Branca
Sala de aula. A PROFESSORA anda lânguida de um lado para outro. JULIANA e BRANCA estudam entre outras alunas fictícias.
Professora- Então? Quem vai ler a redação que eu pedi pra hoje?
BRANCA se levanta animada.
Branca- Eu quero ler, professora!
Professora- Vocês lembram, o tema é livre, mas deve haver um tema.
Branca- O tema que eu escolhi é: TEMA!
Professora- Então? Ninguém se habilita?
Branca- Vou ler, professora! Poxa! Não é bem uma redação. É uma poesia. Lá vai!
Com “T”, escrevo TEMA…
Com “E”, escrevo EMA…
Com “M”, escrevo MA…
Com “A”…
Professora- Vamos lá! Coragem! Ninguém? Vou ter que escolher eu mesma?
Branca- Mas professora? Não gostou da poesia?
Professora- Juliana!
Juliana- Eu?
Branca- Ou foi do tema “tema” que a senhora não gostou..?
Professora- Qual seu tema, Juliana?
JULIANA se levanta tímida.
Juliana- Demorei pra escolher um tema.
Branca- (Brava) Me ignorar assim! Fica com a puxa-saco da Juliana então, professora.
Juliana- Aí eu pensei. O tema deve ser algo a ser dito que tenha tanta vontade desair que venha num ímpeto, numa ânsia.
Branca- (Murmura revoltada) Cagação de regra a essa hora da manhã…
Juliana- Então… meu tema é Branca.
Branca- Eu sou o tema?!
Professora- (Constrangida) Branca… você diz, a cor, branca?
Juliana- Não. Branca a minha amiga. Aluna daqui.
Branca- Você fez uma poesia sobre mim, Juliana? Que fofinha!
Professora- (Desconfortável) Não precisa ler se não quiser, querida! Alguém mais?
Juliana- Eu leio sim. Chama-se “Carta para Branca”.
Branca- Que simpatia! Vou sentar pra ouvir melhor!
Professora- (Murmura) Deus do céu…
Branca- Desculpa, professora. Eu fico quieta.
Juliana- (Lê) Será que você se lembrava, Branca? Quando sua mãe fez aniversário? Dei a ela um par de brincos. Desde a semana passada ela não pode mais usar.
Branca- Mamãe adorou o presente!
Juliana- (Lendo) Quando soube da notícia, sua mãe batia tão forte a cabeça entre as grades da escola. Não queriam que ela entrasse. Ninguém podia entrar aqui. Sua mãe se atirava no pequeno espaço entre uma grade e outra. O sangue florescendo no metal enferrujado. As duas orelhas dela ficaram para trás, penduradas por filetes de carne e lágrimas.
Branca- Mamãe? Sem orelha?
Professora- Chega, Juliana! Chega!!!
Juliana- Não deixaram ela vir aqui te abraçar, aqui, onde você esperava deitada no chão dessa sala.
Professora- Vou te mandar pra diretoria!
Juliana- Largada no assoalho frio, aguardando o abraço de despedida da sua mãe!
Professora- É mentira! A Branca não morreu aqui! Isso é boato!
Branca- Morri?
Juliana- Se matou, sufocada, a boca cheia de restos de apontador e giz.
Branca- Me matei?
Professora- Se não calar vai se arrepender amargamente!
Juliana- Meu amor suicida. Meu único amor. Me espera que estou chegando!
Branca- Que engraçado! Por isso está tudo tão mais fácil! A dor acabou.
Professora- O próximo que falar nessa garota vai ser expulso do colégio! Estão me ouvindo? Esqueçam ela de uma vez por todas! É melhor esquecer! Era uma doente! Uma louca!
Juliana- Nunca vou esquecer.
Professora- Nunca é tanto tempo, Juliana… Tempo demais… Só em contos de fadas… (Sofrida) Nem lixo atômico dura para sempre.
BRANCA parece sumir no ar… A luz vai caindo…
Branca- Estou sumindo! Que engraçado! Faz cócegas!
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O tema é um tema
Sábado. Ressaca.
Julia enrolada com o seu namorado, André, no sofá.
Julia – Tenho que escrever para o dramadiário.
André – Qual é o tema?
Julia – Tema.
André – Qual é o tema?
Julia – Tema.
André – Sua audição piorou…
Julia – Como?
André – Está muito pior.
Julia – Do que você está falando?
André – Acho que você precisa de uma nova audiometria.
Julia – Por que?
André – Eu te perguntei o tema do drama de hoje.
Julia – Tema!!!!!!
André – Pára de repetir o que eu perguntei!
Julia – O tema é tema.
André – O tema é ele mesmo?
Julia – Sim.
André – Mas como é que tema pode ser o tema?
Julia – O meu é gorila.
André – O seu tema?
Julia – É. Resolvi. Gorila é legal, gorila é grande, gorila é contemporâneo e sei que vai ser difícil
para todos. É uma maneira de me vingar desse tipo de tema.
André – Que tema?
Julia – Tema. Gorila é ainda mais chato. Vai acabar com a folga de todos.
André – Inclusive com a sua, né?
Julia – …
André – Você vai ter que escrever sobre gorilas no próximo sábado…
pausa.
Julia – Malditos gorilas!
Variações sobre o mesmo tema
(Karen e Zé no palco do teatro.)
Zé: Eu te amo.
Karen: Jura?
Z: Eu te amo muito.
Karen: Por quê?
Zé: “Por que” o quê?
Karen: Por que logo agora você está em dizendo isso?
Zé: Logo agora que o que, Karen?
Karen: Agora que estou grávida de outro.
Zé: O quê?
Karen: Eu estou grávida de outro, Zé. Depois de tanto tempo sendo rejeitada por você,
me envolvi com outra pessoa.
Zé: Tanto tempo? Que tempo?
Karen: Os últimos quarenta dias. Você nem tocou em mim.
Zé: Claro. Eu estava viajando a trabalho. Esqueceu?
Karen: Provavelmente com outra.
Zé: Provavelmente… provavelmente… provavelmente…
Karen: O que foi? Engoliu uma vitrola arranhada?
Zé: Karen, isso não tá bom.
Karen: Eu sei. Por isso que eu me envolvi com …
Zé: Não. Não estou falando disso.
Karen: Não? Então está falando de quê?
Zé: Do tema. Desse tema.
Karen: Ah não, Zé. A gente discutiu várias vezes sobre isso.
Zé: E não chegamos a nenhuma conclusão.
Karen: Como não chegamos? O que você acha que a gente tá fazendo?
Zé: Mais uma ceninha boba de traição.
Karen: Eu não estava achando nada boba.
Zé: Eu falei que a gente devia ter encomendado o texto da…
Karen: Não repete isso. Não repete isso, Zé. Tá muito caro encomendar texto. Você ia
pagar com o que? Com seu salário de professor de teatro?
Zé: Ta. Mas o que adianta a gente inventar nossa própria peça se nem o tema a gente sabe qual é.
Karen: Nós somos dois atores inteligentes. Nós temos total capacidade de fazer uma excelente peça sem autor.
Zé: Sobre o quê?
Karen: Já sei (ela atua). É assim você vai me deixar embora sem falar nada?
Zé (percebendo que ela está atuando): Assim é melhor. É necessário.
Karen: Por quê?
Zé: “Por que” de novo?
Karen: Como de novo?
Zé: Toda a cena que a gente faz você tem que perguntar “por que”? Que falta de imaginação!
Karen: Ah não, Zé! Poxa, tava indo tão bem.
Zé: Vamos tentar fugir dessa coisa casal. (atua) Filha, você está chorando?
Karen (percebendo que ele começou uma outra cena): Estou, papai.
Zé: Por quê?
Karen: Viu, viu! Você também falou “por quê”.
Zé (nervoso): O que aconteceu filha?
Karen: Eu acho que vou te deixar, papai.
Zé: Por quê?
Karen: Você é pior do que eu, hein?
Zé (corrigindo) Vai me deixar?
Karen: Vou me casar com o Otávio.
Zé: Por quê?
Karen: Ah, chega. Não dá. Mais um? Não tem outra coisa para falar?
(Silêncio. Os dois estão cansados.)
Zé: E se a gente tentasse falar com…
Karen: Já falei que isso é indiscutível. Poxa, Zé. Você acha que a gente não tem capacidade pra construir um bom diálogo? A gente faz teatro há mais de … sei lá… há muito tempo.
Zé (pegando uma arma de brinquedo): Vire-se ou então eu atiro.
Karen: Que ridículo. Ta querendo fazer quem? Um policial mal dublado de filme americano?
Zé: Assim fica difícil.
Karen: Sabe o que eu acho? Que a gente nunca vai conseguir.
Zé: Por quê?
Karen: Aí.
Zé: O que você quer que eu fale? “Não vamos conseguir? Quem te disse isso?”
Karen: Melhor do que “por quê”.
Zé: Ta. Responde.
Karen: Eu acho que a gente não vai conseguir, Zé. Porque não querem que a gente consiga.
Zé: Não querem? Quem não querem?
Karen: Eles. Os autores.
Zé (rindo): Essa é boa.
Karen: Eu estou falando sério. Imagina se todos os atores resolverem fazer suas próprias peças sem precisar do autores. A gente acabaria com Eles. Eles não iam mais ter trabalho.
Zé: E a gente não ia precisar ficar nas mãos deles.
Karen: Exatamente. Mas pra isso a gente tem que fazer algo realmente bom. Tão bom quanto um autor. O problema é que estamos aqui há horas e até agora de cada dez palavras, sete são “por quê”.
Zé: É. Por…
Karen: Zé!
Zé: E se nós os enganássemos.
Karen: Os autores?
Zé: É. Eles fazem tudo para gente não falar um bom texto para eles poderem trabalhar, certo?
Karen: Certo.
Zé: Então vamos enganá-los.
Karen Como?
Zé: Todo mundo diz que só existe teatro por causa do conflito.
Karen: E daí?
Zé: A gente tira o conflito.
Karen: Não entendo.
Zé: Porque toda peça tem mesmo que haver um conflito?
Karen: Digamos que para ter história?
Zé: E quem disse que dependemos dela para estar no palco?
Karen: E não dependemos?
Zé: Porque a s histórias não podem ser harmoniosas, tudo muito bem, sem conflito?
Karen: Porque seriam sem graça se não tiverem.
Zé: É isso o que Eles dizem.
Karen: Tchecov, por exemplo…
Zé: Tchecov era um autor.
Karen: Zé, eu acho que essa sua teo…
Zé: Vamos eliminar os conflitos da nossa história. Chega de separação, de traição, de cenas com armas, vamos acabar com essa palhaçada. Sempre as mesmas coisas, os mesmos temas. Chega. A gente não precisa Deles, Karen. Você vai ver. Sem conflito, Eles não têm o que fazer.
Karen: Tá bom. Vamos tentar. Sem conflitos. Vamos tentar.
Zé (atuando): Eu te amo.
Karen: Eu também te amo.
Zé: Você quer casar comigo?
Karen Sim.
FIM.
Karen: Zé. Quem escreveu FIM?
Zé: Não sei. Continue a cena.
Karen: Mas a cena acabou, Zé. Escreveram FIM
Zé: Não importa. A gente pode fazer. Vou perguntar de novo. Você quer casar comigo?
Karen: Sim.
FIM.
Karen: Zé. Não tá dando. É melhor eu dizer não.
Zé: Não, Karen. É tudo que os autores querem. A gente não precisa deles.
Karen: Mas eu se eu disser “sim” a cena acaba.
Zé: Não! Não! Impossível. Você quer casar comigo?
Karen: … Sim
FIM.
Zé: Eu vou reformular. Você quer viver comigo pra sempre?
Karen: Sim
FIM.
Zé: Vamos matar todos do congresso?
Karen: …Sim.
FIM.
(A cortina começa a fechar)
Karen: Zé. O pano ta fechando. Zé, cadê você? O pano tá fechando. Viu. Eu disse. Sem conflito não existe somente autor. Sem conflito agente também some. Sem conflitos não há atores!!! Você devia saber. (A cortina está quase toda fechada.) Droga. Eu digo Não! Eu digo Não!
(A cortina fecha. Karen fica gritando “não’ desesperadamente atrás da cortina. Luz da platéia acende)
FIM.
Para sempre
Homem: Você não trem o que temer…
Mulher: Hein?
Homem: Você. Você não tem o que tremer.
Mulher: Eu não tenho que tremer?
Homem: Não foi isso que eu disse.
Mulher: Foi sim.
Homem: Foi?
Mulher: E no início ainda falou “trem.”
Homem: Falei?
Mulher: Falou. “Não trem o que temer.”
Homem: Não! Eu disse “não tem o que temer”.
Mulher: Não disse não.
Homem: É claro que eu disse.
Mulher: Nem da segunda vez.
Homem: Segunda vez?
Mulher: Quando eu perguntei “hein” você respondeu “não tem o que tremer”.
Homem: É a mesma coisa.
Mulher: Temer e tremer?
Homem: É. A mesma coisa.
Mulher: Desde quando?
Homem: Quem teme, treme.
Mulher: Mas nem todo mundo que treme teme. Tem gente que treme de frio.
Homem: E daí?
Mulher: Treme, mas não teme.
Homem: Eu não tô entendendo.
Mulher: VOCÊ, não está entendendo?
Homem: Qual o trema dessa conversa.
Mulher: Não tem.
Homem: Hein?
Mulher: Não tem trema. O trema foi abolido na reforma linguística..
Homem: Você não pronunciou o “u” de linguistica.
Mulher: Justamente. O trema foi abolido.
Homem: Mas não na pronúncia.
Mulher: Eu sou assim. Não gusto de fazer diferença entre linguagem escrita e falada.
Homem: Gusto?
Mulher: Tenho lido uns livros em espanhol.
Homem: Júliaaaaaaa!
Mulher: O quê????
(silêncio)
Homem: Eu só queria dizer que você não precisa se preocupar! Por que é que a gente sempre desvirtua assim as nossa conversas?
Mulher: Por que senão seria chato.
ELE ABRE UM SORRISO. OS DOIS SE OLHAM CÚMPLICES.
Mulher: Sobre o que é que eu não preciso me preocupar mesmo?
FIM
Qual é o tema?
Homem: Quantos anos você tem?
Mulher: 5.8
Homem: Você quer dizer quase 60.
Mulher: Eu disse 58.
Homem: Por que você está mancando?
Mulher: Caí na praia jogando vôlei.
Homem: Vamos para uma festa?
Mulher: O aniversário da minha neta.
Homem: Qual é o tema?
Mulher: Como assim?
Homem: Toda festa de criança tem um tema. Pequena Sereia, Bob Esponja, Meninas Super Poderosas.
Mulher: Você é animador de festa infantil?
Homem: Por que você perguntou isso?
Mulher: Vingança! Você perguntou a minha idade. Você faz muitas perguntas. Homens não costumam fazer perguntas.
Homem: Desculpe. Podemos ir para a sua casa.
Mulher: Não. Eu não tenho mais casa. Perdi no pôquer. Também não tenho neta. Só falei do aniversário para ver a sua reação.
Homem: Tudo bem. Vamos para um hotel.
Mulher: Pode deixar que eu escolho. Eu entendo dessas coisas, bebê.
Homem: Certo. Você é quem manda.
Mulher: Eu mando e pago. Por duzentos reais vai ter que dizer que me ama e me beijar na boca, na boca.
FIM
Edifício 256
Uma conversa íntima.
Carmela – Eu senti um bafo aqui no meu cangote, um calafrio na espinha, um tremelique não sei aonde. O que será?
Genaro – Menopausa.
Fantasmas para quem vê
Um vulto passando no banheiro.
Edna – Levanta a tampa da privada, faz favor.
Fantasmas para quem ouve
Um climão tenso no ar.
Caio Pinto – Ouviram isso?
Pâmela – Eu ouvi.
Rick – Eu ouvi.
Carmela – Eu também. (sussurra) E agora, o que faremos?
Caio Pinto – Alguém tem uma lanterna aí?
Rick – Alguém tem uma cueca aí?
Segunda-feira
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Quarta-feira
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Sábado
Domingo