Atuar não
Um casal de atores
Lu: Rob, a gente tá precisando conversar sério.
Rob: Isso. Continua.
Lu: Continua o quê?
Rob: Você tá indo muito bem.
Lu: É mesmo?
Rob: Vai. Continua.
Lu: Então, Rob, eu acho melhor a gente parar por aqui.
Rob: Assim você vai arrasar.
Lu: Arrasar?
Rob: Genial, continua.
Lu: Rob, Rob, você tá ouvindo o que eu tô falando?
Rob: Esse é o tom. Esse é o tom.
Lu: Que tom, Rob? Do que você tá falando?
Rob: Meu amor, você vai arrasar.
Lu: Arrasar o quê, meu Deus?
Rob: Você é a melhor atriz que eu conheço.
Lu: Ah! Me escuta, por favor. Eu quero terminar com você. Eu não tô atuando. Você acha que eu não tô falando sério? EU TÔ FALANDO SÉRIO!
(silêncio)
Rob: É sério?
(silêncio)
Lu: Ah, brincadeira! Não!! É serio.
Rob: É sério ou não é serio?
Lu: É serio. É serio, é que foi no timing, eu não podia perder o timing.
Rob (exagerado): Não se separa de mim, não se separa de mim. E os nossos filhos, a nossa casa? Minha mãe que te adora?
Lu: Filhos, casa, da onde você tirou isso?
Rob: Gostou, né? Gostou. Tô pensando em fazer meu cadastro com esse texto. O que você acha?
Lu: Não, Rob. Vamos parar com isso. Será que a gente não consegue não atuar pelo menos uma vez na nossa relação?
(silêncio.)
Rob: Essa pausa foi bem dramática.
Lu: É. Foi.
Rob: Se fosse ensaiado não ia ficar tão bom, né?
Lu: É.
Rob: Se soubesse que ia ficar tão bom, tinha até filmado pra gente colocar no you tube.
Lu: Vamos tentar retomar, Rob. Vamos tentar retomar.
Rob: Por que você quer tanto falar desse assunto? Você sabe do sentimento que eu tenho por você.
Lu: Rob pára de atuar, eu tô falando sério.
Rob: Mas eu não atuei, eu falei sério.
Lu (debochando): Tá, falou. E sabia que eu consegui o papel de protagonista da novela das nove?
Rob: Eu disse que você ia conseguir.
Lu: Rob, eu tô brincando.
Rob: Tá brincando por quê? Você tem mania de falar tudo brincando.
Lu: É você, Rob, é você que nunca fala sério.
Rob: Mas eu tô falando sério.
Lu: Caramba, Rob, fala sério.
Rob: O que você quer, Lu? Quer terminar é isso?
Lu: É Rob, eu quero terminar.
Rob: Então! Eu tô dizendo para gente não terminar, para gente tentar…
Lu: Rob, esse é o seu texto da peça.
Rob: Finalmente eu consegui decorar.
(ela chora)
Rob: Não chora.
Lu: A gente não consegue ter um relacionamento de verdade.
Rob: Calma, amor, eu te amo de verdade.
(ela pára de chorar subitamente)
Lu: Consegui! Consegui!
Rob: O quê?
Lu: Consegui, Rob, consegui a técnica da lágrima. Viu como saiu lágrima de mim? Eu entendi a técnica, eu entendi! (Ela o abraça)
Rob: Então não vamos mais terminar.
(ela o afasta)
Lu: Não, Rob, não confunde as coisas.
Rob: Mas quem tá me confundido agora é você.
Lu: A gente tem que terminar. Desse jeito é impossível.
Rob: Não é impossível. Por que é impossível?
Lu: Rob, quando a gente tá na cama, eu nunca sei se quando você me diz aquelas coisas, é de verdade ou não.
Rob: É você que tá colocando coisas onde não tem.
Lu: É? Então diz que me ama de verdade. Sem atuar.
Rob: Eu te amo de verdade.
Lu: Tá vendo? Você não consegue.
Rob: Mas eu falei de verdade!
Lu: Mas eu não acredito mais em você. Vamos parar por aqui. Vamos acabar de vez com isso.
Rob: Deixa pelo o menos eu te abraçar.
Lu: De verdade?
Rob: De verdade.
(ele se abraçam)
Rob: E agora o que a gente faz?
Lu: Seria perfeito se a gente começasse a dançar como naquele filme “O último tango em Paris.”
(eles começam a dançar)
Rob: Tá vendo? Você também não consegue.
Lu: Isso não é vida, Rob.
Rob: Por que não? Por que não?
Lu: Eu admito, eu também tô presa nesse vício, mas eu quero dar um basta nisso.
Rob: O que podemos fazer?
(continuam dançando)
Lu: Rob, vamos nos proibir de atuar um com o outro. É a única coisa que podemos fazer.
Rob: Tudo bem. Eu não atuo mais com você. Nem você comigo.
Lu: Isso. Não podemos deixar que a nossa profissão seja mais forte que as nossas vidas, meu amor.
Rob: Você tem toda a razão.
Lu: Só assim poderemos realmente ser felizes e nos amar de verdade. Naturalmente.
Rob: Fala de novo, de novo.
Lu: O quê?
Rob: Repete o que acabou de falar, vai, por favor.
Lu: Mas a gente acabou de combinar!
Rob: Imagine que a câmara tá naquela direção. Repete o texto pra aquela direção, ok?
Lu: Rob, eu não acredito…
Rob: Por favor, please!
(ela faz na direção que ele pediu)
Lu: Assim poderemos realmente ser felizes e nos amar de verdade. Naturalmente.
Rob: Meu amor, você é tão boa atriz…
Lu: Você acha mesmo?
Rob: Sempre achei.
Lu: Não, não, não, não! Chega, chega! É tão insuportável.A gente não consegue, chega! Acabou. Adeus, Rob. Não dá! Adeus! (ela sai correndo. Ele fica)
Rob: Ó minha amada, não me deixa assim na escuridão, já que é a sua luz que alimenta minha alma. Como ficarei agora sem você, perdido num mar de desilusões? Meu corpo é como o fogo e você água que o apaga. Volte para mim, ó brisa serena, lua alva que me guia na noite sem fim. Sou eu, seu amor clamando desesperado. Não me abandones assim.
(ele percebe o que acabou de falar)
Rob: Caramba. Me superei. Mandei muito. Uau. Essa nem eu esperava. Vou até anotar.
(Ele senta e anota o que acabou de falar. Esquece que foi deixado.)
FIM.
Proibida a entrada de pessoas estranhas
Tema: proibido
Personagens:
Barão de Milhousen e Lourdes Marie: um casal decadence avec elegance.
(Barão de Milhousen e Lourdes Marie na sua rica mansão que se transformou em antiquário)
Barão de Milhousen: Lourdes Marie, meu amor. Tenho uma surpresa!
Lourdes Marie: Oh! Uma surpresa?
Barão de Milhousen: O móvel mais caro da nossa mansão foi vendido.
Lourdes Marie: Que maravilha!
Barão de Milhousen: Os compradores querem levar o móvel nesse instante. Preciso da ajuda de James.
Lourdes Marie: Perdemos James, querido! Ele nos deixou para sempre.
Barão de Milhousen: Não se pode confiar num capataz.
Lourdes Marie: James foi servido no jantar das bodas de prata de tia Noemy. Um finíssimo carpaccio.
Barão de Milhousen: É verdade. Nesse caso, creio que poderemos contar com Jerry, o jardineiro.
Lourdes Marie: Querido, Jerry se foi. Seus órgãos foram vendidos para pagar as dívidas do nosso cartão de crédito e o que sobrou foi doado para instituições de caridade.
Barão de Milhousen: Foi por uma boa causa. Nada como a filantropia.
Lourdes Marie: Nastácia, nossa governanta! Ela poderá ajudar. Tem ancas enormes.
Barão de Milhousen: Lourdes Marie, meu amor, carregar um móvel não é trabalho para uma mulher.
Lourdes Marie: Barão de Milhousen, meu amor. Não sei como dizer isso elegantemente, mas acredito que o nosso quadro de serviçais não está mais presente entre nós.
Barão de Milhousen: Não diga isso, Lourdes Marie.
Lourdes Marie: Eu não queria, sei que é proibido, mas devo dizer.
Barão de Milhousen: Não compreendo. Compramos lotes de serviçais nas nossas viagens pelo mundo: os pasteleiros da china, os cozinheiros tailandeses, os chefes franceses, as copeiras italianas, a governanta alemã e o quarteto carioca de seguranças.
Lourdes Marie: Meu amor, não restou nenhum serviçal. Só temos os móveis da nossa rica mansão que se transformou num luxuoso antiquário. (contém uma lágrima)
Barão de Milhousen: Céus! A crise é maior do que eu pensava.
Lourdes Marie: Que móvel foi vendido, meu amor?
Barão de Milhousen: Querida, temo dizer, pois era um dos seus móveis prediletos.
Lourdes Marie: Pode dizer, meu amor. Serei forte.
Barão de Milhousen: A espreguiçadeira que pertenceu à rainha Elizabeth.
Lourdes Marie: Não pode ser. Uma relíquia. Uma herança de família.
Barão de Milhousen: De fato um primor.
Lourdes Marie: Não tenho forças. Não conseguirei suportar a partida da espreguiçadeira.
Barão de Milhousen: Lourdes Marie, meu amor é preciso ser forte.
Lourdes Marie: Barão de Milhousen, meu encanto… sinto que já não posso.
Barão de Milhousen: Querida, olhe para o valor do cheque e sinta sua vida de volta.
(Barão de Milhousen e Lourdes Marieolham para o valor do cheque com cara de espanto. Começam a sorrir. Felizes e iluminados)
Lourdes Marie: Meu amor, aonde está a espreguiçadeira?
Barão de Milhousen: No segundo pavilhão à direita.
Lourdes Marie: Querido, sinto que poderemos carregar.
Barão de Milhousen: (retirando o blazer) Tenho mais força sem blazer.(pausa.retirando uma lata de patê do bolso do blazer) Lourdes Marie, meu amor, guardei para você.(entrega a lata)
Lourdes Marie: Nossa última lata de foie gras. Obrigada, meu amor.
Barão de Milhousen: De nada, querida. Sinto meus músculos pulsando. Vamos carregar a espreguiçadeira.
Lourdes Marie: Faço tudo por você, querido.
Barão de Milhousen: Lourdes Marie, meu amor, minha vida.
Lourdes Marie: Meu amor, sinto-me capaz de tudo… Eu adotaria uma criança do Camboja.
Barão de Milhousen: Lourdes Marie, meu amor, tudo o que você quiser. Sobre a criança falaremos mais tarde. Avante, querida. A espreguiçadeira nos espera.
Lourdes Marie: Vamos, meu amor.
fim
É proibido proibir!
Da série Estou com preguiça da classe teatral.
Crítico – Lí o seu texto.
Autor – Então?
Crítico – Não gostei.
Autor – Por quê?
Crítico – Achei sem profundidade. Pincela o tema, mas não desenvolve. Você escreveu mais uma comédia só para o povo rir.
Autor – E qual o problema do povo rir?
Crítico – Teatro não é entretenimento fácil.
Autor – E teatro é o quê?
Crítico – Teatro é arte.
Autor – Por que será que ninguém está interessado em ver essa arte? Será que não ficou chato demais? Inteligente demais?
Crítico – Está fácil demais.
Autor – Eu estou com preguiça para o teatro.
Crítico – E o povo também.
Autor – Eu odeio quando você se refere ao povo como se não fizesse parte dele.
Crítico – Eu não gostaria que você montasse esse texto. Por mim, está proibido. Como falei, ele repete mais um monte de clichês desnecessários.
Autor – Eu considero os clichês necessários.
Crítico – Você poderia discutí-los com mais profundidade.
Autor – Mas não cabe neste formato. É um espetáculo escrito em quadros com 10 minutos cada. É da própria natureza da forma pincelar mais que aprofundar.
Crítico – Então escreva algo maior. Opte por um formato que permita discutir as questões apontadas. Você disse que era um texto sobre a morte.
Autor – É um texto sobre a morte.
Crítico – É superficial. Não aponta nada novo. Você quer escrever algo como Cócegas?
Autor – Eu adoraria ver o teatro cheio de novo.
Crítico – Então abra todas as concessões para isso e escreva algo ruim.
Autor – Você está sendo preconceituoso.
Crítico – Seu texto é um besteirol dos anos 80.
Autor – Impossível. Eu tinha acabado de nascer nos anos 80. O texto que eu escrevi pode ser, no mínimo, um besteirol do novo século. Olha, ficou até importante: “um besteirol do novo século”.
Crítico – E você está satisfeito em escrever besteirol? Um teatro que só fez mal para o Rio de Janeiro?
Autor – O besteirol fez muito bem para a cidade. E nasceu justamente após a censura. Surgiu como algo despretensioso e que nos deu grandes “artistas”, já que você gosta tanto dessa palavra.
Crítico – Não existe dramaturgia no besteirol.
Autor – O Mauro Rasi nasceu do besteirol.
Crítico – Mas ele amadureceu.
Autor – Amadureceu e não deixou de ser popular. Bom, eu sou fã do Mauro e não gostaria que você falasse mal dele.
Crítico – Voltando ao seu texto… você escreveu algo superficial. Um monte de piadas soltas que não transformam o público.
Autor – Eu não entendo muito bem quando você diz em transformar…
Crítico – O público sair diferente de como chegou. Mexer com ele por dentro. Gerar algum pensamento crítico sobre o que está assistindo no palco.
Autor – Você não acha que o riso faz isso?
Crítico – Pode fazer.
Autor – Então…
Crítico – Mas o que você escreveu não faz.
Autor – Como é que você pode afirmar?
Crítico – Porque repete fórmulas que já existem e que não mudam ninguém.
Autor – Eu discordo. E acredito no que escrevo. O meu trabalho não repete fórmulas simplesmente porque eu sou muito sincero naquilo que escrevo. E, sinceramente, desta vez eu quis escrever um texto engraçado. Eu não quero escrever cenas pesadas sobre a morte… o formato que escolhi não permite isso.
Crítico – Mude o formato.
Autor – Em nome de quê?
Crítico – Da inteligência do público.
Autor – Um público que ri é inteligente.
Crítico – Nem sempre.
Autor – Para rir é preciso ser racional e estar num posição crítica.
Crítico – O povo ri de qualquer coisa. De palavrão, por exemplo. Comece o espetáculo mandando o público tomar no cu e receberá muitas gargalhadas.
Autor – Isso é cultural.
Crítico – É um péssimo hábito dos cariocas, da falta de cultura. Se você quiser compactuar com isso e contribuir para o humor raso, é uma responsabilidade sua.
Autor – Eu confio no meu trabalho. Não sou oportunista e nem mal caráter com a minha dramaturgia. Meus propósitos são verdadeiros.
Crítico – É, mas o que você escreveu não é bom.
Autor – Eu considero honesto.
Crítico – Lote os teatros a todo custo.
Autor – Se você é tão genial e inteligente, porque não escreve algo em meu lugar?
Crítico – Não sou dramaturgo.
Autor – É que você fala com tanta propriedade do assunto que eu tenho a impressão que você só escreveu obras-primas…
Crítico – Eu sou teórico. Eu estudo e analiso a dramaturgia.
Autor – Você poderia ler menos, ir menos ao teatro e conversar mais com as pessoas nas ruas. Apenas para lembrar que é “povo” também…
Crítico – Tudo o que eu falei é para o seu bem. Você é talentoso e pode escrever coisas interessantes. Mas não gostei deste texto… também não gosto do nome da peça.
Autor – Eu não abro mão do nome da peça.
Crítico – Vou te indicar um livro que fala sobre a morte no ocidente…
Autor – Não, não. Obrigado. Eu não quero escrever um tratado sobre a morte.
Crítico – Insiste na intuição? A pesquisa só vai acrescentar.
Autor – Eu gostaria apenas que você entendesse que cada texto é escrito dentro de alguns propósitos que delimitam, mais ou menos, o nível de pesquisa e de intuição. Para alguns trabalhos a pesquisa é fundamental, para outros não.
Crítico – A pesquisa é sempre fundamental.
Autor – Eu discordo.
Crítico – Você não tem experiência e é muito novo para discordar.
Autor – Eu acho que você poderia escrever algo melhor no meu lugar para eu entender na prática sobre o que você está falando…
Crítico – Não estou interessado no seu projeto e não gostaria que ele fosse montado aqui dentro.
Autor – Você vai proibí-lo?
Crítico – Vou apenas desaconcelhá-lo para a direção.
Autor – Que pena… vamos perder uma ótima oportunidade de fazer um espetáculo divertido e – ao contrário do que você pensa – engraçado e inteligente.
Crítico – Teatro não é entretenimento.
Autor – Por isso ficou tão chato.
Crítico – Eu não acho o teatro chato.
Autor – Não estou falando do teatro, estou falando de você. Por isso você ficou tão chato. Pela falta de entretenimento…
Crítico – A TV está repleta disso tudo… e eu não gosto.
Autor – Ok, vamos embora que o assunto desgastou.
Crítico – Você não suporta uma discussão.
Autor – Eu não suporto os excessos.
Crítico – Pense em tudo que eu comentei sobre o texto.
Autor – Vou pensar…
Crítico – Escrever sobre teatro cansa mesmo.
Autor – A única coisa que cansa é escrever para ninguém assistir. Ou escrever para gente cansada, o que é pior ainda.
Crítico – Leia.
Autor – Ria.
(…)
ps. blá-blá-blá!
Festa estranha com gente esquisita
Personagens:
Kid: Agora apresentadora de tv.
Muriel: Linda e sorridente.
Equipe de tv.
Convidados da festa.
(festa tipo piano bar. Um garçom servindo canapés. Todos com traje de gala. Kid Bauhaus tentando achar um lugar pra apagar seu cigarro. Avista Muriel.)
Kid: Olá.
Muriel: Olá.
Kid: Posso te entrevistar?
Muriel: Revista?
Kid: Tv aberta.
Muriel: Claro.
Kid: Vai ser rápido, tá? Eu vou fazer umas pergutinhas, você me responde e pronto acabou.
Muriel: Tá.
Kid: Você fuma?
Muriel: Já começou?
Kid: Você está vendo a câmera ligada?
Muriel: Não.
Kid: Então como é que já poderia ter começado?
Muriel: Desculpe.
Kid: Você fuma?
Muriel:(interessada) O que?
Kid: Cigarro.
Muriel: Não…
Kid: (num suspiro, para si mesma) Ai que saco… Onde é que eu jogo essa merda?
Muriel: A Vanuza diz que quando não sabemos onde enfiar o caroço da azeitona, é melhor engolir. Por que você não faz o mesmo com seu cigarro? (sorri)
Kid: Acho que prefiro enfiar noutro lugar…
Voz: Vai entrar no ar em 5, 4,3,2,1 e…
Kid: (animadíssima ao microfone, pisando no cigarro) Boa noite!!! Aqui é Kid Bauhaus , invadindo mais uma festa da alta sociedade, cheia, muito, muito, muito cheia de gente beeeeeem interessante. Estamos aqui com ela: maravilhosa. Que está dando pinta horrores com seu lindo rabo de peixe cintilante. Quem fez esse seu vestido, meu amor?
Muriel: Esse vestido é da coleção do Daren Chandler, inédita por aqui. E que por acaso eu…
Kid: Que maravilha! Ela arrasa muito! Mas diz aí, o que você anda fazendo?
Muriel: Várias coisas. Eu tenho um projeto de…
Kid: Projetos! Ela é arquiteta! Maravilhosa!
Muriel: Não, na verdade eu sou ex-modelo e semana que vem…
Kid: Semana que vem tá muito longe, meu amor! O imediatismo contemporâneo faz com que o amanhã seja uma possibilidade distante e abstrata!
Muriel: (puxa o foco) Estarei lançando o meu livro amanhã!
Kid: Seu livro é sobre o que exatamente?
Muriel: Ah, não vou contar, senão estraga a surpresa.
Kid: Conta!
Muriel: Melhor não…
Kid: Conta! Conta! Conta!
Muriel: Não.
Kid: Olha! Ela é muuuuuito misteriosa.
( Muriel sorri débil)
Kid: Vou fazer um bate bola, tá. (para a câmera) Bate bola _ pra você que não sabe do que se trata_ é um joguinho de perguntas e respostas breves. Um ping pong. Um tete a tete. Um lupa lupa. Um dimi dimi. Um papo reto. Vamos lá! (para Muriel) Uma mulher elegante.
Muriel: A primeira dama.
Kid: Um pecado capital.
Muriel: Gula! (sorri débil)
Kid: Um tom de vermelho.
Muriel: Bordô.
Kid: Um sabor.
Muriel: Carambola.
Kid: Uma paisagem.
Muriel: Todas de Monet.
Kid: Você posaria nua?
Muriel: Depende das circunstâncias.
Kid: Você mataria por amor?
Muriel: Idem.
Kid: É proibido proibir?
Muriel: O que exatamente?
Kid: As coisas todas…
Muriel: Ah… Depende…
Kid: Do Sunda?
Muriel: Que Sunda?
Kid: Aquele que comeu a sua bunda! (cai na gargalhada) Aiaiaiaiaiiaaiaiaiai desculpa! Sacanagem! Ai gente… Não resisto!
(Muriel sorriso amarelo)
Kid: Mas, continuando: Você levaria o que para uma ilha deserta?
Muriel: Hidratante.
Kid: Você foi pra Disney quando fez quinze anos?
Muriel: Sim.
Kid: Você teria um caso com o marido de sua melhor amiga?
Muriel: Não.
Kid: Você foi convidada pra essa festa?
Muriel: (ri)
Kid: Estou falando sério.
(tempo. Constrangimento de Muriel.)
Muriel: Mas é claro.
Kid: Deixa de ser mentirosinha.
Muriel: Não estou mentindo. Eu fui convidada.
Kid: Ok, não vou discutir. Olhe para a minha câmera e deixe um recado para o aniversariante.
Muriel: (se alinha. Sorri) Eu te desejo tudo de bom, que a sua estrela brilhe cada vez mais! Uma pessoa iluminada como você, merece só o que há de bom nessa vida. Saúde e paz! Sempre! Beijo! (manda beijinho)
Kid: Você é muito amiga do Aurélio.
Muriel: Admiro muito o trabalho dele.
Kid: Pena que hoje não é aniversário dele. Isso é uma colação de grau.
Muriel: (desconcertada) Mas eu achei que fosse o aniversário do Aurélio.
Kid: Falsa! Aurélio foi um nome que acabei de inventar.
Muriel: Deve estar havendo algum engano.
Kid: O engano aqui é você, minha filha! Está sendo desmascarada para todo o país! Chacota nacional! Pagadora de mico com carteira assinada.
Muriel: Eu vou processar vocês!
Kid: Isso, se descontrola mesmo! Faz barraco na festa alheia.
Muriel: Tudo bem, eu não fui convidada, mas e daí? Estou muito bem comportada e abrilhantando essa colação de grau.
Kid: (para a câmera) Senhores telespectadores, vejam até que ponto alguém pode chegar. Ela jura que abrilhanta uma colação de grau, está tão preocupada consigo mesma, incapaz de perceber o outro e nem repara que isso aqui é um casamento. Olha lá a noiva, sua estúpida.
Muriel: (descontrolada) Por que você está fazendo isso comigo?
Kid: Porque pessoas como você, que se alimentam do coquetel de terceiros, pra se promover, merecem a gongada da humilhação. Que entre o gongo! (Kid puxa um gongo e bate nele).
Muriel: Já chega! Isso aqui já está demais. Amanhã, meus advogados entraram em contato com os seus.
Kid: Espere Muriel!
Muriel: Me larga! Sua escrota! Você quer o que , héin? Quer ganhar ibope nesse seu programa canalha, fudendo a vida dos outros? Acha mesmo interessante fazer seus entrevistados de palhaço? Por quê? Deixa de ser ridícula e vai caçar o que fazer!
Kid: Muriel…
Muriel: Eu já disse pra me largar!
Kid: Ninguém está te segurando.
Muriel: Me larga!
Kid: (tentando manter a ordem) Olha o escândalo…
Muriel: Estou cagando! Ouviu? Cagando!!! Estou Envelhecendo dez anos em dez semanas. Comendo essa bosta sem gosto, mastigando, engolindo e achando tudo ótimo. Sorrindo o tempo todo, tentando encontrar uma merda de justificativa que amenize essa falta de perspectiva, tudo pra não acordar num domingo fudido e meter uma bala na cabeça ou se jogar do décimo quinto andar. Tudo pra não pensar que o que eu fiz ou deixei de fazer, não faz a mínima diferença pra ninguém e muito menos pra mim mesma. Tudo pra tentar encontrar uma chance, mesma que pequena, pra continuar mantendo a coluna ereta e o sorriso esticado, e esquecer por um segundo a inexistência e o vazio que se abriu dentro de mim. Existe um esgoto em minha alma. E dentro dele, ratos. Eles me roem todas as noites. Não sei até quando mais posso agüentar.
(tempo)
Kid: Muriel…
Muriel: (Num fiapo de voz) Dá um tempo…
Kid: E se eu te dissesse que tudo isso não passou de uma pegadinha, você acreditaria? (Kid grita animadamente, todos da festa olham sorrindo.) Se eu dissesse que na verdade essa é a festa surpresa do seu aniversário, você acreditaria? Parabéns pra você Muriel!!!!
(toda festa cantando parabéns pra Muriel)
Muriel: (emocionadíssima) Eu… Eu não esperava…
Kid: Olha o bolo com sua mãe!!!!
( a mãe de Muriel com um bolo na mão)
(Muriel chorando, é aplaudida por todos e ela vai abraçar sua mãe)
(muita emoção)
Kid: (para as câmeras, tom Discovery, qua
se num sussurro) O bicho homem realmente me assusta cada vez mais, queridos telespectadores. Acabamos de registrar mais uma manifestação social de um refinamento torpe e maquiavélico. E se eu dissesse pra vocês,daí de casa, que aquela mulher NÃO é a mãe dela e sim uma charlatã que se aproveitou do momento pra também aparecer na tv, vocês acreditariam? E se eu te dissesse que essa festa é uma grande farsa, pois ninguém de fato, sabe o que está fazendo aqui e por isso não se surpreendem com mais nada, você acreditaria? E se eu te dissesse que essas pessoas lançam livros, fazem show, apresentam programas, e ainda se submetem a ficar com roupas de banho pegando sabonetes em banheiras ao lado de modelos seminuas, você acreditaria? Marie Clair: Chique é ser inteligente. Tem coisas que só a Philco faz por você. Imagem não é nada, sede é tudo. Para todas as outras coisas existe: Master Card! Voltamos logo após os proclames do plim plim.
Fim
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo