Suicide Girls – capítulo 14
Passagem de tempo.
Quarto de hotel. Caio observa Adriana. A jovem agora já parece uma mulher feita. Assiste a TV, nua, fumando um cigarro e bebendo cerveja. A maquiagem escorre no rosto.
Caio – Evidente que não pude cumprir as promessas de felicidade, de um mundo perfeito, de uma vida a dois com Adriana. Só mesmo no auge da paixão, essa hipótese foi levada a sério. Pensei sim em enfrentar a fúria do Pai, meu amigo Cavadas, em fugir para bem longe e inventar um paraíso para ela… Mas as paixões duram pouco. Depois de me saciar do seu corpo e da sua juventude, tudo caiu na rotina.
Adriana se diverte com um filme romântico que passa na TV.
Caio – Já faz um ano que nos encontramos todas as terças e sextas, no mesmo quarto de hotel. Nunca fomos à praia, ao cinema ou até mesmo na esquina tomar um sorvete. Nunca passamos o final de semana em Búzios, tão sonhado. Continuamos clandestinos. Uma situação muito confortável para mim. Nunca precisei dar explicações. Não precisei enfrentar o mundo, mudar um centímetro da linha da minha vida. Só precisava conviver com o estranho olhar do recepcionista do hotel que misturava reprovação, cumplicidade e admiração. Mas para Adriana, o nosso relacionamento funcionou como um veneno.
Adriana ri do filme romântico que passa na TV.
Caio – Transformei Adriana numa espécie de amante e prostituta. Se submetendo a migalhas de sexo e afeto semanais. Cada vez menos afeto e mais sexo. Mentindo. Se esquivando pelas ruas para não ser descoberta. Pouco a pouco fui inconscientemente corrompendo Adriana. A menina que se entregou de corpo e alma aos meus caprichos, agora é uma mulher desiludida, cínica, irônica. Não acredita mais em sonhos. Não acredita mais no amor. Mea culpa! Mea máxima culpa! Se eu fosse o Cavadas, dava um tiro na minha cara!
Adriana se veste.
Caio – Já faz um tempo que ela se encontra com outros homens. Eu finjo que não sei. Ela finge que não sabe que eu sei. Praticamente não conversamos mais. Conversar pra quê, se não temos planos? Chegamos ao fim. Tenho certeza que hoje ela vai embora. Para sempre. E não vou impedir. Vou deixar ela ir.
Adriana se despede com um beijo profundo na boca de Caio.
Caio – Um beijo de despedida. O beijo diz tudo. Ela não volta mais. Eu não digo nada. Apenas um ‘eu te amo’ com o olhar. Estamos tristes, de luto. Nossa paixão acabou. Morreu. Só restou o amor. Um sentimento muito inferior.
Adriana vai embora.
Caio – Neste quarto nós fomos os maiores amantes do mundo. Os deuses tiveram inveja da nossa paixão. Durante meses só existiu eu e você. Nada lá fora tinha importância. Apenas eu e você. (…) Adeus, Adriana. Espero sinceramente que você sobreviva ao que eu te fiz. Perdão.
Continua…
Suicide Girls – capítulo 13
CENA 01 – SONHO DE CAIO
Vemos as imagens de Verônica descritas por Caio.
Caio (off) – Verônica era uma das garotas de programa mais conhecidas de Copacabana. Desde menina, descobriu que sua beleza desconcertante era um trunfo, o único jeito de se libertar da miséria e do atraso de sua pequena cidade natal no interior do Mato Grosso do Sul, a longínqua Aquidauana. Sua beleza era sua salvação. Sempre sonhou em morar no Rio de Janeiro. O Rio é uma das poucas cidades do mundo capazes de causar essa espécie de frisson hipnótico. Como uma esfinge atraindo caçadores de tesouros e dizendo ‘decifra-me ou te devoro’. Verônica usou seu corpo para conseguir dinheiro para a tão sonhada viagem. Em troca de favores sexuais, conseguiu carona de caminhoneiros, comida e hospedagem até chegar na cidade maravilhosa. Sabia tudo sobre o Rio. Guardou e colecionou durante anos todos os recortes de revista que falavam sobre a cidade. Sabia de tudo. Nomes dos bairros, das ruas, restaurantes, como se comportavam os cariocas, o que fazer, o que não fazer, onde ir e, principalmente, com quem se relacionar. Aprendeu muito jovem que uma mulher bonita e gostosa, com o vestido certo e salto alto, além de parar o trânsito, destruir casamentos e reputações, pode e deve conquistar o mundo. Afinal, o mundo é dos homens e nenhum homem resiste a uma mulher bonita. Verônica sempre foi fascinada pela história de Helena de Tróia, a mulher mais linda de todos os tempos, que, segundo ela, “abandonou o marido, fugiu com o amante e provocou uma guerra de dez anos na Grécia. De um lado, o marido chifrudo e do outro o jovem e belo príncipe de Tróia que a protegia no seu castelo. Milhares de soldados morreram para proteger Helena. O final não tem graça. O corno venceu a guerra. Mas Helena e o príncipe se reencontraram no Olimpo e vivem até hoje sob a benção de Afrodite, a deusa do amor.” Verônica gostava de se imaginar uma Helena de Copacabana, provocando paixões capazes de torná-la uma rainha e (quem sabe?) uma guerrinha de vez em quando. “Gente, esse foi o maior escândalo da história da humanidade! Imagina! Que babado! Pena que nessa época não tinha paparazzi!”, comentava com as colegas de boate e calçadão. Mas a carreira das garotas de programa é parecida com a dos jogadores de futebol. É curta. Tem que ganhar dinheiro, fazer o ‘pé de meia’ rápido, ainda jovem, porque depois… Verônica chegou a se relacionar com vários homens ricos e poderosos. Empresários, políticos, artistas… Mas nenhum deles a transformou numa rainha. Nenhum deles arriscou a própria pele, mudou a vida, moveu o mundo, declarou uma guerra em nome do amor como Páris. Agora, passando dos trinta, Verônica sabia que seu tempo estava se esgotando. Já não acreditava mais que poderia ser uma atriz famosa ou uma dondoca esposa de um milionário qualquer. Seu objetivo agora era conseguir um bom casamento. Ter uma vida de classe média na Zona Sul do Rio de Janeiro. Um bom apartamento. Um bom carro. Viajar uma vez por ano para fora do país. Pra quem morou em Aquidauana, Mato Grosso do Sul, Verônica ainda estava no lucro. E muito!
CENA 02 – RUA PRADO JR – COPACABANA – EXT – NOITE.
Verônica e Yog andam, abraçados, pela calçada.
Verônica – Meu amor! Que saudade de você!
Yog – Eu também tava morrendo de saudade!
Verônica – Meu homem! Meu marido!
Yog – Você quer mesmo casar comigo?
Verônica – Eu tô apaixonada por você, seu bobo!
Yog – Então tá decidido! A gente vai ficar junto!
Verônica – Eu só fico com você se a gente casar de verdade. Já te disse que eu tô cansada dessa vida. Tô até pensando em voltar pro Mato Grosso.
Yog – Mas é muito longe! Eu não vou agüentar ficar longe de você! Tá bom, a gente casa!
Verônica – Oba! E onde a gente vai morar?
Yog – Meu pai tem um apartamento na Tijuca que tá vazio…
Verônica – Tijuca? Não tem um mais perto não?
Yog – Tem um sim, em Ipanema, mas tá alugado.
Verônica – Ah! Vamos morar em Ipanema! Como é que eu vou manter esse meu bronzeado…
Verônica mostra a marca de biquíni no seio.
Verônica – …morando na Tijuca? Lá não tem praia!
Yog – Tá bom, eu falo com o meu pai. Vou pedir pra ele liberar o AP de Ipanema.
Verônica – Meu marido! Meu homem! Eu tô louca de tesão por você! Vamos fazer um amorzinho bem gostoso?
Yog – Vamos! Eu só tenho que passar na farmácia.
Verônica – Pra quê?
Yog – Pra comprar camisinha.
Verônica – Esquece isso. Eu quero sentir você todinho dentro de mim.
Yog – Você deixa?
Verônica – Com você eu deixo. Mas só com você.
Verônica e Yog se beijam.
Continua…
Suicide Girls – capítulo 12
CENA 01 – QUARTO DE CAIO – TARDE
De uma poltrona, Caio fuma um cigarro e observa Adriana, nua, deitada de bruços na cama.
Caio (off) – Linda! Incrível como as pessoas se transformam entre quatro paredes. Uma mulher muda completamente dependendo do homem que está ao seu lado. Entre quatro paredes. Ou dentro de um carro. A fulana de beltrano não é a mesma com cicrano. Agora vejo uma mulher diante dos meus olhos. Uma rainha. Sua cabeça, ombros e mão, sustentam coroa, manto e cetro invisíveis. Mais tarde, quando ela vestir suas roupas, colocar sua mochila, mergulhar de volta no mundo lá fora, voltará a ser uma menina. Uma adolescente como todas as outras. Só eu sei quem é você de verdade, Adriana. Ou de mentira, quem sabe? Meu amor! Minha paixão!
CENA 02 – BARBARELA – NOITE
A prostituta Verônica está sentada no colo de Cavadas que bebe um whisky enquanto acaricia suas pernas.
Verônica – Eu não agüento mais esse moleque, Cavadas! Você tem que dar um jeito nisso!
Cavadas – Calma, meu bem. Esse garoto não tem dinheiro pra te bancar. Já já ele vai te deixar em paz.
Verônica – Que nada! Ele grudou no meu pé quinem carrapato! Todo dia ele aparece por aqui. Deve ter dinheiro, o desgraçado.
Cavadas – Deve tá torrando a mesada e enchendo o saco do pai pra arranjar mais dinheiro. Bem feito! Quem manda não educar o filho direito!
Verônica – Outro dia quis transar comigo em troca de um iPad novinho.
Cavadas – E você aceitou?
Verônica – Claro, né! Sou profissional. Não gosto de recusar trabalho. Além disso, eu tava louca pra ter um iPad!
Cavadas – Já sei o que eu vou te dar de presente no Natal!
Verônica – O que é? Conta!
Cavadas – Um iPhode!
Verônica – Deixa de ser escroto, Cavadas!
Cavadas – Mas você, hein? Que maravilha! Deu um trato no garoto de profissa mesmo. Parabéns! O moleque tá gamadão por você. Isso é o que eu chamo de chave de xoxota! O garoto ficou viciado. Vou mandar ele pra um clinica de dependentes sexuais!
Verônica – Eu sou muito gostosa, meu bem. Boa de cama! Tem muito homem casado apaixonado querendo me tirar dessa vida. Fique sabendo.
Cavadas – Casa com o moleque!
Verônica – Deus me livre! Não gosto de garotinho não. São muito afoitos. Esse seu protegido se acha o máximo. Mete com muita força, machuca. Baba no meu pescoço. Um horror. Não sabe fazer gostoso. Eu prefiro homens mais velhos. Mais experientes.
Cavadas – Como eu?
Verônica – Como você.
Cavadas – Eu como você!
Cavadas tira um ‘sarro’ de Verônica. Yog entra na boate.
Verônica – Olha lá, o moleque! Ele não morre tão cedo!
Cavadas – Puta que o pariu! Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece. Esse moleque não pode me ver aqui!
Cavadas são de ‘fininho’ na direção do banheiro.
Verônica – Ei! Onde você vai? Ele não é filho do seu amigo?
Cavadas – Não! Depois eu te conto. Finge que não me conhece!
Verônica – Filho da puta! Sempre armando uma!
Cavadas dispara na direção do banheiro. Yog se aproxima.
Yog – Aquele não é o Delegado Cavadas?
Verônica – Não sei. Nunca vi mais gordo. Por quê? Você conhece?
Yog – Ele é o pai da minha ex-namorada.
Verônica – Sei… (pensando alto) Entendi. Agora a ficha caiu.
Yog – O que ele tá fazendo aqui?
Verônica – Advinha.
Yog – Eu quero sair com você.
Verônica – O que você tem aí nessa mochila?
Yog – Um notebook.
Verônica – Quantos gigas?
Yog – Foi ele quem te contratou pra sair comigo…
Verônica – Não! Eu não conheço esse cara…
Yog – Não precisa mentir pra mim. Eu não sou idiota. (…) Não tem problema. Eu não gostava da filha dele mesmo. Pior pra ele. Agora a Adriana tá namorando um coroa.
Verônica – Como?
CENA 03 – QUARTO DE CAIO – NOITE
Caio e Adriana na cama. Os amantes fazem um sexo selvagem.
Caio (off) – Ela se entrega com uma insaciável fome de amor, de prazer, de vida. Os jovens têm pressa porque se a vida passa rápido, a juventude passa mais rápido ainda.
CENA 04 – AVENIDA PAULISTA – NOITE
No alto de um prédio, vemos uma menina de mãos dadas com um velho. Os dois estão nus. Os dois saltam no vazio.
Continua…
Suicide Girls – capítulo 11
CENA 01 – BALCÃO DO CERVANTES – INT – NOITE
Cavadas e Caio tomam chopp e comem um sanduiche de pernil com abacaxi.
Cavadas – E a tal matéria das garotas suicidas? Nada?
Caio – O editor engavetou a matéria. Disse que o jornal tem ‘responsabilidade social’. Disse que esses sites fazem apologia da morte, do suicídio…
Cavadas – Uma história tão boa! Sacanagem! E eu aqui achando que dessa vez a gente ia ficar rico.
Caio – Pois é…
Cavadas – Sabe aqueles loucos que entram em campo peladões pra protestar? Aqueles malucos que invadem quadras de tênis e campos de futebol completamente nus? Pois é… Agora as TVs estão proibidas de mostrar essas figuras. Pra não incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo. É mole?
Caio – É a censura do politicamente correto, meu chapa.
Cavadas – Se bem que, geralmente, só quem tira a roupa em público são uns marmanjos barrigudos que Deus me livre! Se pelo menos fosse uma top top model internacional, aí sim! Já imaginou a Gisele Bündchen correndo pelada em Wimbledon? Queria ver se eles não iam mostrar!
Caio – Leu o jornal hoje?
Cavadas – Só o noticiário do Botafogo. Por quê?
Caio – Escuta essa! Saiu numa notinha de canto de página. “Sites que incentivam pessoas emocionalmente vulneráveis a cometer suicídio, ou fazer pactos mortais com estranhos devem ser fechados no Reino Unido. Os ministros locais devem exercer uma pressão maior sobre prestadoras de serviços internet ao longo dessa semana. Segundo informa o Daily Mail, as prestadoras de serviços online serão ‘obrigadas’ a fechar fóruns e chats que abordam o assunto, que estão associados a, pelo menos, 39 mortes na Grã-Bretanha na última década. A decisão faz parte da estratégia do governo britânico de prevenção ao suicídio. De fato, promover o suicídio no país já é algo ilegal desde 1961, graças ao Ato de Suicídio, uma lei que até então nunca tinha sido utilizada para processar provedores de serviços de internet. Autoridades do país alegam que a lei não se aplica apenas aos contatos diretos entre pessoas, e exigem que essa lei seja aplicada com mais rigor se as empresas não conseguem fechar sites ofensivos, ou que incentivam a prática do suicídio. O Ministro da Saúde britânico Paul Burstow diz que ‘um dos lados mais cruéis das mídias sociais é o surgimento de sites que praticamente ensinam as pessoas métodos de treinamento de suicídio, e oferecem a possibilidade de pactos de suicídio com outras pessoas. E isso é algo realmente muito ruim.’ Para dar um exemplo de como isso está acontecendo no Reino Unido, em setembro de 2010, Stephen Lumb, motorista de caminhão de 35 anos, e Joanne Lee, 34 anos, entraram para a lista das estatísticas de estranhos que se conheceram em um site, e se uniram para cometer suicídio, dentro de um carro na cidade de Essex. Especialistas dizem que não há números exatos de quantos pactos de suicídio são feitos pela internet, mas afirmam que a prática está aumentando ao longo dos anos.”
Cavadas – Porra! É… pelo jeito, os governos do mundo inteiro estão trabalhando pra abafar esses casos.
Caio – A Elisabeth Huffel não foi a primeira e não será a última. A mesma história se repete toda semana em várias partes do mundo. Austrália, Japão, França, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos…
Cavadas – Eu já tive até pesadelo com essa merda!
Caio – Aqui no Brasil a coisa também continua. Tenho certeza.
Cavadas – Fico preocupado com a minha filha. A Adriana fica o dia inteiro conectada nesses sites de relacionamento. Tenho medo dela se meter numa furada. (…) Sabe da última? Adriana terminou com o namoradinho. Cá pra nós, ela é muita areia pro caminhãozinho daquele frangote. Não é por ser a minha filha não, mas a Adriana é um mulherão. Uma menina. Por dentro é uma menina. Mas por fora. Já é uma mulher. Mulherão. Eu tenho que ficar de olho. Tem muito filho da puta já querendo tirar uma casquinha da minha filha.
Caio – É mesmo?
Cavadas – Porra Caio! Pode falar! Minha filha é bonita pra caralho! É ou não é?
Caio – É. Realmente a Adriana é linda.
Cavadas – Bonita pra caralho. Se eu pudesse deixava ela trancada em casa até completar 18 anos. Mas não dá.
Caio – A conta, por favor!
Cavadas – Pelo menos eu já me livrei de um. O frangote é coisa do passado. Depois eu te conto qual foi a minha estratégia. O meu poder de persuasão.
Caio paga a conta.
Caio – Eu já vou indo!
Cavadas – Babuíno?
Caio – Babuíno? Que babuíno?
Cavadas – Você disse babuíno.
Caio – Eu?
Cavadas – Há –há-há! Eu tô de sacanagem! Tchau babuíno!
Caio – Engraçadinho… Fui!
CENA 02 – AVENIDA ATLÂNTICA – EXT – NOITE
Um Caio pensativo percorre Copacabana de carro.
Caio (off) – Já fazia muito tempo que minhas ambições profissionais jornalísticas tinham adormecido. Coisas como fama, reconhecimento e o Prêmio Pulitzer já eram tão distantes como a Sibéria ou o Nepal. Mas a idéia de escrever um livro sempre me seduziu. A recusa da matéria tinha aberto uma nova possibilidade na minha vida. Decidi escrever um livro. Um romance sobre as Garotas Suicidas. Minha vida estava realmente cheia de novidade. Inundada de romance.
CENA 03 – CARRO DE CAIO – INT – NOITE
Caio abre a porta. Adriana entra no carro. Os dois se beijam apaixonadamente.
Continua…
Suicide Girls – capítulo 10
CENA 01 – RUAS DO RIO – EXT – DIA
Caio dirige seu carro em alta velocidade pelas ruas da cidade.
CANA 02 – CARRO – INT – DIA
Caio (off) – A idéia de que Adriana poderia se entregar a outro homem me deixava completamente transtornado. Seu desejo de fêmea havia despertado e agora ela só queria se deixar abater. Como uma caça. Uma lebre que se entrega sorrindo para um lobo. Eu me sentia como o homem do livro do Nabokov…
CENA 03 – QUARTO DE ADRIANA – INT – NOITE
Adriana está nua diante do espelho. Ela acaricia e admira seu corpo de mulher.
Caio (off) – “O que me leva à loucura é a natureza dupla dessa ninfeta. Talvez de todas as ninfetas. Minha Lolita! Essa mistura de infantilidade terna com uma vulgaridade sutil. Rostinhos atrevidos que aparecem nos anúncios e fotos de revistas, rosadas imagens de criadinhas adolescentes…”
Adriana se masturba diante do espelho.
Caio (off) – Não conseguia parar de imaginar como seria o sabor e o cheiro daquele corpo novo, jovem, quase puro. Não conseguia parar de pensar naqueles peitos crescendo. Naquela vagina umedecendo e inchando de prazer. Querendo ser penetrada, possuída!
CENA 04 – CARRO – INT – DIA
Caio (off) – Merda! Eu sabia que não tinha mais jeito. Não tinha mais volta. Eu abri o portão do inferno. Não teria paz. De jeito algum. Com ela. Sem ela. Decidi mergulhar no abismo. O desejo do abismo é que pulemos dentro dele.
CENA 05 – PORTA DO COLÉGIO PEDRO II – EXT – DIA
Caio estaciona seu carro e observa Adriana que conversa com um grupo de amigas.
Caio (off) – Os japoneses tem razão. Nada mais sensual que uma colegial. Esses uniformes… Sapatos ‘boneca’, meias brancas até a altura do joelho e saias plissadas curtíssimas. Nada contra as aeromoças e enfermeiras, mas como fetiche, as colegiais são imbatíveis. Burusera! Assunto predileto dos Mangás eróticos. Muitos japas também têm atração por roupas íntimas de ninfetas. Eles compram calcinhas que acabaram de ser vestidas por alguma menina. Para eles, a visão da calcinha é tão excitante que desperta um desejo sexual maior do que a nudez. As estudantes aproveitam pra faturar um troco. Uma peça íntima nova custa uma fortuna. A jovem usa a calcinha durante todo o dia e, no final, vende para algum japa tarado. O custo da peça varia de acordo com os resquícios deixados pela usuária. Quanto mais excrementos como traços de menstruação, masturbação ou líquidos vaginais, mais cara a calcinha. Quase sempre o cliente exige que a mercadoria seja retirada do corpo no ato da compra. Há também lojas especializadas nesse comércio. Nesses casos, a peça íntima é sempre acompanhada de uma foto da dona. No Japão, transar com meninas menores de idade, de até 12 anos, não é crime. As colegiais japonesas podem vender suas calcinhas sem nenhum problema.
Caio buzina para chamar a atenção de Adriana que se aproxima do carro. Adriana se debruça sobre a janela do carona. Adriana olha para Caio e sorri.
Adriana – Oi Tio! Você por aqui?
Caio – Quer uma carona?
Continua…
Suicide Girls – capítulo 09
CENA 01 – APARTAMENTO DE CAVADAS – INTERIOR – NOITE
Cavadas e sua esposa (Irene) assistem televisão na sala. Adriana e Yog chegam da rua.
Adriana – Oi!
Irene – Oi, filha! Já jantou?
Adriana – A gente fez um lanche. Esse é o Yog.
Yog – E aí? Beleza?
Irene – (para Cavadas) É um coleguinha da escola.
Cavadas – Beleza.
Irene – Vocês querem assistir televisão com a gente?
Adriana – Não. A gente vai dormir. Tá tarde.
Cavadas – A gente vai dormir quem cara-pálida?
Irene – Calma, Cavadas!
Adriana – Eu e o Yog.
Cavadas – Onde?
Adriana – Aqui em casa. No meu quarto.
Cavadas – Pode tirar o cavalinho da chuva!
Adriana – O Yog é meu namorado!
Cavadas – Yog? Que Yog? Eu, por acaso, conheço esse Yog?
Irene – Ele tava na festa…
Cavadas – Que porra de nome é esse? Yog?
Irene – É apelido. Ele gosta muito de yogurt. Yogurt, yog. Entendeu?
Adriana – O nome dele é Paulo Ricardo. Ele estuda na minha sala.
Cavadas – Ele pode estudar até com o Papa, mas não vai dormir aqui em casa não!
Irene – Calma, Cavadas! Hoje em dia é assim. Os namoradinhos dormem na casa dos pais.
Cavadas – Na minha casa as coisas funcionam diferente. Que porra é essa? Eu vou deixar um moleque desse sozinho no quarto com a minha filha? Você tá louca?
Irene – Os tempos mudaram…
Adriana – Deixa de ser careta, pai!
Cavadas – Você só tem 15 anos! 15 anos!
Adriana – Todas as minhas amigas tem namorado.
Cavadas tira um maço de dinheiro do bolso e coloca na mão de Yog.
Cavadas – Toma! Leva a minha filha no cinema! Essa grana dá pro taxi, pra pipoca, pra porra toda! Vem cá! O teu pai não te dá dinheiro não?
Yog – Sou filho de mãe solteira.
Cavadas – Puta que o pariu!
Adriana começa a chorar.
Adriana – Todas as minhas amigas dormem com os seus namorados em casa! Só aqui vocês não deixam!
Cavadas – Você é uma menina, Adriana! Tem que estudar! Não tá na idade de namorar sério!
Adriana – Eu amo o Yog! Ele me ama! (T) Eu te odeio!
Cavadas – Tá vendo? É foda! O babaca aqui gastou uma fortuna com a festa dela… E o primeiro pedaço do bolo foi pra quem? Pra esse fedelho! É foda!
Adriana – Você não gosta de mim!
Cavadas – Não gosto não. Quem gosta é esse Yogurt desnatado!
Adriana – O pai da Carol deixa ela dormir com o namorado!
Cavadas – Esse cara é um bundão! Onde já se viu? Aqui em casa não vai ter essa putaria não!
Irene – Calma, Cavadas! Calma, minha filha! Ele vai entender!
Cavadas – Eu demorei um mês pra pegar na mão da sua mãe. Dois meses para dar o primeiro beijo. Sexo, só depois do casamento.
Adriana – Mentira! A mamãe me contou que casou grávida!
Cavadas – Você contou isso pra ela? Você também, hein! Ela tinha 26 anos! Eu tinha 30! Você só tem 15! (para o Yog) Quantos anos você tem moleque?
Yog – 14.
Cavadas – 14?
Yog – Mas faço quinze mês que vem!
Cavadas – Vocês tão de sacanagem!
Irene – Deixa cavadas. É uma nova geração! As coisas agora são diferentes!
Cavadas – Você vai dormir na sala! No sofá!
Adriana abre o berreiro.
CENA 02 – QUARTO DE CAVADAS – INTERIOR – NOITE
Cavadas e Irene deitados na cama.
Cavadas – A culpa é sua. Se você me apoiasse.
Irene – É outra geração. Você tem que entender.
Cavadas – Eu não acredito que eu deixei um moleque dormir no quarto com a minha filha.
Cavadas escuta um barulho. Levanta-se e coloca o ouvido na parede.
Irene – Que foi?
Cavadas – Os dois estão de risinhos.
Irene – Vem dormir, vem. Nossa filha é sensata. Ela sabe o que faz.
Cavadas volta a se deitar, tampa os ouvidos com o travesseiro e vira para o lado.
Cavadas – Merda!
CENA 03 – APARTAMENTO DE CAIO – INTERIOR – NOITE
Caio sonha com Adriana. http://youtu.be/v1hVOz_NwXI
CENA 04 – COZINHA DO CAVADAS – INTERIOR – DIA
Cavadas toma café enquanto lê o jornal. Yog entra, usando apenas um short, abre a geladeira, tira o leite, pega um copo e senta-se à mesa. Yog prepara um achocolatado lentamente. Os dois ficam em silêncio por um bom tempo.
Yog – E aí?
Cavadas – Bom dia.
Yog – Bom dia.
Cavadas – Não vai querer yogurt?
Yog – Tá tranqüilo.
Cavadas – E a Adriana?
Yog – Tá dormindo.
Cavadas – Sei. Sabe que horas são?
Yog – Não.
Cavadas – Yog, eu preciso ter uma conversa séria com seu pai.
Continua no próximo sábado…
Suicide Girls – capítulo 08
CENA 01 – BANHEIRO MASCULINO DO SALÃO DE FESTAS – INTERIOR – NOITE
Caio está só, lavando as mãos. Adriana, a debutante, filha do Delegado Cavadas, entra no banheiro com um grupo de amigas.
Adriana – Oooopppsss! Acho que entramos no banheiro errado!
As amigas de Adriana caem na gargalhada e saem do banheiro. Adriana fica.
Adriana – Eu conheço você.
Caio – Sou amigo do seu pai.
Adriana – Você não é jornalista?
Caio – Trabalho com jornalismo nas horas vagas.
Adriana – Qual jornal?
Caio – O Globo.
Adriana – Você escreve sobre o quê exatamente?
Caio – Obituário.
Adriana – Como?
Caio – É brincadeira. Caderno de Literatura.
Adriana sorri.
Caio – Você gosta de ler?
Adriana – Você tá sozinho?
Caio – Sim.
Adriana – Não tem mulher, namorada?
Caio – Nada fixo. Solteiro. E você?
Adriana – Tô ficando com um garoto e uma menina da minha sala. Mas eles são muito novinhos…
Caio – Sei…
Adriana – Eu gosto de homens mais velhos. (sedutora) Como você.
Caio – Eu acho que sou velho demais pra você.
Adriana – Você não gosta de meninas?
Caio – Gosto sim. Gosto muito.
Adriana – Você quer sair comigo?
Caio – Pelo que pude perceber hoje você acaba de fazer 15 anos, não é?
Adriana – Qual o problema?
Caio – Se eu sair com você, posso ser preso, sabia?
Adriana (rindo) – Não liga não. Meu pai é delegado. Ele solta você.
Caio – Me solta, me leva para um terreno baldio e me enterra vivo. Sei…
Adriana (insinuante) – Besteira. Eu já sou uma mulher.
Caio – Já reparei. Mas os tempos são outros. Minha avó se casou com 14 anos. Reza a lenda que no dia do casamento ela ainda brincava de boneca.
Adriana – Eu não brinco mais de boneca. Há muito tempo.
Adriana levanta o vestido mostrando as pernas e um pouco da calcinha.
Adriana – Você me acha bonita?
Caio – Linda.
Adriana – Você tem medo do meu pai?
Caio – Adriana, eu não quero me meter em confusão…
Adriana – Que pena.
Adriana sai do banheiro. Caio lava o rosto. Olha-se no espelho. Não acredita na cena que viveu.
Caio – Merda!
Continua no próximo sábado…
Suicide Girls – capítulo 07
CENA 01 – SALÃO DE FESTAS – INTERIOR – NOITE
Festa de 15 anos da filha do Delegado Cavadas. Ele e Caio tentam conversar apesar do som altíssimo.
Cavadas – Esses filhos das putas me tiraram os olhos da cara! Agora você vê: o chopp tá choco, o vinho parece Sangue de Boi e esses salgadinhos… porra, parece que foram fritos no século passado!
Caio – Buffet é complicado. A primeira rodada de whisky é boa. Depois, só vem batizado.
Cavadas – Whisky do Paraguay! Esses caras são muito caras de pau! Os garçons também fazem parte do esquema. E olha que eu falei que sou delegado. Eles estão cagando.
Caio – Faz como aquele tiozinho ali…
Cavadas – O de peruca?
Caio – Ele mesmo! O sacana colocou uma nota de 50 no bolso do garçom. Tá tendo um tratamento vip.
Cavadas – Meu cunhado… Filho da puta!
Caio – Eu te falei que esse negócio de festa é uma roubada. O sujeito gasta uma fortuna, se aborrece e os convidados ainda saem reclamando.
Cavadas – Porra! Mas não é todo dia que uma filha faz 15 anos!
Caio – Relaxa! Tenta se divertir!
Cavadas – Eu vou dar um esporro na cozinha!
Cavadas sai alterado tropeçando nas mesas e cadeiras do salão. A música cresce. Vemos um grupo de jovens, meninos e meninas dançando na pista. Música eletrônica. Os ‘coroas’ estão sentados estáticos.
Caio (off): 15 anos… Não me lembro mais da época em que eu tinha 15 anos. Acho que nesse tempo, eu passei férias em Marte. Fico olhando pra essa molecada e imaginando: qual deles será o próximo a se atirar pela janela? Quantos aqui são seguidores do blog? Essas adolescentes são todas iguais. Fazem questão de serem iguais. Os mesmos gostos, os mesmos desejos de consumo, as mesmas saias curtíssimas… a mesma falta de idéias, a mesma ignorância, a mesma arrogância, o mesmo perfume…
Um homem, bêbado, com um copo de whisky na mão, senta-se a mesa de Caio.
Homem – Com licença, amigão! Eu preciso desabafar!
CENA 02 – COZINHA – INTERIOR – NOITE
Cavadas – Cadê o whisky 12 anos, a cascata de camarões e o filé aperitivo que eu contratei?
Metre – Nosso Buffet segue uma ordem, senhor…
Cavadas – Eu sei qual é a ordem de vocês! Primeiro vocês enchem a gente de porcaria, depois levam as melhores bebidas e comidas pra casa! Tu ta pensando que eu sou otário, meu irmão?
Metre – O senhor está enganado. Nosso Buffet é…
Cavadas – Se vocês não começarem a servir o que a gente combinou agora, eu vou levar todo mundo pra delegacia!
CENA 03 – SALÃO DE FESTAS – INTERIOR – NOITE
Homem – Eu sou o Mestre de Cerimônia da festa. Muito prazer. Desculpe, mas eu estou um pouquinho alterado. São muitos anos bebendo whisky falsificado. Faço festas de 15 anos desde a década de 90. Quase vinte anos… meu fígado já foi pra casa do caralho! Imagine você beber essa porcaria todo o fim de semana durante 20 anos. É foda! 20 anos comendo salgadinho mofado, bolinho de queijo murcho… É foda!
Caio – Escutando essas músicas…
Homem – É foda! Acho que eu já tô até meio surdo. A única coisa que me resta é ficar vendo essas belezinhas desfilando no auge da puberdade. Cada garotinha gostosinha… você sabe por quê inventaram essa história de festa de 15 anos?
Caio – Não faço idéia…
Homem – Os pais precisavam apresentar suas filhas pra sociedade. ‘Olha gente, minha filha não é mais uma menina. Minha filha agora é uma mulher. Já tem peitinho, bundinha, pelos pubianos… Já pode casar. Por favor, algum bom partido case com a minha filhinha, antes que ela dê pro primeiro vagabundo que encontrar na rua! Pelo amor de Deus, case com a minha filha que eu quero ter uma boca a menos pra sustentar!’
Caio – Eu nunca tinha pensado por esse ponto de vista.
Homem – E é claro que tem essa coisa do status, se exibir e mostrar pros amigos que tem dinheiro, essas coisas…
Caio – Entendo.
Homem – As meninas também querem exibir seus corpos. Estão doidas pra dar! Um dia, eu perco a cabeça, pego uma dessas putinhas, levo pro banheiro e faço um estrago.
CENA 04 – SALÃO DE FESTAS – EXTERIOR – NOITE
Cavadas flagra um garçom colocando bebidas na Kombi do Buffet.
Cavadas – Que porra é essa? Vocês tão escondendo as bebidas da minha festa? (examinando) Vocês estão roubando o meu whisky 12 anos e os meus vinhos chilenos!
Metre – Não é nada disso, senhor!
Cavadas – Filho da puta!
Cavadas dá um soco na cara do Metre.
CENA 05 – SALÃO DE FESTAS – INTERIOR – NOITE
Uma valsa. Adriana, filha de Cavadas, está vestida como uma princesa. Ela é recebida sob aplausos.
Caio (off): Nossa! Como a Adriana ficou linda. Quanto tempo…
O Mestre de Cerimônia, fala ao microfone, visivelmente bêbado.
Homem – Que maravilha! A aniversariante de hoje é certamente uma das debutantes mais lindas que eu já vi em toda a minha vida! E para dançar a primeira valsa, vamos chamar o pai de Adriana!
Cavadas entra no salão esbaforido. Ele se recompõe e dança a valsa com a filha.
Homem – Vejam a cara de orgulho do papai. Também com uma filha linda com essa! Tem que estar muito orgulhoso mesmo.
Cavadas repreende o Mestre de Cerimônia com o olhar. Caio reconhece uma das amigas de Adriana.
Caio (off): Aquela menina… Eu estou reconhecendo… É a irmã de Elisabeth!
Caio se aproxima da moça.
Caio – Eu preciso falar com você! Eu sei quem você é! Eu estive na sua casa. Você não é a irmã da Elisabeth?
A menina se assusta e foge. Caio tenta segui-la, mas é contido pelos convidados que se aglomeram no caminho para ver a valsa. A menina desaparece.
Homem – Palmas para Adriana e seu pai! Que delícia de valsa! Adriana, você está realmente muito linda! O que vemos aqui é uma mulher que deixou de ser menina. Que pele! Que boquinha! Que cabelos! Um corpo escultural! Esse decote! Que peitinhos lindos você tem!
Os convidados ficam perplexos com o vexame do Mestre de Cerimônia.
Cavadas – Que porra é essa?
Homem – Essa bundinha linda! Eu tenho muita inveja do primeiro cara que vai comer a sua bocetinha cheirosa…
Cavadas – Desgraçado! Eu te mato!
Cavadas dá uma surra no Mestre de Cerimônia. Adriana e suas amigas não conseguem conter o riso.
Continua no próximo sábado…
Suicide Girls – capítulo 06
CENA 01 – LEBLON – EXTERIOR – DIA
Uma jovem nua estatelada sobre um dos carros estacionados na rua. Ela está morta. O impacto de seu corpo amassou o capô do carro disparando o alarme e o pisca alerta. O som do alarme corta a tranqüilidade do elegante e pacato bairro do Leblon. A cena bizarra é cercada por um grupo de curiosos. Entre eles, o jornalista Caio.
Caio (off): Escondemos a morte. Escondemos e fugimos da morte. A morte. Terrível morte. Varremos a morte para debaixo do tapete todos os dias. Como um segredo de família que não pode ser revelado. A morte deve ficar escondida e trancada a sete chaves nos hospitais e cemitérios. Tratamos cada morte como a primeira morte do primeiro ser humano habitante do planeta. Uma surpresa, um espanto, uma desilusão! Imagino sempre o seguinte diálogo:
- Fulano, você vai morrer!
- Morrer? Eu? Mas como? De onde você tirou essa idéia? Não pode ser. Que absurdo!
Não existe nada mais certo, previsível e natural que a morte. Mesmo assim, nunca nos preparamos para a sua chegada. E quando a morte bate a nossa porta ou suja a nossa calçada, ficamos perplexos. Lembro de uma vizinha, Dona Nadir, que não conseguia sequer olhar para um inocente rabecão parado num sinal. Virava o rosto, apavorada. Calma, Dona Nadir. Não tenha medo da morte. A eternidade só dura um segundo.
O Delegado Cavadas se aproxima.
Cavadas – Chegou primeiro!
Caio – Eu já estava aqui.
Cavadas- A garota tem as mesmas características da outra menina. E o porteiro já me adiantou que antes de pular da janela, ela matou o avô com um travesseiro. Asfixiou o avô com o travesseiro, entende?
Caio – Entendo.
Cavadas- Se esse negócio virar moda… adolescente é assim: quando um faz uma merda, todos os outros copiam. Porra! E logo agora que o Rio vai sediar as Olimpíadas! Sacanagem!
Caio – Nossa medalha de salto em altura tá garantida.
Cavadas – Gostosinha, a menina.
Caio – É…
Cavadas – Eu tenho uma filha adolescente. Confesso que estou preocupado. Vou ficar de olho nela! (Pausa) O Delegado responsável pela área vai me dar toda a ficha. Depois eu passo pra você.
Caio – Não precisa. Não estou interessado. Vou continuar seguindo apenas uma pista.
Cavadas – Que merda, hein? Vamos tomar um chopp?
CENA 02 – APARTAMENTO DE CAIO – INTERIOR – NOITE
Caio, diante do computador, navega na internet. Vemos o site Suicide Girls. Caio acessa a galeria de fotos. As fotos mostram garotas brancas com tatuagens, piercings, cabelos coloridos, em poses pornográficas estilo pin-ups. Passagem de tempo. Caio acende um cigarro antes de dormir. Numa última tentativa, finalmente encontra as fotos de Elisabeth Huffel. Um link leva até o seu blog. Forever Young. Nele, Caio encontra mais fotos e textos como:
“Morrer jovem. Eu quero morrer jovem. Bonita e jovem. Não quero ver o tempo deformar o meu corpo, a minha pele, o meu rosto. Envelhecer é perder pouco a pouco a dignidade. Não quero viver de esmolas de afeto, de esmolas de compaixão, esmolas de aposentadoria… Pra quê viver muito? Pra enriquecer os médicos, os donos de hospitais e dos planos de saúde? Pra ver um filho crescer, brigar pelo meu dinheiro, me desprezar e depois me jogar num asilo? Tudo vai perdendo a graça depois da primeira vez. Beijar, amar, trepar, gozar… tudo… o tempo destrói tudo. Eu já fiz tudo isso. Muito. A vida é uma festa e pra mim, a festa acabou. É… tudo tem que ter um fim mesmo. Quero decidir a hora e o local da minha morte. Pronto! Disponibilizei as minhas fotos na Internet. Agora eu sou eterna! (rsrsrs)”
O blog tem centenas de seguidoras. Entre elas, a garota suicida do Leblon.
Continua no próximo sábado…
Suicide Girls – capítulo 05
Visão aérea do Rio. Centro, Copacabana, Ipanema… No topo dos prédios, vemos vários jovens, homens e mulheres, nus. De repente, os jovens começam a se atirar do alto dos prédios. Uma chuva de belos corpos cai nas ruas, nas calçadas, sobre os automóveis, causando pânico e caos na cidade. Pessoas correm desesperadas para se protegerem da chuva macabra. Corpos caem atingindo transeuntes, carros, provocando acidentes, causando horror, manchando a cidade de vermelho. O sangue dos jovens suicidas inunda as ruas e escorre pelos bueiros.
QUARTO DO DELEGADO CAVADAS – INTERIOR – NOITE
Cavadas dorme em sua cama. O telefone na mesinha de cabeceira toca despertando Cavadas do pesadelo.
Cavadas (num susto) – Alô! Pronto! Pode falar! O quê? Mais um suicídio? Mas não é possível! Barra? Tô indo pra aí agora mesmo!
Continua no próximo sábado…
Suicide Girls – capítulo 04
CENA 01 – CENTRO DO RIO – EXTERIOR – DIA
Caio se aproxima de um camelô. Sua bancada tem vários relógios e celulares.
Caio – Tá pronto?
Camelô – Prontinho chefia!
Caio – Deu pra salvar?
Camelô – Claro! Tá novinho em folha.
Caio – Porra! Até iphone vocês consertam! Gostei de ver!
O camelô entrega o iphone para Caio.
Camelô – Nosso serviço é de alta tecnologia!
Caio – O Steve Jobs deveria contratar vocês.
Camelô – Steve o quê?
Caio – Steve Jobs. O dono da Apple. Foi ele que inventou esse troço.
Camelô – Nunca ouvi falar.
Caio – Deixa pra lá.
Camelô – Esses ‘celular’ não tem mistério. É igual a motor de Fusca. Molinho de consertar.
Caio – Toma! 50 pratas. Não foi isso que a gente combinou?
Camelô – Demoro! Vai querer ver um relógio?
Caio – Você acha mesmo que eu tenho cara de quem compra mercadoria roubada, rapaz?
Camelô – Quê isso, chefia! Nossa mercadoria é toda legalizada. Nós trabalhamos no ramo de exportação e importação.
Caio – Sei…
Camelô – Amanhã vai chegar uns ipads novinhos. Vai querer?
Caio – ipad? Tá de sacanagem?
Camelô – Fazemos qualquer negócio, Patrão!
CENA 02 – TAXI – INTERIOR – DIA
Caio examina o iphone de Elisabeth. Ao fundo vemos o Aterro do Flamengo e o Pão de Açúcar. Caio descobre que Elisabeth enviou suas fotos para o site Suicide Girls.
CENA 03 – LEBLON – EXTERIOR – DIA
O jornalista Caio Mário anda pelas ruas do Leblon.
Caio (off): Elisabeth Huffel morava no Leblon. Bairro nobre do Rio de Janeiro. Cenário de novela. Ficção urbanística televisiva de um mundo perfeito, elegante, limpo… O metro quadrado mais caro da cidade. A morte de Elisabeth abalou o projeto de felicidade da elite endinheirada do Leblon. Como pode uma menina criada e educada no nosso bairro se atirar do alto de um prédio? O assunto era tratado com muita discrição pelos moradores. Um segredo de Estado. Afinal, nada pode ameaçar a tranqüilidade e a valorização imobiliária do bairro. Curioso… O ser humano, na sua incessante tentativa de criar um mundo perfeito, se esquece que abaixo de prédios de luxo e mansões, sempre existirão esgotos habitados por milhões de ratos e baratas.
CENA 04 – SALA DO APARTAMENTO DE ELISABETH HUFFEL – INTERIOR – DIA
Mãe – Quer dizer então que o senhor deseja fazer uma reportagem investigativa sobre a minha filha?
Caio – Exatamente.
Mãe – O senhor pode me dizer por quê ela fez isso?
Caio – Acho que sua filha estava envolvida com algo complexo. Não foi um simples suicídio.
Mãe – Algo complexo?
Caio – Um grupo.
Mãe – Uma seita?
Caio – Talvez.
Mãe – Por favor. Eu e meu marido não queremos escândalo. Decidimos colocar um ponto final nessa história.
Caio – Mas a senhora não quer saber o que aconteceu com a sua filha?
Mãe – Acho que não. Eu prefiro que não. Você não entende? A vida continua. Eu tenho que cuidar do meu marido da minha… chega de escândalo! Nós temos uma posição na sociedade. O senhor acha que eu não percebo. Desde que aconteceu o… aquilo, meus vizinhos viram a cara. Minhas amigas estão me evitando. (chorando) Eu amo minha filha! Mas foi ela quem escolheu esse destino! Eu e a minha família não podemos carregar esse fardo para o resto da vida! Vamos colocar uma pedra nesse assunto!
Caio – Posso ver o quarto de Elisabeth?
CENA 05 – QUARTO DE ELISABETH HUFFEL – INTERIOR – DIA
Caio (Off): Um quarto de menina ocupado por uma mulher. Algumas bonecas na prateleira. Um ursinho de pelúcia sobre a cama. E sobre a penteadeira: um estojo de maquiagem e um perfume francês. Sua mãe abre o armário e mostra seus vestidos. Um pijaminha da Hello Kitty misturado com vestidos insinuantes e decotados. Na cortiça na parede, fotos de uma jovem cheia de vida. Linda. Uma menina recém transformada numa mulher. Corpo de mulher.
Mãe – (chorando) Ela era a nossa princesinha. Nunca deixamos faltar nada para ela. Inglês, balé, natação… os melhores colégios, o clube, boas amizades… Tá vendo essa foto. O aniversário de 10 anos na Disney. Essa é da festa de 15 anos no Salão Nobre do Country. Como ela pôde fazer isso… com a gente?!?
Caio – Ela não tinha computador?
Mãe – Um lap-top… Sumiu. Não sei onde está. Agora vá embora, por favor. Se o meu marido souber que eu recebi o senhor… Ele me mata!
Caio percebe um vulto de menina na porta do quarto de Elisabeth.
Mãe – O que você está fazendo aqui? Já para o seu quarto!
A menina desaparece.
Caio – Quem é?
Mãe – Minha filha. Caçula. Agora o senhor tem que ir. Por favor.
Caio – Claro. Muito obrigado. Eu mantenho a senhora informada.
CENA 06 – LEBLON – EXTERIOR – DIA
O jornalista Caio Mário anda pelas ruas do Leblon.
Caio (off): Elisabeth tem uma irmã mais nova… Interessante!
Um forte barulho assusta Caio e os demais transeuntes. Uma jovem cai sobre um dos carros estacionados na rua. O impacto danifica o carro disparando o alarme e o pisca alerta.
Continua no próximo sábado….
Suicide Girls – capítulo 03
CENA 01 – SALA DE UMA CASA – INTERIOR – DIA
Caio (off) - Contrariando a ordem natural e lógica dos fatos, resolvi começar minha investigação pela família do velho homem assassinado no seu leito de morte. A casa dos Medeiros é aconchegante. Fui recebido pela viúva. Uma senhora pelo menos 10 anos mais nova que o finado marido. Deve estar na casa dos 70 anos. Muito gentil. Aprecio cada detalhe da decoração congelada na nos anos 1960. Sinto cheiro de café. Lá vem ela. A bondosa senhora fez um café fresquinho. Reparo que o luto caiu de moda. Hoje em dia não existem mais viúvas de negro. As missas de sétimo dia agora são coletivas, misturadas. Outro dia fui numa que ao mesmo tempo homenageava os mortos, comemorava uma Bodas de Prata e o aniversário de um cachorro. Uma esculhambação. Ninguém mais chora a morte de um ente querido. Só mesmo algumas poucas lágrimas no velório. Depois, chopp e churrascaria. Aquela viúva desesperada que deseja se atirar na cova junto com o marido não existe mais. É uma espécie em extinção. A velha senhora estava ali, sorridente. Nem parecia que seu companheiro de toda uma vida havia desaparecido.
A VELHA SERVE O CAFÉ.
Caio – Obrigado.
Velha – Gosta de café forte?
Caio – Detesto tudo que é lento e fraco.
Velha – O senhor vai gostar do meu café.
Caio – Perfeito!
Velha – A policia descobriu alguma coisa?
Caio – Nada. Ao que parece, o seu marido não conhecia a jovem.
Velha – Ele estava muito doente. Mas morrer assim. Com um punhal cravado no coração. Sozinho. Sem a companhia da família. Pobre Alfredo.
Caio – Ele, por acaso, nunca mencionou ter conhecido alguma pessoa no Hospital?
Velha – Não. Alfredo quase não falava mais. Estava definhando. Câncer. No pulmão. Fumava desde a juventude. E olha que o Alfredo é de uma época em que não existia juventude.
Caio – A adolescência é uma invenção da segunda metade do século 20.
Velha – Naquela época ninguém sabia que o cigarro fazia mal.
Caio – Posso fumar?
Velha – Fique a vontade.
CAIO ACENDE UM CIGARRO.
Caio – Não é o cigarro que faz mal a saúde. Viver faz mal a saúde.
Velha – Alfredo fumava dois maços por dia.
Caio – A fumaça do cigarro é o suspiro da alma. Mario Quintana.
Velha – E a menina?
Caio – Normal. Saudável… Um mistério.
Velha – É verdade que ela estava nua?
Caio – Sim. Ela estava nua. Completamente nua.
Velha – Dizem que ela e o meu marido…
Caio – Acho que não.
Velha – Eu também acho que não. Tenho certeza. Porque o meu marido… ele não tinha condições. O senhor entende?
Caio – Compreendo.
UM HOMEM DE PIJAMA APARENTANDO 40 ANOS ENTRA NA SALA.
Velha – Esse é o meu filho. Armando.
Caio – Bom dia.
Velha – Esse é o Senhor Caio. Jornalista. Quem saber sobre o seu pai.
Armando – Bom dia.
ARMANDO PEGA UM JORNAL.
Armando – A senhora já tomou os seus remédios, mamãe?
Velha – Tomei sim, meu filho. Pode ficar despreocupado.
Armando – Sei. Com licença.
ARMANDO SAI DA SALA.
Caio (off) – Conheço o tipo. Vagabundo profissional. Cuida da mãe. Não por amor. Por comodidade. Depende da aposentadoria da velha. Não quer perder a galinha dos ovos de ouro. Ainda mais agora que ela vai receber a pensão do velho.
Velha – Esse menino é a minha benção. Me cobre de mimos.
Caio – Posso ver o quarto do Seu Alfredo?
Velha – O quarto?
Caio – Sim. O seu quarto. Do casal.
Velha – Mas… Nos últimos anos, o meu filho achou melhor colocar o Alfredo numa casa de repouso. Ele dava muito trabalho. E eu não estava agüentando. Fiquei doente… Na casa de repouso, o Alfredo tinha toda a assistência. E a gente visitava toda semana. Foi melhor assim. Ele já tava meio gagá. O senhor entende?
Caio (off) – Filhos da puta. Agora entendi. Que surpresa! A bondosa velhinha na verdade é uma bruxa. Não suportava mais o marido. No fundo sente-se envergonhada de ter colocado o marido num asilo. Omitiu essa preciosa informação da policia. E o Armandinho… tá armando pra ficar com o dinheiro dos velhos. Já já quem vai para um asilo é a senhora . Bem feito. É… não fazem mais viúvas e filhos como antigamente. Pobre Alfredo.
Caio – Bom, eu já vou indo. A senhora pode me dar o endereço da casa de repouso?
CENA 02 – ASILO – INTERIOR – DIA
Caio (off) – Sempre simpatizei com asilos e orfanatos. Sou defensor ferrenho do ditado: Antes só do que mal acompanhado.
Velho – Alfredo? Alfredo era o meu vizinho de quarto! Grande figura. Nos últimos dias, recebia uma menina. Linda. Era uma voluntária desse negócio de ONG de leituras para velhos. Muitos não conseguem ler. Enxergam mal, perderam a vista… Mas o Alfredo enxergava muito bem. Jogávamos xadrez toda noite. Inventou essa história de cegueira pra receber a garota. Ficaram amigos.
Caio – Quer dizer que o Seu Alfredo…
Velho – O senhor, pelo amor de Deus, me faça um favor. Manda uma dessas meninas pra mim. Eu sei muito bem que ela matou o Alfredo, mas… foi maravilhoso! Eu também quero morrer assim! Eu não quero morrer com aqueles desgraçados dos meus filhos e aquela chata da minha mulher do meu lado, me urubuzando! Eu quero morrer pelas mãos de uma mulher jovem e linda! Como o Alfredo! O senhor promete trazer uma garota dessas pra mim? Promete? O Alfredo sim teve uma morte triunfal! Triunfal!
Caio – Pensando bem, o velhinho tinha razão. Naquele momento eu senti uma grande admiração e (por quê não?) uma certa inveja do Seu Alfredo.
Continua no próximo sábado….
Suicide Girls – capítulo 02
CENA 01 – RESTAURANTE – INTERIOR – DIA
O jornalista Caio Mário entra no estabelecimento. Ao fundo, vemos o delegado Cavadas numa mesa.
Caio (off) – Delegado Cavadas… Típico sujeito bonachão, espaçoso, de sorriso largo… Parece que tem um rei na barriga. Pelo tamanho da dita cuja, até poderia ter mesmo. Amigo de longa data. Se deu bem, o malandro. Tá cheio da grana. E ainda dizem que o crime não compensa.
Ao ver Caio se aproximando, Cavadas se levanta e abre os braços.
Cavadas – Ave Caio Julio César!
Caio – Salve o Cristo Redentor!
Os dois se abraçam.
Cavadas – Caio e Cavadas… Que tal se a gente formasse uma dupla sertaneja?
Caio – Sabe por quê inventaram espingarda de cano duplo?
Cavadas – Não faço idéia.
Caio – Pra matar dupla sertaneja.
Cavadas – Boa! Garçom! Um chopp cremoso!
Caio – Dois!
Os dois se sentam.
Cavadas – Escuta essa. Elisabeth Huffel. 18 anos. Linda, jovem, rica, cheia de vida… Não era do tipo garota problemática rebelde sem causa existencialista não. Os pais garantem. Boa filha. Boa aluna. Alegre. Nunca se envolveu com drogas. Bem relacionada. Também não era uma burguesa culpada deprimida com as mazelas do mundo. Era uma menina normal. Como tantas outras.
Caio – Esse é o problema. Desconfie das pessoas normais.
Cavadas mostra uma foto.
Cavadas – Olha a foto da garota.
Caio – Linda!
Cavadas – Teve uma mudança radical de comportamento logo depois que passou no vestibular. Medicina. Seus pais, orgulhosos, deram um carrão importado ultimo tipo de presente pra guria. Um mês depois ela abandonou a faculdade, vendeu o carro e partiu para uma viagem longa. Seis meses na Europa. Circuito Londres, Paris e Amsterdã.
Caio – A garota tinha bom gosto.
O garçom serve os chopps. Caio e Cavadas saboreiam cada gole.
Cavadas – Tivemos acesso ao Facebook de Elisabeth. Pelas fotos da pra ver que na Europa, a menina comportada exemplar chutou o balde. Teve vários namorados, bebeu todas, meteu o pé na jaca. Voltou para o Brasil e uma semana depois fez esse estrago. Apunhalou um velho moribundo e se atirou do alto do Hospital.
Caio – E o velho?
Cavadas – Até agora não descobrimos nenhuma ligação com a garota. Funcionário público aposentado. Doente terminal. Só recebia visitas pela manhã. A família está perplexa.
Caio – Curioso.
Cavadas – É ou não é uma puta história?
Caio – Excelente!
Cavadas – Toma! O endereço da família da menina e do velho. Agora é contigo. Eu sei que os jornalistas têm um pacto de não noticiar suicídios…
Caio – É pra não incentivar a moçada. Lembra quando aquele sacana do Ézio colocou no jornal que fulano tinha sido o nonagésimo nono a se atirar da Ponte Rio Niterói? No outro dia tinha uma porrada de gente na ponte querendo ser o centésimo suicida pra sair no jornal.
Cavadas – É verdade… Mas meu feeling diz que por trás dessa história tem alguma coisa muito maior que um simples suicídio. Corre atrás que essa matéria é quente. Você fica me devendo essa!
Caio – Ok!
Cavadas – Que tal uma picanha mal passada?
CENA 02 – COBERTURA DO HOSPITAL – EXTERIOR – DIA
Enquanto fuma um cigarro, Caio examina o local.
Caio (off) – Elisabeth Huffel. 18 anos. Linda, jovem, rica, cheia de vida… Apunhalou um velho moribundo e se atirou do alto de um arranha céu. Nua. Por quê você fez isso, Elisabeth? Por quê?
Caio encontra o iphone de Elisabeth no chão.
Continua no próximo sábado…
Suicide Girls – capítulo 01
CENA 01 – QUARTO DE HOSPITAL – INTERIOR – NOITE
Um velho moribundo respira artificialmente através de aparelhos. A porta se abre. Vemos a silhueta de uma mulher. Ela se aproxima do leito. A luz do luar ilumina a figura misteriosa. Ela é jovem. E bela. Veste um sobretudo preto. A menina acaricia o rosto do velho. O velho desperta.
Velho – Você veio.
Menina – Você está pronto?
Velho – Sim.
A menina tira o sobretudo, fica nua e senta-se ao lado do velho. Seu corpo é perfeito. Cabelos negros. Pele branca.
Velho – Meu Anjo!
O velho acaricia o corpo da menina. Mãos trêmulas. O velho acaricia os seios da menina. Êxtase. A menina se debruça sobre o velho. O velho respira fundo como se quisesse guardar para si o perfume daquela pele jovem e macia. O velho beija os seios da menina.
Velho – Meu Anjo!
A menina olha fixamente nos olhos do velho, beija sua boca e crava um punhal no seu peito. O velho desfalece. Ele está morto. Uma enfermeira entra no quarto.
Enfermeira – Quem é você? O que está acontecendo?
A menina pega um iphone no bolso do sobretudo, empurra a enfermeira e foge.
Enfermeira – Socorro!
A enfermeira usa o telefone.
Enfermeira – Alô! Segurança!
CENA 02 – CORREDOR DO HOSPITAL – INTERIOR – NOITE
A menina (nua) é perseguida por dois seguranças. Seu iphone toca uma música eletrônica. Ela é mais rápida e entra no elevador. A porta do elevador se fecha deixando os seguranças do lado de fora.
CENA 03 – ESCADAS DO HOSPITAL – INTERIOR – NOITE
Os seguranças sobem as escadas apressadamente. Um deles, já ‘coroa’ e acima do peso, tem dificuldade de acompanhar o outro.
CENA 04 – COBERTURA DO HOSPITAL – EXTERIOR – NOITE
A menina pára na beira do prédio. De cima, vemos a rua, os carros pequenos… O prédio é bastante alto. A menina faz poses e tira fotos de si mesma com seu iphone. Ela acessa a internet e envia as fotos. O segurança mais jovem (01) chega e aponta sua arma para a menina.
Segurança 01 – Parada! Se não, eu atiro!
A menina sorri, joga o iphone no chão e inclina seu corpo para trás até cair no vazio.
Segurança 01 – Não!!!
O segurança mais jovem vai até a beira do prédio e olha para baixo. Vemos o corpo sem vida da menina na rua. O segurança 02 se aproxima, ofegante, e também olha para baixo.
Segurança 01 – Ela se atirou! Que loucura!
Segurança 02 – Que desperdício. Tão gostosinha.
Ouve-se, distante, o som da sirene de um carro da policia.
CENA 05 – FRENTE DO HOSPITAL – EXTERIOR – DIA
O local está isolado pela policia. Vemos uma ambulância. Curiosos, repórteres e fotógrafos tentam descobrir o que está acontecendo. Somente a policia e os para-médicos do Corpo de Bombeiros estão próximos ao corpo da menina encoberto por um lençol. Um helicóptero sobrevoa a área. O delegado Cavadas fala ao celular agachado ao lado do corpo.
Cavadas – Acorda vagabundo! Acho que tenho uma boa história pra você!
Cavadas levanta o lençol. Vemos uma tatuagem na nuca da menina onde se lê: FOREVER YOUNG (eternamente jovem).
Continua no próximo sábado…
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