2 em 1
Ana: Vô, que história é essa do senhor ser prostituto?
Avô: Então você já soube…
Ana: Então é verdade…
Avô: Preconceito?
Ana: Vergonha!
Avô: Sou dono do meu nariz!
Ana: Um homem velho se prestando a esse papel! Cadê a vergonha na cara?
Avô: Saiba você que tenho muitos motivos!
Ana: O senhor perdeu a cabeça? Respeite a memória da Vovó!
Avô: Sua avó morreu faz tempo! Nessa hora não tem nem farelo do osso.
Ana: Interno o senhor no asilo! Digo que está maluco! Confisco seus bens!
Avô: Qual é o problema de eu estar me prostituindo? Não faço nada de mal com ninguém… As clientes gostam. Sou um diferencial no mercado!
Ana: Pára! Estou ficando enjoada com tudo isso…
Avô: Mas saiba você que foi com a grana da minha prostituição que paguei a festa do seu casamento!
Ana: Não repita isso!
Avô: Casou com dinheiro do puto!
Ana: Não quero ouvir!
Avô: Entrou na igreja às custas do meu suor na cama de terceiros!!!!
Ana: Um homem velho!
Avô: Casou graças ao mercado da carne!
Ana: Cala boca!!!! Cala boca!!!
Avô: Seu avô é um garanhão putanheiro!!!!
(Ana sente fortes dores no peito)
Avô: Ana! Ana!
Ana: (ferida por um ataque cardíaco) Olha o que você fez, velho…
Avô: (com a neta no colo) Ana! Respira, Ana! Vou procurar ajuda!
Ana: Velho!!! Você me matou…
Avô: Cadê o telefone…?
Ana: Velho maldito…! Prostituto!
Avô: (ao pé do ouvido da neta) Pode deixar, querida… Eu pago o seu enterro com o dinheiro da minha putaria.
(Ana Morre com esse pavor)
Prostituindo a solidão
Trecho da peça “Os Estonianos”
LÍVIA DE PERUCA, CARACTERIZADA COMO PROSTITUTA, ENTRA NA CASA DE PEDRO.
Lívia – Pedro, né?
Pedro – Suelen, né?
Lívia- É.
PAUSA.
Pedro – Quer beber alguma coisa?
Lívia – Pode ser.
Pedro – O quê?
Lívia – Alguma coisa.
Pedro – Tá.
Pedro – Aqui.
Lívia – Obrigada.
SILÊNCIO.
Lívia – Eu trouxe uma música e… posso colocar?
Pedro – Ótimo. Música é bom. Legal mesmo.
LÍVIA COMEÇA A DANÇAR, MAS ESBARRA NUM MÓVEL E PEDE PRA COMEÇAR DE NOVO.
Lívia- Ah! Posso começar de novo?
LÍVIA REPETA A COREOGRAFIA E COMEÇA UM STREAP-TEASE. SE ATRAPALHA E PEDE AJUDA A PEDRO. PEDRO COMEÇA A RIR.
Lívia – O que foi? Não está bom?
Pedro – Não, tá ótimo, muito bom. Muito. É só que… eu… eu não sou desses caras que… entende?
Lívia – Não.
Pedro – Eu não faço isso. Mesmo. Na verdade eu estava olhando o jornal e pensei que talvez se eu fizesse quem sabe me acostumaria fazendo. E poderia ser divertido fazer parte dessa coisa tradicional. Fazendo parte de alguma coisa tão… desculpa. Olha Suzana.
Lívia – Meu nome não é Suzana.
Pedro – Ah, é! Suelen, né?
Lívia – Não.
Pedro – Samantha?
LIVIA TIRA A PERUCA E SENTA AO LADO DE PEDRO.
Lívia – Olha, desculpa, você deve ter rido porque eu não sei fazer direito, fiquei treinando em casa e…
Pedro – Não! Você foi ótima. Eu é que não estou acostumado.
Lívia – Nem eu.
Pedro – Não?
Lívia – Eu nunca fiz isso.
Pedro – Não?
Lívia – É. Nunca, mas é que eu estava me sentindo meio sozinha e… pensei que.. talvez… É que acho que uma pessoa que liga para esse tipo de serviço é tão solitária…tão.. E eu achei que se tivesse perto de alguém assim… eu talvez esquecesse da minha…
PEDRO FICA REPARANDO LÍVIA COMO SE A RECONHECESSE E LÍVIA SE SENTE DESCONFORTÁVEL COM O SEU OLHAR.
Pedro – Lívia?
Lívia – (Estranhando) É.
Pedro – Seu nome é Lívia?
LIVIA OLHA PEDRO E O RECONHECE
Lívia – Você… é… naquela festa…
OS DOIS CAEM NA GARGALHADA.
Pedro – Meu Deus! Realmente você tinha razão no que me disse na festa.
Lívia – O quê?
Pedro – Que você não é previsível.
OS DOIS VOLTAM A RIR. SILÊNCIO.
Lívia – Você se lembra do que eu disse?
Pedro – Eu passei três noites sonhando com aquele beijo.
Lívia – A gente não se beijou.
Pedro – Claro. Por isso que eu fiquei sonhando.
Lívia – Entendi.
Pedro – Por que você…
Lívia – O quê?
Pedro – Você…
Lívia – Você ainda não me disse o seu nome.
Pedro – Pedro.
Lívia – (repetindo para si.) Pedro… é… os Pedros têm um rosto assim redondo como o seu…
PEDRO RI.
SILÊNCIO.
Lívia – Você…
Pedro – O quê?
Lívia – Você tinha um beta.
Pedro – Tinha.
Lívia – Morreu?
Pedro – Não, foi dar uma volta. Muito só.
Lívia – Nunca entendi porque os peixes morrem.
Pedro – Esse morreu de tanto brigar com ele mesmo.
SILÊNCIO.
Pedro – Posso colocar uma música?
Lívia – Melhor não.
Pedro – Tá.
SILÊNCIO. LIVIA ESBOÇA UM CHORO.
Pedro – Olha, não chora. Tá tudo bem.
Lívia – Não estou.
Pedro – Pensei.
Lívia – Tentando. (pausa) Queria muito.
Pedro – Você fez uma cara triste.
Lívia – Quando era triste, era bom.
PAUSA
Pedro – Eu sei exatamente o que você está sentindo agora.
Lívia – Eu não vou te dar um beijo.
Pedro – Eu não quero um beijo.
OS DOIS SE APROXIMAM PARA UM BEIJO. BLACK OUT.
Cris
(Cris, linda, sensual, provocante toca a campainha. Atende Pedro.)
Cris: Oi. Pedro?
Pedro: Cris?
Cris: Oi.
Pedro: Entra.
(ela entra. Pedro fica impressionado com a sua beleza)
Pedro: Eu não sabia que você era tão…
Cris: Bonita?
Pedro: É… linda… É que a foto.
Cris: Eu sei. Não é o meu melhor ângulo. (ele ri) Faço de propósito. Para ninguém criar muita espectativa.
Pedro: Sei. Para superarem as espectativas.
Cris: Se você acha…
Pedro: Mas desculpa. Você bebe alguma coisa?
Cris: Uique. Sem gelo.
Pedro: Puxa. Desculpa, eu não tenho Uique.
Cris: Que pena. Você se importa se eu fumar?
Pedro: Não. Imagina. A minha esposa também fuma.
Cris: Esposa?
Pedro: É. Eu sou casado… Mas eu tenho cachaça. Uma cachaça mineira. Excelente. Aceita?
Cris: Deixa pra lá. Posso colocar uma música?
Pedro: Uma música? Claro. Pode escolher. Eu tenho muitas músicas.
Cris: Pode ser um Blues?
Pedro: Blues?
Cris: É mais sexy.
Pedro (nervoso): Mais ainda? Claro! Eu tenho muitos. Você gosta de Robert Cray?
Cris: Não conheço. Mas confio em você.
(Ele coloca a música “Angel of Mercy” de Robert Cray)
Cris: Assim, é bem melhor.
Pedro: Com certeza.
Cris: Assim eu me solto mais.
Pedro: Puxa… Que legal.
Cris: Você prefere aqui ou no quarto?
Pedro: O quê?
Cris: Como “o quê”? Você não me chamou aqui pra me oferecer uma cachaça mineira, né?
Pedro (rindo nervosamente): Claro que não. Imagina. Como você é engraçada. É que… Sabe? É a primeira vez que eu faço isso.
Cris (já tirando a blusa): Sei… Tadinho… Nunca traiu a esposa.
Pedro: Nunca. Nunca eu sempre fui fiel.
Cris (já sem camisa, só de sutiã): Sei… E onde ela tá agora?
Pedro : Ela… ela tá… tá… tá…. na casa da mãe. Em Teresópolis.
Cris: Teresópolis é bem longe.
Pedro: É. É bem longe.
Cris: Gosta do meu corpo?
Pedro: Seu corpo é lindo!
Cris: Eu quero ver o seu.
Pedro: Eu não posso dizer o mesmo do meu… (ela começa a tirar a calça dele) Ah, meu Deus amado!!!
Cris: Acho que esse sofá é ideal…
Pedro: Me beija, me beija, me beija….
(Eles transam no sofá. De várias maneiras, várias posições, várias formas. Pedro se libera como nunca se liberou com alguém. Cris parece a Deusa magnânima do amor. Sabe onde tocá-lo, sabe se mexer como ninguém. Passam a noite inteira assim. Cris acorda primeiro, se veste com calma e finalmente acorda Pedro.)
Cris: Gatinho?
Pedro (ainda acordando): Oi?
Cris: Bom dia. Estou indo. Eu tenho outro cliente daqui há meia hora. A grana.
Pedro (entendo): Ah! Pode pegar. Tá em cima da geladeira.
(Ela vai até a geladeira e pega a grana e vai saindo)
Pedro: Cris?
Cris: Oi.
Pedro: Foi demais.
(ela ri)
Cris: Me liga quando precisar. (sai)
(Pedro se recompõe. Começa a arrumar a sala. Após um tempo toca a campainha. Ele vai atender. É a sua mulher, Roberta. Ela está vestida de camisola. Ele se olham. Grande silêncio.)
Roberta: Gostou?
Pedro: Amor!!! Foi demais. A gente tem que fazer mais isso.
Roberta: Achou que Cris foi um nome excitante?
Pedro: Excitante? Foi tudo excitante. E essa roupa. Onde você conseguiu essa roupa?
Roberta: Comprei na sexy shop.
Pedro: Arrasou! Essa foi a melhor idéia que a gente teve nesse tempo todo. Adorei a história do outro cliente…
Roberta (ri): E você tão nervoso… Parecia que nunca tinha me visto.
Pedro: Desse jeito não tinha visto mesmo!
Roberta: Só porque tava me traindo comigo mesma…
Pedro: Putz! Genial… E naquela hora que você tirou a blusa dançando e…
(eles começam a conversar lembrando da intensa noite de amor)
FIM
Uma Dama das Camélias ou Bastidores ou Sale me
PERSONAGENS:
• Armand – Ator. Finge ser afetado e sofisticado, mas na verdade adora o submundo; serial killer de prostitutas, ex-príncipe de baile de debutantes. Cliente antigo de Daisy, não consegue esquecê-la.
• Daisy – Ex-prostituta, sempre quis ser atriz. Acaba de estrear no glorioso papel de Marguerite Gauthier a peça A Dama das Camélias.
Daisy e Armand foram amantes no passado.
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(Contra-luz. Daisy tosse muito nos braços de Armand. Tosse mais fecha os olhos e morre. Armand grita: Nãaaaaaaaaaaaaao. Black out. Luz abre ouvimos sons de aplausos gravados. Daisy e Armand agradecem. Eles estavam encenando a cena final da peça A Dama das Camélias. Mudança de luz. A Ação acontece no camarim do teatro após a estréia da peça A Dama das Camélias com Daisy no papel principal)
Armand – Aonde você vai?
Daisy – Vou pra casa.
Armand – Eu estou com uma dúvida na cena da tosse. A gente pode repetir?
Daisy – É rápido?
Armand – É.
(Daisy e Armand refazem o fragmento da cena anterior. Armand tenta estrangular Daisy durante a cena. Armand aperta o pescoço de Daisy. Ouvimos o gemido de Daisy buscando ar)
Armand – Dói? (aperta o pescoço de Daisy novamente. Ouvimos o gemido de Daisy buscando ar) Machuca? (Tenta repetir o gesto e Daisy pára a ação.)
Daisy – (saindo) Você está me machucando!
Armand – Aonde você vai?
Daisy – Vou pra casa.
Armand – Não vai comemorar a sua grande estréia? (pausa) Engraçado, eu sei que eu conheço você de algum lugar…
Daisy – Acho que não.
Armand – Quer jantar comigo?
Daisy – Estou sem fome.
Armand – Nem mesmo um brinde à sua estréia?
Daisy – Estou cansada, quero ir para casa.
Armand – Posso acompanhá-la?
Daisy – Melhor não.
Armand – (ri, pausa, sedutor) Dorme comigo?!
(Daisy em silêncio).
Armand – Dorme comigo!
Daisy – (olha para ele, sorri insinuante) Hoje, não.
Armand – E se eu lhe contasse que já passei noites e noites debaixo de sua janela, que há seis meses guardo um botãozinho perdido de sua luva… Eu sonho com você…
Daisy – (debocha à la século XIX) Oh, Armand!
Armand – Dorme comigo!…
Daisy (irritada) – Já disse que não!
Armand – Eu pago!
Daisy – O quê?
Armand – Eu pago!
Daisy (ares de ofendida, irritada. PAUSA. Encara-o soberba) – Quanto?
Armand – Mil reais.
Daisy – (ri debochada) É pouco.
Armand – Dez mil reais!
Daisy – (aborrecida) O que você está pensando que eu sou?
Armand – O que você é eu já sei, o que nós estamos negociando, agora, é o preço.
(Daisy vai dar um tapa nele, mas ele segura o seu braço).
Armand – (segurando-a com força) Olha para mim! Eu sei quem você é, Margarida!
Daisy – Do que você está falando?
Armand – (imitando-a) A Dama das Camélias é o papel dos meus sonhos. Margarida, a prostituta.
Daisy – (ri provocadora, retira um recorte de jornal da roupa e lê) Encontrada mais uma prostituta morta! Várias prostitutas já foram assassinadas. A polícia suspeita que se trata de um serial Killer.(ri) Tão misterioso! Cliente preferencial das cortesãs sem pudor, sem coração, e sem espírito. Amante de todas as bêbedas decaídas.(ri)
Armand – (tentando disfarçar) Não compreendo!?
Daisy – Se você encostar um dedo em mim, eu ligo para a polícia agora!
Armand – Muito bem! O que você quer que eu faça?
Daisy – Quero que você me trate com respeito! Vá embora!
(Armand faz um cumprimento e sai)
Daisy – Armand!
Armand – A senhora me chamou?
Daisy – Preciso falar com você.
Armand – Fale estou ouvindo. Vai pedir desculpas?
Daisy – Não se trata disso. Peço que não toque no passado.
Armand – Tem razão, é vergonhoso demais para a senhora.
Daisy – Em nome do nosso antigo amor, pelo bem da sua vida esqueça até o meu nome se puder.
Armand – Pelo bem da minha vida… Por acaso pensou na minha vida quando me escreveu: ”Armand, esqueça de mim, sou amante de outros homens?” (pausa) Por que você se entregou a eles?
Daisy – Não posso responder.
Armand – Pois bem! Então eu vou dizer! Entregou-se a outros homens, porque é uma mulher sem lealdade e sem coração, porque o seu coração pertence a quem paga melhor.
Daisy – (com a voz embargada) Sou uma criatura infame, desprezível, que não o amava, e que o enganou! (rindo) Você se lembra como você conheceu minha profissão? Eu me lembro tão bem daquela noite…
(Luz de Flash-back casa noturna onde Daisy faz Strip-Tease. Um apresentador anuncia Daisy. Música, Daisy dubla trecho da ópera La Traviata (link da ária: http://www.youtube.com/watch?v=I4cSVnqGmOc. O trecho que deve ser utilizado começa aos 2 minutos e 40 segundos. Fim do trecho da ária. Início da música Tainted Love (Link da música: http://www.youtube.com/watch?v=WpDdrxNwW5g. Versão de Marilyn Manson). Daisy começa seu show devagar.(Obs da autora: a atriz poderá jogar acessórios para platéia – luva, lenço, não precisa necessariamente se despir) intensidade da música aumenta. Armand se aborrece com Daisy e pára o show).
Armand – Pare o show! Chega! Chega! (xinga) Sua puta decaída! (sacode Daisy) Pensou que isso ficaria assim? Que poderia despedaçar o meu coração, sem dar satisfação nenhuma? Isso nunca! Desconheço o preço do seu amor, mas sei o valor da minha vingança. (para a platéia) Senhores, estão vendo essa mulher? Essa mulher vende amor! Senhores, pode vender amor aquela que não tem coração? Aqui está, diante de todos a amante dos bêbados, dos que choram e rogam seu amor, essa mulher pertence a quem paga melhor. Senhores, eu fui seu cliente e me portei como um canalha, não lhe dei nada em troca. Todos aqui são testemunhas: paguei essa mulher, não lhe devo mais nada. (Atira notas de dinheiro em Daisy. Armand vai sair e volta. Dá um tapa em Daisy)
Daisy – (Daisy coloca as mãos no rosto. Olha para baixo. Calmamente recolhe as notas de dinheiro. Pega uma nota de valor alto e sorri para a platéia) Eis o início de uma bela amizade!
FIM
Antonia
Quando a Beth me ligou falando que tinha um trabalho pra mim na quinta, eu disse:
- Mas eu já tenho um compromisso marcado. Uma festa com mais duas meninas.
Ela insistiu.
- Olha, é uma emergência. Quem indicou você foi o François, ele quer alguém de confiança. Você não vai se arrepender. Coisa fina.
François, apesar do nome, era um alemão de uns 60 anos, que eu conheci na praia, em Copa. Eu ainda tentei argumentar.
- E a festa como é que eu faço?
Ela nem me ouviu:
- Meu bem, eu preciso de você na quinta, de qualquer jeito. Não dá pra fazer desfeita.
Eu ri. Nunca tinham usado aquele termo comigo: Desfeita. Me senti importante. Mas a Beth só me convenceu mesmo quando disse:
- Eu ia chamar a Patricia B. Conhece a Patricia? Mas ela ta com catapora. Imagina, depois de adulta pegar catapora? Eu falei pra ela, nem pense em chegar perto. Suma e só me apareça aqui quando não tiver mais nenhuma marquinha. Nenhuma!
Eu conhecia a Patricia. De nome. De vista. Metiiiida. Mas tinha ótima reputação, muito profissional. Muito requisitada. E linda. Patricia B era um escândalo de linda. Fiquei até envaidecida por ter sido lembrada, mesmo que de última hora, para substituí-la. Será que a catapora vai deixar marcas? Pelo menos uma marquinha naquele rosto liiiindo?
Quinta feira. 05 de maio. 20:00h. O interfone tocou pontualmente. Dei uma última olhada no espelho, estava um pouco insegura quanto ao vestido, o cabelo. Caprichei no salto alto. Desci e, em frente à portaria do meu prédio, um carrão importado enorme estava à minha espera. Vidros escuros, muito escuros. O motorista saiu do carro e abriu a porta de trás para eu entrar. Agradeci educadamente. No caminho só me lembrava da Beth falando:
- Imagino que você saiba como se portar, meu bem: Não se vista de forma vulgar, não use muito perfume, não use muita maquiagem, não dê opiniões no jantar, não beba em excesso e… sorria. Sorria, meu bem. É o que ele espera de você.
O carrão entrou num condomínio de luxo. Muro altíssimo. Guarita. O portão de ferro abriu automaticamente. O motorista parou em frente à entrada principal da mansão, desceu do carro, abriu a porta, não a de trás, mas a do carona, e ele entrou. Sem se virar, me olhando pelo espelho retrovisor, disse remexendo nuns papéis.
- Boa noite.
- Boa noite.
- Qual o seu nome?
- Antonia.
- Muito prazer, Antonia. Eu sou o Heitor. Espero que a gente tenha uma noite agradável. Espero. Mas vou logo avisando: esses jantares, geralmente, são muito chatos.
Ele estava certo o jantar foi chatérrimo. Conversa sobre negócios. Negócios passados, negócios presentes e futuros. Parecia que uma década inteira, de negócios, tinha sido decidida ali naquela mesa de jantar. Mas sabe que eu gostei? O restaurante era muito chique. As pessoas eram muito chiques. Até o garçom era chique. A decoração? Chique. Uns lustres gigantes pendiam do teto com não sei quantas lâmpadas. A conta de luz daquele restaurante devia ser um absurdo. Quanto a mim, cumpri meu papel com dignidade. De vez em quando eu sorria e, vez por outra eu… sorria também. Minto, falei ao garçom chique umas duas ou três vezes:
- Obrigada. Obrigada. Obrigada.
Heitor não se dirigiu a mim a noite inteira a não ser para perguntar que prato eu gostaria de pedir e o que eu gostaria de beber. Muito educado. Fiz um unidunitê mentalmente e acabei comendo um peixe apimentado. O vinho, que eu pedi para ele escolher, até que era bom. Bem bom. O melhor vinho que eu já tinha bebido na vida. Por falta do que fazer e para me desviar do senhor careca sentado à minha frente que estava me comendo com os olhos, acabei bebendo um pouco mais do que devia. Mas não dei vexame, juro. Dou minha palavra. Estava alegre. Feliz, orgulhosa de mim mesma. Afinal, um upgrade na carreira. Minha estréia nas altas rodas.
O jantar acabou às 23:30h. Saímos do restaurante. Paulo, o motorista que depois acabou virando meu chapa, estava à nossa espera. Abriu a porta do carrão, eu entrei. Desta vez Heitor não foi na frente. Sentou-se ao meu lado, no banco de trás. Ele não era bonito, mas também não era feio. O tipo de homem que me agradava. Um homem sem hesitações. Bem vestido, sabia como usar um cartão de crédito, como preencher um cheque com elegância. Deixava claro quem pagava as contas. Heitor era um charme. Imaginei que iríamos para algum lugar, um apartamento, um hotel. Ele disse ao motorista.
- Vamos dar uma volta.
Paulo pareceu entender o que significava aquela frase.
- Sim senhor.
Ligou o som bem alto, aumentou o ar condicionado e arrancou com o carrão de vidros escuros. Quase não escuto Heitor falando:
- Antonia, chega mais perto.
Que voz. Meu corpo estremeceu inteiro. E foi ali que nossa noite terminou, ou melhor, começou. Em alta velocidade pelas ruas do Rio de Janeiro.
FIM.
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo