Dr. Go-go VS Paulistinha

trecho de Genesis dos Novos Deuses.

boite SHAMPOO… todos dançam sem saber que suas vidas correm perigo.

PAULISTINHA é uma bichinha paulista bem afetada.

Dr. GOGO é um homem corpulento que veste um sobretudo. Por baixo do sobretudo, ELE está só de cueca, mas ainda não revela.

NARRADOR – O Paulistinha finalmente encontrou quem ele estava procurando a noite inteira. Ainda incerto, ele tenta a senha combinada.

P- Onde pau a pique cresce, babaçu abunda?

D- No cú da tua mãe, filhadaputa

P- É você! É você!!! Doutor!!! Mal posso acreditar! Tanto que eu procurei.

D- Mas então você é o rapaz…?

P- Eu sou Diogo, mas me chamam lá na vila de Paulistinha, lá na vila que eu moro.

D- Sei. E você tem mesmo um sotaque.

P- É que eu sou paulistinha mesmo, seu bobo. Por isso que me chamam desse jeito.

D- Que interessante. Então você tá necessitado dos meus serviços?

P- Sua fama é internacional, Dr. Go-go. (Meio nervoso com o encontro, em tensão sexual.) Eu vim até aqui de Alagoas, por uma estrada imensa, porque essa vila que eu moro é lá em Alagoas, é lá que me chamam de paulistinha, moro naquelas bandas lá mas nasci mesmo foi em São Paulo. Foi.

D- Olha só. Vai pagar com cheque ou em dinheiro.

P- Deixa ver, é dinheiro. O senhor não aceita cartão?

D- Tô sem a maquininha aqui comigo.

P- Plano de saúde o doutor não aceita, né?

D- Não tô conveniado com nenhum plano no momento.

P- Que pena. Vai ser dinheiro então. Careiro o senhor, aliás. Eu não ia comentar nada não. Mas o senhor com essa cara de metido que o senhor tem, como se já tivesse resolvido o meu gravíssimo problema. Então, eu vou dizer, eu tenho que dizer, é bem salgada a tua consulta. Eu espero ficar bastante satisfeito com os teus serviços. Senão vamos ter que discutir essa coisa do preço.

D- Você vai ficar bem satisfeito, Paulistinha. O preço não está em questão. Não vim até aqui pra ter que aturar pechincha.

P- Olha como ele fala! Que prepotência. Então vamos ver, eu quero mais é que o senhor mostre serviço.

D- Claro. Eu nunca tive medo de trabalho.

P- Não tem medo de trabalho. Prum carioca isso é quase uma qualidade.

D- Eu não sou carioca. Eu não nasci aqui, não.

P- Só me falta ser baiano. É baiano, doutor?

D- Porquê? Eu tenho sotaque de baiano por acaso?

P- Pela roupa.

Dr. GOGO tira o sobretudo revelando que está só de cueca e que seu pênis é gigantesco. PAULISTINHA leva um susto enorme.

D- Vamos logo ao trabalho que o meu tempo é curto. Antes que minha paciência vá pro espaço.

P- Não desperdice sua emoção, querido, guarde todo seu amor pra mim.

D- Então podemos?

P- Mas aqui? Na frente de todo mundo?

D- Porque você acha que eu escolhi esse lugar?

P- Achei que iríamos pra um lugar mais intimista, ou pelo menos em algum descampado.

D- Aqui é perfeito! Esse lugar aqui foi feito pra isso.

P- Você é muito do esquisito! Eu não sei se eu quero mais! Porque você me olha desse jeito!

D- De que jeito?

P- E essa língua? Porque você não pára com essa língua aflita e saliente.

D- Quem tá aflito aqui é você, paulista. A minha língua sempre foi assim, ela vai sozinha onde tem que ir, nem precisa esforço. O meu corpo todo vai junto e eu nem penso. Pensar pra quê, paulista? Eu confesso que eu não penso há muitos anos. Eu sinto e pronto, e ganho a grana. Pra mim é assim que é bom. Meu corpo manda em mim e eu sou feliz.

P- O seu corpo precisa é de uma boa lição! Ele é muito excitado demais! É um abuso!

D- Olha aqui no fundo dos meus olhos

P- Ovos???

D- Olhos!

P- Eu nunca olho! Nunca olhei pra ovo de ninguém, meu amigo!

D- Chega mais perto.

P- XÔ! Sai de mim! Me deixa!!!

D- Não vai me contar o seu problema?

P- Não encosta em mim ainda, faz o obséquio! Eu acho esse lugar muito inapropriado!

D- Me conta o probleminha que te trouxe até aqui, assim você me ajuda na consulta.

P- Eu não sei se devo…

D- Mas não veio até aqui?

P- A culpa é de uma vagina doutor!

D- Olha só. Quem diria.

P- Um buraco que me repartiu em dois. Um abismo de carne do qual eu não consigo escapar, eu caio profundo.

D- Sei. Interessante. Estou intrigado, continue.

P- Essa vagina que nasceu em mim, logo abaixo do meu saco escrotal.

D- Uma vagina em você???

P- Eu sei que é improvável, mas aconteceu. No inicio achei que fosse uma pequena fissura, um furúnculo, depois pensei ser o meu chackra se desenvolvendo, abrindo em mim um canal com a terra.

D- Sim, o famoso fio terra.

P- Mas depois de alguns exames constatei. Eu sou meio homem, meio mulher. Um ser híbrido, com útero e testículos. É isso o que eu sou.

D- Mas como isso aconteceu???

P- Dizem que muita comida enlatada, eu não sei ao certo. Eu sou um mutante.

D- Todos somos. Todos somos mutantes.

P- Tantos de nós que vivem trancados, nas sombras. Eu não. Eu quero ser feliz.

D- Você deve então ter me confundido, rapaz. Eu acho que eu não posso te ajudar.

P- Mas você não atende homens e mulheres?

D- Mas você quer o quê? Milagre? Eu sou psicanalista, não cirurgião plástico.

P- Eu não quero mudar um centímetro da minha anatomia! E sou muito feliz como eu sou!

D- Mas então pra que precisa dos meus serviços?

P- Porque eu posso! Por prazer!!! Porque uma terapia numa condição tão única como a minha, só pode fazer bem, ou não é?

D (Excitado.)- Que curiosa essa sua condição! Eu nunca vi ninguém como você.

P- E eu sou virgem, doutor. Mas em breve gostaria de exercer plenamente todas as possibilidades que me foram oferecidas por Deus. Sim. Apesar deles não me aceitarem, eu sou católico.

D- Eu também sou católico.

P (Excitadíssimo.)- Não me diga, doutor! Que delícia!

D- Fui coroinha.

P- Nossa!!! Isso eu não esperava!

D- Vamos começar nossa consulta?

P- Vamos!!! Doutor, vá com calma comigo, heim!!!

(Go-go agarra o Paulistinha e coreografia dos dois.)

TODOS dançam na boate

Bat uma!

Batman e Robin na Sala da Justiça.

Robin – O bat-sinal! Precisamos ir Batman!

Batman – Eu não sei…

Robin – Como é?

Batman – Estou cansado, desanimado…

Mulher Maravilha entra.

Mulher – E aí, seu bundas! Não vão pegar o ladrão do banco?

Robin – Batman está desanimado…

Mulher – Toma um Prozac, pô!

Batman – Você sabe que não gosto dessas coisas e depois só iria piorar o meu problema…

Superman entra.

Superman – Fala, galera! Tão bundando?

Robin – Que mania de bunda é essa, gente?

Mulher – Ih, falou a reprimida!

Robin – Quebro tua cara todinha!

Superman – Quem vai resolver o crime de hoje? O ladrão já fugiu, inclusive…

Robin – Eu queria, mas Batman está desanimado.

Superman – Toma um Rivotril, ué?

Batman – Não gosto de tomar nada essas coisas e, depois, não estou depressivo.

Superman e Mulher – Não???

Mulher Maravilha – Você é muito estranho colega…

Robin – Eu também não estou deprimido, ué?

Mulher – Você é gay, querido. Os gays nunca ficam depressivos, eles ficam melancólicos…

Robin – Te arranho a cara toda!

Batman – Eu não consigo mais…

Superman – Dirigir o bat-móvel? Eu também não consigo mais voar. Idade. Ontem bati de cara num prédio, e depois aterrissei, sem querer, em cima de uma senhora que morreu na hora.

Robin – Eu posso dirigir, querido… sou mais novo.

Mulher – Olha a biba jogando na cara.

Entra o Lanterna Verde.

Lanterna – Pô, negada! O ladrão já pegou um avião para o Brasil, ninguém vai?

Superman – Não vou voar de novo para o Brasil, muito perrengue… por que todos vão para o Brasil?

Mulher – Eu acho que quem tem que ir é o que recebeu primeiro o chamado.

Robin – Vaca!

Batman – Ela tem razão…

Lanterna Verde – Qual é o problema???

Robin – Batman não está bem…

Lanterna Verde – Toma um Resfenol, pô!

Batman – Chega!

Mulher – Ih, eu hein…

Robin – Calma, querido, vai dar tudo certo.

Batman – Eu não sei mais o que fazer…

Lanterna Verde – Mas qual é o problema?

Batman – Eu… eu… eu estou brocha.

Superman – Mas é isso, meu querido? Que bobagem! Como você acha que eu faço com Lois Lane?

Batman – O que você faz?

Superman tira um Viagra do bolso.

Mulher – Viagra?

Todos se olham.

Lanterna Verde – Superman, você transa com uma jornalista e usa Viagra, pensa que isso não vai vazar…

Superman – Ela colocou silicone e usa bunda postiça. Estamos quites.

Robin – Mania de bunda.

Batman – Mas… mas… nós somos super-heróis… como assim?

Superman – Ah! Batman, ninguém mais precisa de super-heróis quando se tem os Big Brothers.

Robin – Malditos!

Mulher – Mas eles não tem superpoderes!

Lanterna Verde – Isso é verdade.

Superman – Claro que tem! Eles são onipresentes, ganham dinheiro sem fazer nada, ficam trancados numa casa coçando e, ainda assim, tem fãs pelo Mundo todo. Conseguem fazer os seres humanos ficarem vidrados todos os dias da semana no programa deles. E eles nem precisam voar, ou jogar teias de aranha, ou ter aviões invisíveis. Ficam simplesmente, deitados, ou sentados, ou comendo… enfim, tá na cara que vão dominar o mundo. Batman… relaxa e toma um remedinho.

Batman olha para todos. Cada um mostra a caixinha de remédio que usa. Ele escolhe um e toma.

Silêncio na Sala da Justiça.

O sinal para de tocar.

É assim que tem que ser

(Numa linda tarde de verão. Mãe e filho estão no jardim de uma linda casa comendo as mangas que acabaram de cair da linda árvore que eles plantaram.)

FILHO (após um longo silêncio): Mamãe? Posso te fazer uma pergunta?

MÃE (feliz com sua manga docinha): Claro, meu filho.

FILHO: Por que você e o papai estão juntos?

MÃE (um pouco surpresa): Ué, filho, porque a mamãe e o papai são casados.

Filho: E por que vocês são casados?

MÃE (ainda mais surpresa): Ué, filho porque a mamãe gosta do papai e o papai gosta da mamãe.

FILHO: Gosta mesmo, mamãe?

MÃE: (um pouco constrangida com a pergunta): Claro, meu filho!

FILHO: Ah, Entendi. Então a gente casa com quem a gente gosta.

MÃE: Isso, filho. A gente casa com quem a gente gosta.

(Silêncio. Mãe volta a comer a manga e é mais uma vez surpreendida.)

FILHO: Então eu já sei com quem eu vou casar.

MÃE (com um pedaço de manga na boca): É mesmo, filho. Você já sabe? E com que o senhorzinho vai casar?

FILHO: Com o Ronaldo.

MÃE (engasgando com a manga): Por que com o Ronaldo?

FILHO: Porque eu gosto muito dele, mamãe. E eu sei que ele gosta de mim.

MÃE (cuspindo a manga): Não, meu filho. Você e o Ronaldo são amigos. Amizade é uma coisa, amor é outra.

FILHO: Ah, então é com ele mesmo que eu vou casar. A gente se ama de verdade, mamãe. Não é apenas uma simples amizade. Ele até desenhou um coração na minha blusa, ó.

(Ele mostra um coração desenhado na sua blusa. A mãe fica muito aflita.)

MÃE: Tira isso, meu filho! Tira isso!

FILHO: Por que, mamãe?

MÃE: Tira e não discute comigo!

FILHO: Mas…

MÃE: Tira!

(O filho tira a blusa sem entender por quê. Longo silêncio. Mãe se recupera.)

MÃE: Meu filho. Você não pode casar com o Ronaldo.

FILHO: Não?

MÃE: Não.

FILHO: Por quê?

MÃE: Por que o Ronaldo, meu filho, é homem, e você também é homem. E os homens só podem casar com as mulheres.

FILHO: Por quê?

MÃE (quase perdendo a paciência): Porque sim, meu filho. É assim que tem que ser.

FILHO: Por que é assim que tem que ser?

MÃE (cada vez com menos paciência): Porque é essa a sociedade que a gente vive.

FILHO: O que é sociedade, mamãe?

MÃE (já sem nenhuma paciência): Sociedade é um troço complicado que você não tem idade pra entender.

(Silêncio. O filho fica um pouco triste com o que disse a mãe. Os dois comem um pedaço de manga e mais uma vez a mãe é surpreendida)

FILHO: Mas, mamãe. Eu não amo nenhuma mulher. Eu amo o Ronaldo.

MÃE (recuperando a paciência): Meu filho, você ainda é muito pequeno. Ainda vai conhecer uma mulher que você ame muito e queira casar com ela.

FILHO: Mas e o Ronaldo?

MÃE: Também. O Ronaldo também vai conhecer uma mulher que ele ame muito e vai casar com ela.

FILHO: Puxa, mamãe. Eu não gostei da sociedade.

MÃE: Você é ainda é muito pequeno pra entender.

(Silêncio. Mãe acha que o assunto encerrou e, aliviada, coloca um grande pedaço de manga na boca. Até que mais uma vez é surpreendida)

FILHO: Ah! Eu já entendi!

MÃE (com a boca cheia de manga): Entendeu, meu filho? O quê?

FILHO: Eu vou mesmo me casar com uma mulher. Que nem o papai casou com você.

(Muito muito aliviada, mãe coloca mais um grande pedaço de manga na boca.)

MÃE: Que bom que você entendeu. Assim você vai ser muito mais feliz.

FILHO: Eu vou poder casar com uma mulher pra ser amante do Ronaldo, né mamãe?

MÃE (engasga com a manga): O que, meu filho? Você sabe o que é amante?

FILHO: Sei sim, mamãe. Amante é quando você ama de verdade uma pessoa, mas é casado com outra. Casamento a gente ama de mentira e amante a gente ama de verdade.

MÃE (engasgando mais com a manga): E onde você aprendeu isso, filho?

FILHO: Ué! Com você e com papai.

MÃE (engasgando mais): Comigo e com seu pai?

FILHO: É, mamãe. O papai é casado com você porque assim que tem que ser na sociedade, né?

MÃE (quase sem conseguir falar de tão engasgada): bem, não é bem assim…

FILHO: E é por isso que ele é amante do tio Silvio! Ah! Entendi!

(A mãe está engasgada com a manga, que cai de sua boca por toda parte, e fica completamente atônita.)

MÃE: O que, meu filho? Seu pai é amante do tio Silvio? Por que você está inventando isso?

FILHO: Eu não tô inventado, mamãe. Eu vi o papai e o tio Silvio de mãos dadas, um dia, quando eles foram me buscar na escola.

MÃE (quase morrendo): De mãos dadas?

FILHO: Igualzinho como eu fico com o Ronaldo.

(Mãe nos seus últimos segundos de vida começa a urrar.)

FILHO: Mamãe, tá tudo bem?

MÃE: Não, meu filho. Acho que a sua mãe ta morrendo.

FILHO: Já, mamãe? Não morre. Você ainda nem conheceu o Ronaldo…

(mãe morre engasgada)

FILHO: Mamãe! Não Morre! Mamãe, porque você morreu? O que foi que eu fiz? Mamãe!!!!!

(Filho começa a chorar como uma criança desprotegida)

FIM.

Sapatênis

Mesa de bar. Do lado direito senta Jô. Do esquerdo senta Bruno. E de costas para a platéia senta Mariana. Bruno e Mariana sentados. Jô chega.

Bruno dando pinta para Mari…: Então, Mari… O que é que você queria me contar?

Mari começa a falar e Jo interrompe aos berros: Eu odeio, odeio, a Vivo! Odeio. Se eu pudesse eu pegava um ônibus agora pra Inhaúma, ia no terreiro da minha manicure e fazia um ebó pra diretoria executiva inteira da Vivo. Amarrar o nome de todos aqueles engravatados na boca de um sapo. Bruno, você tem uma amiga que trabalha lá. Você acha que ela consegue nome e sobrenome daqueles executivos malditos pra eu fazer um trabalho? Se não conseguir nome fio de cabelo serve. Ou então unha. Unha do pé. Será que eles cortam unha na empresa.

Bruno: Meu Deus do céu! Que pilha é essa? Tomou Desobese com cerveja de novo, né? Jo, eu já te falei que isso dá uma ziguizira do capeta. A minha vizinha tomou esse raio desse remédio com cachaça e ta há vinte e dois dias batendo clara em neve. É dia e noite aquela bateção. Malôca!

Jo: Eu, hein! Malôca ta você. Eu não tomo desobese. Eu não preciso disso. Já viu minha cinturinha, olha aqui ó… (fala bem jogando fora e baixo) Já você né, bicha bem que podia tomar umas quatro caixas…

Bruno: Hã…

Jo: Nada não Bruno, nada não. Mas o caso é que eu estou nessa pilha porque o Roberto terminou comigo. Disse que eu sou muito carente. (Mariana tenta falar) Cala a boca Mariléia! Não ta vendo que eu to falando? Que educação é essa. Não é só porque nasceu em Xerém que vai ficar interrompendo os outros no meio da conversa. Pobreza não é desculpa não minha filha. Voltando ao assunto, ele disse que não dava pra continuar comigo porque eu tava sufocando ele. Pode uma coisa dessas? Mas é tudo culpa das companhias telefônicas. Ele acha que eu sou carente por causa desses serviços destruidores de relacionamento que as companhias telefônicas disponibilizam hoje. Fica praticamente impossível namorar na era do celular. A diaba da operadora manda mensagem pra ele avisando todas as vezes que alguém tenta ligar. Mesmo se o celular estiver desligado. Mesmo se eu não deixar mensagem. Mesmo se eu nem ouvir o recado da caixa postal! Então eu ligo e dá o “tam, tam, tam, tam, tam tam. Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens e estará sujeita a cobrança após o sinal tu tu tu.” Tem o tututu, certo? Mas mesmo se eu desligar antes do tu tu tu, mesmo se eu desligar no tam tam tam, logo no início, o Roberto recebe uma mensagem dizendo que eu liguei! Ontem a bateria do celular dele acabou e ele estava sem o recarregador. Mas ele não me ligou pra avisar isso. Então eu tentava ligar pra ele e só tamtamtam. Eu ligava e só tam tam tam. Daí hoje de manhã, quando ele acordou e recarregou a droga do celular tinham 54 mensagens de texto avisando que o numero 98-327-327 tinha tentado falar com ele. Ele terminou o namoro dizendo que eu sufoco ele muito.

(Mariana tenta falar)

Jô: Cala boca Mariúsca! Mas Bruno, fala. Você ta com uma carinha, nega. Ta mais magro! Ta ótimo. Mas a cara ta esquisita. Você ta preocupado? Ta triste com alguma coisa? Ta querendo desabafar? (Mariana tenta falar) Cala a boca, Mariléia! Não ta vendo que a menina ta precisando desabafar? Nossa, você não tem a menor sensibilidade, Deus me livre…

Bruno: Não, Jo. Eu realmente não estou nos meus melhores dias, mas a Mari é que estava querendo contar alguma coisa, não é Mari?

Jo: Mas o que ela quer falar pode esperar. Ela não ta com essa carinha triste como a sua. (baixo) Até porque a cara dela não tem salvação nem com reza forte. (vai falar de novo) Cala boca, Maricleide! Depois você fala dos seus problemas. Deixa o Bruno falar primeiro porque ele ta mais necessitado. Vai amiga, desbafa, se joga. Chora que o ombro é teu!

Bruno: Não. Não é nada demais. É que… Você sabe como eu gosto de televisão né? Eu realmente tenho um apego muito grande aos jornais, aos meus programinhas da tarde, às novelas…

As três riem. Mari ameaça falar de novo

Jo: Cala a boca, Marinalva! Não ta vendo que a menina ta com um problema sério. Vai Bruno. Vai. Se solta, amiga. Se entrega. Deita que o colo é teu!

Bruno: To deprimido porque a trama do Márico Garcia perdeu força na novela da Glória.

(Mariana tenta falar)

Jo: Cala a boca, Marafusa! Mas que mania. Já te falei. Educação se aprende em casa. Pobreza não é desculpa. Não é só porque você nasceu num muquifo em Xerém que você tem que ser grossa assim. Aprende comigo, minha filha. Educação se aprende em casa. Não é só porque eu nasci em bairro nobre da Zona Sul que eu sou educada…

Bruno: Mas você não é de Queimados?

(ri imediatamente depois)
Jo: E você acha que não tem zona sul em queimados? Conta logo a tua história Bruno.

Bruno: É isso. To arrasado. Menos minutagem de Marco Garcia na minha tevê. E a Juliana deve estar sofrendo, né? Vida de atriz é uma loucura. Eu sou amigo de uma atriz, sabia? Ela já fez Malhação, Linha Direta, Agora é Que são Elas, Da Cor do Pecado, Mulheres Apaixonadas, Celebridade, Senhora do Destino. Aliás, senhora do Destino ela fez duas vezes! É a Larusca Mizinccini. Vocês conhecem? Não , né? Eu imaginava que não. É que a Larusca não faz papel, papel. Ela só fez ponta. (Põe a mão na boca) Opa! Ponta não.Ela já me explicou que não é ponta É par-ti-ci-pa-ção. São coisas bem diferentes, segundo a Larusca. Ponta é uma coisa, participação é outra. (pausa) Ai que saudades do Márcio!

Jô: Ai que saudades do Roberto.
Mari: Eu estou pegando mulheeeeeeeeeeeer!

Jo e Bruno: Oi?

Mari: É isso mesmo que vocês ouviram. Eu to pegando mulher e foi pra isso que eu chamei vocês aqui. Pra contar essa mudança na minha vida.

Bruno: Virou sapatão, amiga?

Mari: Que sapatão o quê? Coisa mais antiquada. Eu virei sapatênis, que é muito mais moderno. Porque vocês sabem que eu sou moderna. Eu uso meia colorida, eu ouço música eletrônica, eu entendo Gerald Thomas e agora, eu sou Sapatênis.

Bruno: Sapatênis?

Mari: É. Sapatênis, sapatênis. Um calçado que não é sapato e nem tênis. Ele tanto pode ser usado numa ocasião mais formal, quanto num lugar mais despojado. Sapatênis. Não é uma coisa nem outra, sabe? Como sapatênis eu posso transitar livremente entre os dois canais. É com o se eu nascesse com o dom da ambidestria,. Sabe aquelas pessoas que escrevem com as duas mãos? Então. Se a esquerda cansa elas passam a escrever com a direita e o texto ganha fôlego novo. Comigo é assim. Eu, por exemplo estou no meu momento mulheres. Que por sinal, está sendo di-vi-no. Mas se o momento mulheres der errado, eu posso voltar pro momento homens. Eu não corro o risco de ficar histérica porque a companhia telefônica denunciou pro meu namorado que eu sou mais carente que filhote de cachorro vira-lata na rocinha. E nem fico mais enfurnada em casa quase tendo um ataque epilético por causa do efeito estrobo da televisão.

Bruno: O que é que você faz pra se divertir então?

Mari: Gente. Zélia Duncan, Cássia Eller, Adriana Calcanhoto, Lan Lan e as Chicas estão aí pra isso, né. Nada como ouvir uma boa música tomando um vinhozinho ao lado de quem você ama.

Bruno: E você tem alguém que você ama?

Mari: Claro que sim.

Bruno: Quem?

Mari: A Jussara.

Bruno: E quem é Jussara?

Mari: Minha namorada, ué! A gente ta morando juntas.

Bruno: Desde quando?

Mari: Desde ontem!

Bruno: E quando é que você conheceu essa Jussara?

Mari: Anteontem!

Bruni: Mari! Você ta se dando conta do que você ta falando? Você ta se dando conta do que você ta fazendo?

Mari: O quê?

Br
uno: Você ta morando com uma pessoa que você conhece há dois dias.

Mari: Não esquenta não. Isso é normal entre as Sapatênis. Tem até aquela piada que diferencia o homossexualismo feminino do homossexualismo masculino.

Bruno: Piada?

Mari: È… Como é que é. Ah. O que é que uma lésbica leva para o segundo encontro?

Bruno: O quê?

Mari: A mudança. E o que é que um gay leva para o segundo encontro?

Bruno: Hã.

Mari: Não há segundo encontro!

Bruno: Quer dizer que a senhorita virou lésbica agora.

Mari: Meu amor. Eu não sou lésbica, eu sou sapatênis. Eu não sou isso, nem aquilo. Eu não sou carente, não fico me humilhando pra homem ou mulher nenhuma, nem depositando as minhas frustrações em pessoas que eu nem sequer conheço. Eu sou o momento. Porque você é o que você quer ser.

Bruno: Nossa… Você é o que você quer ser. Que lindo. Foi você que inventou isso?

Mari: Não é o slogan da boticário! Agora vamos beber, falar merda e ser feliz!

Jo: Vai com tudo, Mariana!

A revelação da chapinha alisadora

Cabeleireira segurando um alicate de unhas entre os dedos.

Cabeleireira: Próxima!

Manicure: Na noite passada, Madame comeu Pacu com polenta frita. Toda vez que Madame come um peixe de água doce ela vê o futuro.

Cliente: Olá!

Cabeleireira: Além desse unheiro incurável, dessa sobrancelha nervosa e do seu cabelo sem jeito… O que trouxe você aqui?

Cliente: A minha irmã está grávida e eu…

Cabeleireira: Eu sei… estou vendo. Vai ser menino!

Cliente: Jura?

Cabeleireira: Posso jurar, mas não posso prometer!

Cliente: O nome dele será Gabriel!

Cabeleireira: Não! Menino não pode ter nome de anjo. Confunde a cabeça da criatura! Eu pergunto: anjo tem sexo? Alguém sabe? Não sabe? Não tem? Aí, ninguém sabe! Com nome de anjo o menino já sai da barriga com uma questão séria na mente para resolver: a questão da sexualidade. Nome de anjo, não.

Cliente: O que mais eu preciso saber?

Cabeleireira: O menino deve tomar distância de duas coisas perigosíssimas: Wellaton e chapinha alisadora.

Cliente: Ah, meu Wellaton.

Cabeleireira: É hora de desapegar! Desista desse acaju médio!

Cliente: E sobre a chapinha alisadora. Ninguém da minha família usa chapinha.

Cabeleireira: Eu sei… a sua irmã usa formol!

Cliente: Meu cabelo é bom, só está numa má fase.

Cabeleireira: Antes do menino nascer, vocês deverão sumir com a chapinha alisadora que fica no maleiro do armário, dentro da sacola das Casas Bahia.

Cliente: Ah, aquela chapinha era da mamãe! Foi tudo o que restou além das dívidas no bingo e no jogo de damas da Praça do Lido.

Cabeleireira: A Chapinha alisadora deve sumir. Se a chapinha continuar na sua família o menino vai usar franja, tirar fotos de si mesmo, chorar ouvindo música mela-cueca e rir baixo.

Cliente: Deus me livre de um homem que ri baixo!

(Cabeleireira senta exausta e fica em silêncio. Cliente levanta trôpega, sofrida, sabe que de uma vez por todas deverá se livrar do seu grande segredo: a chapinha alisadora)

FIM
postado no dia da mentira

Queridos,
Segue o convite para dois trabalhos meus em cartaz no teatro Teatro Gláucio Gill:

“Quixotesca e Pançuda! O roubo dos anéis de Saturno”
Sábs e dom 17h
e
SERPENTE VERDE SABOR MAÇÃ (texto e direção: Larissa Câmara e Jô Bilac)
Sábs 19h e dom 18h.
Endereço: Praça Cardeal Arcoverde s/n
Tel: 2547 7004. Valor do ingresso R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia entrada).

Entrelinhas

Prólogo

A cena é um avanço no tempo e o encontro de duas reações simultâneas. Lucas arruma suas malas e vai embora de casa. Gabriel lê a carta deixada pelo amigo e cai em choro, ficando atordoado. Vai em busca do amigo enquanto ouve as palavras escritas por Lucas.

Lucas (em off) – Gabriel, talvez você nunca terá noção do quanto é difícil e doloroso pra mim tomar essa decisão, mas isso não importa. Não quero mais estar perto de você. Não estou feliz e apenas tento me enganar fingindo que nossa amizade nos faz bem. Sequer acho que somos amigos. Não te admiro mais. Desconfio, às vezes, que existe uma certa maldade nas ações. Ou uma falta de responsabilidade em não medir as consequências. Tudo é pela metade, não-dito, escondido. A festa de hoje, mais uma vez, foi prova disso. Sempre saio frustrado ou me sentindo traído como amigo. Por favor, não responda esta carta. Não me procure. Ficamos por aqui. Nossa amizade foi destruída pelo amor.

A cena é interrompida no exato reencontro dos dois.

Cena 1

Gabriel e Lucas em casa, cercados por livros e papéis, numa discussão calorosa. Estão entusiasmados com o papo e não escutam a campainha tocar.

Gabriel – O filme fala sobre amizade, é completamente diferente.

Lucas – Gabriel, o filme fala de amor. Apela pro sexo, mas fala de amor.

Gabriel – Ah, você é incapaz de perceber as coisas.

Lucas – Perceber o quê?

Gabriel – Você é muito romântico.

Lucas – Sou romântico mesmo.

Ouvem a campainha.

Lucas – Ela já chegou?

Gabriel – Já!

Lucas (tentando arrumar a bagunça. rindo) – A Vanessa vai ficar com uma péssima impressão da gente.

Gabriel – Da gente, não. De você! (abre a porta)

Recebe Vanessa com simpatia.

Gabriel – Vanessa?

Vanessa – Lucas?

Gabriel – Errou, Gabriel. Entra!

Vanessa – Vocês são muito parecidos.

Lucas – Ah, todo mundo diz isso! Vivem confundindo a gente!

Os dois riem.

Vanessa – Ah, vocês são irmãos?

Gabriel – Praticamente.

Lucas – Eu juro que a casa não está sempre nesse estado.

Vanessa – Eu imaginei coisa muito pior! Casa de homem….

Lucas – Por quê?

Vanessa – Poucos móveis. E o pouco que tem, nada combina com nada, e está fora do lugar.

Gabriel – As mulheres em geral, são muito mais bagunceiras que os homens. Palavra de quem já morou com três. Na verdade elas falavam tanto, que me dava a impressão que a casa tava sempre bagunçada. (ri)

Vanessa – E o que tanto vocês discutiam, que não ouviam a campainha tocar?

Lucas – Fomos ao cinema e discordamos de praticamente tudo no filme.

Vanessa – Deu pra perceber.

Gabriel – Ah, irmão, também não discordamos de tudo. Não exagera! (para Vanessa) O Lucas acha que o filme fala de amor, e eu amizade.

Vanessa – Amor e amizade são a mesma coisa.

Os dois entreolham-se.

Juntos – Será?

Vanessa – Estão vendo como faltava uma mulher nessa casa?

Lucas arrumando a bagunça.

Lucas – Sabe que se a Vanessa tiver razão, nossos conflitos acabaram? (para Vanessa) Eu tô me formando no final desse ano e o Gabriel tá trabalhando comigo, faz a minha assistência.

Vanessa – Formando em quê?

Lucas – Cinema!

Vanessa (para Gabriel) – Você também?

Gabriel – Eu não, tô no quarto período de publicidade. Mas adoro cinema…

Vanessa – Nossa, que legal… eu também adoro! E o filme é sobre o quê?

Lucas – Não sabemos ainda, estamos discutindo o roteiro…. fase de pesquisas inesgotáveis. Mas a idéia geral do filme é contar a história de uma mulher que é destruída por um amor platônico.

Vanessa – Sabem que eu tô escrevendo a minha monografia inspirada numa idéia sobre o amor? Bom, claro que não sabem, vocês acabaram de me conhecer! (riem)

Gabriel – Você tá se formando em filosofia esse ano, né?

Vanessa – Essa é a pergunta mais difícil de se responder no campo filosófico! Não há pensador que se arrisque em dizer quando eu me formo!

Lucas – Vem conhecer o seu quarto.

Gabriel – Só trouxe isso de mudança?

Vanessa – Ah, é só por quinze dias. Eu tô vendo outro apartamento.

Lucas – Pois é… é que a gente já tinha prometido o quarto a um amigo, fica chato falar pra ele que colocamos outra pessoa no lugar.

Vanessa – Será que ele vai se importar se eu ficar até o final do mês?

Lucas – É tranquilo, não tem problema nenhum.

Cena 2

Gabriel, Lucas e Vanessa em casa numa discussão interminável sobre um dos pontos do roteiro. A nova moradora está adaptada e íntima dos dois.


ps. trecho de uma peça que morro de vergonha de mostrar!

Pink-Blue

vai uma rapidinha pois o autor acordou sem idéia alguma…

Mulher:(maravilhada) Nossa, que barrigão! É menino ou menina?

Mulher grávida: É Allien.

Mulher: Você foi abduzida?

Mulher grávida: Não. A gente marcou um encontro no Amarelinho da Cinelândia e acabou rolando.

Mulher: Hum… E nasce quando?

Mulher grávida: Em dois anos e meio.Allien né… Você sabe como é.

Mulher:E como você está fazendo?

Mulher grávida: Em que sentido?

Mulher: As coisinhas do neném. Você compra que cor? Rosa ou azul?

Mulher grávida: Branco.

Mulher: Branco… Que idéia boa.

Mulher grávida: Quer ser madrinha?

Mulher: Não.

Mulher grávida: O pai dele é muito poderoso.

Mulher: Ele fez algum filme?

Mulher grávida: Não. Mas se parece muito com um cantor que não posso dizer o nome.E você? Não pensa em ter um bebê?

Mulher: Eu já tive.

Mulher grávida: Que legal. menino ou menina?

Mulher: É Satã.

Mulher grávida: Hum… E como fez na cor das coisinhas?

Mulher: Comprei tudo preto.

Mulher grávida: Que boa idéia…

Mulher: Quer mais café?

Mulher grávida: Não, obrigada.Posso ser indiscreta?

Mulher: Claro.

Mulher grávida: Satã brinca de boneca ou de carrinho?

Mulher: Satã brinca de Banco Imobiliário.

Mulher grávida: Satã tem agenda ou caderneta?

Mulher: Satã tem Bloco de notas.

Mulher grávida: Satã faz aula de futebol ou de balet?

Mulher: Satã faz yoga.

Mulher grávida: Satã é ótimo.

Mulher: É…Mas posso te contar um segredo?

Mulher grávida: Claro…

Mulher: É que eu estou meio preocupada…sabe? De lá pra cá Satã cismou que quer fazer teatro…

Fim.