Questionário
Você: Eu estou mal.
Outra pessoa: Por quê?
Você: Eu traí.
Outra pessoa: Traiu?
Você: Traí, traí. Sou uma pessoa ruim. Eu traí.
Outra pessoa: Quando?
Você: Agora.
Outra pessoa: Agora?
Você: Vi você e fiquei um pouco excitado. Não conta pra ninguém.
Outra pessoa: Isso não é traição.
Você: É claro que é.
Outra pessoa: Como assim? Você nem encostou em mim.
Você: Se eu tivesse encostado seria traição e se eu não encosto não é. É isso?
Outra pessoa: É.
Você: Então se eu não encosto não é?
Outra pessoa: …
Você: Sexo com camisinha não é traição, então. Teoricamente não encosta.
Outra pessoa: O que você tá falando?
Você: Vamos dizer que a sua namorada se chama Laura. Mas você tem tesão na Solange. Você conhece Solange. Se Laura e Solange se conhecem é irrelevante. Consideremos apenas esses fatos. Você namora Laura. Você tem tesão na Solange. O fato de você ter tesão na Solange é traição?
R:
O fato de você ficar de excitado pensando na Solange é traição?
R:
O fato de você se masturbar pensando na Solange é traição?
R:
O fato de você se masturbar olhando uma foto da Solange na Internet é traição?
R:
O fato de você se masturbar olhando uma foto da Solange revelada em papel Kodak é traição?
R:
O fato de você se masturbar vendo a Solange atrás de um vidro fumê com 50% de transparência e a uma distância de 100m é traição?
R:
O fato de você se masturbar vendo a Solange atrás de um vidro fumê com 75% de transparência e a uma distância de 50m é traição?
R:
O fato de você se masturbar vendo a Solange atrás de um vidro transparente uma distância de 23,47m é traição?
R:
O fato de você se masturbar vendo a Solange a uma distância de 12,54m sem vidro entre vocês é traição?
R:
O fato de você se masturbar sem ejacular vendo a Solange a uma distância de 3,77m é traição?
R:
O fato de você se masturbar e ejacular vendo a Solange a uma distância de 68cm é traição?
R:
O fato de você se masturbar sem ejacular vendo a Solange atrás de um anteparo de resina fabrticado na Bolívia a 4cm de distância dela é traição?
R:
E a 9mm da Solange, é traição?
R:
E a 8mm?
R:
O fato de você se masturbar vendo a Solange e encostando a ponta do seu dedo direito no ombro esquerdo dela é traição?
R:
O fato de você se masturbar encostando a ponta do seu pênis no ombro esquerdo da Solange é traição?
R:
O fato de você se masturbar encostando 10% do seu pênis na vagina da Solange é traição?
R:
O fato de a vagina da Solange masturbar 35% do seu pênis é traição?
R:
O fato de você usar a vagina da solange para masturbar ora 50% do seu pênis, ora 100% dele, ora 50%, ora 100% em repetidas mudanças de percentagem é traição?
R:
E então? Traí ou não traí?
Remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro
(Cris e Rico estão se beijando, a meia-luz. De repente, sem que eles percebam, aparece Edu. Ao ver essa cena, Edu se esconde, assustado)
Cris: É melhor você ir embora, ele já deve estar chegando.
Rico: Eu não entendo por que você não diz logo toda a verdade.
Cris: Não posso magoá-lo, temos que ter calma.
Rico: Ele vai se magoar de qualquer jeito, você não acha?
Cris: Eu não queria que fosse assim.
Rico: Nem eu, mas o que a gente pode fazer?
Cris: Eu queria tanto que fosse diferente…
Rico: Eu também, meu amor. Mas agora já é tarde. É melhor você conversar com ele, antes que ele comece a desconfiar.
Cris: Tá, eu vou ver o que eu faço. Agora vai. Entra no MSN daqui a pouco…
Rico: Te espero lá.
(Eles se beijam. Na hora que Rico está indo embora, Edu aparece. Constrangimento)
Edu: Oi, Rico.
Rico (tentando disfarçar): Oi. (pausa) Tudo bem? Eu tava aqui tentando remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro. Depois a gente se fala. (sai)
(Silêncio)
Cris: Chegou cedo…
Edu: É, Cris, eu cheguei mais cedo hoje…
Cris: Tá com fome?
Edu: Não. E você?
Cris: Não.
(Silêncio)
Cris: O Rico tava…
Edu: Tentando remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro. Ele disse.
Cris: É. Exatamente.
(Silêncio)
Edu: Por quê?
Cris: “Por que” o quê?
Edu: Por que isso?
Cris: Isso o quê?
Edu: Você sabe.
(Cris começa a entoar um choro)
Cris: Desculpa.
Edu: Por que, Cris, por quê?
Cris: Desculpa, Edu, desculpa.
Edu: Me diz, Cris. Por quê?
Cris: Desculpa.
Edu: Me fala alguma coisa, Cris.
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa, desculpa…
Edu: Pára, Cris! Diz outra coisa, chega disso!
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa.
(Ele vai acender a luz)
Edu: Não acende a luz, não acende.
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa.
Edu: Queimou a porra dessa luz. (ele fica tentando acender)
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa.
Edu: Acende, luz, acende!
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa.
Edu: Eu quero ver teu rosto melhor.
Cris: Desculpa.
Edu: Acende, porra!
Cris: Desculpa, desculpa, desculpa….
(Corte. Blackout. Foco volta numa cama com Edu acordando assustado e Cris do seu lado. Ele olha em volta, vê Cris dormindo e sente um alívio. Ele a acorda)
Edu: Cris?
Cris (acordando): Que foi?
Edu: Me abraça, meu amor. Eu tava tendo um pesadelo.
(Cris acorda e o abraça)
Cris: Calma, meu amor. Tô aqui.
Edu: Foi horrível, meu amor. Eu sonhei que você tava me traindo com o Rico.
Cris (vai se soltando do abraço): Com o Rico?
Edu: Imagina! Você com meu melhor amigo. Foi horrível.
Cris: Meu amor, vamos conversar.
Edu: Não, agora não! Me abraça. Foi tudo tão difícil. Imagina. Só podia ser sonho. Teve uma hora que ele me falou que veio aqui para remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro. (ri) São palavras que só acontecem em sonho mesmo, quer dizer, em pesadelos. (ri)
Cris: Edu… A gente tá precisando mesmo conversar.
Edu: Conversar o quê, meu amor?
(De repente ele escuta um barulho de alguém chamando no MSN)
Edu: Você deixou o computador ligado?
Cris: Nem percebi.
Edu: Quem tá no MSN a essa hora?
Rico: Meu amor, o Rico…
Edu: É ele que tá no MSN?
Cris: Ele esteve aqui hoje, justamente para remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro.
(Silêncio)
Edu: O quê?
Cris: Desculpa.
Edu: Não, não pode ser.
Cris: Desculpa, desculpa.
Edu: O que tá acontecendo?
Cris: Desculpa.
Edu: Desculpa? Cris, fala outra coisa além de desculpa, pelo amor de Deus!
Cris: Desculpa!
Edu: Acende o abajur, eu quero te ver.
Cris: Desculpa.
Edu: Eu acendo. (ele tenta acender o abajur) Essa porra também não acende.
Cris: Desculpa, desculpa.
Edu: Não, Cris. Não. Por favor. Me diz que isso também não é real, por favor!
Cris: Desculpa!
Edu (ele fica tentando acender a luz): Por que a porra dessa luz não acende? Droga. Eu quero ver seu rosto.
Cris: Desculpa, desculpa.
Edu: Cris, seu rosto… Eu quero ver seu rosto! Cris!!!
(Corte. Blackout. Foco reacende na cama. Edu tá se mexendo intensamente. Cris o acorda)
Cris: Edu!
Edu: Ah! (levantando de súbito)
Cris: Calma, calma. Você tava tendo um pesadelo, meu amor.
(Edu olha para Cris assustado)
Edu: Acende o abajur, pelo amor de Deus.
(Cris vai acender o abajur)
Cris: Ih, não acende. Deve ter queimado.
Edu: Ah! Ah! Ah!
Cris: Calma, meu amor! É só trocar a lâmpada. Eu vou lá pegar na cozinha…
Edu: Não! Por favor, não me deixa aqui sozinho.
Cris: Tá tudo bem. Foi só um pesadelo.
Edu: Eu ainda tô sonhando, a luz não acende. Daqui a pouco você vai começar a me pedir desculpas.
Cris: Desculpa pelo quê, meu amor? Fica calmo, já vai passar.
(Ele escuta o barulho de alguém chamando pelo MSN)
Edu: Você deixou o computador ligado?
Cris: Ih, eu nem percebi.
Edu: Quem tá te chamando a essa hora?
Cris: Sei lá, meu amor… Deve ser…
Edu: O Rico, né?
Cris: O Rico? Eu ia falar a Clarissa, ela tem problema de insônia.
Edu: Ele esteve aqui hoje, né?
Cris: Ele quem?
Edu: O Rico!
Cris: O que é que o Rico tem a ver com isso? Ninguém esteve aqui hoje. Você ainda deve estar sonhando, já vai passar. Me abraça…
(Ela vai abraçá-lo, ele não deixa)
Cris: Edu, sou eu! Cris!
Edu: Ele veio aqui, eu sei, ele veio remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro.
Cris: O quê?
Edu: Ele me disse isso, eu ouvi bem. “Remendar o café pra ver se o eclipse mofou por dentro.”
Cris: Do que é que você tá falando?
Edu: Não se faça de desentendida.
Cris: Caralho, Edu! Você já tá me tirando do sério. Ninguém disse isso pra ninguém, entendeu? Você não percebe que essa frase não faz o menor sentindo?
Edu: Você já devia ter começado a me pedir desculpas!
Cris: Ah, meu Deus! Dê-me paciência!
Edu: Anda, pede desculpas.
Cris: Chega! Cansei. Tudo tem um limite. Se você quiser ficar aí acreditando no seu pesadelo, problema é seu. São três horas da manhã, eu tenho que acordar às sete pra dar aula e eu não poso ficar perdendo mais tempo de sono. Fecha os olhos, vira pro lado e conta carneirinho.
Edu: Aonde você tá indo?
Cris: Vou dormir na sala.
Edu: Não me deixa aqui…
Cris: Se vira.
Edu: Mas…
(Ela fala lá de dentro)
Cris: Viu? Era a Clarissa mesmo no MSN. Tava me chamando há um tempão. Já tô desligando o computador, ó. (barulhos do computador desligando)
(Ele vira para o lado e tenta acender o abajur. A luz acende)
Edu: Ih! Acendeu!
Cris (lá de fora): Então devia ser mal-contato. Ainda bem. Agora boa noite. Vê se sonha com os anjos, ou coisa parecida.
(Edu deita com a luz acesa e começa a contar de olhos abertos)
Edu: Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos… sai daí, Rico, quatro carneirinhos…
FIM
.
O padrinho da bateria
(Rádio de pilha toca o samba: Chora!/ Não vou ligar/ Não vou ligar!/ Chegou a hora/ Vais me pagar/ Pode chorar/ Pode chorar/ Mas chora!/ Chora!/ Não vou ligar/ Não vou ligar!/ Chegou a hora/ Vais me pagar/ Pode chorar/ Pode chorar…/ É, o teu castigo/ Brigou comigo/ Sem ter porquê/ Eu vou festejar/ Vou festejar!/ O teu sofrer/ O teu penar…/ Você pagou com traição/ A quem sempre Lhe deu a mão…)
(Homem sentado, com uma fita métrica nos ombros, usando uma máquina de costura. Tempo. Chega Carlão)
Homem: Fala, patrão!
Carlão: E esse Carnaval, sai ou não sai?
Homem: Está saindo. Não é só de paetê e lantejoula que se faz um carnaval. Tem o trabalho de muita gente aqui.
Carlão: Estou achando o negócio meio lento!
Homem: Está tudo dentro do prazo.
Carlão: Sei não.
Homem: Está duvidando do meu borogodó? O que é que há? Ninguém bate meu gingado da baby machine até a overlock!
Carlão: Meu querido, o negócio é o seguinte. Você sabe qual é o meu foco. Quero saber quando ficará pronta a fantasia principal.
Homem: Ah, na fantasia principal coloco toda a minha paixão para ela bilhar da concentração até a apoteose!
Carlão: Quero ver.
Homem: Ainda falta um detalhe.
Carlão: Dá para terminar logo, faz favor. Suliene está nervosa. Ela precisa da fantasia para ensaiar.
Homem: Como é que é? Eu ouvi Suliene? Você endoidou? A fantasia principal é para mim! Eu sou o padrinho da bateria desse Carnaval e não vai ter para ninguém.
Carlão: Meu querido, as coisas mudam. Suliene é minha garota tem o gingado, nasceu para coisa.
Homem: Nasceu para coisa nada. Cachorra filhote! Não sabe andar de salto. Mulher que não sabe andar de salto não pode beijar a bandeira! Eu não admito que uma desengonçada beije a bandeira da minha escola!
Carlão: Como é que é? Vai querer cantar de galo aqui? A escola é minha!
Homem: Você prometeu: esse ano eu sou o Padrinho da Bateria. (samba exaltado) Esse costeiro de penacho eu fiz para mim. Todas as noites sonho… Na concentração eu entro, com a minha bota de salto, pisando com o pé direito na avenida, os fogos de artifício sobem e eu caio na folia. E vou conduzindo a minha escola até a apoteose. Porque tenho fogo sacudindo esse costeiro. Eu tenho Garbo no nome! Garbo!
Carlão: (Apontando um revólver para Homem) Vou te dar uma última chance. Quer pedir desculpas?
Homem: (Abaixa a cabeça tímido e caminha em direção ao rádio de pilha) Quero realizar meu último pedido: Mostrar a paradinha do padrinho da bateria. (aumenta o volume do rádio que toca: Você pagou com traição/ A quem sempre Lhe deu a mão… Pausa. Homem faz a paradinha. Gira e pega a garrafa de cerveja que estava ao lado do rádio de pilha. Arrebenta a garrafa na cabeça de Carlão. Chora e canta a música entre dentes até esfacelar o crânio do Carlão. Solta os cacos da garrafa que ainda sobraram nas suas mãos. Tapa a boca para conter o choro. Pega um punhado de confetes que está sobre a máquina de costura. Grita.) Eu sou o Padrinho da Bateria. (Joga confetes sobre si mesmo e samba na poça de sangue cantando: Eu vou festejar/ Vou festejar!/ O teu sofrer/ O teu penar…/ Você pagou com traição/ A quem sempre Lhe deu a mão… Luz desce em resistência)
TREVAS… FIM
Com fervor para Rafael Sousa-Ribeiro por quem ralo minha sandália de prata no asfalto da concentração até a apoteose!
O problema não é você…
Casal terminando namoro.
Ela- Então é isso?
Ele- É.
Ela- Tá…
Eles começam a chorar. Se abraçam. Ele estranhamente interrompe.
Ele- Não.
Ela- Não o quê?
Ele- Não.
Ela- O quê?
Ele- Olha. Não. Não. Não. Não consigo. Não consigo.
Ela- Não consegue o quê?
Ele- Sofrer.
Ela- Como assim?
Ele- É… não consigo. Está difícil sofrer. Cada vez mais difícil. Tô canastrando… Tô parecendo ator de filme B, sabe? Não dá mais, entende? Antes eu acreditava em mim, acreditava mesmo. Tinha pena de mim. Muita. Mas agora está difícil.(pausa) Eu me sentia sincero… mas depois que eu descobri… que eu descobri…
Ela – Descobriu o quê?
Ele- Não sei se devo te contar… é uma coisa muito pessoal… uma coisa que começa comigo e termina em mim, entende? (Pausa) É o seguinte, eu descobri qual é o problema das minhas relações. Descobri por que não dá certo e descobri também que nunca vai dar.
Ela – Fala!
Ele – O problema, o problema é que numa relação, um dos dois sou eu. (Pausa) Sempre eu e alguém. Sempre. E isso não vai mudar. Nunca. Eu sempre estarei presente num namoro e isso me deixa enjoado, sabe? Cada vez que eu começo um namoro penso: Lá vou eu de novo falar as mesmas asneiras, minha língua se mexer do mesmo jeito, os mesmos vícios de linguagem, minha mão insistindo em fazer os mesmos carinhos. É estranho, sabe? Quando eu estou com alguém eu fico muito presente. Muito comigo. É um inferno. Imagina, isso… eu posso mudar mil vezes de namorada que isso vai ser sempre igual. Uma das duas línguas será minha. Duas das quatro orelhas, uma das duas bundas. Entende? Um tédio para sempre. E tem outra coisa…É que eu estava pensando num negócio… é o seguinte, vamos pensar friamente. (Pausa) Não. Não dá. Não dá mais… Eu estava lendo um livro sobre relacionamentos que um amigo me deu. Esqueci o nome. Como é mesmo o nome do livro? Esqueci… enfim… estava lendo para passar o tempo, mesmo pensando que aquele livro devia ser uma reunião de asneiras… está vendo? Asneiras de novo… sempre falo essa mesma palavra… nem ao menos procuro um sinônimo… mas enfim, eu comecei a ler e tinha um capítulo que explicava, dizia que o casamento foi um troço inventado para que as pessoas passassem seus bens materiais para filhos legítimos, entende? O casamento foi inventado para que a fidelidade fizesse com que o homem tivesse a certeza de que suas terras fossem passadas para filhos verdadeiros e não bastardos. Faz sentido. Faz sentido. Aí, depois para disfarçar essa coisa materialista, a gente inventou o amor. Entende? Inventou. Depois inventou a separação e a tristeza. Entende? Invenção.
Ela- Como é que é?
Ele- Invenção. Não tem. A gente pode relaxar agora. Pode relaxar. Relaxa. Podemos tomar um café e falar qualquer coisa. Relaxa. Mesmo. Está tudo bem. Não existe. É uma invenção.
Silêncio.
Ela- Jura?
Ele- Juro. Se você quiser eu te empresto o livro. Vai mudar a sua vida. Essa coisa toda… imagina só… eu passei anos sofrendo por uma coisa que inventaram. Depois que descobri isso, fiquei imaginando outras coisas que a gente poderia inventar, sabe? A gente pode inventar qualquer coisa. Uma relação quinzenal. Um namoro de outono. Sexo aos domingos. Enfim, uma imensidão de possibilidades!
Ela- Nossa… Eu nunca tinha pensado nisso dessa forma.É verdade. (Pausa) É verdade. Nossa! Ufa! Bem melhor. Estou me sentindo bem melhor. (Pausa) Ui… que alívio! não existe e pronto, né? inventaram… não tem… ai, tão mais fácil. Obrigada!
Ele- De nada! Imagina, olha que maravilha! Não precisa ficar de luto sentindo a minha falta e etc… Inventa alguma coisa para você. Inventa que eu viajei. Inventa que era tudo muito chato mesmo. Inventa que eu tenho alguma deficiência. Inventa que o sexo não era bom. Inventa que você terminou porque se apaixonou perdidamente por alguém…
Silêncio.
Ela- Mas eu me apaixonei perdidamente alguém.
Ele- Como?
Ela- Eu me apaixonei perdidamente por alguém.
Ele- Como assim? Se apaixonou? Como assim? Se apaixonou? Quem é ele? Se apaixonou? Quando foi isso? Se apaixonou? Tá maluca? Como se apaixonou? Não pode! Se apaixonou? Que invenção é essa agora? Como você se apaixonou? Quem é ele? Eu conheço? O que ele faz? É mais bonito que eu? É rico? É bom de cama? Como ele é? Fala! Fala para mim! Fala! Fala! Como é que você tem a cara de pau de falar isso na minha cara! Eu sou o seu namorado. Seu homem! Seu homem! Entendeu? Entendeu?
Ele a abraça fortemente.
Ele – Então? (pausa) Vamos ao cinema ou alugar um filme mesmo?

Jô Bilac se encontra na Argentina tirando férias! Traindo os colegas do site e traindo o nosso querido Brasil que perdeu feio no último jogo! Traíra!
Volta em setembro por aqui com novos textos!
trecho de AMÉM
Maria São Judas Tadeu, glorioso Apóstolo! O nome de Judas Iscariotes, o traidor de Jesus, foi causa de que fosseis esquecido por muitos, mas agora a Igreja vos honra e invoca por todo o mundo como patrono dos casos desesperados e dos negócios sem remédio. Rogai por mim que estou tão desolada. Eu vos imploro, fazei uso do privilégio que tendes de trazer socorro imediato, onde o socorro desapareceu quase por completo. São Judas Tadeu, alcançai-me a graça que vos peço: reencontrar aquelas mulheres e com vossa permissão e ajuda vingar-me de todas elas. Amém!
(Vera entra e trava uma luta com um aparelho de surdez que funciona mal e dá choques em sua orelha. Maria fica atônita com a chegada de Vera e esconde-se)
Vera (ofegante. senta num dos bancos da igreja) Gente, que horror! Como se anda numa procissão… (Pega o terço e a Bíblia dentro da bolsa. Reza e conversa com Deus em voz alta, como se Ele fosse uma amiga de vizinhança) Pobre São Judas Tadeu… Deve estar desesperado de tanto pedido. O povo suado querendo encostar, pegar no santinho, puxando a roupa dele… Coitado, não deve ser fácil, não. Por isso que eu peço todo dia na minha prece: “Deus me livre ser artista ou santa!” (toma um choque do aparelho de surdez) Ai! Esse aparelho do inferno! (Outro choque) Ai! Perdão! (Retomando o pensamento) Eu sei, eu sei que eu me converti… (quebra) O Senhor tá me ouvindo? Não vai me deixar falando sozinha. (Retoma) Eu me converti, mas acho que eu ainda não acostumei com santo intercedendo por mim. Prefiro falar diretamente com o Senhor. Só eu e você.
(Maria espreita Vera de longe)
Vera (ouve um barulho. olha em torno) Tem alguém aí? Padre? (Cochicha) Eu não confio nele. O Senhor já reparou como ele tem uma cara esquisita? Parece que eu já vi ele no Linha Direta. Semana passada eu vim me confessar, ele me mandou rezar Salve-Rainha. Salve-Rainha é enorme! O que ele tá pensando? Que eu não arrumo casa, não lavo e passo roupa, que eu não levo o cachorro pra passear? (Choque) Ai! (Vera deixa sua Bíblia cair no chão. Abaixa-se para pegá-la e, ao levantar, dá de cara com Maria. Não a reconhece.) Ai, menina! Que susto! Quase me mata do coração.
(Maria encara Vera, não acreditando que a reencontrou.)
Vera (incomodada) O que foi?
Maria (perplexa) Vera?
Vera (grossa) Olha, se quiser falar com Ele entra na fila de espera. Eu cheguei primeiro.
Maria Não lembra de mim, Vera?
Vera Não. (Olha fundo nos olhos de Maria. Longo silêncio) Maria?!
(Maria dá um sorriso)
Vera (incrédula) É você?
(Vera a abraça calorosamente. Maria responde sempre após longas pausas e olhares.)
Vera Como você tá mudada! Não te reconheci… Você tá “meia” magrinha, Maria. Olhos fundos… não tá comendo direito, né? Me conta as novidades! O que tem feito da vida? Eu tô trabalhando no brechó aqui da igreja. E sabe que eu me separei do pastor Beto? Ele não prestava! Passei por cada uma, menina…
Maria Eu também passei “por cada uma”…
Vera Fugiu da procissão, né? Tá certa, boba! Eu não saio mais de casa em dia de São Judas Tadeu. É tanta gente na rua que me minha pressão baixou, quase desmaiei. O povo é besta de pedir o que é impossível. Eu prefiro pedir pouco pra ser atendida logo. (impaciente) E você? Me conta alguma coisa, vai!
Maria Não sei nem por onde começar…
Vera Tá morando aqui? Eu sabia que você não voltava pra sua terra. Filho depois que desgarra da mãe, é assim… Como é que tá a sua família?
Maria Nunca mais chegou nenhuma carta pra mim.
Vera O que aconteceu?
Maria Você precisa me ajudar, Vera… por favor! Eu quero muito voltar pra casa, ver a minha mãe…
Vera Já tentou ligar pra eles? Não ofereço o telefone lá de casa porque só tá recebendo.
Maria (mostra várias correspondências) Eu mandei todas essas cartas, mas elas voltaram.
Vera Acredita que o Beto não deixou dinheiro nem pra pagar a conta? Tô passando uma dificuldade que você não imagina.
Maria É mentira sua.
Vera Não é, não…
Maria É sim, dá pra ver na sua cara.
Vera Eu juro! Você acha que eu vou mentir dentro da igreja? (Choque) Ai! (Abre a Bíblia e tira uma nota) Toma… esse aí era pro dízimo.
Maria Só isso?
Vera (desconversando) Quando você chegou, eu ia pedir um aparelhinho de surdez novo pra Ele. (choque) Ai! Esse aqui tá parando de funcionar. E ainda me dá choque!
Maria E o resto do dinheiro?
Vera Quem?
Maria (ameaçadora) Não se faz de boba.
Vera Você tá muito esquisita, Maria. Eu vou embora que tenho que fazer almoço.
Maria O que você fez com aquele dinheiro?
Vera (saindo) Eu não sei do que você tá falando…
Maria (segura Vera pelos braços) Sabe, sim. O dinheiro que você roubou da Gilda.
Vera Xiii! Fala baixo! Olha, eu levei muito tempo pra apagar esse assunto da minha cabeça. E eu não lembro de Gilda nenhuma. Nunca conheci.
Maria (tirando um revólver de dentro da Bíblia) Faz uma forcinha que você lembra.
Vera Eu já pedi perdão. E até mudei de igreja… Se você quiser, eu posso te indicar…
Maria (cortando) Vai mandar eu ler um salmo, Vera? Eu posso lhe dizer todos eles, um a um.
trecho de AMÉLIA

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