A solução
Mulher e Cartomante.
Cartomante: Então minha filha, o que a traz aqui?
Mulher: Me disseram que a senhora é uma cartomante especializada em simpatias.
Cartomante: Te disseram certo.
Mulher: Sei…
Cartomante: A senhora não acredita?
Mulher: Fico desconfiada.
Cartomante: Por quê?
Mulher: A senhora atende em Botafogo.
Cartomante: E daí?
Mulher: Nunca vi cartomante boa em Botafogo. Cartomante boa mora longe. De preferência no subúrbio.
Cartomante: O quê?
Mulher: Marechal Hermes, Vilar dos Teles, Valparaíso. Lá tem cartomante boa.
Cartomante: A senhora está enganada.
Mulher: Enganada está a senhora com esse corte de cabelo.
Cartomante: Como assim?
Mulher: Cinco pontas.
Cartomante: Cinco o quê?
Mulher: Vidal Sassoon. Nunca ouviu falar?
Cartomante: Eu…
Mulher: Claro que não. A senhora é cartomante. Cartomantes falam errado e não têm cultura.
Cartomante: Minha senh…
Mulher: Vidal Sassoon revolucionou o corte de cabelo feminino na década de sessenta com formas geométricas e ângulos retos em cabelos lisos e pretos aposentando a era do laquê. Algo muito semelhante a esse corte que a senhora tem (obviamente não tão cafona e mal executado). Como a senhora pode perceber usar um corte ultrapassado e demodé em pleno século XXI faz a senhora estar redondamente enganada.
Cartomante fica um tempo paralizada não entendendo nada.
Mulher: Isso sem falar nessa blusa de jerse, mas não vou nem entrar nesse mérito senão nós não saímos daqui hoje.
Cartomante: A senhora… A senhora… (pausa) A senhora aceita um copo d´água?
Mulher: Sim, por favor.
Cartomante sai.
Mulher: Lustrezinho de mau gosto…
Cartomante volta. Entraga o copo d´água. Mulher bebe inteiro e coloca na mesa.
Mulher: Quente.
Cartomante: Como?
Mulher: E com gosto de terra.
Cartomante: ?
Mulher: A água. Está quente e com gosto de barro. O mínimo que a senhora podia fazer para uma cliente que está pagando é servir água levemente climatizada e que tenha passado por um filtro limpo pelo menos uma vez desde os últimos cinco anos, que claramente não é o caso.
Cartomante: A senhora…
Mulher: E esse tom.
Cartomante: O que é que tem meu tom?
Mulher: O que é que tem seu tom? Tudo, não é minha senhora? Podia ser um pouco menor. Mais baixo. É mais apropriado para alguém que faz um trabalho como o seu.
Cartomante: Nenhum cliente meu reclamou do meu tom.
Mulher: Já era de se esperar.
Cartomante: O que a senhora quer dizer com isso?
Mulher: Experimente abaixar em umas três oitavas a sua voz. Talvez dessa forma seja levemente suportável ouvir o que a senhora tem a dizer.
Cartomante: Olha aqui, minha filha. Eu fui muito educada até agora. Mas você está passando dos limites. Ou você desce desse salto e me diz agora o que você quer de mim ou a você ponha-se daqui pra fora. Por que em vinte e cinco anos de cartomancia eu nunca vi uma mulher tão… tão… tão… antipática.
Mulher: Justamente.
Cartomante: Justamente o quê?
Mulher: A simpatia.
Cartomante: O que é que tem a simpatia.
Mulher: Eu queria uma simpatia para ficar mais simpática.
Cartomante: O quê?
Mulher: É mais forte do que eu. Eu tento, mas não consigo. Eu tento ser simpática, dócil, meiga, amável e outros adjetivos idiotas que tornam a gente socialmente aceito. Mas não consigo. Eu não consigo.
Cartomante: Você quer uma simpatia pra ter simpatia?
Mulher: Exatamente. A senhora acha que consegue resolver o meu caso?
Cartomante dá uma boa olhada pra mulher.
Cartomante: Resolvo. Resolvo sim…
Mulher: Ótimo. Então me diga minha senhora. O que eu devo fazer?
Cartomante: O que a senhora deve fazer?
Mulher: Sim.
Cartomante: Bom, primeiro a senhora tem que tomar um banho com pétalas de rosa branca.
Mulher: Banho com pétalas de rosa branca. Anotado.
Cartmonte: Depois passa essência de lavanda atrás das orelhas.
Mulher: Essência de lavanda.
Cartomante: Saia de casa numa noite de lua cheia, depois da meia-noite de sábado.
Mulher: Sim.
Cartomante: Encontre um homem solteiro e dê a ele um preparado de noz-moscada, gengibre e cachaça.
Mulher: Ok, isso é fácil
Cartomante fica muda
Mulher: E depois, minha senhora. O que eu faço depois?
Cartomante: O que você faz?
Mulher: Sim?!?!
Cartomante: Leva ele pra casa e trepa a noite inteira. Tenho certeza que no dia seguinte você vai acordar muito, mas muito mais simpática.
Mulher: Mas minha senhora!
Cartomante: São noventa reais. Passar bem.
A simpatia
Personagens:
Clara: mulher desesperada
Breno: Homem decidido
Madame Tessi: Adora mulheres desesperadas.
Doutora . Elenco de apoio
BRENO: Eu te amo.
CLARA: Jura?
Bruno: Juro.
CLARA: Mesmo?
BRENO: Mesmo.
(Ele dá um beijinho na boca dela. Música. Furo no tempo. Clara está chorando com uma filipeta na mão. Ela entra numa porta .)
Clara: Com licença?
MADAME TESSI: Entra.
CLARA: Será que é aqui?
MADAME TESSI: Veio atrás de seu amor?
CLARA: Eu o perdi.
MADAME TESSI: É aqui mesmo.
CLARA: Você é a (Clara lê no papel)
MADAME TESSI: Madame Tessi.
CLARA: Oi, sou…
MADAME TESSI: Clara.
CLARA: Como sabe?
MADAME TESSI: Tá escrito no seu crachá.
CLARA: Ah! Eu esqueci de tirar. (Clara vai tirar o crachá)
MADAME TESSI: Não precisa, daqui a pouco vai ter que ir para o trabalho, não é?
CLARA: Sim.
MADAME TESSI: Você o perdeu recentemente?
CLARA: Sim. (chora)
MADAME TESSI: Deixa eu te ver.
(Madame Tessi se aproxima dela)
MADAME TESSI: Tome.
CLARA: O que é isso?
MADAME TESSI: Um batom, vai te deixar melhor.
CLARA: (chora) Eu não me agüento mais.
MADAME TESSI: Logo, logo seu amor estará de volta.
CLARA: Mesmo?
MADAME TESSI: Depende do que você for capaz.
CLARA: Eu faço de tudo. De tudo.
MADAME TESSI: Vou precisar fazer umas perguntas.
CLARA: Eu faço de tudo. De tudo.
MADAME TESSI: Ele é casado?
CLARA: Não.
MADAME TESSI: Separado?
CLARA: Não.
MADAME TESSI: O que aconteceu?
CLARA: Desencanto. Dele.(chora)
MADAME TESSI: Só isso?
CLARA: Isso não é só.
MADAME TESSI: O quanto gosta dele?
CLARA: O quanto meu amor for capaz.
MADAME TESSI: Nome.
CLARA: Breno.
MADAME TESSI: Já fez antes?
CLARA: O quê?
MADAME TESSI: Simpatia.
CLARA: Nunca.
MADAME TESSI: Quer mesmo fazer?
CLARA: Faço de tudo, de tudo.
MADAME TESSI: Então vai ser fácil. Escute.
CLARA: Faço de tudo, de tudo.
(Furo no tempo. Clara encontra Breno.)
BRENO: O que ta acontecendo?
CLARA: Eu queria te ver.
BRENO: Não vamos tornar as coisas mais difíceis, Clara.
CLARA: Eu não tô conseguindo.
BRENO: Foi pra isso que você me chamou?
CLARA: Você tá tão frio.
BRENO: Eu não quero te ver sofrer.
CLARA: E você? Não sofre?
BRENO: De outro jeito.
CLARA: Que jeito?
BRENO: É coisa minha.
CLARA: Me diz respeito.
BRENO: Eu não vou ficar aqui nessa esquina com você.
CLARA: Só mais um pouquinho.
BRENO: O que tá acontecendo?
CLARA: O que tá acontecendo com você, Breno? Cadê todo aquele amor?
BRENO: Eu já falei, isso acontece.
CLARA: Não. Isso não acontece.
BRENO: Eu vou embora.
CLARA: Espera mais dois minutos.
BRENO: Por que dois minutos?
CLARA: Depois de dois minutos você vai se reapaixonar.
BRENO: Tá doida?
CLARA: Falta só mais um.
BRENO: Que saco!
CLARA: Alguns segundos.
BRENO: Aonde você tem andado, hein?
CLARA: Por favor.
BRENO: Eu tô aqui.
CLARA: Passou!
BRENO: E daí?
CLARA: Estou pronta pra ouvir.
BRENO: O quê?
CLARA: Fala logo que quer casar comigo.
BRENO: Tchau, Clara. Se cuida.
(Furo no tempo.)
CLARA: Quero meu dinheiro de volta.
MADAME TESSI: Calma
CLARA: Não funcionou.
MADAME TESSI: Eu sei.
CLARA: Tá me fazendo de palhaça.
MADAME TESSI: Você disse que fazia de tudo.
CLARA: E faço.
MADAME TESSI: Então escuta.
CLARA: Posso até te matar.
MADAME TESSI: Isso tudo faz parte.
CLARA: Da minha desintegração e enlouquecimento?
MADAME TESSI: Do seu processo de conquista.
CLARA: O que quer dizer?
MADAME TESSI: Tenha paciência.
CLARA: Não brinque comigo.
MADAME TESSI: Então ouça.
(Furo no tempo. Breno está passando e Clara vai atrás dele.)
CLARA: Breno!
BRENO: Clara!
(Clara joga penas de galinha em cima dele.)
BRENO: O que é isso, Clara? Tá maluca?
(Clara começa a cantar e dançarcomo se fosse uma galinha em volta de Breno)
BRENO: Pára com isso, Clara . Pára.
(Clara se ajoelha para ele cantando a música.)
BRENO: Chega, Clara. Assim não dá.
(Ele pega ela pelos braços.)
BRENO: Clara, você não tá bem. Vai pra casa, descansa. Sai daqui gora.
(Clara abraça ele.)
BRENO: Chega, Clara. Vai viver a sua vida, vai viver a sua vida.
(Ele solta ela e vai embora.)
(Furo no tempo. Clara está furiosa.)
CLARA: Me devolve tudo!
MADAME TESSI: É assim mesmo.
CLARA: Assim mesmo o quê? O que tá fazendo?
MADAME TESSI: Você não disse que faz de tudo?
CLARA: Eu faço de tudo. De tudo.
MADAME TESSI: Então espera.
CLARA: Posso até te matar.
MADAME TESSI: Escuta o que vou te dizer antes, tome isso.
(Madame Tessi, entrega um punhal para Clara.)
(Furo no tempo. Clara aborda Breno na rua, ele se assusta.)
BRENO: Ah! Quer me matar?
CLARA: Olha o que eu fiz.
(Clara abre a sua blusa e mostra seu peito todo cortado escrito o nome dele.)
BRENO: Você enlouqueceu de vez?
CLARA: Agora você volta pra mim?
BRENO: Clara, seja lá o que você esteja fazendo, pára, pelo o amor de Deus. Isso não tá adiantando nada.
CLARA: Mas devia, mas devia!
BRENO: Eu vou te levar no médico.
CLARA: Vai cuidar de mim?
BRENO: Não é isso, droga. Isso tudo me afasta ainda mais de você, entende?
CLARA: Eu não entendo mais nada.
(Furo no tempo)
CLARA: Eu não entendendo mais nada. Você disse que daria certo!
MADAME TESSI: Tenha paciência.
CLARA: Olha pra mim, olha meu peito.
MADAME TESSI: Vai dar certo.
CLARA: Com o punhal. Eu vou matar você.
MADAME TESSI: Não seja burra. Você quer me matar ou ter seu homem de volta?
CLARA recua: Meu homem.
MADAME TESSI: Então continua fazendo o que mando.
CLARA: Faço de tudo, de tudo.
MADAME TESSI: Escute, é a última vez e terá ele pra sempre.
CLARA: Pra sempre?
MADAME TESSI: Pra sempre.
(Furo no tempo. Clara está com Breno.)
BRENO: É última vez.
CLARA: Diz que me ama.
BRENO: Clara…
(Clara pega o punha e ameaça se matar)
BRENO: Não faça isso.
CLARA: Você vai voltar pra mim?
BRENO: Assim não é possível.
CLARA: Vai voltar ou não vai?
BRENO: Não vai se machucar.
CLARA: Eu faço de tudo, tudo.
(Clara corta um dos pulsos. Furo no tempo)
BRENO: Eu te amo.
CLARA: Jura?
BRENO: Juro.
CLARA: Mesmo?
BRENO: Mesmo.
(Ele dá um beijinho na boca dela. Ela dorme. Entra a Doutora.)
BRENO:Doutora, ela vai ficar bem?
DOUTORA: Se ela acordar e não te ver, vai se descontrolar e tentará fugir à sua procura.
BRENO: Se for preciso, usa a camisa de força. (pausa) E o choque elétrico.
DOUTORA: O que digo a ela?
BRENO: Que serei dela pra sempre.
DOUTORA: E será?
(Clara acorda.)
CLARA: Breno?
BRENO: Oi, Clara.
CLARA: Você vai ser meu pra sempre?
(silêncio)
BRENO: Sim.
(Clara sorri e volta a dormir)
BRENO: Tenho que ir.
DOUTORA: Aonde vai?
BRENO: Pra igreja.
DOUTORA: Rezar?
BRENO: Casar.
(Clara está dormindo com um sorriso na face. Breno vai embora irritado.)
FIM
Imaculada Aparecida – um coração na mala
“Meu castelo é a casa da fazenda onde eu terço minha lenda… Se o desejo Delirar!”
(Mulher arrumando uma mala que fica na frente dela. Enxergamos apenas o rosto da mulher e parte do seu tronco.)
MULHER: Tem certas coisas que você vai precisar saber. Talvez você só entenda com o tempo. Mas, a vida é assim. Espero que você goste das roupas que escolhi. Que fique muito claro: azul não vai precisar ser a sua cor predileta! Eu sei… eu sei… que parece estranho… Mas, depois que ele se foi. Como posso explicar exatamente… Depois que ele subiu no telhado, empacotou, foi para a casinha de Jesus. Eu guardei uma parte dele. Isso é um segredo nosso! Ninguém sabe. Durante anos deixei essa parte dele escondida num fundo falso do meu guarda-roupa. A cada faxineira nova eu tinha palpitações estranhíssimas, elas costumam ser tão entronas. Mas, nenhuma conseguiu achar o fundo falso. Devo confessar que fui prevenida: deixava minhas jóias aparecendo, como seu eu fosse descuidada. É impressionante a capacidade das pérolas! Distraem tão bem as pessoas! Dia desses tive insônia. Peguei meu colar de pérolas e balancei a jóia levemente sobre minha cabeça. Observei. Criei uma espécie de móbile real. Nunca dormi tão bem. Numa outra noite, tentei fazer a mesma coisa com meu colar de esmeraldas. Fiquei meio enjoada. Não sei… aquela coisa verde balançando… lembrei do filme “O Exorcista”. (pausa) Não era disso que eu estava falando… Quero dizer tantas coisas para você… O que mais você precisa saber? Ah, seu avô vende leite na garupa da bicicleta, fala fazendo rimas e faz churrasco aos domingos. Sua avó benzedeira faz doce de leite e mata galinhas segurando pelo pescoço e girando. Como posso demonstrar? (Pega uma peça de roupa e simula o ato. Fica insatisfeita com a simulação) Enfim, só dá para entender vendo ao vivo. Sua outra avó gosta de comida congelada, faz yoga e tem um personal trainer, que vale muito a pena ver ao vivo. Seu outro avô era advogado, apaixonado por cavalos e durante anos criou um pavão de estimação. Sua bisavó usava calcinha de almofadinha para realçar o bumbum, bebia cerveja na xícara para fingir que era chá, adorava os amantes ricos e traficantes da sua prima e tinha um grande sonho: queria que eu fosse garota propaganda de guaraná antártica! Eu ficava com raiva! Nunca gostei de guaraná. (pausa) Acho que você precisa saber um pouco de mim. É tão difícil falar da gente mesmo. Um dia você vai compreender. Bom, acho importante dizer que quase tudo na vida deve ser feito com simpatia e elegância. Tudo bem. Tudo bem. Vou falar sobre mim… Ah, lembrei! Quando eu era pequena fui muito doente, e minha mãe fez uma promessa: se eu ficasse boa, eu deixaria meus cabelos crescerem até os sete anos de idade. Aos sete anos fui até Aparecida do Norte, vestida de anjo e cortei os cabelos, deixei as tranças nos pés de Nossa Senhora. Por isso eu tenho Aparecida no meu nome, eu não sei bem em que época foi, acho que eu era bebê. Isso você sabe como é: bebê. (mulher fecha a mala só agora podemos ver que ela está grávida. Mulher coloca as mãos na barriga acaricia. Susto. A bolsa arrebentou. Ela volta a abrir a mala e retira um vidro com um coração humano dentro) Aqui o seu papai! O pedacinho do papai que eu guardei! (quase santa) Meu filho, acho que só tem uma coisa que você precisa saber na vida: tudo o que você fizer, faça sempre com todo o amor! (pega a mala e sai de cena)
FIM
Para Joana Lebreiro e Tatjana Vereza que se ocupam da bela tarefa de preparar outras pessoas! Para minhas bisavós, minhas avós… e para minha mãe! Porque é das mulheres que nascem os milagres!
Simpatia do limão
Joana – Mulher de 35 anos.
Silmara – Mulher de 60 anos. Cartomante do tipo “trago homem amado em três dias”
Joana está sentada na frente de Silmara que abre as cartas.
Joana – Não precisa abrir as cartas.
Silmara – Não?
Joana – A senhora não lembra de mim?
Silmara – Ah, minha filha… difícil…
Joana – Vim aqui há três dias.
Silmara – Você é a moça do…
Joana – Jorge.
Silmara – O ex-marido, cafajeste-babaca-puto-sem vergonha, que depois de tantos anos de amor, te abandonou sem aviso prévio e noivou com uma moça de 19 anos uma semana depois.
Joana – Ele mesmo.
Silmara – Não lembro.
Joana – Não?
Silmara – Você acha que só você teve o privilégio de ser casada com um homem assim?
Joana – Mas eu pensei que…
Silmara – E aí? Fez a simpatia do limão?
Joana – Fiz .
Silmara – Cortou a ponta de cueca dormida e deixou pendurada na porta de entrada da casa?
Joana – Sim.
Silmara – Colocou açúcar no limão e chupou depois.
Joana – Podia ser açúcar mascavo? Acho mais saudável…
Silmara – Se o santo for gordo, é até melhor…
Joana – Fiz tudo. Três vezes.
Silmara – Ótimo.
Joana – Exagerei, né?
Silmara – Minha filha, tem mulher que chupa a cueca e pendura o limão.
Joana – Triste…
Silmara – E aí? O tal não voltou?
Joana – Voltou.
Silmara – E qual é o problema?
Joana – Me arrependi.
Silmara – Do que? Você não queria ele de volta mais que tudo na sua vida?
Joana – É que nesses três dias conheci um outro homem…
Silmara – Ih…
Joana – Não tem como desfazer? Se eu fizer tudo ao contrário, não inverte o resultado?
Silmara – Como assim?
Joana – Não sei. Corto a ponta do porta e deixo pendurada num limoeiro. Aí coloco a cueca no açúcar e misturo no suco.
Silmara – Que suco?
Joana – Sei lá que suco!! To nervosa… a qualquer momento o Rodrigão pode chegar lá em casa e vai encontrar o paspalho do Bruninho fazendo quebra-cabeça.
Silmara – Ele não gosta de quebra-cabeça?
Joana – Não importa! Espero que não… mania mais idiota. Mas ele não pode ver o Bruninho! Não posso perder um homem daquele… 25 aninhos… na flor da idade…
Silmara – Como é o nome dele?
Joana – Do meu gostoso? Rodrigão.
Silmara – Ihhh…
Joana – O que foi?
Silmara – Sei quem é… cara famoso na praça…
Joana – Famoso? Por quê?
Silmara – Toda hora aparece uma mulher aqui querendo trazer ele de volta, porque desapareceu sem dar noticia… o rapaz é um tremendo 171! E vou te falar, minha filha, esse aí nem simpatia segura! O malandro é liso até para trabalho pesado… Se eu fosse você, saía fora.
Joana – Sério? Não sei…
Silmara – E tem mais: dizem que joga nos dois times.
Joana – Impossivel!! O Rodrigão? Moreno de praia, surfista, barriga de tanque, 1,80m?
Silmara – Esse mesmo. Tá sempre com um mulatão do lado, sorrindo para ele.
Joana – Mulherengo e canalha ainda vai… mas gay…
Silmara – É… a situação não tá facil.
Joana – Vou seguir seu conselho então… o Bruninho está tão bonzinho… Vou dar mais uma chance para ele. Muito obrigado.
Silmara – Pode acertar com a minha auxiliar lá fora. Infelizmente o Visa tá fora, mas o Redeshop tá funcionando. Até mais.
Joana sai. Silmara pega o telefone celular e disca.
Silmara – Seu Bruno? Tudo feito. Pode deixar que ela nunca mais vai querer ver o tal do Rodrigão. Garanto sim. Fiz um trabalho poderoso aqui, com galinha preta e tudo. Não precisa se preocupar. Agora, seu Bruno, só mais uma coisa que eu vi nas cartas e pode mudar o seu futuro: dá um tempo com os quebra-cabeças.
Miss Simpatia
Personagens:
Erik, bonito e elegante.
Kid, a mesma personagem de “A mulher que equilibrava um cubo de metal”.
( Kid aborda Erik, que passa por um beco escuro qualquer)
Kid: Me ajuda.
Erik: Meu deus, você está baleada, precisamos chamar ajuda médica…
Kid: Por favor, não!
Erik: Mas você está se esvaindo em sangue!
Kid: (firme) Não! (tempo) Só fica aqui comigo um tempo, até eu conseguir segurar a onda.
Erik: Olha, eu não posso ficar aqui passivo e ver você sangrar até morrer. Não mesmo!(tira o telefone do bolso) Eu vou chamar uma ambulância, não vai demorar e em pouco tempo tudo estará resol…
Kid: Esse sangue não é meu.
(silêncio)
Erik: ???
Kid: Isso mesmo que você ouviu: esse sangue não é meu.
(tempo)
Erik: Então… De quem é esse sangue?
Kid: Pam Loretti.
Erik: Pam Loretti, a Miss Simpatia????!!!!
Kid: Pam Loretti, a Mis Simpatia.
Erik: (tomado de horror) Você matou Pam Loretti, a Miss simpatia?
Kid: Não me encare como se eu fosse uma cadela leprosa banhada em esgoto. Eu não matei Pam Loretti, a Miss simpatia. Foi tudo uma armação.
Erik: Moça, eu não quero ouvir mais nada. Você está muito encrencada! Vamos fingir que nada aconteceu e nunca nos vimos antes. (vai saindo)
Kid: Por favor, deixa 15 reais pro meu táxi. Estou mais dura que coco.
Erik: Eu não quero me envolver com isso…
Kid: Você já está envolvido, Erik, até o último fio do seu cabelo.
Erik: (num espanto que desfigura seu rosto) Como você sabe o meu nome?
Kid: Eu sei tudo sobre você, Erik.
Erik: O que está acontecendo?
Kid: 15 reais pro táxi, e eu rasgo o mapa!Conto todos os milagres e os nomes dos respectivos santos.
(tempo.)
(Erik tira 15 reais e contrariado paga a moça)
Kid: (guardando o dinheiro no decote) Pam Loretti, a Miss Simpatia, me contratou para te matar. Mas parece que alguém se antecipou e foi ela que acabou sendo assassinada.
Erik: Mas por que Pam faria uma coisa dessas?
Kid: Vingança.
Erik: Vingança?
Kid: Não faz o louco! Você, mais que ninguém, sabia que o casamento de Pam com Bryan era pura fachada!
Erik: Como eu poderia saber?
Kid: Porque você tinha um caso com o marido dela.
Erik: Que absurdo!
Kid: Ela viu tudo ruir quando descobriu que Bryan estava apaixonado por você e disposto a jogar tudo pro alto e assumir o romance publicamente, arruinando a carreira de Pam como símbolo da perfeição coca cola trash luxo. Milhões estavam em jogo e você seria só um pobretão a menos: Carta fora do baralho. Pam precisava tomar uma providência o mais rápido possível e não hesitaria em quebrar os ovos para fazer uma rica omelete! Para isso eu fui contratada, afinal de contas, a Miss Simpatia jamais sujaria suas mãos com gordura barata.
Erik: (tonto com o impacto da revelação) Eu não posso acreditar nisso…
Kid: Pois é, meu bem. A vida é um carrossel desgovernado com cavalos selvagens capazes de tudo a qualquer preço.
Erik: E quem matou Pam?
Kid: Talvez você saiba disso melhor que eu…
Erik: Não sei o que está insinuando…
Kid: (irritada) Ora bolas! Não banca a vítima. Faz um esforço, meu filho.
Erik: Repito: eu não sei onde você quer chegar com isso.
Kid: Bryan.
Erik: O que tem Bryan.
Kid: Você convenceu Bryan a matar Pam. Sua ambição cega e desgovernada fez de Bryan um joguete em suas mãos, capaz de fazer tudo pra ficar com você.
Erik: Isso não é verdade!
Kid: Diz aqui, diz na minha face que você ama verdadeiramente Bryan! Diz!
Erik: Eu amo verdadeiramente Bryan.
Kid: Torpe! O amor em sua boca parece uma ferida pestilenta com uma mosca varejeira agonizante pousada em cima. Seu amor é como uma grande bola de pus, que precisa ser atravessada por uma agulha quente.
Erik: Eu não permito que você faça juízo de valor do que eu sinto pelo Bryan!
Kid: Pessoas como você, que usam o amor de forma feia e egoísta, se aproveitando da pureza alheia, não merecem um pingo de consideração. Fico pasma em saber que pessoas como você são capazes de despertar um sentimento tão belo e sincero no outro e deformar tudo sem o mínimo de dignidade e respeito.
Erik: (digno) O amor tem suas variantes e isso não diminui sua origem. Amo Bryan. E se fiz o que fiz, foi para protegê-lo. Bryan é ingênuo, uma rosa em botão, que murcharia no primeiro raio de sol. Bryan acredita que o amor justifica tudo e que sela o verdadeiro sentido da felicidade. Mas você e eu sabemos que isso não é verdade. Bryan é uma criança que pensa que o mundo cabe numa casquinha de sorvete.
Kid: E por isso você o convenceu que matar Pam, seria a melhor maneira de resolver tudo. Muito mais jogo. Afinal de contas, toda a fortuna seria dele e juntos poderiam desfrutá-la em alguma ilha da América Central.
Erik: Eu só quis poupá-lo de um escândalo desnecessário e para além de tudo eu sabia muito bem do que a miss simpatia seria capaz de fazer. Eu apenas fui mais rápido que ela.
Kid: (enojada) Vocês são tudo farinha do mesmo saco. Pobre Bryan… Aliás, pobre nada. Bem feito. Deve ser uma besta quadrada. Só mesmo uma besta quadrada pra não se dar conta que a piscina em que ele nada anda cheia de tubarões.(reflete) Se bem que quando estamos apaixonados, todos nós viramos verdadeiras bestas quadradas.
Erik: E o que você vai fazer agora, que sabe de toda a verdade?
Kid: (aponta um revólver) Te matar, naturalmente.
Erik: Me matar?
Kid: Sim. Eu fui paga pra isso e costumo levar meu trabalho muito a sério.
Erik: Muito bem, vá em frente. (arrogante) Você pensa que eu vou me humilhar? Eu não vou me humilhar. Pelo contrário: Eu quero que você faça! Faz! Se não fizer eu faço!
Kid: Por favor, não me dê ordens, eu sei muito bem o que devo fazer.
Erik: Pois bem: faça. Mas antes eu queria pedir um último desejo.
Kid: Você não está em condições de pedir nada por aqui.
Erik: Não se nega um desejo para alguém que está pra morrer. Você não pode me negar.
Kid: O que você acha que eu sou, cara? Sua fada madrinha! Você matou a mulher mais simpática do nosso país! Merece desejo nenhum!
Erik: Não fui eu, foi o Bryan!
Kid: Seu canalha, ele fez por você!
Erik: Então você pode realizar esse último desejo por mim, Não é nada demais, é só uma última vontade. Por favor. (sincero) Por favor.
( Kid Suspira)
Kid: Tudo bem. (debochada) Você terá seu pedido realizado, princesa. O que você quer?
Erik: Um beijo.
Kid: Um beijo????
Erik: Um beijo de língua.
Kid: Esquece. Você não me atrai em nada. Se prepara pra morrer!
Erik: Você prometeu!
Kid: Eu te prometi um desejo e não dois.
Erik: Mas foi exatamente o que fiz: um desejo.
Kid: Meu camarada, existem dois desejos: o seu desejo de beijar e o meu de ser beijada. Não vai rolar e fim de papo.
Erik: Um beijo. Por favor. Eu queria só um beijo antes de morrer. Por favor. O último que dei foi tão sem gosto que nem lembro. Afinal de contas você não acorda pensando que aquela quarta feira é a sua última chance com as coisas. E quando você se dá conta, como eu estou me dando conta agora, quando você se dá conta_ percebe que sua última transa foi qualquer nota e que seu último beijo então… Nem se fala. E que você tem se desperdiçado tanto por aí, e se esgotado tanto, a troco de nada… Sem nem valer
a pena… Poxa… Dá um vazio, sabe? Uma sensação de autopiedade, horrível. Você se sente um fantasma de si mesmo. Uma casa abandonada por dentro. E tudo o que você quer é um beijo. Um único beijo. Só pra prestar atenção. Só pra perceber que a vida é feita de pequenas eternidades. E que são essas pequenas eternidades que justificam todo o resto…
Kid: (puta da cara) Seu safado! Essa é a fala de Charlote Elizabete, na estação do trem, despedindo-se de Troi Bernard.
Erik: Sim, eu sei: Charlote assume que sua vida foi um erro e que o câncer só veio para finalizar aquilo que outrora já havia sido finalizado. Ela convence Troi a partir para a Capital e realizar seu sonho de ser um advogado renomado, enquanto Charlote havia se desperdiçado naquela cidadezinha cruel e implacável. Charlote só pede um último beijo, e Troi, mesmo sabendo que ela o traía com seu padrasto _ que havia tomado sua mãe como esposa apenas por uma rivalidade antiga, por questões territoriais, agora fazia o mesmo com a noiva do filho_ Mesmo assim, Troi perdoa Charlote e lhe dá um beijo e jura voltar assim que achar uma medula compatível com a dela!
Kid: “Corações sangrando”. Vejo que temos algo em comum.(exibe o livro que acabou de tirar da bolsa) Só que, meu chapa!, eu não sou Troi e você muito menos Charlote. E você vai beijar Jesus lá no céu.
Erik: E quem disse que eu não sou Charlote?.
Kid: Ora! Você está começando a me irritar. (faz que vai atirar)
Erik: (rápido) Espera!!!! Espera!!! Eu sou Charlote! Quer dizer, de certa maneira sim.
Kid: Eu também sou Charlote, todo mundo é um pouco. Isso não faz você melhor que ninguém!
Erik: Não foi isso que eu quis dizer.
Kid: E que diabos você quer dizer?
Erik: Eu quero dizer que eu sei essas falas porque fui eu quem as escreveu.
Kid: Pára a palhaçada! Todo mundo sabe que Kire Osnam é a autora de “Corações sangrando”, e que escreveu toda a coleção enquanto estava sobre o fogo cruzado na Faixa de Gaza, dividindo a casa com mais seis esposas de seu marido, 37 anos mais velho que ela. Agora eu vou te matar com gosto, só por essa profanação ao ícone dos açucarados das bancas de jornal!
Erik: Juro que não estou mentindo. É Kire Osnam quem mente. Quer dizer. Sempre mentiu. Kire Osnam é meu nome de trás pra frente: Erik Manso. Kire Osnam: Erik Manso. Olha. (mostra a identidade) Essa história de Faixa de Gaza e o escarcéu, é estratégia de marketing. Jogada comercial. Vende mais que Erik Manso, um gay que tem um caso com o marido da Miss Simpatia.
Kid: Eu duvido que alguém sensível como Kire, seria capaz de algo tão mesquinho. Kire jamais abusaria do amor por dinheiro.
Erik: Kire não come, não mora e nem bebe, Erik sim.
Kid: (muda o tom) Mas como saberei se está dizendo a verdade?
Erik: Me pergunte qualquer coisa a respeito dos livros. Eu respondo.
(tempo)
Kid: (reflete girando o revólver no ar) Ok. Em “Desejo e constatação”, Qual era a profissão do órfão Andrew antes de se casar com Eleonora e descobrir que o pai dela havia matado o seu?
Erik: Coveiro. Seu pai, teria sido o primeiro que ele havia enterrado, jurando vingança contra aquele que o matara.
Kid: Muito bem… Qual era a doença secreta de Lady Cameron em “Aqui se faz, aqui se paga”?
Erik: Cleptomaníaca, no capítulo final ela coloca fogo no próprio corpo, abraçada tudo que havia roubado até então, sussurrando o nome de seu amado, Evan.
Kid: Em “Esqueça o amanhã”, por quem e o que era traficado em bonecas de porcelana para Antiga Iugoslávia?
Erik: Joshua, o falso manco. Traficava passaportes falsos, só que _ correção!_ não em bonecas de porcelana e sim em barras de chocolate. E a Iugoslávia já havia se dividido em Sérvia e Montenegro. Daí a falha trágica, Joshua, não sabia para onde ir com os passaportes.
Kid: (maravilhada, abraça Erik. Um abraço muito apertado e emocionado) Kire!!
(ficam abraçados por um tempo enquanto ela fala)
Kid: (consternada) Quantas e quantas vezes eu pensava em desistir de tudo, em chutar esse maldito balde e eu lia você e percebia que do outro lado, sim, lá do outro lado havia um alguém com as mesmas inquietações que as minhas… (se recompondo) Desculpa, fiquei cafona. Não acontece sempre. É que não é todo dia que se encontra uma celebridade e hoje foi um dia atípico eu encontrei com duas: uma morta e uma que eu deveria matar! (ri gostoso)
Erik: Eu não fazia idéia de que meu livro estava sendo lido por uma pessoa tão interessante.
Kid: (encabulada) Ai, imagina! Tenho todos. Comecei lendo meio que por acaso e agora não perco um. Inclusive achei uma pena que no último livro, Troi não tenha voltado pra ficar com Charlote Elizabete. Ela morreu sozinha achando que ele voltaria. Achei muito triste.
Erik: É tudo meio baseado na minha relação com o Bryan e a Pam, entende? O nosso amor é como essa medula que nunca chega…
Kid: Ah… Mas você bem que poderia ressucitar Charlote Elizabete no próximo livro. Ela meio que podia reencarnar como uma jovem cliente do já renomado advogado Troi que, antes de se aposentar, se vê perdidamente apaixonado por sua cliente e fica entre o dever de defender a verdade ou encobrir uma criminosa. Sim, pois a jovem reencarnação de Charlote poderia ter matado seu jovem namorado que tentou violentá-la, mas isso era legal revelar só no final, o bacana é deixar a gente pensando que ela matou de sacanagem mesmo. Aí, também no fim, O renomado advogado Troi, poderia finalmente descobrir que a sua jovem cliente na verdade é a reencarnação de sua amada, que ele se corrói por ter abandonado_ ele deve se corroer muito, pode até ter virado alcoólatra por conta disso_ então, ele vê nessa jovem uma segunda chance de salvar o seu amor mais uma vez. Aí eu não sei exatamente como ele descobriria isso…Se por um acidente de carro, essas coisas de quase morte sempre funcionam, ou se por uma cigana qualquer de rua, que desaparecesse na fumaça. Não sei. Também não sei se seria muito interessante a jovem reencarnação de Charlote Elizabete Ir se apaixonando de cara. Talvez seja melhor ela criar uma certa resistência, até mesmo como birra de uma vida passada por ter sido largada. Mas no fim, sem dúvida, ela deve se entregar a essa paixão e viver intensamente o que não teve coragem de viver na outra vida. Porque se você parar pra pensar, vai ver que…
Erik: Ual. Vejo que você gosta mesmo desse gênero. Mas é que eu estou meio com pressa, não me leve a mal. Eu queria saber se você ainda vai me matar?
Kid: Eu deveria, pois você continua sendo o mesmo escrotinho ambicioso que convenceu seu amante a matar a própria esposa. E para além de tudo destruiu a minha referência de doçura em tempos duros. (muda o tom) Mas, justamente, em consideração a Kire Osnam, e a tudo de belo que ela já despertou em mim , é que eu vou poupá-lo e deixar que a vida se encarregue de fazer o que deve ser feito.
Erik: Obrigado. Muito obrigado.
Kid: Não agradeça a mim, agradeça a Kire, que aliás, ela sim, deveria ser a nossa miss simpatia.
(Erik vai saindo)
Kid: Espera. Tem mais uma coisa.
(ele estanca)
Kid: Me dá um autógrafo? (estende o livro sorrindo)
Fim.
Virgem, medieval, solteira procura
rada?
A simpatia de Juja
Juja
M (Ao telefone.)- Oi mãe. Tá tudo bem. Indo. Ótimo. Meio dura. Tô. Meio dura. Contas, cê vê. Contas não acabam nunca. Me livrei de uma ontem, menina. Chegou outra no correio. Apareceu, cê vê. É a vida… Fazendo nada. Tô aqui mexendo numas velharias. Jogar fora uns trecos pra dá espaço. Mamãe! Olha só o que tem aqui na caixa! Lembra de um natal… quando foi, gente. Que você me deu uma saiotinha balonê da Juja? (Tira da caixa uma horrorosa vestimenta infantil na cor lilás.) Que coisa horrorosa, Deus meu… Eu olho pruma coisa dessa e fico pensando… Será que o balonê vai voltar? Não tinha uma simpatia que tacar fogo em roupa veha dava sorte? Tá bom, mãe. Então me liga amanhã. Beijo. (Desliga o telefone. Olha para a saia balonê.) Bom. Isso aqui vai direto pro lixo.
Repentinamente o tecido parece brilhar, e num clarão de luz, aparece Juja com uma enorme letra jota bordada na blusa colada.
M- O que é isso!!! Que porra é essa???
J- Calma, calma! Não se assuste. Eu estou aqui apenas para auxiliá-la.
M- Quem é você??? Juja??? Você se parece com a… Você é a Juja!!!
J- Er… digamos que sim, mas é… médio. Não exatamente. Não sou ela.
M- O que você tá fazendo na minha casa???
J- Você passou tantos anos de pura alegria com essa lindíssima saia balon-e tamanho “P” na cor lilás. E esses foram momentos alegres e reconfortantes. Ou não foram? Mas infelizmente…
M- Mas o quê???
J- Nossos produtos possuem uma data de expiração apenas para assegurar a qualidade de vida e o bem estar de nossos clientes. De acordo com a etiquetinha amarela que você vai encontrar na terceira costura de cima, esse ítem foi comprado no dia 20 de dezembro de 2063. Ou seja, a exatos 20 anos atrás, já que estamos em dois mil… e oitenta… e três.
M- Como assim?
J- Acabou o seu crédito com esse produto da Juja. Para continuar usando-o você deve renovar o seu contrato.
M- Você já morreu há tantos anos… E eu te vejo aqui tão perto. Uma maldição dos anos sessenta que veio tirar o meu sossego? Quem é você? Você é o espírito da Juja?
J- Oh! Claro que não. Se eu fosse o espírito da Juja eu diria: “Socorro!!! Socorro!!! Mesmo morta ainda usam o meu nome para vender sutiã e prancha alisadora pra meninas precoces!!! Como dói!!! Estou queimando no inferno!!!” Hehehe! Brincadeira! Eu não sou a alma da Juja. E o que é inferno afinal? Existe mesmo inferno? Já em ostracismo eu acredito.
M- Eu não entendo…
J- Me desculpe. Eu sou apenas um holograma, uma imagem etérea produzida por um pequeno chip que se encontra costurado entre os dois pequeninos botões amarelos, num pequeno pedaço de látex, também amarelo na parte de trás da sua saia balon-e da juja na cor lilás.
M (Encontra o lugar na roupa.)- Aqui…
J- É aí que eu estou.
M- Nunca soube.
J- Olá! É aí que eu estou!
M- E isso não é perigoso?
J- Como assim?
M- A emissão de raios, não pode fazer mal… sei lá, causar câncer?
J- Aí eu não sei. Eu estou aqui pra te informar que o seu tempo de uso da saia balon-e da Juja na cor lilás já expirou… por favor, destrua o respectivo item… ou então…
M- Ou então…?
J- Ou então por uma pequena quantia poderás prorrogar seu período de utilização do item por mais três semanas.
M- Por quanto?
J- Uma pequena quantia em dinheiro.
M- Que é dê?
Juja retira um pequeno papel de uma bolsinha, escreve algo nele e o mostra à mulher.
M- Um absurdo!
J- Você pode botar no cartão em vezes.
M- Você tá me fazendo de palhaça!
J- Então, por gentileza, destrua o item.
M- É meu!!! Foi presente!!!
J- Sinto discordar.
M- Ganhei de natal!!!
J- Não. A pequena menina que ganhou essa saia balonê da Juja tamanho “P” na cor lilás do Papai Noel já não existe mais. Já se transformou em uma bela mulher.
M- Eu existo sim! Fui eu! Minha mãe pagou por isso! Não foi porra de Papai Noel nenhum! Papai Noel é que nunca existiu, cacete!!!
J- Mas eu existo, minha querida. Eu estou aqui. Insisto para que me escute e destrua a vestimenta.
M- Nunca!!!
J- Então pague a renovação.
M- Jamais!!!
J- Por favor… por favor… não me faça adotar medidas drásticas.
M- Foi presente! Tem valor sentimental. Não é possível que… Eu olho e me lembro tanto… de um outro tempo…
J- Jura? Por que será, né?
M- De um tempo mais tranqüilo.
J- Escuta. Eu estou tentando ser simpática, mas podemos cortar essa conversa mole?
M- Eu vou rasgar esse chip daqui.
J- Ha! Impossível.
A mulher tenta rasgar um pedaço da saia e não consegue. Tenta diversas vezes e não consegue.
J- Divertido isso. Eu gosto. De ver. Você quer que eu cante alguma coisa pra passar o tempo?
M- Eu vou conseguir. Mas nem que seja a última coisa.
J- Talvez um antigo sucesso? Sei cantar todas as músicas! Acredita! Tenho gravado na memória! O meu repertório. (Indecisa. Pensa.) O da Juja. O meu. O meu.
M- Não, obrigada.
J- Como é aquela mesmo do oitavo mini-disco? Você me acompanha? (Canta.) Vamos bater mão? Pá! Pá! Pá! Pá! Vamos bater pé! Pé! Pé! Pé! Pé!… Pá, pá! Pé, pé!… Pá, pá! Pé, pé!
M- Eu vou queimar você!!! Eu vou queimar você inteira!!! Sua bruaca! É isso que você quer???
J- Poxa! Até que enfim conseguimos entrar num acordo! Queimar eu acho ótimo!
M- Então queima!!! Queima!!! (Queima a saia com um isqueiro.)
J (Enquanto a roupa queima, Juja parece derreter junto, sua voz vai assumindo um tom pastoso e dissonante.)- Obrigada por usar as roupinhas e utensílios da Juja! Te esperamos numa loja bem pertinho de você!!! Você aceitaria preencher um pequeno questionário sobre a qualidade e eficiência dos produtos da Juja? (Canta.) Vamos bater palma! Pá! Pá! Pá! Pá!
Juja vai cantando até derreter completamente e sumir de cena. A mulher olha desolada os restos do tecido queimado. Treme, está com frio.
M- Tomara que dê sorte…
Trevas.
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