A minha filha e o senhor
Mulher: Me perdoe padre pois eu pequei. Faz dezenove anos desde a minha última confissão.
Jovem Padre: Dezenove anos? Dezenove anos é muito tempo minha filha.
Mulher: Foi na minha primeira comunhão.
Jovem Padre: Você quer dizer que só fez a primeira confissão?
Mulher: Bom… É.
Jovem Padre: Tudo bem. O importante é que você resolveu fazer a segunda.
Mulher: Claro.
Jovem Padre: Bom, já vi que essa vai ser uma confissão longa.
Mulher: Longa?
Jovem Padre: Dezenove anos de pecado é muita coisa.
Mulher: Ué. E quem disse que eu pequei tanto assim?
Jovem Padre: Minha filha, todos somos pecadores. Até a mais correta das Irmãs Marcelinas peca diversas vezes ao dia.
Mulher: Mas não precisa confessar tudo, né?
Jovem Padre: Claro que não, minha filha. Claro que não. Só mesmo os pecados capitais. Ou os que você julgar mais… mais…
Mulher: Pesados?
Jovem Padre: Bom. Eu ia usar outro termo. Mas acredito que pesado cabe neste caso.
Mulher: Pesado cabe?
Jovem Padre: Pesado cabe.
Mulher: Pesado cabe. Pesado cabe. Bom. Então vamos lá. (pausa) Eu devo começar pela ordem cronológica ou de trás pra frente?
Jovem Padre: O que você preferir.
Mulher: De trás pra frente.
Jovem Padre: Então vamos de trás pra frente.
Mulher: Bom. O meu último pecado pesado…
Padre: Sim…
Mulher: Ai, que vergonha.
Padre: Não precisa ter vergonha, minha filha. Lembre-se de que eu sou só o ouvido de Deus. Você não deve pensar em mim como uma pessoa.
Mulher: É justamente essa a questão.
Padre: Que questão?
Mulher: Do pecado.
Padre: Do seu último pecado.
Mulher: Do meu pecado corrente.
Padre: Pecado corrente? Pecado pesado como uma corrente?
Mulher: Não, padre. Pecado correte, pecado corrente.
Padre: Que você carrega amarrado ao seu corpo, como uma corrente.
Mulher: Não.
Padre: Que você exibe para todos como uma corrente no pescoço.
Mulher: Meu Deus, não tem metáfora! Corrente no sentido de que está correndo. De que é presente. De agora.
Padre: Seja mais clara.
Mulher: É que o meu último pecado meio que ta em curso. (pausa). Eu to pecando.
Padre: Está pecando?
Mulher: Neste momento.
Padre: Como assim, minha filha?
Mulher: Por ter entrado no seu confessionário. Por estar aqui, falando com o senhor.
Padre: Minha filha, a confissão está longe de ser um pecado.
Mulher: Mas é que eu to com tesão no senhor.
longa pausa
Padre: Minha filha, a confissão está longe se ser um pecado…
Mulher: Padre, você não ouviu o que eu disse?
Padre: Ela é um sacramento…
Mulher: Padre…
Padre: Que começa na primeira comunhão…
Mulher: Padre!
Padre: E acompanha o fiel até o leito de sua morte.
Mulher (alto): Padre, eu disse que to com tesão no senhor!
pausa mais longa que a anterior
Padre: Bom… É… De fato você tem um pecado corrente.
Mulher: Na verdade eu nem ia me confessar, sabe? Pra ser sincera, eu não sou muito religiosa… Eu até faço sinal da cruz quando vejo gente atropelada na rua e pulo as sete ondas no Réveillon. Mas igreja, igreja… Só casamento e batizado, sabe?
Padre (nervoso): Sei minha filha, sei…
Mulher: Mas hoje eu tava passando aqui na porta daí eu vi você… quer dizer… o senhor. (pausa) Ai, tão esquisito te chamar de senhor. Tu deve ter a minha idade, né não?
Padre: Vamos voltar ao pecado corrente, minha filha… Pecado corrente.
Mulher: Ai, desculpa. Enfim. Eu vi você entrando no confessionário lá da rua. Eu te achei tão gatinho, mas tão gatinho. E não foi só porque eu te achei gatinho não. É que. Sei lá… Eu acho que… Rolou.
Padre: Rolou?
Mulher: É. Rolou.
Padre: Rolou o quê, minha filha?
Mulher: Pára de me chamar de filha que se bobear eu sou mais velha que tu. Aliás, quantos anos você tem?
Padre: Isso não faz parte do sacramento da conf…
Mulher: É só uma perguntinha, padre.
Padre: É… 27.
Mulher: Jura?
Padre: É. Por quê?
Mulher: É que o senhor parecia ser mais novinho.
Padre: É mesmo? Sempre me dizem isso.
Mulher: Bom eu tenho 26. Mas acho que eu pareço um pouco mais velha.
Padre: Ah sim?
Mulher: É. Acho que é por causa do trabalho.
Padre: O que você faz, minha filha?
Mulher: Sou corretora de imóveis.
Padre: Olha! Meu pai era corretor de imóveis na cidade dele: Ipameri.
Mulher: A família do senhor é de Ipameri?A minha também! Por parte de mãe.
Padre: Que coincidência, minha filha! Eu nunca fui lá, mas dizem que é lindo.
Mulher: É uma graça… Que nem o senhor.
pausa ainda mais longa que a anterior
Mulher: Padre. O que o senhor acha de a gente continuar essa confissão… fora da Igreja.
Padre: Continuar a confissão?
Mulher: É padre, a confissão, a confissão. Vai continuar sendo uma confissão. Só que no boteco ali da esquina.
Padre: Ali da esquina?
Mulher: Ou lá perto de casa, que fica a uma meia hora daqui.
Padre: Bom… Eu não sei…
Mulher: Poxa, padre. Eu não vou poder terminar minha confissão? O senhor vai fazer isso comigo?
Padre: Não é isso, minha filha.
Mulher: É só uma confissão.
Padre: Mas vai ser uma confissão, não é?
Mulher: Claro, padre claro. Ainda uma confissão.
pausa
Padre: Bom… É… Sendo assim, eu acho que não há mal.
Mulher: Ai, que bom, padre, que bom!
Padre: Mas com uma condição.
Mulher: Qual?
Padre sai do confessionário, olha para mulher, pega-a pelas mãos, levanta e fica face a face com ela. Ele olha bem nos olhos dela e diz:
Eu continuo de chamando de “minha filha”, e você me chame de “senhor”.
Para um mundo melhor
(NUM CARRO IMPORTADO ESTÃO O PAI E SEU FILHO)
O FILHO- Aonde a gente tá indo, papai?
PAI- Na sinagoga, meu filho.
O FILHO- O que gente vai fazer lá?
PAI- Rezar.
O FILHO- Pra que a gente reza, papai?
Pai_ A gente reza, meu filho, para o mundo ser melhor.
O FILHO- Para o mundo ser melhor, papai?
(Pai avança o sinal e fala para a janela)
PAI- Eu tô com pressa, cacete! (para o filho) Sim, meu filho, para o mundo ser bem melhor.
O FILHO- E funciona?
PAI- Ah, sim, funciona muito!
(O carro pára no sinal- um menino de rua bate na janela do carro)
Menino de rua- Moço, me dá um real…
PAI- Eu não tenho, eu não tenho.
O FILHO- Tem sim, papai, você tem 50 reais na carteira, eu vi…
PAI- Fica quieto, garoto!
Menino- Me dá só um real, moço…
PAI- Sai daqui moleque!
(O pai arranca com o carro, o menino, quase atropelado, vai embora com cara de fome.)
O FILHO- papai, lá na sinagoga vocês rezam pro menino pobre ganhar dinheiro?
PAI- A gente reza para o mundo todo ser melhor.
O FILHO- Então ele vai ganhar dinheiro?
PAI- O mundo todo ser melhor.
O FILHO- Que mundo é esse, papai?
PAI- O mundo dos homens que acreditam em Deus, meu filho.
O FILHO- Então esse menino não acredita em Deus?
PAI- Por que, meu filho?
O FILHO- Porque ele também tá no mundo né, papai?
PAI- Sim, meu filho, ele tá no mundo
O FILHO- Então a sua reza não funciona.
PAI- Funciona sim , meu filho.
O FILHO- Então tem que rezar muito né, papai?
PAI- É, meu filho, tem que rezar muito.
(Tempo)
O FILHO- Papai, não é melhor, em vez de rezar, ajudar aquele menino?
PAI- A gente reza para o mundo ser melhor, meu filho.
O FILHO- Mas então…
PAI- O papai, tá dirigindo, não pode conversar agora, tá? (fala para o carro do lado) Vê se aprende a dirigir, ô loira burra!
(Tempo)
O FILHO- Papai, eu não quero ir na sinagoga.
PAI- Tem que ir meu filho, tem que rezar com o papai.
(O filho começa a chorar)
O FILHO- Eu não quero ir papai, eu não quero rezar, rezar é muito chato.
PAI- Tem que rezar, meu filho
O FILHO- Eu não quero, eu não quero.
PAI- Não discute, você é homem, hoje é shabat, tem que rezar!
O FILHO- Mas eu não acredito em Deus, papai, eu não acredito.
PAI- Olha o que você ta dizendo! Deus vai te castigar!
O FILHO- Ele não vai me castigar, porque eu não acredito nele!
PAI- Não fala essa besteira, meu filho, senão, o papai vai te bater.
O FILHO- Se você bater em mim, Deus vai te castigar, porque você acredita nele.
(Pai não sabe o que dizer)
PAI- Por que você não acredita nele, meu filho?
O FILHO- Por que você não ajudou aquele menino, papai? (chora)
PAI- Meu filho, não adianta dar dinheiro para um menino, isso não vai resolver, tem um monte de menino assim.
O FILHO- Então por que você reza tanto, se não adianta?
(Pai não sabe o que responder)
PAI- Rezar ajuda sim, meu filho, rezar ajuda.
O FILHO- Então por que tem um monte de menino assim?
PAI- Porque pouca gente reza.
O FILHO- E por que pouca gente reza?
PAI- Porque eles não acreditam que podem mudar o mundo
O FILHO- E pode?
(Nesse momento eles são abordados no sinal por uma mulher toda suja com um bebê no colo)
Mãe- Moço, pode dar uma ajuda pro meu filho…
PAI- Sai, sai, sai…
(Ele fecha o vidro rápido com um pouco de nojo – a filho chora)
O FILHO- Eu não quero ir na sinagoga!
PAI- Você vai sim!
O FILHO- Eu odeio Deus!
(O pai fica muito nervoso)
PAI- Não fala isso! Não fala isso!
(O filho chorando)
O FILHO- Eu odeio Deus! Eu odeio Deus!
(O pai belisca o filho)
PAI- Maldito, não fala assim!
O FILHO- Ai, você me beliscou!
PAI- Para não falar mais uma loucura dessas, entendeu?
(O filho chora)
O FILHO- Eu quero ir pra casa!
PAI- Fica quieto, você var na sinagoga rezar com o papai. E não tem mais conversa.
(O filho engole o choro e fica quieto até chegar na sinagoga)
(Na sinagoga estão alguns rabinos e pessoas que foram para fazer o shabat- todos estão rezando)
Pessoas- Baruch atá ashem, eloeinu…
O FILHO- Papai, por que a reza não é em português?
PAI_ Porque essa é a lingua de Deus, meu filho.
O FILHO- Então é por isso que tem gente pobre, papai? Porque não sabem a língua de Deus?
PAI- Meu filho, fica quieto e reza.
(Ele fica quieto e escuta todos rezando, depois de um tempo, dá um berro)
O FILHO- AAAHHH!!!!
(Silêncio- todos olham para o menino-silêncio geral. O menino, como se algo maior, inexplicável, se apoderasse dele, fala com uma voz grandiosa, sem deixar de ser menino.)
O FILHO- Se vocês rezam para o mundo ser melhor, então por que eu, um menino, criança que vê o mundo com os olhos inocentes de quem não julga o mundo com conceitos pré formados da humanidade, sofre tanto ao rezar com vocês?
(Silêncio geral- todos se olham, não há resposta)
Música religiosa
Fim.
Sangre y fuego
Prezados leitores, não postei semana passada por motivo de força maior.
Segue abaixo um texto que mistura os temas dinheiro e religião e o tema chuva, que foi passado para mim na TEASER – MOSTRA DE TEATRO CARIOCA ELETROBRÁS (maiores informações no blog). Divirtam-se e obrigada pela visita!!!
A cena acontece numa sala de dança. Duas mulheres ALE C E ALE M
ALE C: Não pensei que você viesse.
ALE M: Eu liguei avisando que viria.
ALE C: Estou surpresa! Pessoas de palavra são um tanto atípicas hoje em dia!
ALE M: Sempre fui uma pessoa de palavra.
ALE C: Então me diga, você quer jazz, clássico ou contemporâneo?
ALE M: …Cheiro de chuva.
ALE C: Oi. Perdão?
ALE M: Estou sentindo cheiro de chuva. Antes de entrar aqui o vento embaralhou os meus cabelos dizendo que eu preciso mudar.
ALE C: Você não respondeu a minha pergunta.
ALE M: Você bem sabe que eu não sou mulher de rodeios.
ALE C: Então responda: jazz, clássico ou contemporâneo?
ALE M: O que você prefere?
ALE C: Clássico.
ALE M: (aplaude) Nada mais comovente do que o óbvio.
ALE C: Eu não estou entendendo. Você me ligou marcando uma aula de ballet. O que você quer?
ALE M: (Retira uma pistola da liga e aponta para Ale C) Dance para mim. (atira com um prazer delirante na direção dos pés de Ale C provocando uma coreografia macabra pontuada por barulhos de trovões)
ALE C: Chega! Você está louca. Eu não fiz nada.
ALE M: Comigo você não fez nada. Mas, fez muitas peripécias com meu marido. (retira um bilhete amassado do bolso e lê) “No te quiero sino por que te quiero y de quererte a esperarte llego. Te quiero amor a sangre y fuego!”
ALE C: Eu… Eu posso explicar.
ALE M: Você nunca foi capaz. Mamãe sempre fez tudo por você. Como ela não está aqui para dizer qual será o seu castigo… Eu mesma resolvi julgá-la irmã, querida! (aponta a arma na direção do coração de Ale C)
ALE C: Por favor, não! Eu faço qualquer coisa. Você quer dinheiro? Eu dou uma mala cheia de dinheiro para você.
ALE M: O dinheiro que você tem é o dinheiro do meu marido, sua estúpida. Eu sou rica. (dá um grito agudíssimo e afinado) Eu não posso misturar a minha voz de peito com a minha voz de cabeça. (pausa) Estou decidida.
ALE C: Por favor, não me mate! Pelo amor de Deus! Por tudo que é mais sagrado!
ALE M: Você sambou no sagrado! Quando é noite de chuva os anjos escorrem pelas paredes.
ALE C: Perdão!
ALE M: Quero ver o seu tchutchu vermelho sangue. Primeiro vou atirar nas suas pernas. (calmamente coloca uma música clássica dramática) Dance para mim!
(Ale C chora torrencialmente, se prepara e começa a dançar. Ale M atira em diferentes partes do corpo de Ale C. Ale C se torna uma bailarina de vermelho. O chão da sala fica completamente ensangüentado. Ale C cai morta. Ouvimos apenas um som ensurdecedor de chuva)
FIM
Para Alessandra Colasanti e Alessandra Maestrini!
Dois textos
Oi Gente! Como semana passada eu não consegui postar meu texto com o tema “Dinheiro” por motivos da rede, estou postando essa semana. Em baixo se inicia o outro texto com o tema “Religião”. Espero que gostem! Bjô
Dinheiro
“Blangila”
de Jô Bilac
Numa loja
Homem: Oi. A senhora poderia me ajudar?
Atendente: Sim, claro. Qual é o problema?
Homem: Vim trocar a minha esposa. Comprei mês passado e deu defeito.
Atendente: O senhor já levou na autorizada?
Homem: Levei, mas não adiantou. Ela continua com defeito. Quero trocar.
Atendente: O seguro do senhor não cobre trocas, só concertos.
Homem: Mas minha mulher continua com defeito.
Atendente: E qual é o defeito?
Homem: Conjugação verbal. Tudo no infinitivo e alguns em específicos.
Atendente: Quais?
Homem: Gastar, comprar, desperdiçar…
Atendente: Mas não é defeito, é um original da Blangila 126.
Homem: Como assim?
Atendente: O senhor comprou uma Blangila 126, é assim mesmo. Esse modelo reage naturalmente aos comandos de uma mulher contemporânea. Por isso que ela estava na promoção. Encalhou uma porção por aqui. Blangila 126 é a expressão fiel do ditado: o barato sai caro.
Homem: Mas na embalagem dizia que era a esposa perfeita!
Atendente: Justamente. Uma boa esposa sabe fazer bom uso do dinheiro do seu marido.
Homem: E o que eu faço agora?
Atendente: Joga essa fora e compra uma nova. Veja só, essa aqui acabou de chegar: Blangila 659. Um modelo mais arrojado, econômico, funcional. Fala três idiomas, pratica massagens, frita peixe e dança até o chão.
Homem: Quanto custa?
Atendente: 789 pratas.
Homem: 789 pratas???!!!! Isso é um roubo, minha senhora!
Atendente: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Sua Blangila 126 vai te levar pra falência com todos os verbos!
Homem: Eu não tenho essa grana…
Atendente: Parcela.
Homem: Sai por quanto?
Atendente: Em até 8 vezes, sem entrada, com uma pequena taxa de juros: 920 pratas.
Homem: Tá caro.
Atendente: Caro é esse modelo que o senhor comprou. Essa é a sua chance de mudar! A felicidade tem seu preço.
Homem: E o que eu faço com a minha esposa?
Atendente: Aproveita como amante. A Blangila 126 é ótima de cama.
Homem: Não sei… Estou na dúvida…
Atendente: É pegar ou largar.
Homem: O que você vai fazer hoje a noite?
Atendente: Isso é uma cantada?
Homem: Acho que sim. Pagar um jantar e te levar pro motel saem mais barato que essa Blangila 659.
Atendente: Sinto muito, já sou comprometida.
Homem: Ele é mais atraente que eu?
Atendente: Sim. E ainda Fala três idiomas, pratica massagens, frita peixe e dança até o chão. Uma Blangila 659 é tudo na vida.
Homem: Ok. Você venceu. Embrulha uma pra mim, eu vou levar.
Fim.
Religião
“Origens (jogral simples para crianças de pele escura)”
De Jô Bilac
Eu: (fantasiado de cigano, aos nove anos de idade, numa feira de ciências, tentando explicar aos ouvintes uma origem paterna) Há uma lenda cigana, passada por gerações e gerações, que diz que o povo cigano foi guiado por um rei no passado e que se instalaram em uma cidade da Índia chamada Sind onde eram muito felizes. Mas em um conflito, os muçulmanos os expulsaram , destruindo toda a cidade. Desde então foram obrigados a vagar de uma nação a outra…
Alguém: Por isso que você não tem casa própria?
Eu: Por aí…
Outro alguém: Eu tenho uma tia que não tem casa própria, será que ela é cigana?
Eu: Não. Ela é pobre, provavelmente.
Mais um alguém: Mas cigano não é pobre?
Eu: Não necessariamente.
A Professora: Não vamos interromper. Deixe-o continuar. Por favor, querido.
Eu: Então… (Já suando nas têmporas, sempre com problemas em falar em público) A presença de bandos de ex-militares e de mendigos entre os ciganos contribuiu para piorar sua imagem. Os preconceitos já existentes eram reforçados pelo convencimento difundido na Europa que a pele escura fosse sinal de inferioridade e de malvadeza.
Alguém: Eu tenho uma vizinha de pele escura! Que nem você, assim. Ela é cigana?
Outro alguém: Se o Pelé for cigano, eu também quero ser!
Mais alguém: Eu também!
Alguém mais: Eu também!
A Professora: Deixe-o continuar!
Eu: Os ciganos eram facilmente identificados com os Turcos porque indiretamente e em parte eram provenientes das terras dos infiéis, assim eram considerados inimigos da igreja, a qual, condenava as práticas ligadas ao sobrenatural, como a cartomancia e a leitura das mãos que os ciganos costumavam exercer. A falta de uma ligação histórica precisa a uma pátria definida ou a uma origem segura não permitia o reconhecimento como grupo étnico bem individualizado, ainda que por longo tempo qualificados como Egípcios.
A oposição aos ciganos se delineou também nas corporações, que tendiam a excluir concorrentes no artesanato, sobretudo no âmbito do trabalho com metais. O clima de suspeitas e preconceitos se percebe na criação de lendas e provérbios tendendo a por os ciganos sob mau conceito, a ponto de recorrer-se à Bíblia para considerá-los descendentes de Caim, e, portanto, malditos (Gênesis 9:25).
Difundiu-se também a lenda de que eles teriam fabricado os pregos que serviram para crucificar Cristo (ou, segundo outra versão, que eles teriam roubado o quarto prego, tornando assim mais dolorosa a crucificação do Senhor).
Outro alguém: Que horror!!!! Os ciganos são maléficos!
Alguém mais: Seu burro, eles não são maléficos, é que Jesus brigou com Buda, daí eles se vingaram. Entendeu?
Mais Alguém: Ai, sua burralda, Buda brigou foi com Alan Kardec!
A Professora: Chega! Se alguém mais interferir, será colocado pra fora de sala de aula! Ouviram? (tempo) Continue querido. Não leve a mal a ignorância de seus colegas.
Eu: Sob o nazismo os ciganos tiveram um tratamento igual ao dos judeus: muitos deles foram enviados aos campos de concentração, onde foram submetidos a experiências de esterilização, usados como cobaias humanas. Calcula-se que meio milhão de ciganos tenha sido eliminado durante o regime nazista.
Os ciganos, ao deixarem a Índia, não carregaram suas divindades. Eles possuíam na sua língua apenas uma palavra para designar Deus (Del, Devel). Eles se adaptaram facilmente às religiões dos países onde permaneceram. No mundo bizantino, tornaram-se cristãos. Já no início do século XIV, em Creta, praticavam o rito grego. Nos países conquistados pelos turcos, muitos ciganos permaneceram cristãos enquanto que outros renderam-se ao Islã. A origem do culto de Santa Sara permanece um mistério e foi provavelmente na primeira metade do século XIX que os Boêmios criaram o hábito da grande peregrinação anual à Camargue. E fim! ( uma mesura pra agradecer a atenção dos colegas. Volto ao meu lugar.)
A Professora: Muito interessante. Parabéns. Próxima: Janaína!
(Vai Janaína, vestida de baiana, carregando uma imagem de Iemanjá nas mãos. A escola realmente era muito ecumênica.)
trecho de AMÉM
Prólogo
Maria São Judas Tadeu, glorioso Apóstolo! O nome de Judas Iscariotes, o traidor de Jesus, foi causa de que fosseis esquecido por muitos, mas agora a Igreja vos honra e invoca por todo o mundo como patrono dos casos desesperados e dos negócios sem remédio. Rogai por mim que estou tão desolada. Eu vos imploro, fazei uso do privilégio que tendes de trazer socorro imediato, onde o socorro desapareceu quase por completo. São Judas Tadeu, alcançai-me a graça que vos peço: reencontrar aquelas mulheres e com vossa permissão e ajuda vingar-me de todas elas. Amém!
Cena 1
(Noite. A cena começa numa rua deserta e prossegue dentro da van de Bia)
Lola – Que horas sai a van?
Bia – Daqui a pouco.
Lola – Daqui a pouco quando?
Bia – 23:30.
Lola – O valor da passagem é isso tudo?
Bia – É o preço de todo mundo.
Lola – Prefiro pegar um ônibus.
Bia (para Clara) – E você, vai?
Clara (que analisava o estado do carro) – Não, o carro tá imundo.
Bia – É a minha última viagem… A essa hora não tem mais ônibus.
Clara – Que sujeira.
Lola – Eu vou a pé, então.
Bia (entrando na van) – Vocês é quem sabem…
Vera (aparece ofegante) – Passa na Vila Paraíso?
Bia – Não.
Vera – Estrada dos Bem-Aventurados?
Bia – Não.
Vera – E na Rua dos Desesperados?
Bia – Também não.
Vera – Ah, então me leva pra qualquer lugar, mas me tira daqui. Acabei de ser assaltada! (entra no carro)
Clara – Assaltada? Que falta de sorte… (mudando de idéia. Para Bia) Ainda tem lugar? (entra no carro. Abre a bolsa e tira um lenço. Coloca sobre um dos bancos e senta) Há quanto tempo você não lava esse carro?
Lola (que ouviu algo sobre o assalto) – Olha… Eu vou com vocês. (entra na van) Mas quero deixar bem claro que eu acho um absurdo esse preço.
Vera – Gente, é a terceira vez que me roubam essa semana. Vocês acreditam que não tinha um policial pra me socorrer? Eu tava sozinha, sozinha….
Bia – Aí você cobra um pouquinho mais caro por causa do horário, o povo reclama.
Clara – Tem revista?
Bia (entregando a revista) – Conforto todo mundo quer…
Vera – Hoje foi um pivete desse tamanho.
Lola – Eu não sei mais onde a gente vai parar… Poderia ser o seu filho.
Vera – Ah, se fosse meu eu dava uma surra.
Lola – Tem que ir à delegacia pra dar queixa.
Bia (interferindo) – Nem pensar. Não vou parar o carro…
Vera – Outro dia uma senhora levou a minha carteira… Devia ser avó do garoto, ele era a cara dela… Tô desconfiada que a gang é uma família. Pelo menos a minha bolsa eu não deixei ele levar. Eu falei “Ah não, menino! Já te dei o celular, a bolsa não. A dieta da tia tá aqui dentro.” Sabe o que ele teve a coragem de me dizer?
Lola – O quê?
Vera – Que eu tô gorda! O pior é que criança não mente…
Clara – Ele tava armado?
Vera – Tava! (tira uma arma de dentro da bolsa) Mas eu sou fogo na roupa, arranquei a arma da mão do garoto.
Lola – Você faz defesa pessoal?
Vera – Nada! Joguei a minha Bíblia na cabeça dele… O menino ficou lá desacordado e eu saí correndo.
Bia – A senhora tá doida? Quer guardar essa merda?
Vera – A Bíblia?
Bia – Não, a arma!
Vera – Boba, olha como eles são espertos… É de brinquedo.
Bia – Não interessa. Guarda isso que eu não quero ser presa.
Vera – A partir de hoje eu só ando armada.
Lola – Não está certo. Imagina se todo mundo decide carregar uma arma dentro da bolsa?
Vera – Olha o jornal… Só tem desgraça. A gente tem que se defender como pode.
(Troveja)
Vera – Justo hoje que eu tirei a sombrinha da bolsa… (Tentando puxar assunto) Você não enjoa de ler viajando, não?
Clara – Um pouco, às vezes.
Vera – O que é que você tá lendo?
Clara – Meu horóscopo.
Lola – Essa hora?
Clara – Eu só leio o meu horóscopo no final do dia, pra ver se o que tá escrito aqui bate com o que aconteceu.
Lola – E bate?
Clara – Depende… Eu me influencio à toa… Quando eu leio que o meu dia será ruim, não dá outra. Agora não.
Lola (fazendo pouco caso) – Eu acho horóscopo uma bobagem…
Clara – Mas só vale até a meia-noite, senão vira o dia e você tá lendo o horóscopo do dia anterior, o que gera uma pane na sua casa astral. Aí a vida não anda. (para Lola) Deixa eu ver se adivinho: você tem jeito de Libriana…
Lola (agora, interessada) – Olha! Como adivinhou?
Vera – O meu pastor falou que isso aí é coisa do demônio… (cochicha) Eu confesso que às vezes eu folheio essa parte, assim, rapidinho…
Clara – Tá escrito aqui… O trânsito de Vênus por Áries intensifica as relações, elevando as suas qualidades. Na intimidade, nada melhor que emoções fortes e verdadeiras. Mais que tudo, é uma fase de aprofundamento de relações e de, através delas, aprender mais sobre si mesmo. O que será que quer dizer?
(Silêncio)
Clara – Ih, passou um anjo. (silêncio) Quando todo mundo fica em silêncio junto, dizem que passou um anjo.
Bia Anjo…
Cena 2
(Uma mulher misteriosa atravessa na frente do carro. É Gilda.)
Continua.
FIM
Leitores,
Tentei escrever algo novo no tema, mas acredito que “Amém” foram as minhas palavras mais sinceras sobre como vejo o assunto. “Amém” surgiu a partir da necessidade de falar sobre mulheres e religiosidade.
Ah, e para quem interessar: felipebarenco.wordpress.com
Paulistinha x Dr. Go-Go
PAULISTINHA é uma bichinha paulista bem afetada. Dr. GOGO é um homem corpulento que veste um sobretudo. Por baixo do sobretudo, ELE está só de cueca, mas ainda não revela.
NARRADOR – O Paulistinha finalmente encontrou quem ele estava procurando a noite inteira. Ainda incerto, ele tenta a senha combinada.
P- “Onde pau a pique cresce, babaçu abunda?”
D- “No cú da tua mãe, filhadaputa.”
P- É você! É você!!! Doutor!!! Mal posso acreditar! Tanto que eu procurei.
D- Mas então você é o rapaz…?
P- Eu sou Diogo, mas me chamam lá na vila de Paulistinha, lá na vila que eu moro.
D- Sei. E você tem mesmo um sotaque.
P- É que eu sou paulistinha mesmo, seu bobo. Por isso que me chamam desse jeito.
D- Que interessante. Então você tá necessitado dos meus serviços?
P- Sua fama é internacional, Dr. Go-go. (Meio nervoso com o encontro, em tensão sexual.) Eu vim até aqui de Alagoas, por uma estrada imensa, porque essa vila que eu moro é lá em Alagoas, é lá que me chamam de paulistinha, moro naquelas bandas lá mas nasci mesmo foi em São Paulo. Foi.
D- Olha só. Vai pagar com cheque ou em dinheiro.
P- Deixa ver, é dinheiro. O senhor não aceita cartão?
D- Tô sem a maquininha aqui comigo.
P- Plano de saúde o doutor não aceita, né?
D- Não tô conveniado com nenhum plano no momento.
P- Que pena. Vai ser dinheiro então. Careiro o senhor, aliás. Eu não ia comentar nada não. Mas o senhor com essa cara de metido que o senhor tem, como se já tivesse resolvido o meu gravíssimo problema. Então, eu vou dizer, eu tenho que dizer, é bem salgada a tua consulta. Eu espero ficar bastante satisfeito com os teus serviços. Senão vamos ter que discutir essa coisa do preço.
D- Você vai ficar bem satisfeito, Paulistinha. O preço não está em questão. Não vim até aqui pra ter que aturar pechincha.
P- Olha como ele fala! Que prepotência. Então vamos ver, eu quero mais é que o senhor mostre serviço.
D- Claro. Eu nunca tive medo de trabalho.
P- Não tem medo de trabalho. Prum carioca isso é quase uma qualidade.
D- Eu não sou carioca. Eu não nasci aqui, não.
P- Só me falta ser baiano. É baiano, doutor?
D- Porquê? Eu tenho sotaque de baiano por acaso?
P- Pela roupa.
Dr. GOGO tira o sobretudo revelando que está só de cueca e que seu pênis é gigantesco. PAULISTINHA leva um susto enorme.
D- Vamos logo ao trabalho que o meu tempo é curto. Antes que minha paciência vá pro espaço.
P- Não desperdice sua emoção, querido, guarde todo seu amor pra mim.
D- Então podemos?
P- Mas aqui? Na frente de todo mundo?
D- Porque você acha que eu escolhi esse lugar?
P- Achei que iríamos pra um lugar mais intimista, ou pelo menos em algum descampado.
D- Aqui é perfeito! Esse lugar aqui foi feito pra isso.
P- Você é muito do esquisito! Eu não sei se eu quero mais! Porque você me olha desse jeito!
D- De que jeito?
P- E essa língua? Porque você não pára com essa língua aflita e saliente.
D- Quem tá aflito aqui é você, paulista. A minha língua sempre foi assim, ela vai sozinha onde tem que ir, nem precisa esforço. O meu corpo todo vai junto e eu nem penso. Pensar pra quê, paulista? Eu confesso que eu não penso há muitos anos. Eu sinto e pronto, e ganho a grana. Pra mim é assim que é bom. Meu corpo manda em mim e eu sou feliz.
P- O seu corpo precisa é de uma boa lição! Ele é muito excitado demais! É um abuso!
D- Olha aqui no fundo dos meus olhos
P- Ovos???
D- Olhos!
P- Eu nunca olho! Nunca olhei pra ovo de ninguém, meu amigo!
D- Chega mais perto.
P- XÔ! Sai de mim! Me deixa!!!
D- Não vai me contar o seu problema?
P- Não encosta em mim ainda, faz o obséquio! Eu acho esse lugar muito inapropriado!
D- Me conta o probleminha que te trouxe até aqui, assim você me ajuda na consulta.
P- Eu não sei se devo…
D- Mas não veio até aqui?
P- A culpa é de uma vagina doutor!
D- Olha só. Quem diria.
P- Um buraco que me repartiu em dois. Um abismo de carne do qual eu não consigo escapar, eu caio profundo.
D- Sei. Interessante. Estou intrigado, continue.
P- Essa vagina que nasceu em mim, logo abaixo do meu saco escrotal.
D- Uma vagina em você???
P- Eu sei que é improvável, mas aconteceu. No inicio achei que fosse uma pequena fissura, um furúnculo, depois pensei ser o meu chackra se desenvolvendo, abrindo em mim um canal com a terra.
D- Sim, o famoso fio terra.
P- Mas depois de alguns exames constatei. Eu sou meio homem, meio mulher. Um ser híbrido, com útero e testículos. É isso o que eu sou.
D- Mas como isso aconteceu???
P- Dizem que muita comida enlatada, eu não sei ao certo. Eu sou um mutante.
D- Todos somos. Todos somos mutantes.
P- Tantos de nós que vivem trancados, nas sombras. Eu não. Eu quero ser feliz.
D- Você deve então ter me confundido, rapaz. Eu acho que eu não posso te ajudar.
P- Mas você não atende homens e mulheres?
D- Mas você quer o quê? Milagre? Eu sou psicanalista, não cirurgião plástico.
P- Eu não quero mudar um centímetro da minha anatomia! E sou muito feliz como eu sou!
D- Mas então pra que precisa dos meus serviços?
P- Porque eu posso! Por prazer!!! Porque uma terapia numa condição tão única como a minha, só pode fazer bem, ou não é?
D (Excitado.)- Que curiosa essa sua condição! Eu nunca vi ninguém como você.
P- E eu sou virgem, doutor. Mas em breve gostaria de exercer plenamente todas as possibilidades que me foram oferecidas por Deus. Sim. Apesar deles não me aceitarem, eu sou católico.
D- Eu também sou católico.
P (Excitadíssimo.)- Não me diga, doutor! Que delícia!
D- Fui coroinha.
P- Nossa!!! Isso eu não esperava!
D- Vamos começar nossa consulta?
P- Vamos!!! Doutor, vá com calma comigo, heim!!!
(Go-go agarra o Paulistinha e coreografia dos dois.)
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