Escombros
Quando nasceu, a bela menina provocou um piscar de luzes na maternidade. O fato, aparentemente corriqueiro, passou despercebido por médicos e familiares. Afinal, picos de luz e ‘apagões’ são comuns na cidade do Rio de Janeiro. Sempre foi linda. A mais linda. Como bebê, como criança… Por onde passava provocava pequenos fenômenos naturais. Ventanias, ressacas, chuvas de granizo… Todos ignorados por seus pais e demais habitantes da cidade. Afinal, a menina chamava toda a atenção para si e os maus humores da natureza são cada vez mais comuns no planeta Terra. Aos doze anos, quando passeava de bicicleta ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas, uma forte, repentina e inexplicável tempestade provocou o naufrágio de três ‘pedalinhos’. Ninguém notou que a tempestade dispersara subitamente no exato momento que a menina voltava para casa.
A beleza é incontestável. Caráter, honestidade e inteligência têm que ser comprovados todos os dias. Ser inteligente, por exemplo, requer muito sacrifício, uma labuta diária. Mas a beleza se impõe naturalmente. A beleza abre todas as portas. Exerce tamanho fascínio que pode ser considerada uma benção divina. Ou maldição. A beleza também provoca grandes tragédias.
Foi criada com muito zelo. Numa redoma de vidro. Seu pai, não por ciúmes, mas talvez por instinto ou premunição, sempre a guardou como uma pedra preciosa. Sua casa de muros altos e jardins bem cuidados era o seu país. Poucas vezes a menina punha os pés para fora de seu reino. Foi educada por professores particulares vindos da Inglaterra e Suíça. Foi talhada para ser uma rainha, uma primeira dama.
Aos 16 anos, seu corpo já ostentava formas de mulher. E que mulher… Um monumento. Dentes, nariz, cabelos, bunda, pernas, seios… Tudo nela era perfeito. Aquela beleza doce e meiga da infância, se tornava agressiva, obscena. Causava rubor na família e nos empregados. Prevendo o pior, sua mãe vislumbrou a possibilidade de entregá-la nas mãos das Freiras Carmelitas para seguir uma vida de clausura e orações. Mas a menina tinha outras ambições. Sabia que era linda. Linda de morrer. Passava horas se olhando no espelho. Admirava sua pele macia. Seus lábios carnudos. Olhos amendoados… Orgulhosa, Maria Luisa queria exibir para o mundo a sua exuberância, o seu corpo, o seu frescor. Seus pais já não tinham mais autoridade para impedi-la. Nada mais podiam fazer para evitar o desastre que se anunciava.
Foi assim que a jovem Maria Luisa ao sair de casa sem maquiagem, de cabelos molhados, usando mini saia e chinelas Havaianas, provocou um terremoto de magnitude 9,5 graus na Escala Richter que destruiu a cidade do Rio de Janeiro causando a morte de milhões de pessoas. O Exército, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros tentam desesperadamente encontrar sobreviventes debaixo dos escombros.
Cristal
Cena 1: Noite. Restaurante de luxo. Clima romântico.
Silvia: Eu estou contando os dias, meu amor…
Eduardo: Você é tudo o que eu sempre quis.
Silvia: Às vezes eu acho que estou vivendo um sonho, Eduardo.
Eduardo: Não, não é sonho. Daqui a uma semana estaremos casados…
Silvia: Daqui a uma semana estaremos em Paris, onde tudo começou.
Eduardo: Em lua de mel…
Silvia: Nossa lua de mel vai durar para sempre. Eu vou te fazer muito feliz. Eu prometo.
Eduardo: Eu já sou feliz, Silvia. Você me faz o homem mais feliz do mundo.
(Beijam-se apaixonadamente)
Cena 2 – Escritório
Homem: Tem certeza de que é isso que você quer?
Mulher: Absoluta.
Homem: Não quer pensar mais um pouco?
Mulher: Já tomei minha decisão.
Homem: Você não acha que esta sendo muito dura?
Mulher: Vai amolecer agora?
Homem: A última cena dela…
Mulher: Ela vai ter o que merece.
Homem: Podia ter um derrame cerebral, sofrer um acidente, ficar numa cadeira de rodas, sei lá, ficar pobre…
Mulher: Eu quero que ela morra!
Homem: Só ela? Ninguém mais vai morrer no terremoto?
Mulher: O maitre do restaurante.
Homem: Você é que manda.
Mulher: Eu quero me livrar o quanto antes dessa infeliz. Não agüento mais os ataques de estrelismo dela. Quem ela pensa que é?
Homem: Eu fico triste porque a personagem não precisava pagar o pato… Eu gosto da Silvia. O Eduardo é apaixonado pela Silvia. Tá na sinopse.
Mulher: Caguei pra sinopse. O Eduardo vai sofrer um pouco, mas eu arranjo uma gostosa, com poucas falas, pra consolar ele. Não dou 03 capítulos pra ele se apaixonar novamente.
Homem: Ela vai subir nas tamancas quando ler. Não quero nem ver…
Mulher: Ela deveria ter pensado antes de se meter comigo.
Homem: Vai ser uma morte horrorosa…
Mulher: Vai ser impactante.
Cena 3 – Cont. da cena 1 / Restaurante. Clima romântico
(Eduardo e Silvia beijam-se apaixonadamente)
Eduardo: Eu te amo.
Silvia: Você é tudo pra mim.
Eduardo: Vamos fazer um brinde.
Silvia: Falta pouco, meu amor. Uma semana.
Eduardo: Uma eternidade. (Eduardo chama o maitre) Por favor…
Maitre: Pois, não.
Eduardo: Mais uma garrafa de champanhe, Durval.
Maitre: Perfeitamente, Sr Eduardo. Querem fazer o pedido agora?
Eduardo: Depois, Durval, depois.
Maitre: Perfeitamente, Sr Eduardo. (Durval, o maitre, sai)
Silvia: Querido, se não se importa, vou ao toillet retocar a maquiagem…
Eduardo: Claro, meu amor. Claro.
(Eduardo observa Silvia que se dirige ao toillet. De repente, um barulho. Mesas começam a tremer. Pratos, copos e talheres vão ao chão. Gritos de pavor são ouvidos. Correria. Há um clima de pânico no restaurante. Tudo é muito rápido. Eduardo só tem tempo de chamar por Silvia).
Eduardo: Silvia! Silvia!
(Silvia vira-se e estende os braços na direção de Eduardo. É, justamente, nessa hora que o lustre principal do restaurante mais chic da cidade despenca e cai bem em cima dela. Durval, o maitre, esta ao lado de Silvia e também é atingido).
Cena 4 – Escritório.
Homem: Morte horrorosa…
Mulher: Vai dar ibope. Aposto que nunca houve uma cena como essa.
Homem: Nunca. Morrer com um lustre na cabeça…
Mulher: De cristal. Lustre de cristal. Coisa fina…
Homem: Não queria que a historia dos dois terminasse assim.
Mulher: Foi uma fatalidade.
Homem: Você é muito má… (eles riem)
Mulher: Só lamento uma coisa.
Homem: O que?
Mulher: Durval, o maitre, ele não merecia uma morte dessas.
Homem: É verdade. O ator é gente boa e estava tão feliz com o personagem.
Mulher: A vida é injusta mesmo. Fazer o quê?
Homem: (rindo) Terremoto? No Rio de janeiro? Que cara de pau!
Mulher: Foi uma fatalidade. Pra tudo há uma primeira vez… Terremotos acontecem.
Fim.
Saqueadoras
VERMELHA
canagem.
Clube dos otimistas
Um homem com cara de arrasado, entra em uma sala com algumas pessoas sorridentes e parecendo felizes. Ele se sente pouco a vontade naquele ambiente e levanta para ir embora. Antes de sair aparece uma mulher bonita e bem arrumada. Ela também está sempre sorrindo.
Mulher: Boa noite. Bem vindo ao Clube dos Otimistas. Sente-se.
O Homem, sem graça, acaba sentando. As pessoas em volta estão sempre sorrindo para ele.
Mulher: Obrigada por ter nos procurado. Sócios, digam olá para o Marcelo.
Pessoas: Olá Marcelo.
Mulher: Esses serão seus novos amigos a partir de agora. Quando eles chegara aqui, eles eram iguais a você. Como vocês eram, sócios.
Pessoas: Looser malditos, perdidos na vida.
Mulher : Como você. Mas agora o que vocês são?
Pessoas: Somos felizes e cheios de esperança.
Uma senhora se empolga, levanta e abraça o homem.
Mulher: Aqui você pode, você consegue, você realiza. Aqui nada é impossível, nada é difícil, tudo se resolve. Aqui é o lugar ideal para ser você mesmo. Está cansado de viver coisas ruins?
A partir de agora o homem concorda com tudo o que a Mulher lhe pergunta.
Mulher: Sua vida estagnou? Você é daqueles que tem dinheiro mas nem isso basta para entender o por que está vivo? Você é daqueles que se sensibiliza com as pessoas mortas de fome na vida e não consegue comer direito em casa? Sua mulher está uma doença terminal e os médicos disseram que não há o que fazer a não ser esperar? Seus filhos te infernizam para comprar aparelhos eletrônicos e barulhentos que acabam com sua paz? A guerra religiosa te preocupa? E a guerra do petróleo te preocupa? Você jamais pisaria no Afeganistão? Tem medo de andar na rua depois as nove da noite? Tem medo de perder o emprego? Tem medo da instabilidade financeira? Acha que não é ninguém especial mundo? Não agüenta mais ouvir aqueles velhos e depressivos ditados: “Tudo está perdido”, “ O mundo não tem mais jeito”? Então você está no lugar certo. Aqui, no Clube dos Otimistas, sua vida var dar um salto de fé.
O Homem fica assustado e se levanta para ir embora.
Mulher (impedindo a passagem): Não! Não se retire.
Ele volta
Mulher: Calma, relaxa.
Uma outra mulher que está sentada ao seu lado levanta e lhe faz massagem nas costas. Ele começa a relaxar e a gostar.
Mulher: Isso, relaxa. Fique calmo. Não pense. Isso. Tente não pensar em nada. Apenas fique calmo. Isso. Assim. Assim. Melhor. Muito melhor.
A mulher senta e ele fica constrangido
Mulher: Agora sorria.
Ele não consegue sorrir
Mulher: Não tenha medo. Você consegue.
Pessoas: Não tenha medo, você consegue.
Ele tenta.
Mulher: Isso. Devagar. Bem devagar. Músculo por músculo. Muito bem. Agora mostre os dentes. Calma, não desista. Respira. Isso. Muito bem. Dente por dente. Isso. Muito bem. Você está muito, muito melhor agora. Se a vida te dá uma porrada sorria pra ela. Por favor repita isso comigo. Não tenha medo. Sócios, ajudem-no.
As pessoas que estão em volta do homem falam ao mesmo tempo. Ele olha meio assustado.
Pessoa (muito empolgadas) : Se a vida te dá uma porrada sorria pra ela.
Mulher: Agora você, só você.
Ele sente vergonha
Mulher: Vamos, você pode. Você realmente pode.
Homem (bem baixo): Se a vida te dá uma porrada sorria pra ela.
Mulher: Mais alto.
Homem (mais alto): Se a vida te dá uma porrada sorria pra ela.
Mulher: Isso, mais alto. Mas alto!
Homem (mais alto): Se a vida te dá uma porrada sorria pra ela.
As pessoas o aplaudem
Mulher: Grite. Grite. Não tenha medo. Grite.
Homem (gritando): Se a vida te dá uma porrada sorria pra ela.
Um outro homem se levanta e dá um soco na cara dele. Ele fica irritado e tenta revidar.
Mulher: Não revide. Sorria. Não deixe isso te abalar. Você é melhor que isso. Se a vida te dá uma porrada sorria para ela.
Ele desiste de revidar e esboça um sorriso.
Mulher: Muito bem! Mito. Bem. Agora diga o que está sentindo.
Homem: Eu… Eu acho que eu quero ir embora.
Mulher: Você não quer ir embora.
Todas as pessoas: Você não quer ir embora.
Mulher:Tudo dará certo.
Pessoas:Tudo dará certo.
Mulher: Se você até a gente é porque também acredita na vida.
Pessoas: você também acredita.
Mulher: Você acredita?
Ele faz um “sim” com a cabeça.
Mulher: Isso. Isso mesmo. Acredite.
Mulher: Agora repita comigo: Eu não quero ir embota.
Homem repete: Eu não quero ir embora
Mulher: Estou apenas passando por uma fase difícil.
Homem: É apenas uma fase difícil.
Mulher: Mais forte, mais alto, mais presente, mais digno. Repita
Homem (mais forte): É apenas uma fase difícil.
Agora repita: Eu posso der feliz.
Ele não consegue.
Mulher: Diga, não tenha medo. Eu posso ser feliz.
Ele tenta mas não consegue.
Homem: Desculpe, eu não consigo.
Pessoas (todas juntas) Você consegue, você consegue!
Mulher: Vamos, tente novamente.
Pessoas (todas juntas) Você consegue, você consegue!
Homem (tentando): Eu posso… (desiste)
Mulher: Vamos, continue
Pessoas (todas juntas) Você consegue, você consegue!
Homem: Eu posso…
Mulher: Isso, coragem
Pessoas (todas juntas): Você consegue, você consegue!
Homem: Eu posso…
Mulher: Não esqueça, você não está sozinho, olhe à sua volta.
Ele olha em volta e vê todas as pessoas sorrindo para ele, e falando “você consegue”.
Homem: Eu posso…
Mulher: Não desista, você está aqui para vencer!
Homem:Eu posso… Eu posso… Eu posso… Eu posso ser feliz. Eu posso ser feliz.
Mulher: Isso! Muito bem!
Homem: Eu posso ser feliz! Eu posso ser feliz!
Mulher:Isso, você pode.
Pessoas: Isso, você pode!
Homem: Eu posso ser feliz.
Mulher: Muito bem.
O Homem começa a ficar empolgado e começa a dançar
Mulher: Isso. Dance.
Homem: Eu posso ser feliz.
Empolgado, ele começa atirar a roupa
Homem (dançando pelado): Eu posso ser feliz! Eu posso ser feliz!
As pessoas em volta estão rindo e o aplaudem. Alguns até dançam também.
Homem: Eu posso ser feliz.
Nesse momento chão começa a tremer. Eles sentem um tremor. O homem não para de falar “eu posso ser feliz” o tremor aumenta. As pessoas levantam assustadas.
Mulher (sempre sorrindo e calma0: Não esta acontecendo nada. Continuem sentados. É apenas uma fase difícil. Tudo vai dar certo!
Pessoas (sentando): Tudo vai dar certo!
O tremor aumenta e fica realmente forte, as pessoas caem de uma lado para o outro.
Mulher: Isso vai passar. Vamos todos vencer. Todos juntos: Eu posso ser feliz
Todos caindo de um lado para o outro. O teto cai, o chão se abre, as pessoas começam a se machucar.
Mulher: Não parem de sorrir. Isso é apenas uma fase.
Uma parte do teto cai em cima da mulher. O terremoto destrói tudo. Vemos o homem, o único sobrevivente olhando em volta todo o desastre. Ele está ferido. Diz a sua ultima fala.
Homem: Eu posso ser feliz.
Mulher (debaixo dos escombros): Muito bem.
>
O Homem sucumbe. Sorrindo.
FIM
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo