Tem um monstro debaixo da minha cama!

Uma menina de mais ou menos seis anos…

Maaanhêêêê!!! Tem um monstro debaixo da minha cama!!! (pausa) Dormiu! Maldita hora para a minha mãe dormir! Logo agora! (consulta o relógio na mesinha de cabeceira) São só duas horas da madrugada e ela já estão dormindo. E eu estou sozinha. Sozinha não! Tem um monstro debaixo da minha cama!!! Por quê será que os pais cismam em dormir justamente na pior hora do dia? A noite! Eu não consigo entender por que a minha mãe dorme tão cedo. Ela não faz nada o dia inteiro! Já eu sou muito ocupada. Não tenho tempo pra nada. Fiz um montão de coisas hoje e não estou nem um pouco cansada. Tive um dia terrível! De manhã bem cedo minha mãe me acordou, me deu café da manhã, me vestiu, me levou na natação… Eu já cheguei pronta. De toca, maiô e bóia. Tive que ficar batendo pernas por horas. Depois a minha mãe me trouxe de volta pra casa, me deu banho, me vestiu, penteou o meu cabelo e serviu o almoço… (na verdade eu nem queria almoçar, ela até poderia ter poupado tempo e trabalho) Bom, depois que a minha mãe me obrigou a almoçar, ela me levou de carro até a escola. Quando cheguei na escola a Tia colocou a turma para dormir um pouquinho. Depois a gente brincou, teve o lanche, o recreio… Mais tarde minha mãe me buscou na escola com o carro cheio de compras, me levou na aula de balé e eu tive que ficar dançando durante horas. Depois minha mãe me levou de volta para casa, me deu outro banho, serviu o jantar… (na verdade eu nem queria jantar, ela até poderia ter poupado tempo e trabalho) Bom, minha mãe me obrigou a jantar, corrigiu o meu dever de casa, viu A Pequena Sereia comigo pela centésima oitava vez, contou uma história e me colocou para dormir. Eu fiz tudo isso e não estou nem um pouco cansada. Já a minha mãe não. Tá morta. Eu não consigo entender como é que essa mulher fica tão exausta! E me deixa aqui sozinha com esse monstro! Maaanhêêêê!!! Tem um monstro debaixo da minha cama!!! Que vontade de sair correndo e pular na cama da mamãe e do papai. Ficar ali bem juntinho dos dois, bem apertadinho entre os dois, protegida… Quero ver se você tem coragem de me atacar com os meus pais por perto seu monstro de meia tigela! Mas eu não posso fazer isso. Afinal, eu já sou uma quase pré-adolescente. Faz seis meses que eu parei de fazer xixi na cama! Esse negócio de dormir com os pais é coisa de criancinha. E eu não sou mais criança. Eu sei que monstros não existem. O que eu tenho que fazer é me acalmar e me comportar como uma adulta. Não tem nenhum monstro debaixo da minha cama. É só fruto da minha imaginação. Pronto. Agora eu vou dormir! (pausa) Maaanhêêêê!!! Tem um monstro debaixo da minha cama!!! Ai! Que vergonha! Uma quase pré-adolescente como eu com medo de um monstro! Onde será que os meus pais se meteram? Será que eles saíram? Será que eles esqueceram de mim? Será que eles esqueceram de mim 2 em Nova York? Será que eles deixaram a porta do quarto fechada! De vez em quando isso acontece! Que horror! Eu estou perdida! Maldita hora que eu quis dormir sozinha! É que eu não agüentava mais o chato do meu irmão. Mas pelo menos para isso aquele imprestável servia. Com ele no quarto eu me sentia segura. O chulé daquele moleque é um verdadeiro espanta monstros! Olha aqui seu monstro! Fique o senhor sabendo que eu sou amiga de muita gente famosa que pode acabar com você! Eu conheço o Homem-Aranha, os X-Men, todos os Quatro Fantásticos e as Garotas Super Poderosas! Eles vieram na minha última festa de aniversário! Tu fica esperto se não o bicho vai pegar pra você! É isso aí! Comigo não tem essa não! (pausa) Pensando bem… Nós podemos ser amigos… O que você acha da idéia? Eu posso te levar para passear… Você gosta de algodão doce? Eu também! Eu posso te levar no zoológico… Você não gosta de zoológico? Tem muitas jaulas por lá e eles podem te prender? Entendo. Eu posso te levar no Circo, você gosta? Eu também. Já sei! Eu vou te levar na minha escola! Você vai adorar a Caroline! Ela é minha melhor amiga! Só não sei se ela vai gostar de você… Não! Eu só estava brincando! É claro que ela vai gostar de você! A Carolina é muito legal, sabia? Seu Monstro, qual o seu nome? Edgar? Que nome bonito!

OFF – Que barulho é esse, minha filha? Ainda acordada Caroline!

É que eu estou conversando com um amigo…

OFF – Amigo? Que amigo?

O monstro que vive debaixo da minha cama.

OFF – Vai dormir Caroline! Amanhã você acorda cedo para a aula de piano!

Tá bom mãe! (…) Liga não amigo. A mamãe não tem um pingo de imaginação. Boa noite. O quê? Eu também te amo, Edgar. Até amanhã. E não tenha medo. Eu estou aqui, pertinho de você. Durma com os anjinhos.

A menina adormece.

Das atribulações da vida moderna

Tenho a sensação de que de uns tempos pra cá, o tempo deu para passar mais rápido, sei lá! Já ouvi, inclusive, uma dessas teorias da hora (perdoem-me o trocadilho), que provam por A + B que o tempo, hoje em dia, passa mais rápido que outrora. Não me perguntem se a teoria é confiável que não sou boa entendedora de fórmulas. Mas se me perguntarem pura e simplesmente, posso garantir que meus dias, hoje em dia, não têm mais 24 horas. Se não, como explicar a incapacidade de acomodar todos meus afazeres dentro dos parcos 1440 minutos diários a que temos direito? A prática do dia a dia mostra que os tempos são outros.

Tomemos como exemplo o dia de ontem. Acordei, tomei banho, tomei café, tomei alguns comprimidos, esperei o elevador. Esperei o elevador. Esperei o elevador. Droga! Estava acontecendo alguma coisa. Já eram 8:47h. Devia ter pegado o elevador às 8:30h. 10° andar, 9°, 8°! Chegou! Chegou! Graças a Deus! 4º andar, 3º, 2º, 1º, Play, Térreo! Amém. Corri até a garagem desembestada. Peguei o carro, peguei trânsito, peguei engarrafamento. Fiquei engarrafada um tempão. Olhei pro relógio. 10hs! Como assim? E o trânsito não andava, não andava. Li o jornal, fiz abdominal, fiz sobrancelha, fiz as unhas. Fiz figa para o trânsito andar. Nada. Continuava parada dentro do carro. Peguei o celular. Liguei pra vizinha, tia, irmão, marquei dentista, marquei eletricista, liguei para cancelar o plano de TV com 320 canais, esperei, esperei, esperei. Ouvi musiquinha, falei com atendente, falei com gerente, xinguei a mãe, quando estava prestes a ser atendida , finalmente, cheguei no trabalho a tempo de sair para almoçar.

Pensei que ia relaxar um pouco na hora do almoço porque, enfim, depois de vários dias de intensa negociação, consegui marcar de almoçar com uma das minhas melhores amigas, pra gente botar o papo em dia. Chegamos afobadas. As duas. Ela com o celular no ouvido. Dois beijinhos. Sentamos. Perguntei como iam as crianças.

- Ótimas. Ela perguntou do Pedro.

- Quando a gente se encontra, ele me parece bem. Respondi.

- Ainda estão casados? Claro, só não nos encontramos muito. Sabe como é. Apê grande. Horários diferentes…

- Ah, entendo. De repente ela perguntou e ela mesma respondeu em seguida.

- Que horas são? Já? Nossa, como o almoço passou rápido!

- Passou, Dani? A comida nem chegou, a gente nem comeu…

- Desculpa, amiga! Não posso mais esperar. Tenho que estar em Copacabana… Aliás, já deveria estar em Copacabana. Estou atrasadíssima! Tenho que correr se não…

E já não escutei mais o que a Dani falava quando ela se levantou, me jogou dois beijinhos econômicos do outro lado da mesa e sumiu atendendo a outra chamada do celular, que tocava pela terceira vez, durante o nosso não-almoço de 15 minutos. Só soube notícias dela quando recebi o seguinte e-mail: Adorei te ver! Vamos marcar mais vezes! Bjs! Não tenho certeza, mas acho que ela se referia ao nosso não-almoço.

Pra variar saí do restaurante atrasada. Restaurante cheio, sabe como é. A conta demorou a chegar. Saí esbaforida para voltar ao trabalho. Decidi ir andando, que eu não ia ficar presa no trânsito de novo. Ah, não! Andando é eufemismo, corri uma prova de 800 metros com muitas barreiras, onde o percurso da prova consistia em ir do local do restaurante até o escritório.  Tentei me desviar de todas as barreiras e obstáculos que me impediam de baixar o recorde de tempo que eu levo para fazer tal percurso, como por exemplo: os distribuidores de panfletos nas ruas. O fato de eu ter que diminuir a velocidade dos passos e fazer o simples gesto de esticar a mão para pegar um panfletinho me toma um tempo incrível. No dia de ontem a oferta de panfletos era variada. A cada cinco passadas, uma panfletada: “Dinheiro na hora a peso de ouro”, “promoção de unha francesinha a R$15,00”, “recarga de cartuchos usados”, o clássico dos clássicos: “trago a pessoa amada em 7 dias”, entre muitos outros. Para adiantar o serviço fiquei com a mão esticada, na posição estratégica, pegando sem questionar tudo o que me foi oferecido. Mas, depois de um tempo, já que atravesso três quadras – fui atacada por dolorosas câimbras. Não sei como ainda não inventaram uma mão mecânica, ou um gancho, tipo capitão gancho mesmo, em que os distribuidores de papéis espetariam seus panfletos sem que tivéssemos que parar para atendê-los. Muito mais prático e… rápido!

Estava a apenas uma quadra do trabalho, satisfeita por estar atrasada apenas 20 minutos, quando o acaso me pegou distraída. Parei na esquina, esperando o sinal abrir para atravessar a rua, quando percebi, que ao meu lado, um sujeito segurando um mapa, com cara de “Esqueceram de mim 2” +  “O Turista acidental”, me olhava. Coloquei os óculos escuros e virei para o lado oposto. Não! Tudo menos dar informação! Dar informação toma o maior tempo. Se for em outra língua então, nem se fala… Demora demais! Cheguei a ficar com taquicardia só de imaginar o relógio passando. Tic tac tic tac…

- Por favor, a senhora sabe onde é a Rua Pires de Albuquerque? Fingi que não era comigo. Ele insistiu.

– Por favor, Rua Pires de Albuquerque?

O “por favor”, confesso, me quebrou, tenho o coração mole.

- O senhor quer chegar na rua Pires de Albuquerque?  O senhor conhece a Rua Aurora?

- Não.

Não? Definitivamente o caso ia demorar. Respirei novamente.

- Então faz o seguinte: pega a primeira esquerda. Depois a segunda direita, passa o primeiro sinal. O senhor é de São Paulo? É, é semáforo, sim. (falar semáforo gasta um tempão) Passa o primeiro semáforo, passa o segundo semáforo, quando passar o terceiro semáforo o senhor vai dar numa praça. Eu não, o senhor! O senhor vai dar numa praça, aí o senhor contorna a praça, vai ver uma banca de jornal. Chegou na banca de jornal o senhor pega uma reta de uns 100 metros, aí sobe uma ladeira. Descendo a ladeira, à direita, tem a Rua Aurora. A Pires de Albuquerque é uma travessa à esquerda da rua Aurora. Entendeu?

Que pergunta idiota. É claro que ele não entendeu! É claro que tive que repetir toda a explicação novamente. Uma espécie de tira teima, com os melhores momentos. Lá se foi quase meia hora, ladeira abaixo.

Não sei por que, mas tenho a impressão que aquela teoria do tempo está certa. Como está certa também aquela outra…  Aquela que não é teoria! É lei. Qual é mesmo o nome? A lei de Murphy! Pode apostar: Se o dia está ruim, ainda pode piorar. Não deu outra. Depois de finalmente despachar o turista acidental, eis que ouço alguém berrando o meu nome:

- Bebel! Isabel! Maria Isabel! (detesto que me chamem de Maria Isabel).

Era Elisa Coimbra das Neves. Colega da época de colégio. Elisinha, a fofoqueira, como era conhecida. Elisinha veio furiosamente em minha direção, com uma disposição de atleta, para bater um longo papo, com muitas novidades, e claro, várias fofocas. Começou sem introdução e sem cerimônia a emendar um assunto no outro. Eu juro que tentei me livrar várias vezes de Elisinha, sem sucesso. Cada vez que eu insinuava que tinha que voltar para o trabalho e estava atrasada, ela renovava o fôlego e retomava de forma obsessiva sua narrativa abundante em detalhes, adjetivos e dramaticidade, uma overdose verborrágica. Depois de um tempo só conseguia ver na minha frente a imensa boca de Elisinha articulando e cuspindo mil e uma palavras.  Sem conseguir me livrar de Elisinha da forma tradicional, simplesmente virei para o lado e saí correndo, como uma maluca,  com a Lei de Murphy e a Teoria do tempo atrás de mim, dando gargalhadas às minhas custas. Acho que a Teoria do caos também estava junta, pelo menos tive a impressão. Conclusão: Cheguei no escritório já no fim do expediente. 

E assim são os meus dias.  Uma corrida contra o tempo na qual sou sempre vencida. Hoje, por exemplo, por causa dos atrasos de ontem, já sei de antemão que estarei atrasada o próximo mês inteiro. Quiçá o próximo verão. Parece, de fato, que o dia encolheu. Estamos vivendo sob a égide dos dias anãos, das horas nanicas, dos segundos pigmeus… De quem é mesmo a teoria do tempo que passa mais rápido? A propósito, se tudo der certo, e eu colocar meus compromissos em dia, acho que de acordo com os atrasos acumulados – chegarei em ponto no trabalho, daqui a dois meses novamente.

Fervo infindo

aperte play aqui antes de ler…

voltou?

que fervo!

me beija!

espera!

que foi!

perdi!

mas onde?

repete.

voltou?

me beija!

espera!

que foi!

perdi!

mas onde?

já volto.

repete.

voltou?

que fervo!

me beija!

espera!

perdi!

mas onde?

já volto.

repete.

voltou?

que fervo!

me beija!

me beija!

me beija!

perdi!

mas onde?

repete.

voltou?

que fervo!

voltou!

espera!

que foi!

voltou!

já volto.

repete.

voltou?

que fervo!

repete!

me beija!

repete!

perdi!

repete!

repete.

voltou?

que fervo!

me beija!

espera!

que foi!

já volto.

mas onde?

repete.

voltou?

que fervo!

me beija!

que foi!

perdi!

mas onde?

já volto.

repete.

voltou?

voltei!

me beija!

já volto!

que foi!

me beija!

mas onde?

repete.

voltou?

que fervo!

me beija!

que fervo!

perdi!

mas onde?

já volto.

repete.

voltou?

me beija!

que fervo!

espera!

perdi!

mas onde?

já volto.

repete.

voltou?

que fervo!

me beija!

espera!

que foi!

perdi!

mas onde?

repete.

voltou?

me beija!

que fervo!

me beija!

espera!

me beija!

que foi!

me beija!

mas onde?

me beija.

repete.repete.repete.repete.repete.repete.
repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.
repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.
repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.
repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.
repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.repete.

……………………

Se bem que…

Mulher: “Que dia lindo! Céu azul, passarinhos. O mar deve estar incrível. Acho que vou dar um mergulhinho, aproveitar, ah… Se bem que se eu fizer isso não vai dar tempo de fazer mercado. Eu me prometi que ia fazer mercado hoje de manhã, senão, não almoço… Se bem que se eu cozinhar, não vai dar tempo de ir na academia, eu tenho hora contada lá, antes do trabalho… bom, o jeito é comer naquele restaurante a peso perto da minha casa, isso, assim eu ganho tempo. Sendo assim até dá para dar um mergulhinho. Se bem que eu posso aproveitar essa hora e adiantar um trabalho que eu tenho aqui. Se bem que eu podia aproveitar e arrumar minha casa, que, aliás, que bagunça! Ainda bem que eu não tenho tempo de levar ninguém pra cá. Se bem que… ainda bem? Se bem que esse trabalho pendente vai me ocupar muito mais tempo, de repente é melhor eu não malhar hoje e trabalhar mais. Se bem que se eu trabalhar mais não vai dar tempo de pagar as contas. Puxa, deixei atrasar de novo. Espero que o banco não esteja cheio, se não vai dar tempo. Pior que hoje é dia 5, com certeza o banco vai estar cheio. Bom, mais um diazinho não tem problema. Pago amanhã antes de ir para academia, amanhã eu não falto a academia!

Mas o dia tá tão lindo. Acho que vou voltar pra casa a pé. Se bem que não daria tempo de fazer a unha. Da unha eu não abro mão, melhor voltar de metrô, é mais rápido, talvez eu consiga até pegar um filmezinho na locadora, um bem mamão com açúcar. Se bem que se eu pegar um filmezinho, não vai dar tempo de terminar o livro pro seminário, melhor não arriscar. Se bem que se eu ler esse livro hoje, não vai dar tempo de ligar para a Flávia, eu tinha prometido a ela, a coitada acabou de terminar uma relação. Se bem que se eu ligar pra Flávia, não vai dar tempo de eu ligar para o Pedro. Eu não posso deixar de falar com ele, tá pintando o maior clima, talvez a gente até namore. Se bem que não dá para namorar nesse momento, não tenho tempo para me ocupar com essas coisas, não, é melhor não ligar para o Pedro, melhor hoje é dormir cedo. Se bem que, se eu dormir cedo, não vai tempo de pensar tanta coisa que eu tenho para resolver. Melhor não dormir. Se bem que…”