Nome?
Tabelião: Não pode dar o nome de Televisão ao seu filho.
Pai: E por que não?
Tabelião: Ainda pergunta?
Pai: Televisão Nunes Silveira. Acho lindo.
Tabelião: Insano!
Pai: Posso se eu quiser.
Tabelião: Aprende uma coisa: não se brinca com nome de gente.
Pai: Não é brincadeira.
Tabelião: Agora veja! Televisão não é nome de ninguém.
Pai: Tenho uma conhecida chamada Rádio. No masculino mesmo.
Tabelião: Mas aqui no meu cartório não permito.
Pai: Mas eu quero que seja!
Tabelião: Não aturo esculhambação! Troque o nome do senhor por Televisão, não condene o menino a viver nesse avacalhamento!
Pai: Trocaria se pudesse. Não tem nada de avacalhado em Televisão. Muito pelo contrário. É um nome forte. Marcante até.
Tabelião: Insiste em. Vou te dizer que.
Pai: Escreva aí, Televisão Nunes Silveira.
Tabelião: Não tem jogo.
Pai: Não faz isso comigo.
Tabelião: Escuta. Quem foi mesmo que inventou a televisão, héin? Coloca o nome do sujeito no seu guri. Faz a homenagem e não sai no preju. Ponto final.
Pai: Não me interessa quem inventou ou deixou de inventar. Não quero prestar homenagem a ninguém. Gosto de Televisão e esse será o nome do meu filho!
Tabelião: O que acha a sua esposa, disso?
Pai: Acha nada. Não tem que achar.
Tabelião: Mãe tem direitos.
Pai: Eu quero que. Deixa de.
Tabelião: Me diga a verdade. Por que insiste em.
Pai: Cismei.
Tabelião: Tem caroço aí.
Pai: Escreve!
tabelião: Não é você o pai…
Pai: Como?
Tabelião: Esse filho não é seu.
Pai: Pode ser que.
Tabelião: Não pode ser nada. Quer colocar ese nome ridículo como o selo da traição da sua esposa. É isso , não é?
Pai: Vou dizer que.
Tabelião: Já vi muitos casos. Não me surpreende em nada.
Pai: Se continuar, eu.
Tabelião: Teve um que apareceu aqui querendo registrar Margarina Dutra Correia. Não deixei, lógico.
Pai: Não permito que.
Tabelião: Dê uma surra na sua esposa, ou casa-se com outra baranga, mas não estenda a sua vingança para essa criatura que não tem culpa de nada. Se quiser assumir a paternidade alheia, faça-a com dignidade. Ou abandone-o desde agora.
(Silêncio)
Tabelião: O que vai ser?
(silêncio)
Pai: Qual é mesmo o nome do cara que inventou a televisão…?
fim
Cléia não tem televisão
Cena 1 – Cléia na padaria
Cléia está no balcão tomando seu café com pão com manteiga. Também tomam seu café, Fulana 1 e Fulana 2, duas professoras de sociologia da UERJ
Fulana 1: Você viu a novela ontem?
Fulana 2: Vi sim.
Fulana 1: Então, o que você achou daquela cena final?
Fulana 2: Pelo ponto de vista estético eu achei bem interessante, mas do ponto vista econômico, faltou um pouco de senso da realidade levando em conta que o Brasil não possui tanta gente rica que sofre desse jeito.
Fulana 1 (pensativa): Sei… E você?
Cléia: Eu? Eu não tenho televisão.
Fulana 1: E o que você acha disso?
Cléia: Do ponto de vista social, acho que ela não se enquadra na ordem decente das pessoas que poderiam tomar café nessa padaria.
(Cléia pega seu pão e vai embora)
Cena 2 – Cléia no cabeleireiro.
O cabeleireiro: Você não acha?
Cléia: O que?
O cabeleireiro: Que o Mateus Solano é um gatésésimo?
Cléia: Mateus Solano? É o seu novo namorado.
(ele erra no corte)
O cabeleireiro: Meu namorado? Ai, Jesus, quem dera. Ele é os gêmeos da novela.
Cléia: Ah… Eu não sei quem é os gêmeos.
(ele corta mais uma vez errado)
O cabeleireiro: Vai me dizer que você não tá assistindo essa novela?
Cléia: Que novela?
O cabeleireiro: Viver a vida, gente!
Cléia: Ah, essa eu vi alguns capítulos. Mas é Páginas da vida.
(erra no corte)
Cabeleireiro (nervoso): Não! Essa é outra, essa já passou. To falando da de agora! Vi-ver a Vi-da!
Cléia: Ah… não, eu não vejo.
(erra o corte de novo)
Cabeleireiro: Não?
Cléia: eu não tenho televisão.
O cabeleireiro: Ahhhhhh! (corta tudo errado)
Cléia: O que você fez no meu cabelo?
O cabelereiro: Énum corte ultramoderno baseado na última protagonista do último seriado americano, a nova moda do verão. Mas como você não tem televisão, não vai assistir, então tem que apenas confiar. Foram 300 reais.
Cléia: 300 reais!!!!
O cabeleireiro: Quérida, eu sou o cabeleireiro das estrelas. Já cortei o cabelo até de Madonna, sou unha e carne com a Carla Bruni e praticamente um irmão para Gisele Buchen. Mas, você não deve saber mesmo, porque você não tem televisão. Então tem que confiar.
Cléia (tristíssima): Ah…(paga). Fiquei feia e dura… (sai)
O cabeleireiro: Burra. Nunca se diz que não tem televisão a um cabeleireiro.
300 reais!!! Minha melhor cliente!
Cena 3- Cléia almoça com seus amigos ultra megas cults.
Amiga: Uau! Que cabelo é esse?
Cléia: Meu cabeleireiro disse que é o último corte da ultima protagonista do ultimo seriado americano
Amigo: Dexter?
Amiga: Brothers and sisters?
Amigo: House?
Amiga: Lost?
Amigo:Flashfowourd?
Amiga:Gossipgirls?
Amigo: Fringe?
Cléia: Não sei? Ainda tá passando Friends?
(silencio)
Amiga: Você ainda defende a idéia louca de que televisão em casa te faz perder tempo, enquanto poderia estar fazendo algo mais produtivo?
Cléia: É… sim.
Amigo: Já pensou em fazer terapia?
Cena 4- Cléia na analista.
Cléia:… Às vezes eu sinto que não faço parte desse mundo. É como se eu não fosse integrada ao cotidiano e ao senso comum das pessoas que convivo. Pensei que esse corte de cabelo pudesse ajudar, mas não é o que sinto, quando entro nos lugares nem ando na rua. Penso até que o efeito está sendo contrario. Acho que ainda não foi lançado no Brasil o ultimo seriado americano.
Analista: Olha, minha formação não permite receitar remédios, mas no seu caso eu farei uma exceção. (ela escreve algo em um papel e entrega à Cléia)
Cléia (lendo): LN46M81B. Que remédio é esse?
Analista: É o modelo da minha TV de plasma. A minha é da Samsung, mas você pode encontrar também em marcas como LG, Philco ou Philips.
Cena 5 – Cléia com um colega de trabalho
Cléia: Minha analista falou que eu tenho que comprar uma TV de plasma…
O Colega: E a minha disse que deveria ler mais livros.
Cléia: Eu tenho uma biblioteca com mais de 2000 livros na minha casa. Eu posso te emprestar.
O Colega: Obrigado. Eu tenho uma mais de 300 aparelhos de televisão fora de linha. Eu posso te emprestar.
Cléia: É de plasma?
O Colega: Não, essa eu uso no momento.
Cléia: Então não dá. A receita diz que tem que ser de plasma. Deve causar um efeito mais rápido.
Cena 6 – Cléia na loja. Ela entrega a receita ao vendedor.
Vendedor: Esse é o ultimo modelo, mas temos outros mais acessíveis. A senhora gostaria de ver?
Cléia: Não! Por favor, embrulhe logo esse troço porque esse lugar me traz uma pequena sensação de depressão.
Vendedor: Fique tranqüila, isso vai mudar na primeira semana. Você não vai mais querer sair de casa.
Cena 7 – Um mês depois. Cléia em uma sessão de terapia de grupo.
Cléia: Fiquei sem sair de casa durante um mês, vi todos os programas, novelas, jornais, filmes e seriados. Engordei dez quilos, perdi meu emprego e minhas amizades.
Orientador: E o que você fez para se livrar disso?
Cléia: Comecei a tomar remédio para emagrecer.
Cena 8 – Cléia numa clínica de reabilitação
Paciente: Voce também está aqui por causa das drogas?
Cléia: Não.
Paciente: Bebida?
Cléia: Não.
Paciente: Remédios?
Cléia: Não.
Paciente: Comida?
Cléia: Não.
Paciente: sexo?
Cléia (cansada): Não. Televisão. Meu caso é a televisão.
(silêncio)
Cléia: Não vai dizer nada?
Paciente: Até que aqui não é mal para se passar o resto da vida. Eles dão comidinha, te colocam para dormir, você não precisa se preocupar em pagar as contas, e você ainda pode fazer amigos. A única coisa ruim é que você não poderá assistir TV na hora de lazer, mas se pensar que eu não posso usar drogas aqui, estamos quitis. Meu nome é Dilma.
(Cléia não diz nada)
FIM.
Síndrome de Carol Anne
Sábado quase animado
Programa da série “Haciendo Mierdas com Larissa! La película de la vida Real”.
Apresentado por Salma de Palma alter ego espanhol de Larissa Câmara.
Personagens:
Salma de Palma fala portunhol. Usa vestido longo, luvas longas com anel e um cabelo dividido com uma franja imponente
M.: Um carisma misterioso
Salma de Palma: Buenas Noches! Ay, Dale! En nuestro programa haciendo Mierdas com Larissa! La película de la vida Real Una historia de vida muy linda. Ay que rica! Com patrocínio del leche brancon (Off: mugido de vaca). Dale! Dale!
M.: Boa noite! Estou muito emocionada por estar aqui. Sempre antes de me apresentar eu lembro de uma coisa que minha mãe me dizia desde criança. Ela olhava para mim com brilho nos olhos e exclamava: Não me envergonhe! Eu não mereço! Vou tentar!
O que mais posso dizer sobre mim? Aviso logo: como sou mulher, vou falar várias coisas que não tem nexo nem conexão entre si. O que para um cérebro feminino é muito natural. Está aí a revista Capricho que não me deixa mentir. (pausa)
Esqueci de me apresentar: meu nome é M.(Larissa Câmara) estou despontando para o anonimato, mas sem deixar o fracasso subir à cabeça. Eu acho bacana na minha profissão saber lidar bem com o fracasso.
Isso foi uma piada! Todos aqui sabem que eu sou um nome que dispensa apresentações.
Se eu não fosse uma celebridade vocês não estariam aqui para ouvir trechos da minha autobiografia…
Devo dizer uma coisa muito sincera: Não é fácil escrever uma autobiografia! (nervosa apertando os botões do gravador) Todo mundo diz: Imagina é fácil é só começa do começo. Humpf. Começar do começo! (o gravador funciona e ela consegue ouvir a própria voz)
Antes do começar eu peço que vocês não reparem nas minhas mãos. Por favor, não reparem. Minhas mãos estão sujas de sangue…
(satisfeita) Vou começar do princípio: Eu era um feto adorável. Mamãe dizia orgulhosa que eu fazia muitas peripécias durante o exame de ultrassom. Sempre tive intimidade com as câmeras.
Mamãe estava em casa quando percebeu alguma coisa vazando. Arrebentei a bolsa. Resolvi nascer de oito meses. Uma atitude madura, uma grande surpresa para mamãe.
(lenta) As lembranças aparecem como flashes(posando para fotos): me empurraram, um homem verde me segurou, me bateu, eu chorei. Eu nasci nesse dia.
Ao sair da barriga da mamãe criei um feito inesperado: eu nasci inteirinha roxa!
Nascer roxa não é para qualquer um. É preciso ter sangue frio para não se afogar no mar de placenta! Não se deixar abalar pela violência das contrações. Quando me vi tão pequena e frágil pensei: vou prender a minha respiração até sair daqui! Sim, além de carisma tenho perseverança!
Sempre fui capaz de transformar um simples fato num grande evento: uma vez, foi até interessante… fui até a dispensa pegar algo, tropecei e derrubei garrafas de refrigerante de vidro. Elas explodiram lindamente, pareciam fogos de artifício. Corri para contar o que tinha acontecido. Quando parei na varanda senti uma dor estranha no meu pé esquerdo. Olhei para baixo e vi um ossinho pequeno aparecendo, parecia que ele queria me cumprimentar, me dizer alguma coisa… também vi algumas gordurinhas ao lado do osso. Que bom! Assim o ossinho se sentiria menos só dentro do meu pé. Pedi para mamãe ficar calma e ela disse que eu estava nervosa. Olhei para trás e o piso de ardósia da varanda era um mar vermelho sangue. Não posso negar que ao ver aquilo, fiquei com muito orgulho de mim mesma. Horas depois eu tinha 5 pontos no pé. Fui a atração da família nas férias. Todos queriam saber o que se escondia por trás do emaranhado de esparadrapos do meu pé.
(tom) Admito que fui uma criança aventureira. Suicida nunca, apesar de já quase ter morrido várias vezes das maneiras mais inusitadas: enfiei um pé de agulha no meu nariz, tive infecção intestinal, passei por uma micro-cirurgia, quase morri afogada na praia, escapei de uma areia movediça, bebi iogurte vencido, fui mordida por um coelho selvagem, comi um sanduíche natural mofado, bati a cabeça contra a parede, perdi parte da minha falange numa garrafa de coca-cola, fugi do bote de uma cascavél, corri de um crocodilo agressivo, caí ao tentar domar um potrinho… Enfim, sempre fui muito criativa… Uma cena recorrente da minha infância: Mamãe dirigindo muito nervosa a caminho do hospital perguntando: Você está respirando? E agora? Está respirando? Tão atenciosa!
Mamãe é muito atenciosa! Era meu aniversário. Um dia importante para refletir, lembro que eu estava ocupada repensando a grande questão de Simba, do filme o Rei Leão: QUE LUGAR EU DEVO OCUPAR NO CICLO DA VIDA?
Eu lembrei dos valores que minha mãe me ensinou: valor do dinheiro. Do limite do cartão de crédito.
Minha família é bastante econômica, com um orgulho pão duro sincero. Prova disso é que a piada preferida do meu pai é: o pai da uma bala de hortelã para o filho dez minutos depois ele fala: tudo bem filho agora você já pode tirar o papel da bala.
Foi aí que eu criei o termo piada pai – aquela que você ri só para não perder a herança.
Mas, voltando à economia da minha mãe… Ela comprou um kit de decoração da Hello Kitty para a minha festa. È importante ressaltar que na época a Hello Kitty não era um ícone pop mundial, Hello Kitty era só uma gatinha anônima, perdida na suípa tentando ganhar a vida. Minha mãe guardava a decoração e usava todos os anos. Recentemente meus pais completaram 25 anos de casados, e na festa das bodas de prata a decoração era de Hello Kitty.
No meu aniversário aconteceu algo que marcaria o meu destino para sempre… eu ganhei um presente muito especial: Meu Primeiro Gradiente! Um rádio com microfone e uma fita K7. Eu passava horas entrevistando as plantas do jardim, conseguia declarações íntimas dos meus amigos imaginários e dava simpósios e palestras sobre minhas histórias infantis dos animais da fauna silvestre ainda não publicadas. Uma das mais marcantes era a história de um tigre que apoiava uma pata numa pedra e levava um tiro de um caçador. Ai, muito comovente! Era a história preferida das bromélias do Jardim Botânico. Graças ao Meu Primeiro Gradiente eu descobri o meu talento.
(tom) Chegou o grande dia!
(Ameaçadora) Mamãe se você não me inscrever eu juro que fujo de casa e viro uma vagabunda. Eu tinha 3 anos (quando disse isso).
(tom) Mamãe finalmente me inscreveu num show de calouros. (Mudança de luz. M. no show de calouros, som de aplausos gravados. M. entra em cena como se tivesse sido empurrada. Segura o microfone sem graça. Som de playback. M. não canta apenas sorri muito sem graça e sem ação. Faz uma pequena coreografia. Ainda não canta. Música pára. Agradece tímida e estranha. Sons de aplausos gravados. Mudança de luz. Muda tom) Minha estréia foi gloriosa! Meu carisma foi reconhecido e fui contratada pra cantar no show de calouros, mas o melhor ainda estava por vir.
Eu era jovem, trabalhava na Tv e ganhava um salário equivalente a 20 mil reais hoje em dia.
Dinheiro que eu gastava comprando drogas pesadas: balas-chiclete, salgadinhos e refrigerante. Eu gastava muito dinheiro com coca (pausa) cola. Até hoje sou viciada.
Sei que vocês estão me reconhecendo, mas vou mostrar um vídeo dessa época. O vídeo vale mais do que mil palavras!
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=pxKvOHIJigI&hl=pt-br&fs=1&]
Salma de Palma: Muy Lindo! No percan nuestro próximo programa “Haciendo Mierdas com Larissa! La película de la vida Real”.Una salma de palma! (bate uma palma) Obrigada queridos. Ay, dale!
>FIM
Invasão
Cena: No supermercado. Mariane empurra um carrinho de compras. Atrás, uma mulher também empurrando um carrinho observa Mariane.
Mulher: (puxando papo para se aproximar) Dá licença, pode me passar o sabão em pó? Nossa, já disseram que você é parecida com a Mariane Wonder? Muito. É a cara dela! (pausa) A pinta! Não… Mariane? Mariane é você? Ah, eu não acredito! É você mesma? Reconheci pela pinta no seu braço. Meu Deus do céu é você! Quase que eu não te reconhecia com esses óculos escuros e chapéu… Desculpe perguntar, mas o que você ta fazendo aqui no supermercado, Mariane? (pausa) Hein?
Mariane: Compras.
Mulher: Ah, ta de brincadeira que você faz compras? (pausa) Hein?
Mariane: Alguém tem que fazer.
Mulher: Se eu contar ninguém vai acreditar: Mariane Wonder no mesmo supermercado que eu! Inclusive, eu tô percebendo que você gosta de uma oferta, hein, Mariane? Eu sou igualzinha a você adoro oferta, promoção relâmpago… Se eu ligar pra minha mãe você fala com ela no telefone, Mari? (pausa) Hein?
Mariane: Eu to com um pouco de pressa… (continua fazendo compras)
Mulher: Ah, fala aí, rapidinho. (já ligando o celular) Alô, mãe? Sabe quem ta aqui do meu lado no supermercado? Adivinha. A Mariane Wonder! Tá aqui sem maquiagem nenhuma fazendo compras como uma pessoa normal. Eu quase não reconheci porque na televisão ela é muito mais bonita. Ao vivo ela é magra, magérrima, baixinha, mãe. Quase uma anã. Ela vai falar contigo. Mariane é minha mãe. Ela te adora! (passa o telefone).
Mariane: Oi.
Mulher: Dona Rosa.
Mariane: Oi, Dona Rosa. Sou. Sou eu mesma.
Mulher: (tomando o telefone da mão de Mariane) Deixa eu falar com ela. Ta vendo, mãe, como a Mariane é uma simpatia? Muito simples. (para Mariane) Ela te adorou. (para a mãe) Tô te falando, já estamos íntimas! Não, ela não ta abatida, não. Quer dizer, um pouco. Mas ela vai superar. (para Mariane). Mamãe ta dizendo pra você não se abater porque a Fernanda Fortuna é uma biscateira. (volta a falar com a mãe no celular) Eu sempre desconfiei que ela era uma biscateira, né, mamãe? Nunca me enganou. Uma traíra, se fazendo de amiga e dando em cima do marido dela. Aquele estrupício. (para Mariane) Desculpe falar assim do Marcos Jason, mas posso ser sincera? Ele não vale o prato que come. Trocar você, uma atriz maravilhosa, experiente, por aquela ninfeta?! Ô garota sem sal, muito nova pra ele. A Fernanda Fortuna podia fazer o papel da sua filha na novela! (pausa) Hein?
Mariane: Obrigada, mas eu não gostaria de falar…
Mulher: Mamãe, a Mariane ta agradecendo a força que você ta dando. Ela é uma fofa, mãe! Gente boooa! E faz compras no supermercado como uma pessoa normal. (para Mariane) Mari, não leva esse detergente não, que ele não rende nada e nem faz espuma. (de novo no telefone) Ah, pode deixar, mãe. (para Mariane) Mamãe ta mandando um beijo pra Thalita e pro Gabriel, ta dizendo que seus filhos são uma graça e que ela adorou a festa de aniversário do Gabriel. Passou ontem no “Os Astros e Você”. (com a mãe no celular) Reprise? (para Mariane) Mamãe ta dizendo que vai reprisar hoje na edição das 18:00hs.
Mariane: Ah…
Mulher: Mamãe, a Mari ta te mandando um beijo. Pode deixar. (Pega o celular e tira uma foto).
Mariane: Mas o que é isso?
Mulher: Celular. Minha mãe quer uma foto sua. Ela te adora!
Mariane: Mas você não pode tirar uma foto assim.
Mulher: Assim como?
Mariane: Assim, sem eu estar preparada. Sem avisar.
Mulher: (Tirando outra foto) É que eu gosto de foto paparazzi. Quando o artista finge que não sabe que está sendo fotografado.
Mariane: Você já pensou que tem horas que a gente não quer ser fotografado?
Mulher: É por que você ta sem maquiagem? Mamãe não liga pra essas coisas.
Mariane: É porque eu quero um pouco de paz! Dá pra entender? Paz! Me deixa em paz! (pausa. Silêncio. Mariane segue empurrando o carrinho de supermercado. Mulher fica parada, atordoada, de boca aberta. Depois de alguns segundos pega o celular pra falar com a Mãe)
Mulher: Alô? Mãe? Tirei a foto. Vou te mandar por SMS. Mas olha, posso ser franca? Ela é pavorosa sem maquiagem. Agora eu entendo porque o Marcos Jason largou ela pra ficar com Fernanda Fortuna! A Fernanda é muito mais fotogênica. Muito mais. Sem comparação!
FIM
Bandeira branca
Ela acordou com a banda chegando, aquela batucada subindo a rua. Abriu os olhos devagar como se estivesse se desgrudando de um sonho. Levantou, bocejou, e voltou a deitar. Fez isso três vezes. E o samba se aproximando cada vez mais.
Seus outros Carnavais tinham uma alegria solteira. Uma vontade de ir atrás de qualquer tambor. Mas hoje não. Hoje, a batucada feria. A alegria cortava. Levantou, pela quarta vez, e essa vontade foi a maior de todas. Enfiou a roupa, mesmo com imensa vontade de continuar esparramando sua nudez pelo lençol amarelado. Queria que a roupa de cama continuasse com aroma manso dele.
Seu gato de olhos fitos em sua amargura.
A mulher foi derramando os seus passos lentamente pela casa. Abriu a janela e viu o sol lhe sussurrando vida. Mas aquilo era uma afronta para um coração vazio. “Dias tristes não podem ser azuis”, pensou. E a raiva daquele azulão foi crescendo, ficando vermelha, cheia de vontade de jogar água fria nos corpos quentes que desfilavam ao longe.
Os foliões subindo a rua sem saber da tristeza daquela última casa, a da árvore torta. Um palhaço passou cantando, bêbado, sorriso largo. Uma bailarina, um pirata, e depois um grande emaranhado de gente feliz, só por ser. Feliz de ser feliz. De momento. A serpentina entrando pela casa dela, ofendendo, rindo do seu desespero.
Seu portão estava ainda aberto, escancarado. Depois da partida dele, não conseguia tocar em nada, tudo doía. Mas o Carnaval não quis esperar essa dor. O tempo não deu trégua. E ainda com aquela angústia aberta, a folia passou por ela, que não sorria, não dançava, nada.
“Uma dor só não faz verão…” pensou. Em seguida, riu de si mesma, gargalhou, chorou, gritou e…
Silêncio.
Tempo.
O vento fechou o portão.
Tempo.
Uma andorinha pousou na árvore torta.
Tempo.
Ela colocou o os lençóis para lavar.
Tempo.
Caiu na folia.

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