A primeira vez de um homem
Ela lê jornal.
Homem: Moça.
Mulher: Sim?
Homem: Será que a senhora poderia me dizer como é que é?
Mulher: Como?
Homem: Como é que é?
Mulher: A sua mãe?
Homem: O quê?
Mulher: Como é que é a sua mãe?
Homem: Eu sei como é a minha mãe.
Mulher: Ótimo. Então não precisa me perguntar.
Homem: Mas eu não tava perguntando dela.
Mulher: Como é que eu ia adivinhar.
Homem: Tava falando de lá de dentro.
Mulher: Dentro?
Homem: Como é que é lá dentro?
Mulher: Com paredes.
Homem: E?
Mulher: Teto.
Homem: E…
Mulher: E eu tenho coisas mais interessantes a fazer do que ficar falando com o senhor neste momento.
Homem: Por favor.
Mulher: O Gente Boa de hoje ta um arraso.
Homem: Me conta.
Mulher: E eu ainda nem cheguei na Kogut.
Homem: É que a minha primeira vez.
Mulher: Eu notei.
Homem: Notou?
Mulher: Com o plim do elevador quando o senhor chegou aqui.
Homem: Mas é tão evidente assim?
Mulher: Criança com sarampo.
Homem: Oi?
Mulher: Mais evidente que criança com sarampo.
Homem: Ta escrito na minha testa?
Mulher: No corpo todo, meu senhor, no corpo todo.
Homem: No corpo todo?
Mulher: Se o senhor estivesse plantando bananeira de costas no escuro a cem metros de distância do meu campo de visão, mesmo assim eu teria notado.
Homem: Nossa…
Mulher: Pois é.
Homem: Desculpa…
Mulher: Está perdoado.
Homem: Não, eu não estava pedindo desculpas.
Mulher: O senhor disse “desculpa”.
Homem: É uma forma de começar uma frase.
Mulher: E “está perdoado” é uma forma de cortá-la.
Homem: Por que é que a senhora é tão mau humorada?
Mulher: Porque o senhor é insistente.
Homem: Mas eu só fiz uma pergunta.
Mulher: E eu só estou dando respostas.
Homem: Grossas.
Mulher: Da espessura das minhas respostas cuido eu.
Homem: Tenha sensibilidade.
Mulher: De sensível já basta minha pele.
Homem: É a minha primeira vez!
Mulher: E a minha oitocentésima terceira.
Homem: Eu estou nervoso.
Mulher: E eu estou irritada.
Homem: Por quê?
Mulher: O senhor nasceu.
Homem: Mas será possível que você não pode respeitar a primeira vez de um homem?
Mulher: Quem disse que eu não respeito?
Homem: Então porque a senhora não pode me contar como é?
(pausa)
Mulher: Pra quê o senhor quer saber antes?
Homem: O quê?
Mulher: Pra quê o senhor quer saber antes? O senhor não vai entrar? Lá dentro?
Homem: Vou.
Mulher: Então porque saber antes? Por que o senhor não espera, entra e descobre? A sua primeira vez? Por que o senhor não espera e descobre a sua primeira vez?
(longa pausa)
(o homem espera)
(a sua primeira vez)
A primeira vez pra você
Sempre escrevo aqui, uma vez por semana, sobre variados temas que me fazem pensar,
refletir e muitas vezes admitir: ‘ Esse tema está difícil. Como vou escrever sobre isso?”
Aí, eis, que me vem um novo tema: “Primeira vez”.
E mais uma vez eu penso. “ Tenho que escrever uma cena, tenho que mandar bem, muita gente entra aqui e lê.
E se não gostarem?
Não, não importa o que pensam, estou exercitando, experimentando, não importa o que pensam. Mentira, importa. Não, não importa. Mentira. Não é mentira. É sim. Não é! Ahhh!!!
Hoje pensei um monte de coisas em relação a esse tema: a primeira vez de uma transa (muito batido), o primeiro arrependimento, a primeira viagem, o primeiro texto, a primeira alegria, o primeiro sucesso, o primeiro fracasso, o primeiro crime, livro, filme…. são tantas coisas que se podem falar. Tantas coisas pra falar.
E aí, no meio do caos do pensamento, caos porque todo pensamento é multipluralidade (gostei dessa palavra), no meio de tanta primeira vez, vem o silêncio.
E no silêncio vem você.
Escrevo aqui há quase uma ano e essa é a primeira vez que escrevo pra você.
E aí você me pergunta: “Por quê agora?”
Sim, normal, depois de tanto tempo. O quê? Um ano, dois meses e vinte dias. Você me pergunta por quê?
De repente já passamos dessa fase, a fase das cartinhas e declarações.
Já passamos das promessas, dos elogios desvairados.
Agora estamos mais tranqüilos, mais seguros, se é que existe segurança para o amor. Agora nos conhecemos bem, já estamos conquistados. Não temos vergonha de chorar na frente do outro sem motivo nenhum(ou com muitos motivos que não sabemos explicar), sem medo de pensar que o outro vai querer se separar só porque choramos sem motivo nenhum.
Então por que escrever? Por que agora, depois de todas as fases, depois de todas as provações, dúvidas (ai, que dor) e certezas ( que alívio)? Por que escrever pra você?
Então eu te respondo. Porque assim sou: romântica sem vergonha.
Porque eu acredito que o tempo passa estando juntos, e a gente se renova estando juntos.
Então a fase das declarações, dos elogios desvairados, das divagações ensandecidas precisam continuar estando juntos.
Porque não precisamos deixar de dizer. Porque continuar conquistado é continuar valorizando.
Porque sempre é hora e sempre é importante.
Porque sempre é o momento, e o momento sempre é bom.
Porque você me faz sentir saudades.
Porque você me faz ficar feliz, me faz querer ser melhor.
Então você merece.
Não só uma vez. Milhares de vezes. Aqui, no seu ouvido, no seu scrap, nos cômodos da sua casa, você merece.
Então, sem medo, é a primeira vez, feliz, que escrevo aqui.
EU AMO VOCÊ. E TE DEDICO A MINHA SEMANA.
FIM ( RENOVAÇÃO)
Para Bruno Alexander
100 culpa, 100 comentários, 100 palavras
Prezados leitores, como não postei na semana passada, segue abaixo um texto que mistura os temas culpa e a primeira vez. Por favor, divirtam-se!
Festa luxuosa de casamento. Vestidos em vontade de oscar. Cabelos delirando no reino encantado do laquê. Batom carmin. Tias e avós com o rímel emotivo e levemente descabelado. Homens envelhecidos no vinho. Rapazes com o perfume de whisky. Felicidade geral. Clima de fertilidade aflita no ar. A pureza de um bouquet de lírio. A alegria desvairada da paixão desmedida com direito a acordo pé-nupcial. Fotos de família. Segundos antes do bolo ser cortado, um garoto, o menor e o primeiro neto arrasta uma cadeira, escalando-a com dificuldade, olha pra o bolo com a emoção dos que contemplam o pão-de-ló pela primeira vez, respira fundo e afunda o indicador no glacê.O tempo pára. A festa toda observa. O garoto fecha os olhos, sorve a neve adocicada da ponta do dedo sem culpa.
O ruído da festa se funde com o ruído de uma tourada que acontece perto dali. No camarim do toureiro uma mulher grávida está sentada observando-o. O toureiro está pronto. Sai do camarim sem olhar para a mulher grávida que o segue pelos corredores. Num rompante ele pára e ensaia movimentos agressivos com sua capa vermelha. A mulher grávida chora e corre. Estanca na frente do telão com imagens da última tourada da qual o toureiro participou. O toureiro segura as mãos da mulher que se esquiva. O telão ao fundo projeta o toureiro mostrando seus movimentos diante do touro. Ouvimos em espanhol a música “Te Amo Espanhola”. O toureiro deixa a capa vermelha cair no chão. Ele e a mulher grávida se olham ternamente e beijam-se apaixonados, sem culpa e como se fosse a primeira vez.
A música se funde com o barulho de um avião pousando no aeroporto. Na fila do check-in a filha de despede da mãe. Silenciosamente, a filha pega um lenço na bolsa e aperta contra os lábios e contra os olhos para que a mãe não perceba que ela está chorando. A mãe abraça a filha ternamente. Minutos depois a filha acena despedindo-se da mãe no portão de embarque. As duas se olham por um momento curto e infinito. Os olhos da mãe pedem para a filha ser feliz apesar de tudo. Os olhos da filha pedem perdão por ela ser simplesmente o que ela é, e as lágrimas embaçam os óculos pedindo permissão para existir apenas, e sem culpa. A mãe beija uma das mãos da filha, por ironia do destino ou apenas coincidência a mão que ela escreve, e talvez naquele instante a filha compreenda o que foi dito sem palavras. Talvez, naquele gesto a mãe aceite a filha apenas ser o que ela é, e não o que a mãe quem sabe um dia com as mãos na barriga sonhou. As duas se abraçam, se aceitam e se perdoam. Existem apenas, sem culpa, sem comentários, sem palavras.
A filha caminha distraída até encontrar uma estátua de um super-homem em tamanho natural. Tira fotos dela e com ela.Caminha novamente despida da culpa de ser, pára diante de um ônibus que a levará para casa.Um jovem desconhecido pergunta o trajeto. A filha apenas aponta para a placa indicando o trajeto sem dizer nada. Passa pela roleta do ônibus e chora lágrimas de iluminação, quem sabe com olhos úmidos e despidos se tornasse tão singela e frágil ao ponto compreender a própria existência, ou até simplesmente se perdoar por ser o que ela é. O ônibus sai do aeroporto e passa por uma festa de casamento, por uma tourada e na frente de um teatro.
No teatro, uma jovem vestida de branco sobe no palco pela primeira vez. Entra no foco de luz esperando a hora de dizer o texto: “Carregar a cruz e ter fé. Eu tenho fé e já não sofro tanto e quando penso na minha vocação, não sinto medo da vida”.
Final Bônus Track
Vemos apenas as mãos dos protagonistas das histórias segurando as fotos dos momentos vividos anteriormente.Vemos uma mão desconhecida segurando uma foto. A imagem de quando ela abordou um homem lindo na fila do supermercado pela primeira vez.Vemos o sorriso da mulher que segura essa foto.Percebemos que ela é a mesma mulher que estava de branco no palco. Ela tem outras fotos na mão, fecha os os olhos e abraça as fotos contra o peito. Ouvimos novamente o texto:“Carregar a cruz e ter fé. Eu tenho fé e já não sofro tanto e quando penso na minha vocação, não sinto medo da vida”. As luzes se apagam. FIM
Para minhas famílias (de sangue e de amigos).
Para meus colegas/partners do dramadiário/drama queens and drama kings:Eu seguro a minha mão na sua para fazer aquilo que eu não quero fazer sozinha!
Meu carinho para todos!
LOVE
Bjs
A primeira vez que não te vi
Como foi a primeira vez que você me viu?
Eu não te vi da primeira vez.
A gente sempre vê da primeira vez, mesmo que a primeira pareça a segunda ou a terceira.
Eu não te vi pela primeira vez porque você não se mostrou da primeira vez.
E o que você viu então?
Vi o que você gostaria que eu visse.
E você gostou do que não viu pela primeira vez?
Eu gostei de saber que, pela primeira vez, estava sabendo que não se consegue ver ninguém na
primeira vez.
Então, na primeira vez que você me viu, na verdade você se viu pela primeira vez.
Isso. Te vendo pela primeira vez, eu me vi melhor e por isso continuamos juntos.
Essa é a primeira vez que te vejo com lágrimas nos olhos.
É que, pela primeira vez , você me olhou de verdade.
Poderosas
(no cativeiro)
Kid: Eu já disse que não sou a Madonna.
Capanga: Como posso acreditar em você?
Kid: Seu burro, estou falando em português!
Capanga: Isso pode ser um golpe seu. Você é muito esperta, Madonna. E não me insulte
novamente, você está numa situação desfavorável por aqui.
Kid: Você seqüestrou a mulher errada.
Capanga: E o que fazia na piscina do Copacabana Palace?
Kid: Era um disfarce.
Capanga: A-há! Madonna! Só ela se disfarçaria.
Kid: Escuta, meu doce. Eu fui contratada para me fazer passar pela Madonna. Uma graninha digna pra ficar dando pinta na piscina do Palace e distrair os repórteres e fãs. Isso serve pra verdadeira Madonna passear pela cidade sem ser perturbada ou seqüestrada!
Capanga: Você não me engana, Madonna.
Kid: Estou dizendo a verdade, seu tapado! Era eu na janela do Palace, com os supostos filhos dela. Sim, porque também são crianças contratadas como sósias dos filhos dela.
Capanga: Não falo contigo. Quando o chefe chegar você se resolve com ele. Eu só cumpro ordens.
Kid: Seu chefe vai fazer picadinho de você!
Capanga: Cale a boca! A qualquer momento anuncia na rádio seu seqüestro.
Kid: Vai anunciar nada. A Madonna está linda e loura balançando a bundinha na praça. E eu que pague o pato!
Capanga: Se não anunciar é natural. Os caras não vão alarmar os fãs nem as autoridades. O governo é muito esperto. Eles pensam em tudo.
Kid: Maldita hora em que topei esse bico. Coisa da Tina!
Capanga: A-há! Madonna! Amiga da Tina Tunner! Ela te deu idéia de vir pra América Latina e você foi pega!
Kid: Dá um tempo! Tina é minha amiga com cara gorda que mora na Tijuca. Me solta, vai.
Capanga: Já disse, não falo contigo. Se resolva com meu chefe.
Rádio: Madonna acaba de chegar ao Maracanã e promete show inesquecível!
Kid: Ouviu? A verdadeira Madonna está lá e não aqui.
Capanga: O Governo é espertinho demais… Os caras já colocaram uma sósia no lugar… É tudo truque, estão ganhando tempo até que você seja encontrada.
Kid: Afffffff!!!!!! De onde você veio, meu filho?
Capanga: Eu nem sei por que te chamam de Diva, você me parece bem mixuruca. Nas fotografias parecia mais bonita!
Kid: Escuta aqui meu filho, a Madonna tem 50 anos! Está só no nylon! Meu corpo é todo natural! Nunca fiz um clareamento dental.
Capanga: Muito mixuruca…
Kid: Quisera você ser mixuruca assim, meu camarada!
Capanga: Mixuruquinha da Silva…
Kid: Se me chamar de mixuruca de novo acabo com sua raça.
Capanga: Está me ameaçando, Madonna?
Kid: Eu já te disse que não sou a Madonna.
Capanga: Eu sei que deve ser difícil… Assim, ser a Madonna. Deve haver dias em que você acorda e deseja ser só uma mulher comum, com uma vida simples e longe de qualquer fama ou glamour… Eu entendo você. Não é fácil ser uma celebridade. Muita exposição. Foco de julgamento. Vida debatida em qualquer rodinha… Rodeada de pessoas que você não sabe exatamente se estão ali porque gostam realmente de você ou não. É uma barra pesada.
Kid: Você entendeu tudo…
Capanga: Ah! Finalmente confessou! Foi mais rápido do que eu pensei…
Kid: Pois é, eu sou a Madonna e estou em crise. Minha vida de milionária/musa/mito é muito cansativa. Realmente tem dias que eu só queria ser um proletariado com dor de dente, se quebrando inteira pra pagar um canal. Sabe? Valorizar mais as coisas. Ser gente de verdade. Comer arroz com ovo e vagem picadinha. Essa vida de espumantes e massagistas me aborrece.
Capanga: Você conhece o Van Damme? Desculpe, é que sou fã do cara desde criança. Ele me ensinou muita coisa. (quase ao choro) A determinação, a força, a destreza! Vi todos os filmes.
Kid: Tive um flerte com ele. Uma bobagem. Ele ficou no meu pé, daí foi um saco.
Capanga: Sério? Olha, chego a tremer…!
Kid: Posso te apresentar qualquer dia desses.
Capanga: Você faria isso por mim?
Kid: Claro meu amor. Mas com uma condição: me descola uma sardinha? Nunca comi, e acho tão singela… Quero aproveitar que estou por aqui e experimentar essa vida humilde que tanto me faz falta. Faz isso por mim. Me consegue uma sardinha agora que ligo pro Van Damme e te coloco na linha pra falar com ele.
Capanga: Não posso sair daqui a gora…
Kid: Não é fã…
Capanga: Eu sou fã.
Kid: Fã que é fã, não impõe barreiras frívolas.
Capanga: Não é isso… São ordens!
Kid: Qual foi a ordem que seu chefe te deu?
Capanga: De não sair daqui por nada!
Kid: Então: problema resolvido!
Capanga:?
Kid: Se chefe te disse que VOCÊ não deveria sair , não disse nada ao meu respeito… Você me dá a chave do carro, eu vou ao mercado, compro a sardinha e volto! Ligamos pro Van Damme e todo mundo fica feliz. O que acha?
Capanga: Boa idéia! (entrega a chave do carro) Mas não demore viu? Estou muito ansioso pra falar com o Van.
Kid: Já volto.
Ela sai. Ele fica lá parado com sua cara boba.
Kid: (no carro dando a partida) É gente humilde, que vontade de chorar! (arranca)
Fim.
Singela homenagem ao primeiro show da Madonna que acabo de ir com dois amigos queridos:Jule e Walter. Obrigado!!!!!!
Debút do policial borboleta
Com uma música e iluminação apocalípticas, o casulo se abre lentamente e de dentro dele sai a borboleta. Além das enormes asas coloridas e da sunguinha preta possui algumas características do policial, talvez as botas, os óculos escuros e o chapéu.
B- Livre! Livre!!!
V- Mas quem é você???
B- Eu sou a leveza! A resolução! O bem-estar!!!
V- Policial… é o senhor?
B- Sim, sou eu… e agora sou muito mais eu!
V (Largando a pedra.)- O que eu fiz? Me desculpa, por favor.
B- Eu tenho é que te agradecer! A vida tem que nos dar uma porrada pra deixamos de ser criaturas rastejantes. E as vezes a porrada nunca vem. Mas felizmente você estava aqui para me porrar! Obrigado! Muito obrigado!
V- De nada.
B- Foi essa pequena pedra que arrancou de mim a crosta que me impedia de respirar, de sorrir, de ser feliz. Estarei para sempre em débito contigo. (Olhando ao redor.) Eu estou estupefato! Tudo é tão mais colorido, e ao mesmo tempo tão mais simples! Porque eu me recusava a enxergar? Porquê?
V- O senhor está bem mais colorido mesmo. E mais corado.
B- Por favor, queridinha, senhor está no céu. (Olha para o céu.) Será? (Olha de novo. Procura.) Sempre me disseram que sim. (Cutuca o resto do casulo com o pé.) Mas me disseram tantas coisas… Porque não fui fulminado? Porque meu coração está cheio de paz? Porque o inferno agora parece tão distante e improvável? (Olha para o céu novamente.) Vou ter que voar até lá para saber. O importante é que agora eu posso voar se eu quiser. E eu quero.
V- Eu fico feliz em ter ajudado, mas escuta, eu vou indo.
B- Não! Espera!
V- O quê?
B- Você não pode ir embora assim!
V- Eu tenho muito o que fazer. Me deixe ir, por favor. Eu não fiz nada. Não matei ninguém.
B- Eu preciso te ajudar de alguma forma. Pode contar comigo para o que for preciso.
V- Me ajudar?
B- Você me salvou, me guiou por um árduo caminho onde finalmente encontrei a mim mesmo. Eu serei sua fada madrinha!!!
V- Olha, eu realmente tenho que ir…
B- Qual o seu signo?
V- Perdão?
B- O seu signo, minha filha. Sabe o signo?
V- Er… Virgem?
B- Sabia!!! Típico.
V- O quê?
B- Típico, essa sua atitude. Sabia já. E o ascendente? Sabe a lua?
V- Olha, eu tô perdendo um tempo precioso. Fico contente que você tenha encontrado seu verdadeiro eu mas eu preciso ir andando.
B- Pra quê, minha nossa senhora! Que pressa é essa?
V- Tenho que encontrar a minha avó.
B- Não.
V- Como não?
B (Misterioso.)- Não é esse o motivo da tua ansiedade. Eu vejo nos teus olhos.
V- E quem é você pra…
B- Eu sinto. Há uma outra razão, uma razão maior que te arrasta por esses caminhos.
V (Irônica.)- Uma outra razão?
B- E sem cinismo, por favor, meu doce. Não seja como eu fui, que me enganei por tanto tempo. Seja sincera consigo mesma. Vamos. Tente.
V- É verdade… Há uma razão… É ridículo… eu amo um homem que ainda não conheço. O cheiro dele veio da cidade, atravessou essa mesma estrada e chegou na minha casa empesteando tudo, os lençóis, o meu cabelo. O cheiro me dava uma coceira pelo corpo, minha pele ficava vermelha e minha mãe se enchia de asco. Olhava pra mim com um asco. Odiava todas as mulheres, coitada, e odiava mais as mais belas. Minha avó era belíssima e mamãe nasceu feia e amarela. Agora percebo claramente. Foi o cheiro que começou tudo e é ele que eu procuro. Fugi e agora mamãe está morta. Eu não tenho mais escolha, encontrar a minha avó e caçar o homem do cheiro forte.
B (Premonitório.)- Você vai encontrá-lo!
V- Será?
B- Vai, minha menina! Vai sim! Eu sei. Eu sinto.
V- Que bom! Não vejo a hora!
B- Mas com essa roupa…
V- O que foi?
B- Não tem nada melhorzinho?
V- Tô muito suja?
B- Com esse modelito não vai dar não.
V- Poxa vida.
B (Cheira ela e faz uma cara de reprovação.)- Assim, o homem do cheiro forte é que vai encontrar você.
V- O que eu faço?
B- Mas sua fada madrinha está aqui pra te ajudar! Feche os olhos.

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