Remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro
(Cris e Rico estão se beijando, a meia-luz. De repente, sem que eles percebam, aparece Edu. Ao ver essa cena, Edu se esconde, assustado)
Cris: É melhor você ir embora, ele já deve estar chegando.
Rico: Eu não entendo por que você não diz logo toda a verdade.
Cris: Não posso magoá-lo, temos que ter calma.
Rico: Ele vai se magoar de qualquer jeito, você não acha?
Cris: Eu não queria que fosse assim.
Rico: Nem eu, mas o que a gente pode fazer?
Cris: Eu queria tanto que fosse diferente…
Rico: Eu também, meu amor. Mas agora já é tarde. É melhor você conversar com ele, antes que ele comece a desconfiar.
Cris: Tá, eu vou ver o que eu faço. Agora vai. Entra no MSN daqui a pouco…
Rico: Te espero lá.
(Eles se beijam. Na hora que Rico está indo embora, Edu aparece. Constrangimento)
Edu: Oi, Rico.
Rico (tentando disfarçar): Oi. (pausa) Tudo bem? Eu tava aqui tentando remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro. Depois a gente se fala. (sai)
(Silêncio)
Cris: Chegou cedo…
Edu: É, Cris, eu cheguei mais cedo hoje…
Cris: Tá com fome?
Edu: Não. E você?
Cris: Não.
(Silêncio)
Cris: O Rico tava…
Edu: Tentando remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro. Ele disse.
Cris: É. Exatamente.
(Silêncio)
Edu: Por quê?
Cris: “Por que” o quê?
Edu: Por que isso?
Cris: Isso o quê?
Edu: Você sabe.
(Cris começa a entoar um choro)
Cris: Desculpa.
Edu: Por que, Cris, por quê?
Cris: Desculpa, Edu, desculpa.
Edu: Me diz, Cris. Por quê?
Cris: Desculpa.
Edu: Me fala alguma coisa, Cris.
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa, desculpa…
Edu: Pára, Cris! Diz outra coisa, chega disso!
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa.
(Ele vai acender a luz)
Edu: Não acende a luz, não acende.
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa.
Edu: Queimou a porra dessa luz. (ele fica tentando acender)
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa.
Edu: Acende, luz, acende!
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa.
Edu: Eu quero ver teu rosto melhor.
Cris: Desculpa.
Edu: Acende, porra!
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa….
(Corte. Blackout. Foco volta numa cama com Edu acordando assustado e Cris do seu lado. Ele olha em volta, vê Cris dormindo e sente um alívio. Ele a acorda)
Edu: Cris?
Cris (acordando): Que foi?
Edu: Me abraça, meu amor. Eu tava tendo um pesadelo.
(Cris acorda e o abraça)
Cris: Calma, meu amor. Tô aqui.
Edu: Foi horrível. Eu sonhei que você tava me traindo com o Rico.
Cris (vai se soltando do abraço): Com o Rico?
Edu: Imagina! Você com meu melhor amigo. Foi horrível.
Cris: Meu amor, vamos conversar.
Edu: Não, agora não! Me abraça. Foi tudo tão difícil. Imagina. Só podia ser sonho. Teve uma hora que ele me falou que veio aqui para remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro. (ri) São palavras que só acontecem em sonho mesmo, quer dizer, em pesadelos. (ri)
Cris: Edu… A gente tá precisando mesmo conversar.
Edu: Conversar o quê?
(De repente ele escuta um barulho de alguém chamando no MSN)
Edu: Você deixou o computador ligado?
Cris: Nem percebi.
Edu: Quem tá no MSN a essa hora?
Cris: Meu amor, o Rico…
Edu: É ele que tá no MSN?
Cris: Ele esteve aqui hoje, justamente para remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro.
(Silêncio)
Edu: O quê?
Cris: Desculpa.
Edu: Não, não pode ser.
Cris: Desculpa, desculpa.
Edu: O que tá acontecendo?
Cris: Desculpa.
Edu: Desculpa? Cris, fala outra coisa além de desculpa, pelo amor de Deus!
Cris: Desculpa!
Edu: Acende o abajur, eu quero te ver.
Cris: Desculpa.
Edu: Eu acendo. (ele tenta acender o abajur) Essa porra também não acende.
Cris: Desculpa, desculpa.
Edu: Não, Cris. Não. Por favor. Me diz que isso também não é real, por favor!
Cris: Desculpa!
Edu (ele fica tentando acender a luz): Por que a porra dessa luz não acende? Droga. Eu quero ver seu rosto.
Cris: Desculpa, desculpa.
Edu: Cris, seu rosto… Eu quero ver seu rosto! Cris!!!
(Corte. Blackout. Foco reacende na cama. Edu tá se mexendo intensamente. Cris o acorda)
Cris: Edu!
Edu: Ah! (levantando de súbito)
Cris: Calma, calma. Você tava tendo um pesadelo, meu amor.
(Edu olha para Cris assustado)
Edu: Acende o abajur, pelo amor de Deus.
(Cris vai acender o abajur)
Cris: Ih, não acende. Deve ter queimado.
Edu: Ah! Ah! Ah!
Cris: Calma! É só trocar a lâmpada. Eu vou lá pegar na cozinha…
Edu: Não! Por favor, não me deixa aqui sozinho.
Cris: Tá tudo bem. Foi só um pesadelo.
Edu: Eu ainda tô sonhando, a luz não acende. Daqui a pouco você vai começar a me pedir desculpas.
Cris: Desculpa pelo quê, meu amor? Fica calmo, já vai passar.
(Ele escuta o barulho de alguém chamando pelo MSN)
Edu: Você deixou o computador ligado?
Cris: Ih, eu nem percebi.
Edu: Quem tá te chamando a essa hora?
Cris: Sei lá… Deve ser…
Edu: O Rico, né?
Cris: O Rico? Eu ia falar a Clarissa, ela tem problema de insônia.
Edu: Ele esteve aqui hoje, né?
Cris: Ele quem?
Edu: O Rico!
Cris: O que é que o Rico tem a ver com isso? Ninguém esteve aqui hoje. Você ainda deve estar sonhando, já vai passar. Me abraça…
(Ela vai abraçá-lo, ele não deixa)
Cris: Edu, sou eu! Cris!
Edu: Ele veio aqui, eu sei, ele veio remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro.
Cris: O quê?
Edu: Ele me disse isso, eu ouvi bem. “Remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro.”
Cris: Do que é que você tá falando?
Edu: Não se faça de desentendida.
Cris: Caralho, Edu! Você já tá me tirando do sério. Ninguém disse isso pra ninguém, entendeu? Você não percebe que essa frase não faz o menor sentindo?
Edu: Você já devia ter começado a me pedir desculpas!
Cris: Ah, meu Deus! Dê-me paciência!
Edu: Anda, pede desculpas.
Cris: Chega! Cansei. Tudo tem um limite. Se você quiser fiar aí acreditando no seu pesadelo, problema é seu. São três horas da manhã, eu tenho que acordar às sete pra dar aula e eu não poso ficar perdendo mais tempo de sono. Fecha os olhos, vira pro lado e conta carneirinho.
Edu: Aonde você tá indo?
Cris: Vou dormir na sala.
Edu: Não me deixa aqui…
Cris: Se vira.
Edu: Mas…
(Ela fala lá de dentro)
Cris: Viu? Era a Clarissa mesmo no MSN. Tava me chamando há um tempão. Já tô desligando o computador, ó. (barulhos do computador desligando)
(Ele vira para o lado e tenta acender o abajur. A luz acende)
Edu: Ih! Acendeu!
Cris (lá de fora): Então devia ser mal-contato. Ainda bem. Agora boa noite. Vê se sonha com os anjos, ou coisa parecida.
(Edu deita com a luz acesa e começa a contar de olhos abertos)
Edu: Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos… sai daí, Rico, quatro carneirinhos…
FIM.
A menina e a fumaça escura
Idéia original de Felipe Herzog.
*Confiança é uma maldade*.
CORO
Era uma casa de fantasia
Jardim de amora, tapeçaria
Era um gramado vermelho neve
Armário cheio, pesado leve
O que envolvia a encantada rua
Era neblina, fumaça escura
Casa pintada de aquarela
Aquele mundo era só
Só ela!
Seus olhos teciam rima
Gira mundo ao contrário
Quando a base não era o chão
O céu era o porão
Sentir fazia sentido
Versos eram simétricos
Mocinho era bandido
E o novo podia ser velho
MENINA
Até que um dia… a porta abriu
CORO
Menina viu o que não tinha visto
MENINA
O que na casa era pintado
Lá fora era rabisco
O que na casa era quadrado
Lá fora era círculo
O que na casa era boato
Lá fora era perigo
Coro
Pediu chuva de brincadeira
E o Sol deixou o quarto
Por uma lágrima, corredeiras
A casa virou aquário
A menina falou com estranho
Fez-se deserto
Uma miragem, céu castanho
E achou no poço da juventude
Enquanto a rima se desfazia, a rima se des-fa-zi-a (continuamente)
des
fa
z
i
a
MENINA
Uma, duas, três moedas.
Surge o coro da vidente. Seu corifeu se destaca do coro, são cartas de um baralho.
VIDENTE
Se der cara, encara
Se não der, coroa.
AS CARTAS
Cara. Coroa. Cara. Coroa. Caracoroacaracoroa. (ouve-se um princípio de confusão)
VIDENTE
Cara. Encara.
AS CARTAS
Vai, encara! Mergulha no buraco de fechadura!
(Um velho desenha um circulo de giz no chão)
VIDENTE
Um sorriso de dragão verde
Com tristeza fazia a guerra
Entre o real e o imaginário
Entre o que é!
MENINA
E o que era?
VIDENTE
Caminho de barro ou caminho de ouro.
MENINA
Qual escolho?
VIDENTE
Caminho de barro ou caminho de ouro!
MENINA
Lê a mão! Qual escolho?
VIDENTE
A beleza do tempo é a volta do círculo.
Confia, menina, confia.
MENINA
Barro ou ouro? Qual escolho?
VELHO
Os olhos da cigana brilharam amarelos, piscaram ouro.
VIDENTE
Trazer futuro para o presente, exige outro presente.
MENINA
Só tenho esta moeda.
VIDENTE
Segue pelo caminho de barro.
O improvável guarda a recompensa.
(Menina vai, cigana sorri).
VIDENTE
Os dois caminhos dão no mesmo lado.
Confiança é uma maldade.
E a menina olha para trás.
Não devolve os olhos pro passado! O tempo cega. Vai! Não exita. O medo é só uma escolha entre a fé e a esperança. Vai!
Vidente e coro se desfazem. A menina parte em direção ao Velho.
Do três se fazia dois
Pra lá didepois
Uma outra vez
Traçou com giz
(Encontra um HOMEM perdido)
MENINA
Tô andando em círculos.
HOMEM
Está?
MENINA
Já pisei aqui.
HOMEM
Será?
MENINA
Eu nunca te vi.
HOMEM
Verá!
Ela enxergou que era tudo engano, que o conjunto unitário é um conjunto vazio e foi desfazendo o círculo. Desta vez avista um Velho – prisioneiro de seus próprios traços.
MENINA
De onde vem essa fumaça?
VELHO
Por que você faz tanta pergunta?
MENINA
Que pergunta?
VELHO
Está vendo!
MENINA
O quê?
VELHO
Qual seu nome?
MENINA
Eu nunca me perguntei isso.
VELHO
Essa resposta só chega com a morte. Também pegou o caminho de barro?
MENINA
Sim.
VELHO
Esse caminho não tem saída.
MENINA
Como esse círculo?
VELHO
Como esse círculo.
MENINA
Mas tem volta?
VELHO
Pra voltar na volta…
Tem que dá pé
Tem que dá fé
Tem que dá ré!
MENINA
Tem que dar ré! Pra voltar tem que dar ré!
VELHO
O Tempo é assim: ele deixar voltar, mas volta pra outro lugar.
A menina segue sua trajetória e vai parar no mercado.
CORO
É o mercado de aeiou
A E I O U
A E I O U
MENINA
Mercado de quê?
MERCADOR
De A E I O U. Você me compra a letra pra formar teu nome. Ou você vai ser sempre você. E você todo mundo é.
MENINA
É?
MERCADOR
Chama qualquer um de você, todo mundo atende. Você não é ninguém, você é todo mundo.
MENINA
Eu tenho duas moedas.
MERCADOR
Leva o “A”.
Ela entrega uma de suas moedas. Eis que surgem outro mercadores, coro.
CORO
“A” todo mundo tem. Não leva vogal, leva consoante.
Vogal todo mundo tem.
Leva vogal e leva consoante.
Leva os dois.
O coro e a gritaria se perdem na escuridão.
MENINA
Dois não é número?
Do caos do que era letra
Do que era vogal
Do que era número
O ar virou alfabeto
Virou frase, virou ditado
Surge um bando de artistas de rua. A música preenche todos os lugares, enfeitiça.
CANTOR
É nos teus olhos a luz
que ilumina e conduz minha nova ilusão
é nos teus olhos que eu vejo
o amor o desejo do meu coração
És um poema na terra
Uma estrela no céu
Um tesouro no mar
És tanta felicidade que nem a metade consigo exaltar!
Menina entrega a sua última moeda e a canção recomeça.
CANTOR
Do três que se fez em dois que se fez em um, se fez em rosa.
Caminha sem encostar os pés no chão.
A estrada já não era barro, já não era ouro.
Um horizonte de pétalas de rosa!
A menina sai enfeitiçada e tropeça num mendigo, com seu coro – estão no chão e entre eles há pessoas doentes.
MENDIGO
Você! Arruma moeda pra esse pobre homem que tá com fome.
MENINA
Por que não come este pão?
MENDIGO
Guardo para o dia que acabar a comida. Nesse dia ele vai valer muito.
A menina procura alguma moeda nos bolsos.
MENDIGO
Uma menina tão bela jamais negaria ajuda. Tem piedade!
MENINA
Piedade eu ainda carrego comigo, moço. Mas as moedas…
MENDIGO
Dá alguma coisa pra eu comer! Você é igual a todo mundo! Tá aqui pra ocupar espaço.
MENINA
Eu juro.
MENDIGO
Tem misericórdia! Tem pena de mim!
MENINA
Esta rosa é o que de mais valor eu conquistei.
MENDIGO
Uma rosa? Você conquistou uma(…)…(…)rosa? Poesia é uma armadilha!
E os mendigos riem, gargalham. Ela segue até o local mais próximo. E se depara com a cafetina A ÚNICA DO CORO COM LÁBIOS RUBROS.
MENINA
Se bem-me-quer, mal-me-quer
Só não queria ficar grande
CAFETINA
O futuro da inocência
Na barriga do gigante! (sorri misteriosamente)
Falando sozinha? Perdida?
MENINA
Não… só tava pensando… eu tava perdida no pensamento.
CAFETINA
Não pensa muito que paralisa… o corpo.
MENINA
/>Perdi as minhas três moedas.
CAFETINA
E por quê não as reconquista?
MENINA
Quero voltar pra minha casa.
CAFETINA
Vou lhe contar um segredo. Um segredo para que você conquiste tudo o que quiser. Quando quiser.
CORO
Menina que chora sangue
Baila no tempo sem majestade!
As moedas do caminho
Só retornam com a tempestade.
CAFETINA
Vem comigo! Confia!
Assustada, a menina corre e volta para sua casa, agora real, concreta.
MENINA
É uma casa de concreto
Onde tem chão, onde tem teto
É real… ponto final.
Sem imaginação.
Texto dedicado a todos os companheiros de jornada: Olivia Zisman, Alê Biá, Rosa (“por uma lágrima cachoeiras, não, trepadeiras, não!”), Ticiano Diógenes, Diogo Liberano, Léo Polck, Julia Gorman e Natássia Velo.
Em especial, ao amigo com quem compartilho sonhos, Felipe Herzog. Ao diretor a quem sempre confiarei os meus.
Sobre a verdade
Homem: Uma gota. Verde. Era uma gota verde. Só isso. Uma gota – líquida, claro, na medida que se pressupõe que todas as gotas sejam líquidas – só que verde. Um verde assim… verde, sabe? Sabe verde? Sabe quando a gente é criança e pensa no verde? Quando você é criança, verde é verde. Depois você cresce e começa a surgir o verde piscina, verde musgo, verde oliva, verde claro, verde escuro, verde bandeira. Mas quando você é criança e pensa no verde, vem aquela cor sólida e única. Aquela cor verdadeira. Sem variação. É aquilo e ponto. Então. Essa gota tinha esse verde que eu to falando. O verde verdade. O verde que a gente pensa quando é criança. Verde verdade. E eu fiquei catatônico quando eu vi essa gota verde verdade. Por que ela era. Ela era! Só isso, ela era. Quando você vê uma gota vermelha ela pode ser sangue. Amarela, urina. Laranja, suco. Preta, sujeira. Mas a gota verde não. Você não pensa em nada. Só na gota. E ainda mais com esse verde. Ela era uma gota verde verdade. E eu olhava praquela gota. Eu olhava praquela gota. Foi a primeira vez. A primeira vez que eu parei de pensar. Era só sentido. Era só ser. Éramos eu, a gota e o mundo. Mas sem essa divisão que eu to falando agora. Era só uma coisa só. Era a verdade. A verdade. E eu vi e era ao mesmo tempo. Eu vi a verdade. Foi por muito pouco tempo, mas eu vi a verdade. E ela era verde.
Eu queria estar em Grumari
Alexandre está falando com seu analista. Só que no consultório tem uma janela com vista para uma outra janela em que Alexandre vê tudo o que acontece. Volta e meia ele se dispersa com o que vê na janela. O analista está anotando tudo o que Alexandre faz e fala.
Alexandre: O elevador do meu prédio é bem pequeno. Daqueles antigos. Com porta de ferro. Sempre que eu entro no elevador do meu prédio eu conto os segundos pra sair. Eu sou um pouco caustrofóbico. Então. Eu estava no elevador, mas nesse dia eu estava bem. Eu estava bem mesmo. Muito bem. (tempo) Ih! Tem um garotinho ali em frente. Ali na janela.
O analista não olha e continua anotando.
Alexandre: Ele deve ter uns 5 anos. Ta todo arrumadinho. Deve tá indo pra alguma festa. Que gracinha, ta olhando pela janela. Será que ele tá olhando pra cá?
Silêncio
Alexandre: Bom, eu tava num bom dia, sabe? Sabe aqueles dias que você acorda bem por nada? Assim: hoje eu acordei bem. Sem nenhum motivo maior. Simplesmente bem. (tempo) Ele ta olhando pra cá, dá pra ver. Ele tá sorrindo. Que gracinha.
Silêncio
Alexandre: Bom, foi quando ele , o meu vizinho, me abordou. No elevador. Ih! Ele tá com janelinha, os dentes tem janelinha. Tão caindo os dentinhos… Que gracinha, ele deve ter o quê? Cinco, seis anos? Então ele falou comigo, o meu vizinho. Dentro daquele elevador. Ah, esqueci de dizer que o elevador do meu prédio é lento. Bem lento. Antigo e lento. Sabe que eu nunca tinha reparado no meu vizinho? Eu moro no meu prédio há oito anos e nunca tinha reparado no meu vizinho. Já aconteceu isso com você? De nunca ter reparado em alguém durante oito anos? (tempo) Ó, ó! Tem alguém chegando, deve ser a mãe dele, ó! Ela foi pra janela também. Ih! Ela ta rindo junto com ele, que gracinha! Tem um monte de buraquinho na boquinha dele. Que gracinha.
Silêncio. Ele volta a falar bem rápido
Alexandre: Bom, então. Ele começou a falar no elevador, a gente mora no nono andar, ele começou a falar enquanto o elevador descia para o térreo, elevador antigo e lento, ele foi me contando uma história que ele comprou o apartamento dele com um tal dinheiro e que se eu quisesse chegar a ter o meu próprio apartamento, ele sabia que eu pagava aluguel, eu nunca havia reparado nele e ele sabia que eu pagava aluguel, enfim, era só eu pagar cem reais. Que com cem reais eu poderia ganhar novecentos reais se eu entrasse numa rede de vendas e ganhasse uma porcentagem, e então eu pensei que novecentos reais não seriam uma má idéia já que eu realmente tava precisando e eu só daria cem reais. Cem reais. (tempo) Ih! A mãe tá falando alguma coisa.
Sem querer o analista deixa cair seu livro de anotações no chão.
Silêncio. Alexandre pega. Não consegue deixar de ler o que está escrito.
Alexandre lendo: Eu queria estar em Grumari…
Silêncio. O analista estende a mão para pedir o livro de volta. Alexandre tenta entender mas nada fala.
Alexandre: Cem reais. Cem reais e eu poderia comprar o meu apartamento. Eu nunca tinha reparado no meu vizinho e no tempo de nove andares eu confiei nele. Cem reais. (tempo) Peraí. Peraí. Aconteceu alguma coisa. Ele não tá mais rindo. Acho que a mãe dele brigou com ele. Ele ta com uma carinha triste… a mãozinha tá pra fora da janela. Ta chovendo… tá chovendo, sabia? Ta chovendo lá fora. Começou a chover. Você gosta de chuva?
Analista de repente fala: Com licença eu preciso ir no banheiro.
Alexandre: Claro, imagina.
O analista levanta, deixa o livro na cadeira. Alexandre tenta ler de soslaio, mas não consegue, chega mais perto, tenta ler algo.
Alexandre lendo: O pequeno momento que usurpa o tempo…
Ele sente dificuldades para ler e acaba pegando o livro. Lê baixo, pra si mesmo.
Alexandre lendo: mesmo assim, é você que causa um descompasso no meu coração…Nenhum momento é capaz de usurpar o tempo que nós construímos… porque nada se desfaz só se refaz. Eu queria estar em Grumari. Que porra é essa?
Ele percebe que o analista está voltando, deixa o livro na cadeira e volta para o seu lugar.
O analista volta a sentar. Silêncio.
Analista: E?
Alexandre: E…
Analista: E o que você estava dizendo?
Alexandre: Ah! Sim, é… bom, é…Ah! Então, eu dei cem reais para o meu vizinho, cem reais e ele me disse que ia me dar o produto em uma semana que dentro dessa semana…(tempo) Ah, não! Ah, não! Ele tá chorando, o menino tá chorando! Cadê a mãe dele que não tá mais lá? O que aconteceu, gente? A boca dele ta se abrindo…A boca dele…
Alexandre imita o menino com a boca abrindo.
Alexandre: Cem reais, entende? (Imita o menino) Cem reais e o filho da puta me disse que eu ganhar novecentos reais, assim que ele me disse os produtos para eu vender, e chamar mais alguém para…(imita o menino) Mais alguém para comprar os meus produtos por cem reais e eu ia virar um espécie de…(imita o menino) espécie de gerente… O filho da puta… (faz uma careta bem feia, imitando o menino) O filho da puta me fez dar cem reais.
O analista espirra.
Alexandre: Saúde. (tempo) Já aconteceu com você?
O analista não responde.
Alexandre; Já aconteceu com você? Você estar num dia bom, acordar bem contente, sabe? E um filho da puta perceber isso? Você já deu cem reais na mão de um desconhecido num dia bom dentro de um elevador? Você já fez isso?
Silêncio.
Alexandre: Ah, meu deus! Ah, meus deus! O menino! Ele tá subindo numa cadeira, ele ta subindo no parapeito da janela. Ele ta me olhando. Olha pra ele, ele ta me olhando, eu sei que ele tá me olhando!
Analista: E?
Alexandre: E o quê?
Anaista: E você?
Alexandre: Não, não sou eu. É ele! Ele vai… a gente tem que fazer alguma coisa, aquele menininho ta querendo… ta querendo… Ah, meu Deus!
Analista: Querendo o quê?
Alexandre: Porra! Aquele menino… Ele ta olhando pra mim. Caralho, ele ta olhando para mim.
Analista: Isso não é bom.
Alexandre: Bom? O que é que é bom?
Analista: O menino que tem dentro de você olhar para o seu eu adulto?
Alexandre: Não, eu não estou falando de mim, eu estou falando dele! O menino da janela, olha ele! Ele começou a chorar e parece que ta querendo… ele… ele… ele vai se atirar!
Analista: Você deve estar fazendo uma projeção, esse menino, na verdade, é o homem do elevador…
Alexandre: Eu não estou fazendo projeção nenhuma, eu vou lá.
Analista: Não adianta fugir da situação…
Alexandre: Porra, olha para janela.
O analista vai até a janela e olha para fora.
Alexandre: Ta vendo? Ele está lá!
Analista: Não tem ninguém ali.
Alexandre grita para fora da janela
Alexandre: Não pula, menino!!! Fica quietinho onde está!
Analista: Não há menino nenhum.
Alexandre: Ele vai pular, ele vai pular!
Analista: Não há menino nenhum!
Alexandre: Espera!!! Ah, meu Deus! Ele pulou!
Analista: Ninguém pulou. Você está fazendo uma projeção!
Alexandre: Projeção está fazendo você! (ele pega o livro que o analista deixou na cadeira) O que significa isso? (ele lê) “Você é um babaca egoísta, nada na vida se desfaz. Eu queria estar em Grumari.” O que isso tem a ver com o que estou te dizendo?
Analista: Olha você não devia ler isso, isso é anti-ético e não vai ajudar no seu tratamen…
Alexandre: Tratamento? Que tratamento? Quem tem que se tratar aqui é você, tá entendendo? Como você não viu um menino de atirando? Olha ali o corpo tá lá… tá lá…Ih! Já tiraram o corpo do menino. Mas eu vi, ele se atirou, eu vi. Bem aqui em frente
Analista: Não tem corpo nenhum, você está se descontrolando, eu vou passar um ansiolítico…
Alexandre: Vai passar nada, eu vou embora da porra desse lugar, que não vai me ajudar em na…
Analista que agora está sentado na cadeira do paciente começa a falar.
Analista: Grumari é lindo! Grumari é lindo. Foi lá que ele… Foi lá que ele…
Alexandre rapidamente ocupa a cadeira do analista, pega seu bloco e começa a anotar.
Alexandre: Foi lá que ele o quê?
Analista: Tem um velho na janela.
Alexandre: Velho?
Analista: Tem um velho na janela comendo banana
Silêncio.
Analista: Ele está olhando pra cá. Foi lá me Grumari que eu me apaixonei. O velho não tem mais alguns dentes. Acho que ele tá sorrindo.
Alexandre deixa o bloco na cadeira e vai ver a janela
Alexandre: eu não estou vendo nenhum velho na janela. ali tinha uma criança
Alexandre: Não tem nenhum velho da janela. Você não está muito bem.
Analista: o velho é você.
Alexandre: o velho sou eu.
Analista: é você.
Alexandre: adeus, doutor, velho é você.
Alexandre tenta abrir a porta mas não consegue
Alexandre: abre essa porta, por favor!
Analista: aonde você vai?
Alexandre: Grumari.
Analista: o velho é você.
Alexandre: Adeus, doutor.
Analista: Eu queria estar em Grumari.
B.O. Volta a luz. Alexandre acorda afobado.
FIM
Possibilidades
Laura 1 e 2 – Eu preciso dormir… dormir normal… pessoa normal… camisola normal… tudo normal… Estou virando um bicho… sei lá… tudo estranho… parado…. cidade cenográfica… preciso descansar… dormir direito…. comer direito … Não estou bem…
Laura- (Escutando a outra) Meu Deus! Que loucura! Tem alguém aí?
Laura2- Tem alguém aí?
Laura- Quem é você?
Laura 2- Quem é você?
Laura -Eu sou eu… E você?
Laura 2 – Eu sou “eu” também…
Laura – (Para si) Eu continuo sonhando comigo mesma…
Laura 2- E Eu? Continuo sonhando também?
Laura- Eu não sei…
Laura 2 – Eu também não…
Laura- Escuta, esse sonho é meu ?
Laura 2- É seu?
Laura – Eu não sei…
Laura 2- Eu também não…
Laura- Eu te conheço?
Laura 2 – Me conhece?
Laura – É uma pergunta?
Laura 2- É…
Laura- Eu não consigo te enxergar…
Laura 2 – Eu também não…
Laura – Você está na minha direita ou na minha esquerda?
Laura 2- Como eu vou saber? Não sei onde você está…
As duas, que estavam de costas uma para a outra se viram e gritam quando percebem ser a mesma pessoa. Analisam-se por um tempo.
Laura – Meu Deus! Impressionante! Eu estou sonhando comigo mesma…
Laura 2 – Não entendi a piada?
Laura- Eu estou sonhando comigo…
Laura 2 – Não, você está sonhando comigo…
Laura- Que sou eu…
Laura 2- Olha só, vamos esclarecer uma coisa: Eu sou eu, e você sou eu também.
Laura- Como você pode ter tanta certeza de que não sou eu que sou eu?
Laura 2 – É simples, eu sempre fui eu. Antes de dormir, antes de sonhar, antes de você entrar no sonho…
Laura- Não pode ser… Eu também sinto que sou eu…
Laura 2 – Eu não sinto nada, simplesmente sou eu…
Laura- O que você fez pela manhã?
Laura 2 – Nada… Fiquei de camisetão assistindo TV…
Laura- Impressionante… Como você pode saber?
Laura 2- Ora! Se fui eu quem fez, como poderia ter esquecido…
Laura- Escuta, e se eu realmente for eu mesma ou se você for eu…
Laura 2- E…
Laura- Olha que maravilha! Que oportunidade! Eu poderia certamente acordar e saber algumas coisas que eu penso e não sei que penso…
Laura 2 – Por essas palavras é que, eu afirmo que você não sou eu… Eu jamais veria essa situação de forma tão positiva.
Laura- Eu sou uma pessoa positiva…
Laura 2 – Negativo…
Laura- Você não tem curiosidade de saber coisas sobre você mesma?
Laura 2 – Ridículo…
Laura- Aposto que tem coisas sobre mim que você não sabe?
Laura 2 – Escuta aqui, circuito fantasmático, ou sei lá o quê… Se eu for você ou se você for eu, o que eu poderia saber, que já não sei…
Laura- Você estava confusa hoje de manhã?
Laura 2 – O que isso tem haver?
Laura- Estava diferente?
Laura 2- Acho que sim… E daí?
Laura – Eu também…
Laura 2 – E daí?
Laura – Por quê?
Laura 2 – Por que o quê?
Laura – Por que estava se sentindo confusa?
Laura 2 – Frescura…
Laura- Errado! Você e eu estávamos confusas pela manhã porque hoje é nosso aniversário…
Laura 2 – Ahá! Te peguei fajuta! Não faço aniversário hoje!
Laura- Você esqueceu o dia do seu aniversário?
Laura 2 – Já falei que não é hoje! Meu aniversário é dia 23 de abril…
Laura- Hoje é 23 de abril…
Laura 2 – Qual é a sua??? Quer que eu te dê os parabéns, acenda as velinhas?!
Laura- Não é tão mal…
Laura 2- É péssimo…
Laura- Amadurecemos, querida, amadurecemos…
Laura 2 –Envelhecemos querida, envelhecemos…
Laura- Estamos mais seguras…
Laura 2- Escuta…Somos casadas?
Laura- Não…
Laura 2 – Temos filhos?
Laura- Não…
Laura 2 – Apartamento próprio? Carteira assinada? Casa de campo? Casa na praia? Celular com câmera digital?
Laura- Nossa, como você é materialista…
Laura 2 – Agora eu entendi porque as coisas não andam na minha vida… É porque tem alguém dentro de mim que não sou eu!
Laura- Espera aí! Não joga a culpa toda para cima de mim… Temos um namorado…
Laura 2- O quê??
Laura- Um namorado!
Laura 2- Namorado??? Você chama aquele “Burro falante” de namorado?
Laura- Ele não é tão mau…
Laura 2 – É péssimo! Péssimo! Nem mesmo você merecia alguém assim.
Laura- Eu gosto dele…
Laura 2 – Agora eu entendi… Por isso estamos com ele…
Laura- Ele é bonzinho, vai… Me deu flores no dia das mães?
Laura 2 – Isso, ótimo! Ele te deu flores no dia das mães… Entendeu? No dia das mães!
Laura- Não é lindo? Pensando nos filhos que teríamos juntos…
Laura 2 – Ô anta abismada! Primeiro que não eram flores… Era um planta… da fortuna… Segundo que foi no dia das mães e não no dia dos namorados, justamente porque ele não te vê como mãe dos filhos dele, mas sim como a mãe dele!
Laura – Nossa! Nunca pensei dessa forma!
Laura 2 – Você acredita na rena do nariz vermelho???
Laura- Não seja grossa!
Laura 2 – Vou acordar desse pesadelo… Vou acordar…
Laura- E aí…
Laura 2- Estou me concentrando…
Laura- Eu não quero acordar… Estou gostando…
Laura 2- Escuta, lado B, se você não quiser acordar tudo bem… Aliás, você não vai mesmo acordar de nada… Vai ficar pairando aí nesse paralelo, enquanto eu vou voltar a vida…
Laura- Já pensou na possibilidade de não estarmos mais vivas…
Laura 2 – Está ficando muito esquizofrenizante para mim, não acredito que fui capaz de sonhar com isso, deve ser a análise…vou parar com essa merda!
Laura- Vai ver a gente já morreu…
Pausa. As duas se sentam.
Laura- Estou com medo… Já pensou como deve ser a vida após a morte…
Laura 2- Pára com isso!
Laura- Desculpa…
Laura 2- Você não tem medo!
Laura- Tenho sim!
Laura 2- Se você for mesmo eu, então não tem…
Laura- Se a gente estiver mortas o que vamos fazer?
Laura 2- Pára, porra!
Laura- Eu não quero morrer… Eu sou feliz… Tem tantas coisas que eu gosto… Tem tantas coisas… Tantas…
Laura 2 – Ai!
Laura- O quê?
Laura 2 – Acho que não desliguei o gás…
Laura- Com certeza não desligou, sempre esquece…
Laura 2 – Nunca esqueço…
Laura- Mania, né? Esse negócio de verificar várias vezes o gás, a tranca da porta…
Laura 2- Não é mania… Não é… (Pausa) É… É mania… Para quê vou mentir para mim mesma a essa altura do campeonato?
Laura- Olha, temos um consolo, se já estamos mortas não faz diferença deixar o gás ligado…
Laura 2 – Nossa!Obrigada! Que consolo! Nossa, agora estou ótima! Ótima!
Pausa.
Laura- Não foi tudo tão ruim…
Laura 2 – Foi sim…
Laura- Somos felizes…
Laura 2- Está querendo se enganar por quê?
Laura- Pode não ter sido como você imaginava…
Laura 2- Eu imaginei muitas coisas…
Laura- Imaginei…
Laura 2 – Seria maravilhoso que pelo menos uma delas tivesse se realizado…
Laura- A culpa não ?
? só nossa…
Laura 2 – Ah, não? E de quem é…
Laura- Sei lá… Não é tão fácil assim ser a gente…
Laura 1 e 2 (juntas)- É…Não é tão fácil ser a gente.
Laura – Lembra o filme que a gente viu ontem de madrugada?
Laura 2 – Insônia profunda…
Laura- Lembra?
Laura 2- Lembro…
Laura – Lembra o que a protagonista falou? Das possibilidades…
Laura 2 – Ela falou das possibilidades?
Laura- Quase no final do filme…
Laura 2- Eu dormi…
Laura- Está querendo se enganar, por quê?
Laura 2- Quase no final…
Laura- Ela disse que um dia, quando jovem acordou e pensou nas possibilidades…
Laura 2- É…
Laura- Teve um dia que a gente desceu do ônibus e ficamos paradas no meio da rua, lembra?
Laura 2 – Ficamos paradas na calçada e não conseguíamos sair do lugar…
Laura – Isso…Um pânico de ter que escolher…
Laura 2- Um passo para a direita ou para a esquerda…
Laura – Ali, naquele momento era como se tudo voltasse a fazer sentido…
Laura 2 – Ou, como se estivéssemos perdendo o sentido de tudo…
Laura- De repente ali, parada eu percebi que já não fazia mais as coisas como antigamente…
Laura 2- Alguma coisa tinha mudado…
Laura- Como se os anos continuassem passando…
Laura 2- E eu estivesse esquecida em algum lugar…
Laura- Fiquei num ponto antes da bifurcação…
Laura- Parada…
Laura 2- Olhando…
Laura – Para ver por onde instintivamente eu iria seguir…
Laura 2- E apesar de ter seguido, continuo com a sensação de ter que escolher…
Laura – De certa forma alguma coisa em mim seguiu sozinha…
Laura 2 – Hoje é meu aniversário…
Laura- Hoje é meu aniversário!
Laura- Cheio de possibilidades…
Laura 2- Possíveis ou impossíveis…
Laura- Não é maravilhoso?
Laura 1 e 2 – Me belisca!
FIM
Sonhos poema número 2
monólogo para Adriana Calcanhoto, marcando o compasso constante no atrito do seu sapato com a plataforma.
Sonhos poema número 2.
sonho de Júlia Marini: Ter filhinhos.
sonho do Salvador Dalí: Um relógio derretendo no deserto.
sonhos do Peninha: regravado magistralmente por Marisa Monte em 88.
sonho oriental: Uma coleção de sonhos íntimos do diretor Akira Kurosawa.
sonho de noiva: empresa sólida no ramo de aluguel e venda de trajes, em Blumenau.
sonho animado: o nome de um dos ursinhos carinhosos.
sonho macabro: provocações de Freddy Krueger.
sonho por Jung: forma própria do inconsciente de se expressar.
sonho perdido: a derrota do Gabeira nas eleições do Rio.
sonho da infância: tardes bucólicas pelas ruas de Madrid.
sonho caro: conhecer as Pirâmides do Egito.
sonho barato: R$ 1,50 na padaria Santo Amaro.
sonho do Drete: ser cantor de axé.
sonho de verão: filme dos anos 90 com as Paquitas e o Sérgio Malandro.
sonho de valsa: concorrente do serenata de amor.
sonho maluco: quadro do Viva Noite programa do Gugu Liberato, no qual fã realiza fantasias com seu ídolo.
sonho confuso: enredo de Alice no país das Maravilhas.
sonho de miss: a paz mundial.
sonho do rato: matar o gato.
sonho do Lynch: encaixotando Helena.
sonho dourado: letra do Toquinho.
sonho de uma noite de verão: teve a montagem do “Nós do Morro”.
sonho de Strindberg: teve a montagem da Unirio.
sonho da cobra: ser pente. entendeu? hahaha serpente! hahaha ser pente. quer que eu repita? hahahhaa
sonho que eu tive hoje a noite: alguma coisa com porta, morango, avestruz…
sonho de consumo: hum………isso não conto, é segredo.
Fogo-fátuo
fundo indefinido.
HOMEM se aproxima de LÂMIA, a mulher metade cobra.
H- Boa tarde.
L- Boa.
H- Eu vim votar.
L- Não entendi.
H- Onde é que eu voto?
L- Votar? Pra quem é seu voto?
H- Meu voto é secreto.
L- Ah… Não sei onde vota não.
H- Tinha que ter me informado.
L- De onde é o seu título?
H- Nasci em Campos, mas meu título é do Rio.
L- Ih… longe.
H- Longe daqui?
L- Léguas e léguas… vai ter que justificar.
H- Queria tanto. Será que não dá pra chegar? Sei lá? Descolar uma carona?
L- Haja polegar, viu, meu?
H- Droga.
L- Ia votar em quem?
H- Ia nada! Eu vou!
L (GARGALHA)- Coitado! Tenho pena de você!
H- Droga. Droga.
L- Relaxa! Descansa um pouco. Um votinho só não vai fazer diferença.
H- Que é isso. Faz sim.
L- Nada! Senta um pouco. Conta um pouco da sua vida.
H- Ah… Normal.
L- Vai na Madonna?
H- Ah!!! Na Madonna eu vou sim!!!
L- Cruzes! Detesto lugar crowdeado!
H- Ah… legal…
ELES ficam ali jogando papo fora… luz cai em resistência…

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