIDENTA- Acho que já fizemos o que tínhamos que fazer por aqui. Manda acionar o jatinho que eu quero cair fora! ASSESSORA- Seu filho no telefone. PRESIDENTA- Passa essa merda. (AO CEL) Amor? Amorzinho? Que história foi essa que me contaram de você usar o trabalho da mamãe pra fazer suas festinhas? (P) Não foi ela que contou não, deixa de ser injusto! Um passarinho! (P) Antônio Carlos, estou muito chateada com você! Muito chateada! VERÔNICA- Essa mulher é uma louca, Joana! Temos que arrumar um jeito de tirar ela do poder! JOANINHA- Como? Agora não consigo nem mais ir no banheiro sozinha! VERÔNICA- Você vai superar, meu pequeno anjo. Ou supera… ou morre de vez. PRESIDENTA- O salão Madrepérola é pras reuniões da mamãe, ouviu! E não para suas orgias! Mamãe ficou chateada… beijo… PRESIDENTA bate o telefone. ENFERMEIRA- A senhora me dá um autógrafo? ENFERMEIRA se aproxima. ASSESSORA dá um choque elétrico em ENFERMEIRA com aquelas máquinas portáteis. ENFREMEIRA cai no chão, sorumbática. ASSESSORA- Abusada! Ninguém encosta na presidenta. PRESIDENTA- Vamos zunir daqui. PRESIDENTA E ASSESSORA saem chispadas dali. VERÔNICA- Eu vou acabar com essa mulher! Pode escrever! JOANINHA- Mas, Verônica! A gente trabalha pra ela! VERÔNICA- Mas eu tiro essa cadela da presidência! Ou não me chamo Verônica. No olhar de ódio de VERÔNICA… CONTINUA…
Primeiro cavalheiro
Secretária – Senhora presidenta, aconteceu de novo.
Presidenta – Ele?
Secretária – Sim.
Presidenta – Qual a gravidade?
Secretária – Capa. Com foto.
Presidenta – “Extra”?
Secretária – “O Globo”.
Presidenta – Merda. O que foi? Fala logo.
Secretária – O seu…
Presidenta – Não. Nem me fala, manda entrar. Assim eu desconto tudo em cima dele.
Ele entra.
1º cavalheiro – Olá!
Presidenta – O que houve?
1º cavalheiro – É assim que você me recebe? Depois que foi eleita ficou assim.
Presidenta – Você é que perdeu o senso. Já falei que as suas ações me afetam diretamente. Você tem que se comportar de acordo com o seu papel.
1º cavalheiro – Mas eu me comporto.
Presidenta – Com certeza. Ir ao Maracanã e ficar xingando o juiz de tudo o quanto é nome, realmente é muito condizente…
1º cavalheiro – Mas o juiz estava mal intencionado! E era o Maraca, queria o quê?
Presidenta – Queria que você não fosse ao campo no final do jogo gritar e colocar o dedo na cara do bandeirinha, por exemplo.
1º cavalheiro – Mas o sangue subiu à cabeça…
Presidenta – Como daquela vez que fez “bunda lê lê” para os fotógrafos?
1º cavalheiro – Mas não foi sem motivo. Esses paparazzi não têm limites!
Presidenta – Era o correspondente do “New York Times”!
1º cavalheiro – Ah, mas eu achei que era um paparazzi… Mas nem deu repercussão, como você disse que ia dar. Eu consegui abafar o caso.
Presidenta – Claro. Na mesma noite, você se reuniu com empresários em uma churrascaria, sob o argumento de discutir fundos para a criação de uma instituição de caridade.
1º cavalheiro – E foi o que fizemos. Inclusive decidimos o nome e o slogan: “Piedade – o bairro é ruim, mas o sentimento é ótimo.”
Presidenta – Não foi o que pareceu pela foto, com você cantando sem blusa em cima da mesa, segurando uma coxinha de galinha como se fosse microfone…
1º cavalheiro – Pelo menos não tiraram a foto de eu mordendo o microfone.
Presidenta – Isso não tem graça! E o que você fez dessa vez?
1º cavalheiro – Nada demais…
Presidenta – Diz logo.
1º cavalheiro – Eu dei um soco no Chez Michou.
Presidenta – Quem?
1º cavalheiro – O marido da presidenta da França. A rapaziada chama ele de Chez Michou, porque ele se amarra em crepe.
Presidenta – Como??
1º cavalheiro – De todo jeito: salgado, doce, acho que até puro. O cara é mesmo viciado…
Presidenta – Não é isso! Como você soca o ‘primeiro cavalheiro’ da França?
1º cavalheiro – A culpa foi dele. Veio com um papo de que o Brasil sempre amarela para a França em Copa do Mundo. Depois começou a falar que o Platini jogava melhor que o Zico. Que o Zicão!!
Presidenta – Mas só por isso?
1º cavalheiro – SÓ?! Você deve estar brincando… mas teve mais! Eu acho que ele falou que a mulher dele era muito mais bonita que você.
Presidenta – Como assim, “acho”?
1º cavalheiro – É que o intérprete tinha saído e eu não entendo nada de francês… mas quando achei que ele falou de você, fiquei furioso! Ninguém pode falar nada da presidenta mais gostosa do mundo!
Presidenta – Até parece…
1º cavalheiro – Você sabe que é verdade! E quem discordar vai ter que se ver comigo…
Presidenta – Lindo…
1º cavalheiro – Linda!
Presidenta – Você ainda vai custar meu emprego…
1º cavalheiro – Não se preocupa com isso meu xuxu, to armando um esquema com um pessoal que você não vai ter com o que se preocupar nunca mais…
Presidenta – Meu amorzinho… sempre preocupado comi… O quê??
A candidata
(Uma sala toda branca, com uma mesa no centro, atrás da mesa uma grande janela, uma cadeira em frente a mesa e cadeiras ao lado da mesa. Um microfone numa ponta da sala e um aparelho se som. Nelson, um homem na faixa dos 40 anos está trabalhando na mesa. Após alguns instantes , entra BIA. Uma mulher na faixa dos 30anos,loira pintada, roupas decotadas e colada no corpo, sapato alto. Tipo as mulheres que tem um prazer muito grande em chamar a atenção.)
BIA- Com licença?
(NELSON olha para de cima a baixo.)
NELSON- Toda.
BIA- Eu vim para a entrevista.
NELSON- ah, sim. Entre.
BIA- (Entrando) Obrigada.
NELSON- Senta.
BIA(sentando) – Obrigada.
NELSON- Quer uma água?
BIA- Não, obrigada?
NELSON- Um café?
BIA- Não, obrigada?
NELSON- Um Gim?
BIA- Não, obrigada.
NELSON- gim não temos (ri)
(BIA fica sem graça. Silêncio).
NELSON- com todo respeito. Você é muito bonita.
BIA- obrigada, eu me esforço.
NELSON- está preparada?
BIA (insinuadora)- Eu estou sempre preparada.
NELSON- Ótimo. Vamos começar.
(nesse momento entra CECILIA, uma mulher com roupas antiquadas, cabelo preso, óculos. Nada atraente, o oposto de BIA)
CECILIA (meio tímida)- Com licença?
NELSON- Pois não?
CECILIA- Aqui é…
NELSON- Sim está, atrasada.
CECILIA- Desculpe, eu espero lá fora…
NELSON- Entre.
CECILIA(entrado)- Com licença.
NELSON- espere aqui nessa cadeira.
CECILIA(sentando) – Licença.
(BIA olha ara CECILIA de cima a baixo. CECILIA senta no canto da sala, tira um bloco de notas e uma caneta da bolsa. NELSON volta a entrevistar BIA.)
NELSON- Vamos continuar. Você sabe bem o que o quer?
(CECILIA começa a anotar no seu bloco)
BIA- Sim!
NELSON- Tem referências?
BIA- As melhores.
NELSON- Gosta de falar?
BIA- Amo.
NELSON- Se comunica bem?
Bia- Muito.
NELSON- Tem prazer nisso?
BIA- Demais.
NELSON- Já comeu café mofado?
BIA- Oi?
NELSON- Já comeu café mofado?
Bia_ Ainda não tive oportunidade.
NELSON- É uma pessoa paciente?
BIA_ dizem que sou uma flor de pessoa.
NELSON- Não tem medo de levar desaforos?
BIA_ Eu sou muito boa com laranjas.
(Silêncio. NELSON e se CECILIA se olham.)
NELSON- Qual foi última vez que falou no telefone?
BIA- agora mesmo no elevador.
NELSON- E a ligação não caiu?
BIA- Não, eu desliguei antes disso.
NELSON- E conseguiu o que queria?
BIA- eu costumo conseguir o que eu quero.
NELSON- você quer esse emprego?
BIA_ é o que eu mais quero.
NELSON- Por quê?
BIA- Por que o quê?
NELSON- por que você mais quer esse emprego?
BIA_ ah! sabe como é, né? No final do mês eu poderei fazer supermercado.
NELSON- esse é o único motivo?
BIA- não! Claro que não. Sinto que aqui estarei em conexão com as minhas meditações.
NELSON- você medita?
BIA- de vez em quando.
NELSON- Já teve um satori?
BIA- vários.
NELSON- e foi bom?
BIA- magnífico.
NELSON- é casada?
BIA_ Não.
NELSON- Tem namorado?
BIA- Tenho.
NELSON- Quantos?
BIA_ Oi?
NELSON- quantos?
BIA- no momento um.
NELSON- pretende ter mais?
BIA- Essa é uma questão que depende.
NELSON- gosta de seduzir?
BIA- As vezes, sem querer.
NELSON- É virgem?
BIA- oi?
NELSON- você ainda é virgem.
BIA- Pra algumas coisas eu sou sim.
NELSON- tipo o quê?
BIA- eu nunca precisei fazer uma operação.
NELSON- que mais?
BIA- Nunca fui assaltada.
NELSON – você nunca foi assaltada?
BIA- tudo bem. Teve uma vez que me pediram as horas. Ma eu não dei.
NELSON- Por que não deu?
BIA- percebi que ele não estava armado.
NELSON- Anda tendo pesadelos?
(Silêncio)
NELSON – não vai responder?
BIA- desculpa, essa pergunta mexeu comigo.
(CECILIA lê um frase de BIA)
CECILIA- “Ainda não tive oportunidade” (leve risada)
(NELSON e BIA olham para CECILIA. pequeno silêncio. NELSON olha para BIA querendo uma resposta.)
BIA- Bom, é que ultimamente, eu ando tendo algum tipo de pesadelo.
NELSON- que tipo?
BIA- sonho que estou sedo esmagada por um cortador de cebolas. Eu ainda não consegui entender essa associação.
NELSON- sei…
BIA- o senhor sabe?
NELSON- Qual foi a última vez que transou?
(Constrangimento)
BIA- essa pergunta…
Nelson- você quer mesmo esse emprego?
BIA- muito.
Nelson- então responda por favor.
BIA- é que…
NELSON- bom, se quiser responder…
BIA- Mês passado.
NELSON- sei… e foi bom?
(constrangimento).
NELSON- Ouviu o que eu falei?
BIA- Sim.
NELSON- Muito bom?
BIA- não. eu não quis dizer que sim, eu ouvi o que o senhor falou.
NELSON- então? não foi bom?
BIA- Não, eu não quis dizer isso.
NELSON- Você está querendo me enrolar?.
BIA_ não imagina… é que … eu… bem…
NELSON- por favor, eu preciso de resposta objetivas para a minha avaliação.
BIA- não foi bom! Não foi bom! Não foi.
(Silêncio)
NELSON- Por que não foi bom?
BIA- Bem, por que? como eu posso explicar isso?
(CECILIA interrompe, lendo mais uma resposta de BIA)
CECILIA-“ eu sou muito boa com as laranjas “(leve risada)
(Nelson e BIA olha para CECILIA)
NELSON para BIA_ por que não foi bom?
BIA_ eu não sou muito boa com as bananas.
NELSON_ seja mais clara
Bia( Muito nervosa)- Ele dormiu no meio, foi isso. Ele dormiu.
NELSON- Muito bem…
BIA- Muito bem?
(CECILIA interrompe de novo uma frase inventada.)
CECILIA- “eu não sou muito boa com as bananas só com os limões” (leve risada)
(NELSON e BIA olham para CECILIA)
NELSON_ vamos continuar.Uma frase que gosta muito.
BIA_ uma frase?
NELSON- que gosta muito.
BIA_ se na vida tudo vai mal, pode ficar pior.
NELSON- quem disse?
BIA- minha vizinha.
NELSON- uma comida
BIA- sorvete.
NELSON- animal
BIA- gato
Nelson- imite.
BIA_ o que?
NELSON- um gato.
BIA- isso é relevante para esse trabalho?
NELSON- você disse que consegue tudo o que quer.
BIA_ é , em termos de trabalho. Foi o que eu quis dizer.
NELSON- você quer mesmo trabalhar aqui?
BIA- quero muito.
NELSON- quer ou precisa?
BIA- um pouco dos dois.
NELSON- Estou esperando.
(BIA começa a fazer um gato, bem sem graça.)
NELSON- é um gato bem tímido.
BIA- bastante.
NELSON- diferente de você , né?
BIA- bem diferente.
NELSON- você acha que eu contrataria esse gato para me representar como presidente dessa empresa?
(BIA mia mais alto e bem forte.)
NELSON- obrigado. Isso foi o suficiente.
BIA (querendo chorar)- eu posso ir?
NELSON- você quer mesmo ir?
BIA- se isso
foi o suficiente…
NELSON- ainda não fizemos a parte B.
BIA- Desculpe, eu não sabia que tinha uma parte B.
NELSON- Se não quiser fazê-la pode ir embora.
Bia_ Não! De jeito nenhum. Vai ser um prazer fazer a parte B.
NELSON- senhorita…
BIA- Bia.
NELSON- Sim, Bia. Está vendo aquele microfone?
BIA- sim.
NELSON- Vá até ele, por favor.
(BIA vai até o microfone)
NELSON- Vamos imaginar que você já conseguiu esse emprego…
BIA- Oba!
NELSON- E eu sou um cliente que liguei para a empresa e você me atendeu.
BIA- ótimo.
NELSON- O nome dessa empresa será Chupetão.
BIA- Oi?
NELSON- Está preparada?
BIA- sempre.
NELSON- Muito bem. Liguei.
BIA- Chupetão, boa tarde?
NELSON- Boa tarde, eu gostaria de fazer um plano.
BIA- que bacana…
NELSON- “Que bacana?” Foi isso que eu ouvi?
BIA- desculpe senhor, é que hoje é o meu primeiro dia.
NELSON- e o que eu tenho a ver com isso?
BIA- desculpe, senhor…
NELSON- eu vou me matar agora, o que você pode fazer para me ajudar?
BIA- se matar, senhor?
NELSON- o que você vai fazer pra me ajudar?
BIA- bem…
NELSON- ok, Bia, vamos parar com essa simulação. (para CECILIA) querida, venha até aqui.
(CECILIA toda estabanada, levanta da cadeira . BIA olha para CECILIA sem gostar.)
NELSON- Muito bem. Vamos fazer um jogo. agora vocês duas são as funcionária. Quem não conseguir responder, a outra responde.
BIA- Me desculpe a pergunta. Mas quem é ela?
CECILIA- Prazer, Cecília.
BIA- Você também quer esse emprego?
NELSON- Vamos começar. Liguei.
(BIA e Cecília disputam toda hora o microfone, uma empurrando a outra)
BIA (atende)- chupetão, boa tarde?
NELSON- boa tarde, quais são os seus produtos?
Bia- é…
CECILIA (empurrando para ficar com o microfone)- Boa tarde senhor. Nós temos uma grande variedades de produtos. O senhor gostaria de conhecer a nossa linha light?
NELSON_ Sim.
BIA-( empurrando para ficar com o microfone) É, nós temos… Nós temos…
CECILIA(empurrando para ficar com o microfone )- Yogurte dos mais variados sabores…
NELSON- Eu estou muito deprimido
Bia(empurrando para ficar com o microfone )- Por quê?
CECILIA(empurrando para ficar com o microfone )- O senhor está deprimido, não fique assim, nós temos uma linha de produtos anti-depressão, que fará do senhor o homem mais feliz do mundo!
NELSON- Sério? Quanto custa?
Bia(empurrando para ficar com o microfone )- Bem… é…
NELSON- (sussurrando)- O produto custa na faixa dos mil reais.
Bia- Mil reais.
NELSON- Mil reais??
Cecília (empurrando para ficar com o microfone )- Nossos preços são excelentes, irrisórios. Não custa mais que o seu bolso poderá pagar. Apenas 5 vezes sem juros de 199,99 reais
NELSON- Acho que não vai dar, eu vou me matar.
BIA (empurrando para ficar com o microfone)- Não se mate!
(CECILIA, empurrando para ficar com o microfone, começa a cantar uma musiquinha de ninar, BIA não entende nada.)
NELSON- Hum… que musiquinha boa. Assim eu me sinto muito melhor.
CECILIA- Esse é o carinho que temos com os clientes. Sua vida é muito importante para gente.
(NELSON interrompe a simulação. Começa a aplaudir CECILIA).
A- Bravo! Bravo! Bravo! É isso o que queremos, é isso! Qual é o seu nome?
CECÍLIA- Cecília.
NELSON- Muito bem, Cecília.
BIA- mas…
NELSON- vamos passar para uma outra etapa. Precisamos de uma presidenta simpática.
BIA- isso é comigo
NELSON- bonita
BIA- olha par mim, eu estou aqui!
NELSON- E sensual.
BIA- Sim, eu sei.
NELSON- Desfilem por favor
(BIA se coloca na frente e começa a desfilar toscamente. Quase cai do salto. Cecília vai atrás e apesar da aparência e das roupas antiquadas, arrasa.)
NELSON- ótimo, agora vamos simular que vocês ligam pra um cliente e tem que fazê-lo comprar de qualquer jeito. Eu disse: qualquer jeito.
(BIA e Cecilia voltam a disputar o microfone)
BIA- Boa tarde, com que eu estou falando?
CECILIA- boa tarde, é o senhor Roberto Gustavo?
NELSON- melhor assim.
BIA- O senhor quer ver nosso produtos?
NELSON- ver pelo telefone?
CECILIA- O senhor gostaria de obter o conhecimento de ponta de nossos produtos…
NELSON- Bem melhor assim
BIA- Nossa empresa é a melhor…
CECILIA- Nossa empresa tem um grande prazer em ter você fazendo parte da nossa lista vip
NELSON- Muito melhor assim! Ta vendo, Bia? Ela é demais, maravilhosa, poderosíssima!
BIA (finge que nãoouve, com a veemência de quem quer vencer)- Venho lhe mostrar…
NELSON- Rosna.
BIA- o que?
NELSON- Anda, rosna que nem um cachorro!
(BIA fica sem graça. CECILIA começa a rosnar. BIA com inveja começa a latir. CECILIA late mais forte.)
NELSON- agora se lambem.
BIA- “se” o quê?
NELSON- você quer ou não quer esse emprego?
(BIA começa a lamber CECILIA. CECILIA- começa a lamber BIA e cuspir)
NELSON- isso, cuspir é muito bom. agora faz a dança da galinha.
BIA(já chorando)- tem certeza que isso é fundamental para a entrevista?
NELSON- se quiser, pode ir embora.
(BIA começa a imitar uma galinha.)
NELSON- roda.
(BIA roda em prantos)
NELSON – CECILIA, faz um galo correndo atrás da galinha
(CECILIA começa a correr atrás da galinha feito um galo)
(BIA foge de Cecilia, chorando, mas sem deixar de fazer.)
NELSON- cacareja mais alto, BIA. (BIA cacareja mais alto) Mais alto Bia, mais altoooooo.
(BIA cacareja bem alto chorando aos prantos)
B.O
Fim da parte 1- Continua….
Manual prático para compreensão do mundo em cinco passos
Mulher: E como presidenta, decreto que sejam adotados em todas as repartições públicas o seguinte manual a fim de aumentar a produtividade de todos os funcionários:
Primerio passo: Numa dada manhã, escove os dentes usando a sua mão esquerda (no caso de destros), a sua mão direita (no caso de canhotos) ou um de seus pés (no caso de ambidestros).
Segundo: Assobie uma antiga canção de ninar para o segurança de um banco perto de sua casa.
Observe sua reação
Terceiro passo: Faça uma marca de pé no teto de sua sala. E chame uma visita. (se você não morar em residência própria, converse com o proprietário do imóvel antes de realizar este item)
Quarto: Depois de pagar por suas compras, cumprimente o caixa do supermercado com um beijo de esquimó*
E quinto: Assista a um filme de trás para frente e, em seguida, narre-o para alguém
Esclarecendo: Beijo de esquimó é demonstração afetuosa em que dois seres dotados de órgão olfativo externo encostam repetidamente seus respectivos nasais através de sucessivos movimentos de cabeça da direita para a esquerda.
Micheteira mirim
Meu nome é Leilani. Sou loira, o que para alguns é uma grande facilidade de vida, e para outras uma grande economia no tonalizante. Mas, ser loira não é fácil. Sei que pode parecer ridículo dizer isso, nasci no sul onde ser loira é uma redundância, uma tolice cotidiana quase monótona. Mas, não é fácil sustentar a pose de loira quando você é… desengonçada.
Nunca fui alta, mas com freqüência ao correr eu tropeçava nas minhas pernas. Uma vez ralei minha pele na parede chapiscada, e para completar caí em cima de uma vasilha de leite quente, o que machucou ali perto da… da minha periquita… perseguida… Enfim, não sei como dizer isso… tenho uma cicatriz na virilha, uma espécie de smile, um sorriso de boas vindas para quem se aventurar a chegar perto do elástico da minha calcinha.
No início fingi que não reparei que minha virilha ria da minha cara. Depois comecei a ficar incomodada. Eu sempre me achei meio… desengonçada. E tentei nublar isso usando acessórios: pulseiras, brincos, brincos enormes… Não foi uma boa idéia, os brincos dificultavam meu equilíbrio. Num ato de fúria, joguei os brincos no chão, e pisei em cima. Fui ao banheiro fazer xixi, e quando fui me limpar tinha a sensação de que minha cicatriz gargalhava da minha cara.
Mandei uma carta para o Papai Noel pedindo botas ortopédicas e elegância. Minha mãe contava histórias de ninar para mim, e logo depois que ela saía do quarto eu levantava e treinava andar com livros sobre a minha cabeça.
Vi num filme uma mulher muito elegante e comecei a imitar seu gestual: era só pegar nas coisas como se estivesse sentindo muito nojo, com as pontas dos dedos.
Ganhei confiança, um sentimento de elegância adentrava meu ser! Recusava pequenas atividades físicas como brincar de pique-pega e jogar futebol com os garotos.
Um dia, fui até a penteadeira da mamãe e consegui passar batom vermelho sem borrar, escovei meus cabelos e fiquei linda. Mamãe tinha muitos batons e muitos perfumes, mas depois que papai dormiu, ficou duro em cima da cama, e mamãe explicou para mim que ele virou adubo de plantinhas no jardim; mamãe tinha poucos batons, quase nenhum.
Antes do papai dormir para sempre, nenhum homem entrava lá em casa. E ninguém podia fumar, papai tossia muito, não gostava mesmo.
Mas, toda sexta-feira, sabia que era sexta-feira porque esse era o dia de levar novidade na escola, mamãe recebia um moço de chapéu que fumava. Eu olhava tudo pela janela da vizinha, mamãe sempre dizia que eu podia ir na vizinha brincar antes do moço chegar. Eu olhava ele chegar na porta e sei que ele subia para o quarto, quando ele chegava no quarto mamãe fechava as cortinas e as janelas. Depois que o moço ia embora, eu voltava para a casa, mamãe lavava todos os lençóis do quarto. Eu não entendia isso… se a mamãe não gostava do cheiro da fumaça era só deixar a janela aberta. Mas, nunca falei nada disso com a mamãe.
Numa outra sexta-feira, estava brincando na casa da vizinha presidenta, é verdade a vizinha era presidenta da associação de moradores do bairro e muito sabida. De tudo ela sabia. Ouvi a vizinha comentar que minha mãe estava estranha, pelo que eu ouvi parece que minha mãe se mostrava para ganhar as coisas. Não entendi muito bem, mas não achei que era uma coisa ruim. Fiquei pensando… Eu podia fazer o que a mamãe faz. Porque desde que o papai ficou com muito sono, eu quase não ganhava brinquedo, levava merenda e não tinha mais dinheiro para o lanche.
Diante do espelho, levantei a saia da minha jardineira, mexi o bumbum e mostrei o babadinho da minha calcinha. “Dá de me pagar um chucrute?”. Abaixei a meia encostei a mão na minha bota ortopédica, deslizei a mão na minha perna segurei minha coxa. “Você quer pagar o meu lanche? Tri legal!” Rebolei de leve levantando a saia. “Tio, eu quero tanto aquela boneca”.
Foi assim que tudo começou… O que importa na vida de uma mulher? O início e o fim.
O meio? Ah, que bobagem!
Hoje, eu Leilani a grande cantora da noite, tomo mais um whisky cowboy, me preparo para cantar Ronda. Depois que canto, revelo inocentemente minha cicatriz. Quem sabe o meu grande amor me reconhecerá, o primeiro homem que pagou para me ver.
Sim, senhoras e senhores uma micheteira mercenária também acredita no amor.
Com carinho para Hilda Hilst escrito numa folha do Caderno Rosa de Lory Lambi.
O decreto da memória
Completou 75 anos, assumiu a Presidência da República e fez um decreto único e irrevogável, obrigatório a todos os cidadãos, em cadeia nacional.
Sempre que estiver deprimido lembre-se da lista enorme de projetos a realizar.
Antes de tudo, lembre-se que é importante assumir a sua condição. Isso já alivia a dor. E lembre-se de se perdoar.
Lembre-se que existe um dia lindo lá fora, que existe a praia, o parque, a lagoa… que existe a lua.
Lembre-se de ligar para algum amigo. Certamente vocês passarão bons momentos juntos. Se não tiver ninguém por perto, lembre-se que antes de tudo, você é o seu melhor amigo.
Lembre-se de fazer novas amizades.
Lembre-se de fazer sexo, de fazer amor e de se masturbar. Que o sexo exige desprendimento, que o amor exige companheirismo e que masturbar-se exige autoconhecimento.
Lembre-se de não ser maniqueista ou platônico demais. Que sexo, amor e masturbação, no final das contas, são a mesmíssima coisa.
Lembre-se que é possível escrever para desabafar. Que é bom ouvir uma música agradável e ler um livro.
Lembre-se que não existe verdade. Que tudo é um ponto de vista. E que um ponto é algo muito pequeno na imensidão do universo.
Lembre-se que viver é um clichê: todo mundo nasce e morre. Não há registro de alguém que tenha fugido a essa regra.
Lembre-se de ir ao mercado e fazer uma receita diferente.
Lembre-se que dinheiro é papel. Que não é maluquice nenhuma rasgar papel. Que a loucura da humanidade é justamente brigar por papel.
Lembre-se de ligar para seus pais e dizer o quanto eles são importantes pra você. Lembre-se que você pode visitá-los.
Lembre-se de agradecer por estar vivo. Agradecer pelas milhões de possibilidades que ainda se abrirão na sua frente e por você não fazer a menor idéia de quais elas serão.
Lembre-se que tudo pode mudar, a todo instante. E que vai mudar.
Lembre-se que não existe dor que não possa ser confrontada com momentos de alegria. E que a dor não deve ser sublinhada, caso contrário não será dor, será drama.
Lembre-se que é terrível sentir pena de si mesmo.
Lembre-se de ser tolerante consigo e encarar as suas limitações. Elas são o nosso único parâmetro de evolução.
Lembre-se de pensar positivo e agir com perseverança e gratidão. Entender a diferença entre tentar e persistir.
Lembre-se de não se convencer das suas próprias desculpas e mentiras. Não se engane. Quando desconfiar que está mentindo, já mentiu.
Lembre-se que acertar é humano. Não deixe o fracasso subir à cabeça.
Lembre-se que você pode abrir mão de qualquer coisa que julga essencial ou insubstituível. Esta consciência trará leveza.
Lembre-se de conquistar a sua autonomia. Ame-se, mas não seja egoista.
Lembre-se de viver o presente do presente. Não se prenda na melancolia do passado do presente e não se perca na ansiedade do presente do futuro.
Lembre-se que você ama pessoas que certamente vão decepcioná-lo. Perdoe.
Lembre-se de seguir a sua intuição. Dificilmente ela vai enganá-lo. E quando sentir que alguma coisa está rolando no ar, é verdade. Realmente está rolando alguma coisa no ar.
Quando estiver com raiva, lembre-se de ficar com os melhores momentos e os melhores dias.
Lembre-se que você é bonito, inteligente, talentoso e saudável. E que ainda assim, por falta de otimismo, pode colocar tudo a perder.
Lembre-se que vai passar.
De verdade.
Sem ter medo de perder, sem ter preguiça de aproveitar, sem ter receio de se machucar.
Lembre-se do mar.
Lembre-se, apenas, de amar.
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo