Trágico destino de Thalita (trecho de “Brecht Morreu”)

Thalita, a filha do meio, no psicanalista. 

Psicanalista (paternal.)- Então você levou uma livrada na cara, foi isso?

Thalita- É… foi. Eu estava saindo da universidade e de repente ouvi um grito tipo: “cuidado aí em baixo!” Olhei pra cima e o livro caiu na minha cara, dizem que foi do décimo andar. Só acordei no dia seguinte e a primeira coisa que me veio na cabeça foi o rosto desse homem. Só pensava nesse homem. Imediatamente comecei a querer ler o livro que me atingiu, ler a obra desse homem!

P (Lendo uma anotação.)- Do tal do Bertold Brecht. Brecht é com “X”?

T- Por favor, não vamos mais falar o nome! Porque quando eu ouço ele fica ecoando na minha cabeça como um sino enorme.

 P- Pode deixar. Não falo mais. Me desculpe, Thalita.

 T- (Sinistra.) Um sino do tamanho de um homem.

 P- (Sabido.) Um sino é um sino, um homem é um homem.

 T- Então comprei tudo que achava dele por aí, as obras completas, poesias, as biografias todas. Li tudo que tinha a meu alcance em pouco mais de um mês. Não pensava em mais nada.

 P- Que coisa… Sabia que eu sou seu fã?

 F- Oi???

 P- Adorei você naquela novela, acho que era das sete, qual era mesmo o nome?

 T- Era das seis.

 P- Você era pequena ainda, mas já era um sucesso.

 T- Comecei cedo. Podemos voltar ao livro?

 P- O livro? Ah! Aquele.

 T- Doutor, eu preciso da sua… eu vim aqui porque preciso de ajuda.

 P- Me desculpe, é que eu realmente admiro o seu talento. Você nasceu para a tevê.

 T- Pois então, o livro…

 P (Sempre anotando num caderninho.)- Um livro aparece do nada, quase uma bala perdida.

 T- E me acertou em cheio.

 P- Pesado?

 T- Perdão?

 P- O livro era pesado?

 T- Um pouco, caiu de muito alto.

 P- E ficou marca?

 T- No dia seguinte fiquei com um galo na testa.

 P- Há três meses atrás.

 T- Era o teatro completo, volume número 3, 2.ª edição, da editora PAZ E TERRA

 P- Que intrigante! E era em português?

 T- Sim. Ele está aqui comigo. Eu trouxe para o senhor dar uma olhada.

 P- Mas o rosto dos tradutores das peças não surgiu na sua cabeça?

 T- Não. Só o dele. A maldição do rosto dele me obrigando a ler coisas que eu não queria.

 P- Que estranho!

 T- Pois é…

 Pausa

 P (Sorrindo encantado.)- Minha nossa!

 T- O quê?

 P- Você aqui assim no meu consultório… Depois você dá um autógrafo pra minha filha?

 T- Doutor, por favor!

 P- Eu nunca tinha consultado uma atriz antes, quer dizer, não uma de verdade, só aquelas de animação de festa. Sabe essas que se vestem de cachorrinho, borboleta…

 T (Impaciente.)- Me disseram que o senhor era ótimo.

 P- Mas quando é que você vai fazer novela de novo?

 T- Eu não consigo decorar as falas, tá me entendendo? Fui fazer um teste pro papel da minha vida e que vergonha imensa, meu Deus! Na frente de todos, do diretor, da equipe, das minhas concorrentes. Quando abri a boca só saiam as palavras escritas do outro.

 P- Do outro?

 T (Alterada.)- De Brecht!!! Da minha boca saiam as palavras de Brecht!!! Eu odeio teatro político, tá me ouvindo? Eu odeio teatro! Eu quero que os teatros se explodam! Eu quero que Brecht morra!!!

 P (Chocado.)- Não fala assim, coitado!

 T- Não adianta. Eu posso falar o quanto eu quiser. Ele já está morto. (Soturna.) Brecht morreu.

 P- Puxa… que pena.

 T- Aquele era o papel da minha vida. Todos me olharam assustados como se eu fizesse de propósito! Como se eu fosse uma… sei lá… uma comunista!

="MsoNormal" style="text-align:justify;"> P- Isso não pode ficar assim! Como é que vão ficar seus fãs?

 T- E eu, doutor? E eu?

 P- Eu vou te ajudar, minha filha, eu vou curar você!

 T- Só posso estar ficando louca. As vezes parece tudo tão quieto, os sons vão todos sumindo… como se tudo ficasse muito lento… o tempo vai se esticando e do fundo da minha cabeça vem uma música numa língua estranha… e de repente…

 A luz muda drasticamente, Thalita está tendo uma alucinação. O Psicanalista começa a cantar em alemão a Moritat de Mac Navalha. Num canto se vê a silhueta do Faxineira como um mau agouro.

 T- (Muito calma.) Será que eu sou louca?

Ensaio para uma pequena tragédia

Tem dias que eu acordo e sei que vou sofrer uma pequena tragédia. Acho que vou cair num bueiro, tropeçar no meio-fio ou escorregar na frente de alguém conhecido. Nesses dias eu caminho com os pés juntinhos e com os olhos atentos. Mas sei que a pequena tragédia chega no descuido dos ouvidos, quando esses ouvem os rastros de um pensamento. Quando chega o dia da pequena tragédia – esse dia acontece uma vez por mês – eu tento esconder meu medo de encontrar um fio de cabelo branco, uma ruga no meio da testa, uma veia saltada mais que a conta. Fico me escondendo de mim, achando que poderia realmente me esquivar dessa pequena que me aguarda na madrugada, ou no calor do meio-dia. No dia eleito para a pequena tragédia, não vou ao cartório, não pego o ônibus cheio, não corro na Lagoa, não uso meia-calça… mas meia-calça eu nunca uso mesmo, pois essa poderia causar uma pequena ou grande tragédia. Se calça, seja inteira.

… não adianta. A pequena tragédia chega, no instante em que você se esqueceu de tudo e está tomando sorvete de milho verde na esquina de casa… ela chega como soluço de domingo e fica, acelerando o coração. Depois sai e você esquece tudo. Até por que, se a gente lembrasse que se pode ter soluço a qualquer momento, seria mais triste a vida.

Mas não desanimo… eu quero é ser feliz, apesar das pequenas tragédias.

Tragédia ensaiada

Numa sala de um apartamento, eles estão ensaiando uma cena pra um teste. Eles fazem a cena com muita verdade, ao ponto de confundirem com a realidade.

Ela: Tá na hora?
Ele: Acho que sim
Ela: Já? Assim?
Ele: Não é melhor que seja assim, de repente?
Ela: É, pode ser…
Ele: Você quer ir primeiro?
Ela: Não, prefiro que você vá e depois eu vou, pode ser?
Ele: E se formos juntos?
Ela: Como?
Ele: Ao mesmo. Ao mesmo tempo!
Ela: E se não der certo?
Ele: Vai dar certo, confia em mim.
Ela: Mas… assim… assim pode doer muito, não acha?
Ele: É, pode doer. (pausa) Então eu vou primeiro.
Ela: Espera! Vamos ouvir aquela música antes.
Ele: Aquela música?
Ela: É, aquela música que deixa a gente mais calmo.
Ele: Eu não pareço calmo?
Ela: Não. Não é isso… é que… assim … É que eu quero … Eu não sei se a gente deve mesmo fazer isso. É isso o que eu quero dizer.
Ele: Mas a gente conversou tanto sobre isso. Tava tudo resolvido.
Ela: É, mas não é tão fácil.
Ele: A gente combinou.
Silêncio- ele a abraça
Ela: Quando foi que a gente deixou isso acontecer?
Ele: Não foi em momento algum, meu amor. Acho que desde de sempre.
Ela: Sempre? Não, no início não era assim, não podia ser.
Ele: Era. A gente que não via
Ela: Eu não sabia que eu queria, porque eu não queria que isso acontecesse.
Ele: Você consegue ver outra alternativa, agora?
Silencio
Ele: Vamos dançar?
Ele: Dançar?
Ela: A nossa dança.
Ela coloca uma música -eles dançam
Ela: Eu gosto do seu cheiro.
Ele: Você sempre falou do meu cheiro.
Ela: Eu só queria saber aonde a gente perdeu a medida?
Ele: O que isso importa agora?
Ela: Importa muito.
Ele: O que importa é que está tudo insuportável. Eu não me vejo livre, você também. Não consigo mais nada sem você e você também. Isto está insuportável.
Ela. Porque simplesmente a gente não consegue ser mais leve? Apenas mais leve?
Ele: Nós já tentamos e só nos enganamos. Não existe leveza na gente. Não existe leveza…
(ela se fasta)
Ela- cortando completamente clima
Ela- Ta redundante isso.
Ele (também cortando)- Como redundante?
Ela- Esse texto, poxa. Eles ficam toda hora falando: “Nós já tentamos, não adianta, mais.”
Ele- Mas é isso mesmo, Re. É pra ser assim, é uma tragédia. Um tragédia de amor. Eu gosto.
Ela- Só que poderia ser mais bem escrita.
Ele- E você não sabe que texto de teste é assim mesmo?
Ela- E é agente que se ferra.
Ele- Eu acho esse texto maravilhoso, um diálogo inteligente e super visceral.
Ela- Eu acho difícil.
Ele- Então, vai desistir?
Ela- Claro que não. Olha só o que eu comprei.
Ela pega um pote escrito veneno de rato.
Ele- O que é isso?
Ela- É pra dar mais verdade pra cena.
Ele- Verdade pra cena? Por acaso isso é de verdade, Regina?
Ela- É só pra ficar mais intenso, entende?
Ele- Mais intenso? Tá maluca? A gente ta fazendo ceninha, entendeu? Ceninha.
Ela- Hmmm. Olha quem tá falando! Quem é que pegou a arma do pai pra ajudar na cena, hein?
Ele- Eu peguei sim, mas não tem bala, é como se fosse de brinquedo.
Ela- Sei…Olha que eu vou ter que atirar,hein?!
Ele- Ããã, eu conferi antes. E não é a mesma coisa que comprar veneno de rato no mercado. Isso deve ser caro pra caramba!
Ela- Eu não comprei no mercado. Comprei na Pet shop.
Ele- Ta chega, chega. A gente não vai tomar esse negócio mesmo!
Ela- Não? Por quê? (pausa) Brincadeirinha.
Ele- Olha, vamos continuar. Tem um bando de casal ensaiando essa cena.
Ela- Eu gostaria de encontrar com o autor e dar uns bons conselhos pra ele.
Ele- Ah, ta! E o que você vai dizer? “ Oi, eu sou atriz e acho que você escreve muito mal…” Me poupe né , meu amor. Não vem querer ser mais uma daquelas atrizes que dizem que também são autoras. “ Oi, eu atuo e escrevo, sabe? ‘ Por favor, por favor!
Ela- Chato. Vamos voltar, vai.
Ele- Vamos.
Ela- Onde a gente tava? Ah!
–volta música da cena- Eles voltam a encenar
Ela: Por que não conseguimos? Eu simplesmente quero ir embora.
Ele: Então esquece tudo, vai embora e nunca mais apareça na minha vida. Vai. Veja se você consegue.
Corte
Ela- Tá vendo! Ninguém falaria: “ veja se você consegue.”
Ele- Não interrompe, continua.
Corte- volta a cena
Ela senta
Ela: Isso não saudável.
Ele; O que é saudável?
Ela: A leveza? (pausa) Eu vou embora (levanta)
Ele: Não.
Ela pára
Ele: Não posso saber que você vai lá pra fora sem mim. Eu não suportaria. Eu me apeguei a você. Tenho ciúmes de tudo. Das crianças, do porteiro, do seu cabelo, entende?
Ela: Mas…
Ele: Deixa eu te abraçar.
Ela; Não. Não quero
Ele: Deixa.
Ela: Não, não.
Ele: Sente o meu toque, você gosta.
Ela senta
Ela; Não, não, não…
Ele vai até ela e a abraça por trás
Ele: Você gosta, não gosta?
Ela: Não me deixa.
Ele: Eu sei que você gosta
Ela: Não me deixa.
Ele: Não vou te deixar. Eu to aqui, estamos juntos. Não vou te deixar
Ela: Não me deixa
Ele: A gente tá junto.
Ela: Não me deixa. Não me deixa. Não me deixa
Corte
Ela- Droga, esqueci o texto!
Ele- Porra, tinha que interromper? A gente tava indo tão bem!
Ela- É, só que eu esqueci.
Ele- Não pareceu. Tinha que ter improvisado. Na hora, se isso acontecer, você vai ter que improvisar.
Ela : Lembrei!
Corte- Volta a cena
Ela: Mas tem que ser desse jeito?
Ele: A gente já conversou sobre isso
Ela: Pra mim não tá tão resolvido.
Ele- Já resolvemos tudo, não vamos mudar.
Ela- Mas a gente pode mudar, a gente pode mudar o que a gente quiser.
Ele- Então fala o que você quer.
Ela- Eu quero ir embora.
Ele- Vai embora.
Ela não se mexe
Ele- Você não consegue.
Ela- A gente entrou numa armadilha. Uma armadilha, entende?
Ele- Então tenta nos salvar.
Ela- Precisamos de tempo. Tempo um do outro, é isso que vai nos salvar.
Ele- Chega com essa palhaçada. Agora a gente vai até o final
Ele levanta a arma
Ela- Ainda é muito cedo.
Ele- A gente conversou sobre esse assunto mais de duzentas vezes, Ediléia.
Ela- Genivaldo, calma. A gente pode conversar um pouco mais.
Ele- Não, chega desse papo cabeça. Vamos juntos pra eternidade.
Ela- É que eu ainda sou muito nova…
Ele- E vai continuar novinha pra sempre… comigo… no além.
Corte
Ela- Esse texto é patético!
Ele (nervoso)- Não pára agora. Estamos indo bem.
Ela- Cuidado com essa arma aí!
Ele -Eu já disse que não tem bala.
Corte- Voltam à cena
Ela- Não Genivaldo, não… podemos envelhecer juntinhos, sem pressa, entende?
Ele- E viver nessa angustia de querer saber um do outro o tempo todo? De não conseguir mais sair pra trabalhar, de não ter mais amigos, de viver numa dependência louca, nesse consumismo duplo? Isso é vida?
Ela- A gente muda isso, amor. A gente consegue.
Ele- A gente não consegue. A gente adoeceu. Não tem mais discussão, é agora o nosso momento. Primeiro vai você e depois eu vou.
Ela- Não. Primeiro você . Primeiro você e depois eu. Me passa a arma
Ele- E quem garante que você vai depois mesmo?
Ela- E quem garante que você também vai depois?
Ele- Eu vou depois, eu vou.
Ela- Não, não é justo. Tem que haver outro meio.
Ele- Que meio?
Ela- Veneno, veneno, a gente bebe juntos, não tem erro.
Ele- Aqui não tem veneno.
Ela- Eu comprei, eu comprei pensando na gente, meu amor. Tá aqui.
Ela pega o veneno de rato.
Ela- Pronto, assim é mais fácil pros dois.
Ele- Não, não, pode não dar certo. Vai que um morre e outro
só fica mal.
Ela- Mal? É veneno.
Ele- Mas vai que um de nós dois tenha resistência, anticorpos, sei lá… seria muito arriscado.
Ela- Mas é menos doloroso. Ó.
Ela finge tomar- corte
Ele- Não vai tomar isso de verdade, hein?
Ela (nervosa) – Não sai da cena, não sai da cena.
Corte- Voltam à cena
Ele- Não!!!Um tiro certeiro e a gente não sente nenhuma dor. Eu atiro em você e depois dou um tiro na minha cabeça.
Ela- Ah, meu Deus, por favor, vamos desistir dessa história!
Ele- Não tem saída para gente.
Ela- Eu tô num pesadelo, eu quero acordar!
Ele- Você me prometeu que não ia fazer drama.
Ela- Onde eu tava com a cabeça quando concordei com essa loucura?
Ele- Não é loucura, é a maior prova de amor, a mais sublime, nós dois morrendo um pelo outro.
Ela- Não. Acabou. Acabou. Eu não tenho mais amor por você. Eu não tenho mais amor.
Ele- Não diz uma coisa dessas!
Ela- Digo. Acabou, acabou de acabar.
Ele- Mas e a nossa promessa de amor eterno? De ficarmos juntos para sempre num plano melhor?
Ela- Desculpe, eu gosto da minha vida.
Ele- E o que você vai fazer sem mim?
Ela- Por favor, vamos parar com esse papo.
Ele- A gente vai ter que resolver isso aqui. Não vai dá pra gente ficar nesse impasse.
Ela- Não há impasse, eu vou embora e você se mata.
Ele- Eu te mato depois me mato.
Ela- Não.
Ele- Sim.
Corte-
Ela- E agora? O que eu faço?
Ele- É momento que você vem em mim. Tenta tirar a minha arma.
Ela- Como eu vou fazer isso?
Ele- Se vira, se vira!
Ela vai na direção dele e tenta tirar a arma de sua mão. Eles travam uma luta . Corte.
Ele- Não Regina, assim não, desse jeito não.
Ela- Desse jeito não o quê?
Ele- É assim que você quer passar no teste? Desse modo canastra?
Ela- Canastra? Mas eu achei que a gente tava indo tão bem…
Ele- Bem? Bem? Você viu o jeito que você tentou tirar a arma?
Ela- Puxa, Gustavo. Não precisa falar assim.
Ele- É que a gente vai ter muita concorrência, meu amor. Eles eliminam por qualquer coisinha.
Ela- Tá, vamos repetir a parte da arma.
Corte-Eles voltam à cena da luta
Ela- Genivaldo, pára com isso!
Ele- Ediléia, eu já disse que essa é a melhor solução.
Ela consegue tomar a arma dele, e aponta a arma em sua direção.
Ela- Pronto, chega, Genivaldo. Quem vai embora agora é você .
Ele- Mas, meu amor…
Ela- Esquece isso de meu amor, ou você vai embora ou eu te mato. Eu te mato.
Ele- Calma
Ela- Calma por quê? Você não quer tanto morrer, ir para eternidade?
Ele- Não, não é bem assim, a gente tinha combinado que ia fazer isso juntos.
Ela- Vai embora, vai embora, vai emboraaaaa!
Ela atira. Ele é atingido. Cai no chão. Corte
Ela- Agora foi bom, né? Agora foi bem bom. Fiz com muita verdade!
Ele não levanta.
Ela- Gustavo? Ah, Gustavo, quer para com essa brincadeira tosca?
Ele não responde. continua no chão
Ela- Gustavo! A gente tem que finalizar a cena!
Ele não responde. continua no chão
Ela- Pára de ser ridículo. Vamos continuar.
Ele não responde. continua no chão
Ela- Porra, Gustavo. Pára com essa palhaçada!
Ela vai até ele e vê sangue
Ela- Sangue! Ah, meu Deus! Ah, meu Deus! Ah, meu Deus!
Ela entra em pânico
Ela- Gustavo, pelo amor de Deus, fala comigo! Amor, meu amor, que é isso? Você tinha falado! Você tinha falado que não tinha bala, meu amor, eu acreditei. Meu amor, meu amor, não faz isso comigo!
Ela chora desesperada.
Ela (muito dramática) Não! Não ! Não! eu não queria que fosse assim, eu não queria! Não…Gustavo! Fala comigo, fala comigo, meu amor! Não me deixa sozinha, não me deixa sozinha! Vamos juntos pra eternidade… Vamos juntos…
Completamente desesperada e chorando, ela pega o veneno de rato e toma. Subitamente, cai no chão.
Ela- Espero que eu não tenha anticorpos.
Ela morre. Ele levanta.
Ele- Bravo! Bravo! Bravo! Era isso! Assim mesmo, bravo! Bravo! Excelente! Sua melhor atuação! Sabia! Vamos passar! Vamos passar!Gostou do ketchup? Era pra dar mais estímulo pra você! Rê? Cadê você?
Ele encontra o veneno de rato aberto e Regina no chão.
Ele ri- Rê, que é que isso?
Ele pega no pulso dela e fica nervoso
Ele- Que é que isso, Rê? Ficou maluca?
Ele percebe que ela não tá respirando. Ele fica desesperado.
Ele- Porra, Regina! O que você fez? (pausa) Ah, não! Regina, minha linda? Eu disse que não tinha bala! Eu disse, minha linda! Lembra? Cena, ceninha. Era brincadeirinha. Que isso, minha linda? Você não viu que era Ketchup? Como assim? Como assim , minha linda? E agora? O que eu vou fazer? Poxa, a gente tinha tudo pra passar no teste! Poxa, minha linda, e agora? O que eu vou fazer sem você? O que eu vou fazer?
Ele ta completamente desesperado-
Ele- Oh, meu Deus! Que porra é essa? Rê, como você foi acreditar…
Ele chora
Ele- Como você foi acreditar que…
Chora
Ele- Não! Não ! Não! Eu não queria que fosse assim, eu não queria! Não…Regina! Fala comigo, fala comigo, meu amor! Não me deixa sozinho, não me deixa sozinho! Vamos juntos pra eternidade… Vamos juntos…
Completamente desesperado e chorando, ele pega o veneno de rato e toma. Subitamente, cai no chão.
Ele- Espero que eu não tenha anticorpos.
Ele morre.

FIM

Hoje

Menino: Mãe, eu quero biscoito de leite.

Mãe: Acabou o biscoito, meu filho.

Menino: Não dá pra comprar?

Mãe: Ponto na zona foi fraco ontem, meu filho.

Menino: Mas nem um trocadinho tem?

Mãe: Tive que voltar ajoelhada no ônibus pra pagar a passagem, se é que você me entende.

Menino: É o quê?

Mãe: Deixa pra lá.

Menino: Cadê o Totó?

Mãe: Cinomose.

Menino: E o papai?

Mãe: Cirrose.

Menino: Vamos brincar?

Mãe: Não consigo.

Menino: Por quê?

Mãe: Gonorréia.

Menino: Você tá de piriri, mamãe?

Mãe: Também.

Menino: Comida estragada de novo?

Mãe: Cacofagia com um cliente.

Menino: Quê?

Mãe: Comi merda de um filho da puta.

Menino: Posso brincar na rua então?

Mãe: Fechada.

Menino: Outro acidente?

Mãe: Tiroteio com a milícia.

Menino: Então o Beto ta no bangue-bangue?

Mãe: Não, meu filho.

Menino: Tá onde?

Mãe: Tá morto.

Menino: Morreu?

Mãe: No bangue-bangue hoje de manhã.

Menino: Mas ninguém me falou nada.

Mãe: Quiseram te poupar.

Menino: Poupar?

Mãe: Por causa da tua leucemia.

Menino: Minha o quê, mamãe?

Mãe: Gripe.

Menino: Cê tá desanimada, mamãe?

Mãe: Hepatite.

Menino: Quer ir pro quarto.

Mãe: Quero não.

Menino: Por quê?

Mãe: Lá tem sarna.

Menino: O que é que você quer fazer?

Mãe: Isso.

Menino: Isso o quê?

Mãe: Nada.

Menino: Tá bom. Então eu faço nada com você.

SILÊNCIO

Menino: Mamãe.

Mãe: O quê?

Menino: Eu te amo.

SILÊNCIO

Mãe: Eu também, meu filho. Eu também te amo.

ELA SE LEVANTA RAIVOSA

Menino: Desistiu de fazer nada, mamãe?

Mãe: Desisti.

Menino: Por quê?

Mãe: Me lembrei que eu tenho que fazer o imposto de renda. Hoje é o último dia pra entregar o imposto de renda. Imposto de renda acaba comigo. Que tragédia.

Pomodoro Pelatti

Homem: Querida, eu acho que a água da banheira está quente demais!

Mulher Chef: Impressão sua, querido.

Homem: Engraçado, eu nunca tinha entrado numa banheira de metal antes.

Mulher Chef: É um ofurô, benzinho!

Homem: Parece um caldeirão. (riso nervoso)

Mulher Chef: Você sempre fica de bom humor durante o banho?

(Homem ri muito)

Homem: (tenta falar e não consegue. Ele realmente acho o próprio pensamento muito engraçado) Toda vez que eu abro uma lata de pomodoro pelati eu acho que vou encontrar um tomate nu de óculos escuros gritando e tentando se enrolar numa toalha.(ri por um tempo quase insuportável) O que você está colocando na água? Um óleo? Essas folhinas verdes são tão cheirosas. Ei, peraí. Alho não! Tá maluca?

Mulher Chef: Azeite, manjericão e alho. Ainda faltam alguns ingredientes para o molho ficar completo.

Homem: Molho. Como asim?

Mulher Chef: Eu tirei você das ruas, alimentei você. Agora chegou sua vez de retribuir, bebê. Eu preciso encontrar a receita do molho perfeito!

Homem: Por favor, não faça isso. Eu sou indigesto. Sou praticamente pele e osso.

Mulher Chef: Sal, pimenta do reino (prova um pouco da água)Hum.

Homem: Você tem que parar com essa obsessão pelo molho pefeito. Todo mundo gosta de Pomarola.

(mulher continua jogando ingredientes na água sem dar ouvidos para o homem)

Homem: Por favor, pare! Eu não quero morrer! Eu tenho gripe suína! Você não pode me comer!

Mulher Chef: (debocha) Gripe suína? Ai, de mim! Que tragédia! (soberba) Eu não vou comer você. Você será comido pelos clientes do meu restaurante. Já posso ver os rostos de satisfação. Meu molho perfeito acompanhando um spagheti, um ravioli, um farfale. São tão lindos os farfales parecem gravatinhas.

(Homem agarra o pescoço da mulher numa rara espécie de gravata misturada com mata leão. A mulher se debate o homem tenta afogá-la. Ela tenta levantar a cabeça. Com uma das mãos alcança o spray de pimenta e num golpe borrifa o spray nos olhos do homem que grita como um animal. Mulher consegue sair do caldeirão)

Mulher Chef: Engraçado, durante nosso relacionamento eu nunca dei um apelido carinhoso para você. É estranho, muito estranho isso me incomodar só agora, no fim. De agora em diante para mim você será Pomodoro Pelati. (A mulher gargalha. Aperta um dos botões que aumenta a temperatura do caldeirão. A água borbulha e o homem segue gritando. Em instantes sua pele desgrudará do resto do corpo como se ele fosse um tomate pelado).

FIM

O colorido dos olhos

Ela: Por que você o matou?

Ele: Por causa dos olhos.

Ela: O que tinha os olhos?

Ele: Estavam infeccionados.

Ela: Alguma alergia?

Ele: Não.

Ela: O que era?

Ele: Fungos. Os olhos dele estavam cobertos por fungos. Uma espécie de camada fofa, mofada, esponjosa, cobrindo todo o globo ocular.

Ela: E isso te causou repulsa? Vontade de matá-lo?

Ele: Sim.

Ela: Você o conhecia?

Ele: Não. Esbarrei na rua. Meu ombro bateu no dele e nos encaramos por alguns segundos. Suficientes para gravar aqueles olhos infeccionados que não sairam da minha cabeça.

Ela: Nojo?

Ele: Aflição…

Ela: Descreve.

Ele: Um arrepio fino… Os olhos estampados em minha mente…

Ela: Não conseguiu esquecê-los?

Ele: De modo algum. Tentei… Mas aquela imagem me fazia estremecer toda vez que eu lembrava… Aqueles olhos apareciam na hora do meu almoço… Na hora do meu banho… Antes de eu dormir, estavam lá os olhos… Como duas bolas de pelo, brancas. E eu me via com esses olhos. Imaginava meus olhos assim. Mofados. Como no dia em que eu morrer. Dentro do meu caixão. Em silêncio. Sentindo meus olhos mofando. Não conseguia pensar em mais nada além disso. Os meus olhos podres.

Ela: Não precisava matá-lo. Você ficou impressionado. Apenas.

Ele: Era mais que isso.

Ela: Estou ouvindo…

Ele: Eu fiquei com a sensação de que jamais me esqueceria daqueles olhos. Por mais que eu tentasse, eles estariam lá. Me espreitando. Aquele homem me condenou… Eu sei que não foi culpa dele. Mas a inevitabilidade daquela imagem, diariamente, na minha cabeça… Entende isso? Os olhos infeccionaram a minha alma.

Ela: E matando-o, achou que poderia matar essa imagem na sua cabeça…

Ele: Sim.

Ela: E a imagem?

Ele: O que tem?

Ela: Desapareceu…?

Ele: Não.

Ela: Os olhos?

Ele: O que tem?

Ela: Ainda estão em sua cabeça?

Ele: Sim.

Ela: Você quer que eles desapareçam agora?