Estamos de férias!
Leitores, voltamos em março! Até lá, vocês podem acessar nosso arquivo com mais de 400 cenas!
NOVA SÉRIE – “AMORES”.COM – EPISÓDIO 1
Queridos leitores.
Hoje começo uma nova série.
A cada semana uma nova pequena histórias sobre os “amores” que se se forma (ou tentam) e acabam (ou tentam) nos tempos de hoje. Onde às vezes é mais fácil se relacionar virtualmente que de frente a frente!
Acompanhem essas pequenas loucas histórias, frutos de observações
dessa geração internética e super modernizada =)
Divartam-se! Beijos, Renata
PRIMÉRIO EPISÓDIO
OU ELE, OU EU!
Pedro: Oi.
Lia: Oi gatinho, tudo bem? Espera só um instantinho?
Pedro: Claro, imagina. Eu espero…
(Lia fica mexendo no sei Iphone, Pedro espera meio sem graça. Lia solta umas risadinhas esquisitas. Pedro, assustado ri com ela sem entender)
Pedro: Que foi?
Lia: Nada não. (ri) Meu amigo que fica colocando umas fotos toscas no feici. Olha só!
Pedro: (disfarçando o interesse) Pois é legal, bem toscas mesmo. Legal. (tempo) Mas então, Lia, já acabou aí? Vamos, é… Então? Vamos… Enfim, a gente veio aqui, né? Estamos aqui…
Lia: (concentrada no telefone) Claro.
Pedro: “Claro” o quê?
Lia: (concentrada) Claro que… só instantinho. (digita compulsivamente. Tempo. Termina) Então, Pedro, é claro que (olha para o telefone) Ih! Respondeu! Rapidinho. (volta a digitar. lê e ri) muito bom, o Cláudio é uma figura. (ri) Mas do que é que a gente tava falando mesmo?
Pedro: Então…
Lia: (exagerada) Não!
Pedro: (se assusta) Não?
Lia: Não!
Pedro: Não?
Lia: Não!
Pedro: Não?!
Lia: A Tati terminou com o Lucas. Não! Ele eram um casal tão felizes. Tadinha! Ela tá arrasada. Olha essa foto! (mostra a foto do tel)
Pedro: É… ela tá com a cara arrasada mesmo. Mas e…
Lia: Só um instantinho. Eu preciso mandar um recado para ela.(digita. Tempo) Pronto. Mas fala, eu te interrompi.
Pedro: Então…
(toca o telefone de Lia)
Lia: Ah! É a Carol. Só um momento (atende) Alô? Ooooiiiii! (pausa) Tudo ótimo! (pausa) Não, pode falar, tá tranquilo. E aí? Rolou? (pausa) Jura? (pausa) Sério? (pausa) Mesmo? (pausa) Não acredito!
Putz! Não, eu vou, claro que eu vou! Eu vou, eu vou, eu vou. Marcado. Show! Beijooooo (desliga) Era a Carol contando que finalmente conseguiu “pegar” o Gustavo.
Pedro: É? Bom pra ela.
Lia: Bom mesmo. Bom pra ela mesmo. Agora você vê: uns terminam, outros juntam, tudo no mesmo dia. É a vida.
Pedro: É. É a vida… Mas então, Lia. E você?
Lia: Eu o quê?
Pedro: Então… Que bom que a gente tá aqui, juntos…
Lia: Que bom mesmo. Aliás, esqueci de postar que eu tô aqui… Só um instantinho (volta a digitar) Pronto. (tempo. sorriso amarelo) Mas e aí? Fala.
Pedro: Ah, então é…Você tá bonita hoje.
Lia: Você acha?
Pedro: Acho.
Lia: Acha mesmo?
Pedro: Acho.
Lia: (Entrega seu Iphone para ele) Tira uma foto.
Pedro: Oi?
Lia: Tira uma foto.
Pedro: Nós dois? Já? Não tá muito cedo?
Lia: Minha. Uma foto minha. Só minha. Vai
Pedro: Ah… Tá… (ele tira) Pronto.
(ela pega o Iphone)
Lia: Nossa ficou ótima. Eu tô linda mesmo, você tem razão. Vou colocar no meu perfil agora.
Pedro: Agora?
Lia: É rapidinho. (Ela volta a se ocupar com o Iphone. Ele vai ficando puto) Pronto, agora fala logo.
Pedro: Fala logo o quê?
Lia: Que você tá a fim de mim, né?
Pedro: (tempo) Oi?
Lia: É óbvio né, Pedro.
Pedro: Óbvio?
Lia: É só reparar no jeito que você me mandou aquela mensagem: “vamos marcar algo?”, todo formalzinho. Você colocou toda a sua ansiedade nessas palavras, deu pra sentir. Eu imagino que você deve ter ficado horas pensando a melhor maneira de escrever isso. Eu sei, eu conheço, eu tô antenada com essas coisas.
(Tempo. Pedro assustado)
Lia: Mas eu topo.
Pedro: Topa?
Lia: Topo.
Pedro: Oba! (pausa) Topa o quê?
Lia: Topo ficar com você. Vamos beijar? (ela avança pata beija-lo ele se afasta)
Pedro: Calma aí. Assim tão rápido?
Lia: Ué, por que não?Você tá a fim, eu tô afim.
Pedro: Eu sei mas… vamos pedir alguma coisa. Você bebe alguma coisa?
Lia: A gente não pode pular essa etapa? Hoje em dia não dá pra gente ficar perdendo tempo com essas coisas não, Pedro. O tempo voa. Vem cá. (ela avança pra dar um beijo nele e ele se afasta)
Iiiih… que foi?
Pedro: Não é nada, Lia. Eu ate quero te beijar, claro que eu quero, mas é que eu pensei que a gente ia (busca as palavras) ia… sei lá! Rola uma gradação pra essas coisas, não é assim: pá !
Lia: (tempo) “Pá”? Olha, Pedro, então não vai dar. Eu marquei uma conferencia em alguns minutos.
Pedro: Conferencia? Que conferencia?
Lia: Eu marquei uma conferencia na web com a Nanda e Carlinhos. ( toca o despertador do telefone) Iiih! É agora!
Pedro: Agora? Pra quê?
Lia: Pra gente falar do futuro da nossa amizade.
Pedro: Mas e a gente?
Lia: Se quiser a gente também pode marcar uma web conferência.
Pedro: Não, peraí, espera aí, peraí. Vamos beijar, vamos beijar. (ele tenta beijá-la. Ela se afasta)
Lia: Agora não rola, né Pedro? Perdeu a oportunidade. Eu não posso decepcioná-los. Eles estão me esperando.
(se concentra, digitando)
Pedro: Quer saber? Desisto. Cansei. Impossível. Impossível!
Lia: (digitando) Certo.
Pedro: Certo o quê?
Lia: (digitando) Isso.
Pedro:Isso? Você é uma louca! Completamente louca!
Lia: (digitando)Concordo.
Pedro: Concorda, né? Claro que você concorda!
Lia: É. Com certeza!
Pedro: Você me irrita! Me irrita muito!
Lia: (digitando) Sem problemas.
Pedro: Sem problemas nada. Olha pra mim, garota! Fala comigo, eu tô falando com você!
Lia: (digitando) Claro!
Pedro: Claro? Você vai ver só o que é claro.
(Plano imaginário. Ele muito irritado, parece virar o incrível Hulk, a empurra, pega seu Iphone e quebra. Ela fica assustadíssima e começa a chorar, então ele a enforca e ela morre. Ele ri como bruxa de desenho animado. Fim do plano imaginário. Pedro está ofegante tempo. ela olha pra ele. Ele ainda está sob o efeito da sua imaginação).
Lia: Você tá bem?
(tempo. Pedro avança na direção dela, como no plano imaginário, parecendo que vai estrangular ela, mas a beija. Depois de um tempo, se afasta. Ela fica sem ar.)
Lia: Uau!
Pedro: Tudo rápido, né? Sem tempo a perder! Eu entendi.
(a beija de novo. Ela fica enlouquecida. Ele Para)
Lia: Não para! Não para!
Pedro: (orgulhoso) Da onde veio esse pode vir muito mais coisas , baby.
Lia: Ai, sério?Eu quero, eu quero agora.
(ela avança nele. Ele se afasta)
Pedro:Espera!
Lia:por quê?
Pedro: você quer mais?
Lia: Quero, quero, quero!Vamos agora para o seu apartamento. Vem cá, me beija todinha.
Pedro: Então vai ter que escolher. Ou ele (aponta para o Iphone), ou eu.
(Lia olha para Pedro, olha para o Iphone repetida vezes)
Lia: Ou você, ou ele?
Pedro: Se quiser ir comigo, vai ter que deixar ele aí.
Lia: Aqui?
Pedro: Senão, me esquece.
(Suspense)
Lia: Você! Você! (ele se agarram.) Eu quero você!
(Toca o telefone. ela olha par ele)
Pedro: Esquece ele, esquece. Vambora. Vem.
Lia:Espera! (Lia fica em dúvida – suspense) Tá. Vambora.
(eles saem se agarrando. Ouvimos a voz dele fora do palco)
Lia (off) : Só um momentinho, gatinho. Eu preciso muito ir ao banheiro. Eu não vou aguentar a té chegar na sua casa.
Pedro: Vai, logo, então. Não demora.
Lia: É rápido;
(Lia volta no palco sozinha, olha para os lados, vê se ninguém tá vendo e pega seu Iphone )
Lia: (para o Iphone) Fica tranquilo, meu amor. Eu nunca vou conseguir te deixar. Você nunca vai me perder!
(Coloca o Iphone na bolsa e sai pelo outro lado. Passa um tempo, volta Pedro)
Pedro: Lia? (vê que ela tá longe. Fala para fora) Lia, volta aqui! (à plateia) Mulheres!
FIM.
Josí e o sexo – cap. 07
No capítulo anterior…
NAIR – Pensou que ia sair da minha vida assim, Jo-sí?
Nair joga um laço sobre Josí. O Homem ao lado de Nair, avança sobre Josí e, com desenvoltura, joga o rapaz sobre a carroça. Os transeuntes param pra ver. Nair e o Homem amarram Josí com a corda. O céu escurece. O mar se agita. Corvos circundam a cidade. O Homem chicoteia o cavalo. O cavalo relincha. Nair e o Homem saem com a carroça contornando a praça, levantando poeira, parecendo dois demônios.
CENA 1
JOSÍ ESTÁ DESACORDADO NO CHÃO DA CASA DE TANIA E HUGO.
TANIA – (CURIOSA, COM VOLÚPIA, PARA HUGO) Afinal, quem é esse rapaz?
HUGO – Josí.
TANIA – Josí de quem?
HUGO – Lembra da Josilene?
TANIA – Aquela que…
HUGO – Essa mesma. Sch!
JOSÍ ACORDA MUITO ASSUSTADO. SENTE DORES NA CABEÇA E NO CORPO.
JOSÍ – Claro que eu morri…(OLHANDO EM TORNO) Que sonhos horrorosos…Onde estou!?
TANIA – Vamos, Hugo. Ajude o rapaz!
HUGO – Sozinho?
TANIA – Não é homem, não?!
HUGO – A minha coluna, meu amor…
TANIA- Que vergonha, hein…
HUGO – Melhor chamar a ambulância, meu amor…ele pode ter se machucado…
TANIA – (FRIA) Que isso, querido? Fica na sua.
JOSÍ SE LEVANTA COM DIFICULDADE.
JOSÍ – Não precisa chamar a ambulância. Tô bem, gente… Já vou indo. Vou andando devagarinho…Obrigado pela ajuda.
HUGO – Não, Josí! Espera…
TANIA – Vai embora sem saber o que houve?
JOSÍ – O que houve?
TANIA – Você foi atropelado…
JOSÍ – Eu? Atropelado? Não me lembro. Quem fez isso?
HUGO – Nada demais… Um ciclista bateu em você na Pista de Passeio e capotou…
JOSÍ – E o que aconteceu com o ciclista?
TANIA – Ele está bem. Você é que não estava. Eu ouvi falar muito de…Josí.
JOSÍ – Alguém me leva daqui…
TANIA – Claro. Vamos, Hugo! Abrace o rapaz e o ajude a chegar no nosso banheiro…Ele precisa de um banho e desinfetar esses arranhões…
JOSÍ – Quem é você?
TANIA – Você não deve se lembrar de mim. São muitos anos. Venha.
HUGO – Essa é a minha mulher, Josí. Eu tinha falado dela pra você na Pista de passeio…
JOSÍ – Pista de passeio…Eu tava na pista de passeio…e…não me lembro de mais nada…Cadê minha câmera? Roubaram minha câmera!
HUGO – Tá aqui a sua câmera.
TANIA – Depois você pega sua câmera.
TANIA ESTENDE A MÃO PARA JOSÍ. JOSÍ SEGURA A MÃO DE TANIA.
CORTA PARA
CENA 2
VEMOS UM CLIPE DE IMAGENS DE JOSÍ NA CASA DE TANIA E HUGO: JOSÍ REPOUSA NA BANHEIRA DE TANIA. HUGO ESFREGA AS COSTAS DE JOSÍ NA BANHEIRA. TANIA COLOCA UVAS E AMEIXAS NA BOCA DE JOSÍ. TANIA SECA A CABEÇA E O ROSTO DE JOSÍ COM TOALHA FELPUDA. TANIA ABRE UMA CHAMPANHE E JOGA A BEBIDA EM JOSÍ E HUGO. HUGO ACENDE UM CHARUTO E SUFOCA TANIA COM A FUMAÇA.
CORTA PARA
CENA 3
JOSÍ TERMINA O BANHO.
JOSÍ – (PARA TANIA E HUGO) Tudo bem, gente. Agora vocês podem sair pra eu me vestir.
TANIA E HUGO SE OLHAM. SORRIEM. SAEM JUNTOS E ATRAPALHADOS.
CORTA PARA
CENA 4
JOSÍ, ENQUANTO SE ENXUGA, OLHA O ESPELHO.
JOSÍ – Que falta faz a minha câmera…(OLHA OS PRÓPRIOS OLHOS NO ESPELHO)
TANIA AO LADO DE FORA DO BANHEIRO FALA COM JOSÍ.
TANIA – Vamos jantar, Josí?
JOSÍ – Ah! Já vou.
CORTA PARA
CENA 5
SALA DE JANTAR DE HUGO E TANIA. JOSÍ JANTA COM ELES.
TANIA – Sente-se, por favor, Josí.
JOSÍ – Ah, obrigado.
TANIA MORDE UM PEDAÇO PEQUENÍSSIMO DE PEIXE. LIMPA O CANTO DO LÁBIO COM O GUARDANAPO RENDADO E FICA EM SILÊNCIO POR DOIS SEGUNDOS. JOSÍ SERVE-SE À VONTADE. ESTÁ FAMINTO.
TANIA – Você deve estar com fome.
JOSÍ – (COMENDO) Muita.
TANIA – O que aconteceu entre você e meu marido?
JOSÍ ENGASGA.
HUGO – Tania!!
JOSÍ – Não entendi.
TANIA – Ah, não? Vou ser mais clara. Você fez amor com meu marido? Sim, porque meu marido é incapaz de distinguir amor e sexo. Logo, eu presumo que vocês fizeram amor.
JOSÍ – Não fiz amor com seu marido e nem coisa nenhuma. Você é louca?
TANIA – Não, meu amor. Sou prática. Você fez amor com meu marido.
JOSÍ – Que eu saiba, não.
TANIA – Não foi isso que ele me disse. Assuma.
JOSÍ – Assumir? Não tenho nada pra assumir.
TANIA – Diga, meu bem.
JOSÍ – (ENFURECIDO) Vocês me trouxeram aqui pra quê?!
TANIA – Calma. Não precisa ficar nervoso. Vou ser mais clara. Eu e meu marido não estamos nos entendendo muito bem há algum tempo…Ele se sente muito abandonado. Eu, por minha vez, trabalho muito…
HUGO – Mas…Tania!
JOSÍ – (ALTERADO) Sinceramente, minha senhora! Todos aqui nessa cidade só pensam em sexo! E o mais interessante é que todos juram que fizeram sexo comigo…Eu já estou me sentindo um banheiro público!
TANIA – Afe. Estamos jantando. Por favor. Modere-se.
JOSÍ – Moderar? As pessoas me perseguem, me ameaçam! Uma diz que me ama e que vai destruir minha vida se eu não sentir amor por ela, a outra não entende o que ela sente quando me vê e fica me pedindo que eu abaixe as calças toda hora…Agora o outro tá dizendo que fez amor comigo!
TANIA – E abaixou?
JOSÍ – O que?
TANIA – As calças.
JOSÍ – Mas claro que não!
TANIA – Mas por que não? Qual o problema?
JOSÍ – Qual o problema? Eu é que pergunto qual o problema de vocês. Eu não fiz sexo com seu marido e nem com qualquer pessoa dessa cidade!
TANIA – Não é o que dizem.
JOSÍ – Estão loucos!
TANIA – Todos querem você, Josí.
HUGO – É mais do que isso. As pessoas precisam de você. Estão sentindo amor de verdade por você, Josí.
TANIA – Inclusive você, não é, meu amor?
JOSÍ – Mas isso é um absurdo! Eu não toquei em ninguém, nem cheguei perto dessas pessoas. Essa gente está criando histórias, inventando coisas…
HUGO – É que as pessoas são muito sozinhas, rapaz. Basta chegar qualquer alguém que as olhe diferente, que as trate com afeto que elas se entregam fácil…
JOSÍ – Não! Não mesmo. Eu não fiz nada. Eu não tive nada com ninguém!!
TANIA – Isso é o que você diz…
JOSÍ – Tá achando que estou mentindo? Tá pensando o que?
TANIA – E se você não lembrar que teve mais intimidade com essa gente?
JOSÍ – Como assim “não lembrar”?
TANIA – Você é bipolar?
JOSÍ – Claro que não!
TANIA – Você se considera homem ou mulher?
JOSÍ – Que saco!
TANIA – Você se considera as duas coisas?
JOSÍ – Estupor!
TANIA – Defina-se.
HUGO – Josí, você é a coisa mais incrível do nosso tempo!
TANIA – Você tem útero?
HUGO – Já foi casado?
TANIA – Quem sente mais prazer, o homem ou a mulher?
HUGO – Estou apaixonado por sua figura.
TANIA – Já achou o seu ponto G?
HUGO – Fique um tempo conosco.
TANIA – Precisamos de você, Josí.
SILÊNCIO SEPULCRAL. JOSÍ DESMAIA.
TANIA – Rapaz frágil, não, meu amor?
HUGO – Me atrai muito a fragilidade das pessoas.
Fim do sétimo capítulo.
até breve!
Josí e o sexo – segundo capítulo
No capítulo anterior…
No quintal da casa de Nair…
JOSÍ – Sou eu, Nair.
NAIR – Josí foi o menino que nasceu sem “pirú”! Nasceu com uma vagina! Uma perfeição de vagina!
Só Nair teria coragem de baixar a sunga de Josí agressivamente para conferir. Sim. Era ele. Era Josí. Trinta anos depois.
Vemos Nair olhando perplexa uma vagina em um corpo de um homem. Era incrível. Era mesmo Josí.
NAIR – Ai, mamãe!
Ouça a música tema da história com Carmélia Alves.
CENA 1
Nair olha cirurgicamente a vagina de Josí.
NAIR – Mas é mesmo uma perfeição! Estou “estupefáquita”!
Josí, tímido, recoloca a sunga e se apressa para vestir toda a sua roupa.
JOSÍ – Para…
NAIR – (Com assombro) Josilene!
JOSÍ – Josinaldo.
NAIR – (Nervosa) E eu que pensava que quando você crescesse, ia crescer um “pirú” junto! Como eu pude acreditar nisso! Você era uma menininha! E por onde você andou esse tempo todo?! Eu pensei que você tinha morrido, sumido no vácuo…Como você conseguiu virar esse homão? Você nasceu mulher…Mas que coisa horrível! Deus não existe! Deus não existe, meu Deus! Como isso pode acontecer!?
JOSÍ – Deus existe, sim, querida. E é homem e é mulher ou um e outro conforme a conveniência. E por que eu haveria de morrer?
NAIR – (Catatônica) Bom…todo mundo morre um dia…(Muda o tom) Meu Deus, que vergonha! Que vergonha! Imagina eu tendo relações com uma mulher…
JOSÍ – Não sou mulher, Nair.
NAIR – Mas também não pode dizer que é homem! (Pausa. Autoritária.) Tira a roupa.
JOSÍ – Que?
NAIR – Quero ver de novo.
CORTA PARA
CENA 2
Essa cidadezinha parece mesmo um caminho sinuoso feito por ratos. Uma cidade com estrutura curvilínea como os seios das mulheres. Ruas que levam a todos os lugares. Tudo plano. Sem nenhuma ladeira. Onde os passos caminham sempre em direção às portas e janelas. E as portas e as janelas são como esconderijos, grutas, buracos feitos por seres escavadores. Ao atravessar as soleiras desses buracos, estão eles. Cada um deles. Eles.
CORTA PARA
CENA 3
O sino da Igreja da praça toca bem alto às seis. Ali todos estão ao sair do trabalho, da Igreja, dos bares, dos supermercados ou simplesmente a passear. Toda aquela gente em massa. Com atitudes e desejos em massa. Trocando cumprimentos em massa. Todos são distintos demais, quietos demais. E obtusos. E parvos. E plúmbeos. A noite cai devagar. Os carros andam com dificuldade pelo meio da multidão que ocupa desenfreadamente o lugar mais amplo da cidade: a praça. Ali, todos parecem respirar melhor antes que o vento da hora chegue. Ali todos estão no calor e no cheiro dos outros. O cheiro dos outros.
CORTA PARA
CENA 4
Roberta está em seu carro estacionado. Uma mulher está com ela sentada no banco do carona. Ambas comem hot-dog. Roberta é uma mulher bem rechonchuda, branca, de estatura mediana, tem 39 anos, cabelos picotados com alguns fiapos brancos, seios avantajados, mas sempre disfarçados – não se sabe como. Usa óculos. É estrábica. A mulher que está com ela é Amanda. Uma bela negra que faz corar até um tolo jumento.
ROBERTA – “Vamo” rodar?
AMANDA – Pra onde?
ROBERTA – Rodar, filha…
AMANDA – Tá, mas qual o destino?
ROBERTA – No quilômetro 32 tem um motelzinho que tô louca pra ir.
AMANDA – É novo?
ROBERTA – Não. Namoro esse motel há algum tempo. Daqui a pouco a gente vai. Deixa o povo esvaziar a praça.
AMANDA – Quilômetro 32 é longe…e depois vai ficar tarde…
Toca o celular de Roberta.
ROBERTA – Aaaalôôn! Oi, chuchu. Oi? Não. Não. Tô saindo agora. Fiquei presa no hospital. Problemas, chuchu. Problemas. Tô indo pra casa. Tô morta. Só quero comida da mamãe e cama…Oi? Que isso, chuchu?! Você é a coisa mais linda que aconteceu na minha vida…Você é maravilhosa…Olha só, sabe aquele motel que te falei? Tá com uma promoção ótima. Vou te levar lá. Comprei aquele oleozinho que você me pediu. Tá ok? É…tô doida pra te pegar…você nem imagina…Sábado tô aí depois do almoço. Beijo na boca. De língua. Também te adoro. Tchau, chuchu. (Desliga o celular.)
AMANDA– Ela está desconfiada, hein…
ROBERTA – Tá nada. Relaxa. (Muda o tom) Já te falei que nunca vi pernas mais lindas que a tua? Benza-te deus, filha!
AMANDA – As duas são pra você.
ROBERTA – Opa! Então vamos! (Muda o tom) Você tá com dinheiro aí?
AMANDA – Acho que sim…
ROBERTA – É, porque eu tô lisa. Você paga e depois a gente vê isso…Meio a meio.
AMANDA – Tudo bem…
ROBERTA – Gostosa da mamãe…
Roberta prepara-se para arrancar com o carro.
CORTA PARA
CENA 5
Nair está na frente do carro de Roberta. Faz um escândalo ao vê-la. Nair está com Josí. Josí está com sua câmera filmando todo o movimento na praça.
NAIR – A salsicha tá boa, hein, Roberta! (Gargalhada histérica)
ROBERTA – Não fala isso de salsicha nem de brincadeira, Nair! Minha pressão já não anda boa!
NAIR – Olha, esse aqui é o Josí. Josí, esta aqui é a Roberta!
Josí cumprimenta Roberta filmando-a com sua câmera.
JOSÍ – Oi, Roberta.
ROBERTA – Vira essa câmara pra lá, bicho! Tá maluco! Que porra é essa? Quem é esse “viado”, Nair?
Roberta, nervosa, sai do carro.
JOSÍ – Desculpe.
ROBERTA – Pô, cara! Sem noção. Te dei autorização da minha imagem?
NAIR – Calma, Roberta! Ele já desligou a câmera! Calma!
ROBERTA – Olha só, meu chapa, não gosto disso não, hein! Tu é muito do abusado!
NAIR – Já falei que ele já desligou, Roberta! Para de ser barraqueira!
AMANDA – (Saindo do carro) “Vambora”, Rô! Eu fico nervosa com essas coisas! “Vambora”!
ROBERTA – Calma aí, preta…Fica nervosa, não. Mas esse sujeito tem que aprender a ser homem!
JOSÍ – Desculpa…já pedi desculpas…É que eu…
Roberta acerta um soco na cara de Josí. Josí cai desacordado. Confusão geral. Nair grita desesperada, Amanda se afasta correndo com medo assim que percebe que as pessoas começam a se aproximar.
NAIR – Olha o que você fez! Ele desmaiou! Detesto violência!!
Nair com fortes unhas agarra nos cabelos de Roberta. Roberta grita. Pessoas se aproximam assustadas.
ROBERTA – Ai, porra! Me larga! Tu vai me deixar careca, sua maluca!
NAIR – Quero ver você bater em mim! Anda! Bate! Quero ver!
ROBERTA – Me larga, Nair! Tu sabe que eu não bato em mulher!
Nair larga Roberta.
NAIR – (Para todos) E vocês? Tão olhando o que? Hein? (Dando uns tapas no rosto de Josí) Acorda, Josí! Acorda!
O vento frio habitual daquelas horas começa a soprar ficando cada vez mais forte. Os fios e as gambiarras se embalançam. Algumas lâmpadas estouram como fogos de artifício das noites da Aleluia. O sino da Igreja toca novamente. É o sinal pra que todos se recolham em suas “tocas”. A praça vai rapidamente esvaziando. Josí acorda sem entender o que aconteceu. Nair ajuda Josí a se levantar. Nair se apressa.
ROBERTA – Tudo bem, gata! Eu errei. “Vamo” logo sair daqui. Vai começar a tempestade. Entra no carro, vou levar vocês!
NAIR – Cadê a garota que tava aí com você?
ROBERTA – Schhh! Relaxa. Depois eu amanso a onça.
Os três entram no carro.
CORTA PARA
CENA 6
Roberta dirige o seu Uno branco e velho pelas ruas já desertas da cidade. Parece madrugada, mas não é. É que o medo quase sempre faz pensar que é madrugada. Os papéis voam loucos pelo ar. O vento sopra forte. Vê-se que Josí, no banco detrás, ainda não se recuperou do soco de Roberta. Josí sangra na boca e tenta ligar sua camera. Nair vai à frente com a motorista.
NAIR – Você tá muito lerda! Acelera isso!
ROBERTA – Se acalma, Nair…
O carro engasga e enguiça.
NAIR – Isso é brincadeira comigo!
ROBERTA – Ai-meu-Deus-ai-meu-Deus! É hoje!
Roberta tenta ligar o carro.
NAIR – Não fica nervosa que eu fico também!
ROBERTA – E não é pra ficar?!
NAIR – Você tá com medo?
ROBERTA – Não. Só tô apavorada! Vamos empurrar que ele pega!
NAIR – Ai!
ROBERTA – (Para Josí) Hei, meu brother, dá uma mão aqui rápido!
Os três saem do carro. Um névoa cobre o chão. O silêncio nas ruas é sepulcral.
JOSÍ – Cadê todo mundo, hein?
ROBERTA – Cala a boca, bicho! Empurra! Anda!
Eles ouvem gritos e gargalhadas. O Suor de Roberta escorre frio nas têmporas.
ROBERTA – Vou ligar o carro! Empurra, gente!
Eles continuam ouvindo os gritos e gargalhadas que se aproximam.
NAIR – Pegou! Entra, Josilene! Entra no carro! Corre!
JOSÍ – Que está acontecendo, hein?
De dentro do carro, eles veem uma turma de rapazotes pulando, correndo, zoando.
ROBERTA – Olha isso…
NAIR – Aquele ali não é Thiago, filho da Tania?
ROBERTA – (Olhando os rapazotes) Meu Senhor, nunca vi tanta bichinha junta…de onde surgiram?
Roberta grita da janela do carro.
ROBERTA – Vão pra casa, suas frescas! Olha a tempestade!
Os rapazolas gritam e xingam Roberta. Roberta arranca com o carro. Os rapazes fazem mais alvoroço.
CORTA PARA
CENA 7
Casa de Nair. Josí, Roberta e Nair estão na sala. Fábio Júnior, o cão de Nair, agarra na perna de Roberta e não larga. Josí tenta ligar sua câmera.
ROBERTA – Sai, nojento! Sai! Sai!
NAIR – Não fala assim com o amor da mamãe! (Para Fábio Júnior) Não é, amor da mamãe? Hein!?
ROBERTA – Esse cachorro é tarado igual a você, Nair.
JOSÍ – Minha câmera precisa de conserto. E eu preciso de uma pedra de gelo.
NAIR – Pode pegar, Josilene. Vai lá.
JOSÍ – Josinaldo.
NAIR – Ah. Josinaldo.
Josí vai até a cozinha.
ROBERTA – Por que você chama ele de Josilene? (Para Josí) Tu é bicha, né, bicha?(Gargalha)
NAIR – E ele por acaso tem cara de bicha?
ROBERTA – Bicha não tem mais cara.
NAIR – Tem sim. Você não viu o menino? O Thiago, filho da Tania?
ROBERTA – Jamais um homem vai conseguir ser uma mulher…pode operar e o escambau! Não adianta! Mulher é bicho raro…não tem coisa mais perfeita…Por mim o mundo era feito só de mulheres! Um mundo de guerreiras Amazonas!
NAIR – Hummm.
ROBERTA – Nem tanto guerreiras. Gosto de mulher calminha. Passiva…
NAIR – Otária.
ROBERTA – Otária, não. Cínica, talvez.
NAIR – Ainda bem que nunca fui da tua laia.
ROBERTA – Deixa de ser burra, Nair…tu não sabe o que tá perdendo…
NAIR – Para hein.
ROBERTA – (Dando uma risadinha marota) Quando tu quiseres, é só falar. Estou em riste.
NAIR – (Gargalha escandalosa) Em riste? Faz-me rir, Roberta! Jamais você terá um “pênis” se é o que deseja.
ROBERTA – Eu já tenho, meu amor. Está aqui ó (Aponta a própria cabeça). Está tudo aqui. O que você acredita que é, você é.
Josí volta da cozinha. Nair começa a trancar a casa toda. Fecha janelas, cortinas, portas. Coloca todas as trancas inimagináveis na porta principal.
JOSÍ – (Meio irritado, para Roberta) Olha, rapaz, não sei qual o prazer que você teve em me dar esse soco!
ROBERTA – Olha, foi mal. Gostei de você. Na hora fiquei meio irritada, confesso. Esse negócio de câmera na minha cara…isso não dá certo, não. Eu sou muito discreta…sabe qual é?
JOSÍ – Sei.
ROBERTA – É só pegar leve comigo. (Muda o tom) Mas diz aí. Tu é bicha?
JOSÍ – Que diferença faz?
ROBERTA – Toda, meu amigo. Toda.
NAIR – Ih, que conversa nojenta, hein! Meu marido tá em casa! Querem parar?!
JOSÍ – Nair, por que você está trancando a casa desse jeito? Ainda não são nem nove da noite!
ROBERTA – Ai, meu Deus, como é que eu vou embora…?
NAIR – Você não é louca de sair com esse vento! Fica por aí, Roberta!
JOSÍ – O que vocês tem? O que acontece que todo mundo tem medo de vento!?
NAIR – Eu tenho.
ROBERTA – Eu também.
O vento assobia. A luz pisca até que…acaba. Escuro total.
ROBERTA e NAIR – AI!MEU DEUS!
JOSÌ – Que houve?!
NAIR – Eu tenho tanto medo de morrer!
ROBERTA – Eu também!
Josí vê o vulto de uma pessoa próximo à porta. Caminha um pouco tentando distinguir.
NAIR – Vai aonde, Josilene!? Fica aqui!
ROBERTA – Volta, Josilene!
Josí para. Parece reconhecer o vulto.
JOSÍ – Vovó? É a Senhora?
Os rostos de Nair e Roberta iluminam-se de terror.
Ouça a música tema dessa história com Bibi Ferreira.
Fim do segundo capítulo
Até a próxima sexta!
O homem morto e a violoncelista
A vida para ele era uma verdadeira queda para a escuridão. Era assim como ele se sentia: Numa queda para escuridão. De repente, nada mais fazia sentido. Como se as ondas que guiavam seu caminho congelassem no tempo, e para descongelá-las era preciso olhar profundamente para dentro, o que ele não consegui fazer. Então parou. Estagnou todas as suas expectativas em relação ao seu futuro. Ficou paralisado no presente, sentindo cada segundo escorrer de suas mãos, sem nada fazer, sem nada querer. Era um estado de conformidade. Simplesmente não sentia vontade nem de lutar, porque se o fizesse, entraria em contato com sua dor mais obscura, teria que ter a coragem mais brava dos homens para encarar suas escórias mais ocultas e vencê-las. Para quê? Se ele não sabia, não valeria a pena. Não que estivesse feliz. Isso ele não estava. Mas também não estava triste. Apenas estava, sem adjetivos . Não vale a pena dizer o que o fez ficar assim. A vida rege cada ser humano entre curvas misteriosas que nem todos são capazes de decifrá-las. Não importava. O que deixou assim não foi algo específico. Talvez uma conjuntura de acontecimentos, todos eles bem pequenos e cheio de detalhes, que unidos, viraram um universo no vazio. Ele assim foi ficando sem questionar e sem impedir. Assim foi, se afastando de sua luz, sem saber que se afastava. E um dia ele já não. Conseguia entender tudo. Isso ele nunca deixou de ter: a consciência sobre todas as coisas. O bem e o mal humano: A consciência. Resolveu acatar o que lhe sucedia, sem nunca deixar de entender. Se assim sua vida quis, assim tinha de ser. Morreu em vida e não permitiu enterro nem dor.
Uma noite, sem planejar, porque sua morte em vida não permitia o controle do tempo, andava desinteressado pela Cinelândia. Apesar de morto, não pôde deixar de perceber o forte movimento de pessoas na porta do Theatro Municipal. Lembrou que na época em que era um homem cheio de vida, uma de suas maiores alegrias era ver os concertos que o teatro oferecia. Era a sua melhor época. Procurava entrar em qualquer concerto que fosse. O poder inebriante da música o deixava verdadeiramente feliz, uma felicidade sem condições impostas, a felicidade plena. Um micro movimento corporal fez vibrarem suas veias e, como se tivesse recebido uma pequena descarga elétrica , sentiu suas células mortas mexerem em seu corpo. O que podia ser? A lembrança dessa época sem cobranças, ou a ideia de ouvir um concerto novamente, coisa que não fazia desde que morrera consciente?
Pela primeira vez sentiu como se lhe passassem a perna. Pela primeira vez não conseguiu entender o que estava acontecendo. Para onde foi a consciência de todas as coisas? Da onde vinha aquela sensação e por que ela vinha com tanta intensidade? Não queria nada. Não esperava nada. Apenas sentia, e sentir, em sua atual condição, era algo mais que forte e algo forte o assustava, não queria lidar com isso, não podia. Virou as costas para o Municipal e entrou no buraco do metrô, na caverna acolhedora da solidão, na sua gruta interna, assim era mais fácil e assim ele queria. Partiu dali, com medo de reviver qualquer coisa.
Ele nunca havia chorado. Nem quando perdeu seu maior amor, por puro descuido, ou imaturidade. Não chorou nem quando percebeu que foi por isso que perdeu seu amor. Não chorou. Talvez sua morte em vida fosse um castigo por não ter chorado. Não que fosse insensível. Ao contrário. Gostava das coisas mais peculiares da vida e dava valor a elas. Como um olhar de um vira-lata, um bebê sorrindo, a pipa no alto fazendo piruetas, o barquinho ao longe parecendo um quadro. Contemplava cada pequeno detalhe como se! Mas não chorou nem por um segundo. Um dia ele tentou chorar. Lembrou de seu falecido pai, quando criança, e o quanto o amava. Mas em vão. Falhou. E nunca mais tentou. Nem tentou tentar.
Agora ele estava descendo as escadas do metrô, fugindo, mais uma vez, de qualquer coisa que…
Até que pudesse acontecer algo que… Até que… Aconteceu!
Ele a viu. Uma mulher. Uma mulher correndo. Uma mulher correndo de vestido. Uma mulher correndo, de vestido, com cabelos avelã. Uma mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã e olhos castanhos. Uma mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando algo. O quê? Sim! Uma mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo? Era isso? Uma mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo! Um violoncelo! “Ah, dor, por que chegas com tanta intensidade no meu peito frágil e me empurras de volta às rodas de som da vida?” Uma mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo, no metrô! Uma facada na alma. Haveria de pensar: entrar ou não no trem? Porque entrar no trem seria dizer não à mulher, correndo, de vestido , com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo. Certamente ela iria tocar. Precisava pensar e… cadê? Aonde foi? Cadê a mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo? Aonde foi? Será que o pensamento demanda tanto tempo a ponto de perder uma mulher, correndo, de vestido , com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo, de vista? Não!! Teria ter que tomar uma atitude! Mas estava tão neutro e assim era tão bom… Não! Tentou lembrar o que o fizera andar sem rumo na Cinelândia. Não teve resposta. Andava sem rumo em todos os cantos sem motivo. O trem chegou. Entrar ou não? Que saco! Há tanto tempo não sentia isso que se chama escolha. Olhou para trás novamente. A viu. Estava saindo do meio de um grupo de pessoas, com pressa, segurando o violoncelo e os cabelos… ah! Escolha? Não teve escolha. Foi. Atrás da mulher, correndo, de vestido com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo. Subiu novamente as escadas do metrô de volta ao mundo, quem sabe de volta à luz. A mulher se dirigia aos fundos do teatro. Mais uma vez sentiu espasmos de vida e se assustou. Seu corpo tremeu. A mulher entrou no teatro e ele sabia que não o deixariam entrar pelos fundos sem se apresentar: “Boa noite eu sou um homem morto e só estou atrás daquela mulher, correndo, de vestido , com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo” . Não iriam deixar.
Teve que entrar pela frente e, para isso, foi preciso comprar o ingresso. Comprar o ingresso: ato social de quem vive em comunidade e se adéqua a ela. Há quanto tempo não fazia isso? Comprar um ingresso de um concerto, ou de qualquer outra coisa. Sem motivação, a única coisa que se pode fazer é economizar. Pagou. Entrou. Quanto medo. Quanta angústia. Era preciso desistir. Que loucura. Sou um homem morto. Aliás, não sou homem. Sou um morto. Aliás, não sou. Aliás, não. Desistiu. Nem ia pedir o dinheiro de volta. Pra quê passar por isso? Mais contato humano desnecessário. Virou-se. Esqueceu da mulher, correndo, de vestido , com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo. Ainda bem! Ainda bem! Não quero, não posso, não deixo. Não! Ia sair quando tocou o terceiro sinal e ouviu uma curta nota que vinha de um violoncelo afinando. Lembrou da mulher, correndo, de vestido, com cabelos avelã, olhos castanhos e segurando um violoncelo. Era por isso que estava ali, sem compreender, pela primeira vez, o que lhe acontecia. Era por causa dela que correra, que comprara o ingresso, que entrara naquele teatro, palco de suas maiores aventuras emocionais e que ele mesmo deixou o tempo imperfeito ofuscar. Era só por isso e isso não era só. Respirou fundo. Respirou fundo. Respirou fundo. Fundo. Fun…do…. uma sensação estranha. Seu corpo já estava tão acostumado a inércia que, respirar fundo, era o mesmo que correr 40 quilômetros de uma vez, sem nunca ter feito exercício. Quase se sufocou ao sentir o ar do teatro entrando por seus tímidos pulmões sedentários. Respirou fundo e entrou de uma vez …
Apesar de ter entrado num concerto de música clássica, era como se estivesse num musical com as músicas do Cole Porter.
O mundo entrou em suspensão e pela primeira vez, depois de muito e muito tempo, sentiu seu coração bater de verdade, sentiu cada pontada da batida como um chamado da alma para algum lugar, quem sabe, algum lugar além do… Sentou em uma cadeira qualquer e foi além. A solidão, que até então não se fazia presente, o golpeou de tal jeito, que ele não conseguia se manter parado na cadeira. Sentiu ela o penetrar tão intensamente que por algum segundo percebeu sua morte de outro ponto de vista e quase gritou no meio do teatro. Um grito de socorro, de ajuda . Se ali parecia um sonho, na verdade, era nada mais que um acordar para … Então ela começou. A violoncelista que todo mundo já conhece, de vestido e etc…
Ao vê-la, quase urrou. Não de entusiamos mas de dor. Uma dor que ele nunca pensou que sentiria. A dor que a sala da emergência do hospital mais equipado da cidade é incapaz de identificar, a dor mais mais interna, adormecida, que um dia acorda e não deixa ninguém ileso.
Por que, então, não fugir dali imediatamente e retornar à escuridão confortável da inércia? Mas agora? Seria isso possível? Fechou os olhos e se imaginou dançando uma música lenta com uma menina da adolescência que era apaixonado, a sensação de desespero que era dançar colado com alguém , calculando a melhor hora de agir, sem saber o que fazer. Se imaginou pisando, autista, na grama do jardim de seus avós e observando o dia dar lugar a noite naquele mesmo jardim cheio de segredos seus. Imaginou um filme do Jerry Lewis, o quanto amava e quanto gargalhava com ele na infância, e até mesmo há algum tempo atrás antes de morrer. Ousou sentir saudades. Ousou sentir.
A violoncelista começou a tocar os primeiros acordes do Prelude de Bach. Agora seu coração palpitava, espasmos acelerado, a sensação forte de vida o fazia acreditar que ia morrer de verdade. Uma ataque fulminante do coração, não ia aguentar. O homem morto ia deixar o corpo. Viu o teatro de cabeça para baixo, viu sua vida indo embora, o coração acelerado não dava tréguas. Um golpe certeiro, agora tinha certeza, passaram-lhe a perna, planejaram contra ele, quiserem que ele chegasse naquele momento, sentisse a dor de viver e morresse de vez, sem ladainhas. E assim ele estava, morrendo em morte, na frente da violoncelista que o hipnotizara até ali. Amaldiçoou-a por dentro. Em seu delírio de morte, o Prelude de Bach se transformou em Night and Day do Cole Porter cantado por Ella Fitzgerald e ele estava sapateando com a violoncelista nas nuvens alaranjadas do cenário de Hollywood.
Abriu os olhos e ela estava olhando para ele, ou parecia que estava, olhando para ele, como se adivinhasse a sua dor, como quem quer dizer: “Eu sei tudo o que está acontecendo com você e não vou aliviar nada.”
Porque ela o olhava e … Sorria? Ela sorria. Sim, ela sorria para ele. Que ego dizer que era para ele. Ela simplesmente sorria. Mas para ele, ela sorria para ele e, dane-se o ego. Era sim para ele. Já não bastava apenas tocar os acordes que acordam sua alma e ainda tinha que sorrir? Se ainda não tinha morrido do coração, agora era questão de segundos. O sorriso dela o fez sentir tristeza, tanta tristeza, tanta, tanta, tanta. O obrigou a ser triste porque não podia ser feliz. Mas o que é a felicidade se não uma grande tristeza disfarçada de alegria? A voz de Ella, ainda se fazia presente em sua mente. Era Ella cantando Porter e a violoncelista tocando Bach num quarteto inesquecível.
Ela olhava para ele. Ela o sentia. Ela o percebia e talvez por isso sorria.
De repente, o homem morto era o único vivo naquele teatro. Ele tremia com a música, ele respirava alto, ele sentia espamos, ele… ele… ele chorava!!! O homem morto chorou pela primeira vez. Um homem morto chorou. Lágrimas caiam em enxurradas mais fortes que uma tromba d´gua no fim do verão . As pedras do seu rio eram levadas pela água e nada, nada, nada, o faria parar naquele momento. As pedras que o travaram, agora eram obrigadas a rolar. O poder do choro vai muito mais além. Chorava com a violoncelista linda e maldita que o fez chorar pela primeira vez. Chorava de pêsames pela sua morte em vida e chorava porque o choro ainda não significava que voltaria a viver, apenas chorava. Chorava de dor pela sua solidão há tanto ignorada e que agora era maior que qualquer coisa que pudesse imaginar. Chorava pela sua existência, pela existência alheia e chorava também de felicidade por sentir seu choro pela primeira vez. Chorava e chorava porque estava ali chorando. Agora já não tinha mais a consciência de nada. Agora ele era um ser perdido em seu choro e talvez seria apenas por isso que era capaz de ser. Talvez soubesse no íntimo que a sua morte o mudara a partir daquele momento e conviver consigo mesmo seria um futuro em transtorno. Sabia que não poderia voltar a morrer, mas também não sabia se volatria a viver. Chorava. E rezava para não parar de chorar. Algumas pessoas do teatro, talvez as mais sensíveis, o perceberam chorando e até compartilharam um pouco desse choro por causa do efeito da música, mas jamais saberiam o que de verdade o fazia chorar.
A violoncelista não parava de sorrir, como se tivesse cumprido a sua missão. Não a de tocar lindamente como sempre fazia, mas de fazer um homem morto chorar.
Então agora ele já não ouvia Bach, nem Cole Porter, agora ele ouvia, e até poderia cantar uma música gospel de redenção. Levantaria daquela cadeira e soltaria um agudo vibrante como Stevie Wonder faria tão bem. Oh Lord!
E o choro não parava por nada e não pararia. O homem morto tem água por dentro! Agora ele era o melhor dançarino do Grupo Corpo, agora ele era.
A violoncelista fazia sua melhor performance. Agora ela estava genialmente virtuosa.
Então ele, como nunca fizera antes, resolveu olhar pra fora, com o canto dos olhos e se perguntou.
Por quê?
Porque, por que, por quê? Porque, porque…
FIM.
Ficção científica mexicana
Ficção Científica + Novela Mexicana = Ficção Científica Mexicana
Cena 01:
Deusimar – Eu sou a mulher mais feliz do mundo!
Elizeth – O que deu em você Deusimar?
Deusimar – Promete guardar segredo?
Elizeth – Prometo!
Deusimar – Você sabe que o Carlos Miguel é o meu galã favorito… Que eu sou apaixonada por ele e não perco um capítulo da novela…
Elizeth – A fã número um!
Deusimar – Quando eu encontro com ele na casa da minha patroa, minhas pernas ficam bambas!
Elizeth – Conta logo mulher!
Deusimar – Calma Elizeth! Então… Nos meus dias de folga, eu faço faxina na casa daquele cientista, lembra?
Elizeth – Sei. E daí?
Deusimar – Não é que o homem foi com a minha cara e fez um clone do Carlos Miguel só pra mim!
Elizeth – Jura? Não acredito!
Deusimar – Juro! Nós vamos nos casar!
Elizeth – Mas ele não é comprometido com sua patroa… a tal atriz Marcela Cruz… a Rainha da Televisa!
Deusimar – O meu Carlos Miguel é solteiro.
Elizeth – Dizem que ela é muito ciumenta…
Deusimar – Agora eu tenho um Carlos Miguel todinho meu! Programado para me amar incondicionalmente.
Elizeth – Você enlouqueceu?
(Entra Carlos Miguel com um buquê de flores. O galã se ajoelha aos pés de Deusimar)
C. Miguel – Deusimar, você é o grande amor da minha vida! O mundo fica perfeito contigo!
Deusimar – Quando se ama tudo fica mais bonito.
C. Miguel – Quero me casar com usted o mais rápido possível!
Deusimar – Jura que nunca vai me abandonar?
C. Miguel – Penso solamente em ti. Só em ti. Ninguém puede nos separar. O nosso amor vai durar por toda a eternidade. Estou perdidamente apaixonado por usted!
(Deusimar e Carlos Miguel se beijam ardentemente. Elizeth está boquiaberta. Deusimar toda prosa)
Deusimar – Não te disse?
Elizeth – Nossa! É igualzinho!
Deusimar – Lindo!
Elizeth – Você pode me dar um autógrafo?
C. Miguel – Autógrafo? Não estou entendendo…
Deusimar – Cala a boca! Ele não sabe que é um ator famoso! Amor, essa é a minha amiga Elizeth.
Elizeth – Ooopppsss! Muito prazer.
C. Miguel – Engraçado. Ontem fui na padaria e aconteceu uma coisa muito estranha. Todo mundo ficou me olhando, sorrindo pra mim, me cumprimentando… Algumas pessoas me aplaudiram… uma mulher me agarrou e me beijou. O dono do estabelecimento disse que era meu fã e não me deixou pagar…
Deusimar – Eles devem ter te confundido com outra pessoa, amor.
Elizeth – Ele não sabe que é um astro da televisão…
Deusimar – Claro que não. Você acha que eu sou boba. Homem é tudo igual. Se ele souber que é rico e famoso pode querer me abandonar.
Elizeth – Ah! Entendi….
C. Miguel – Amor! Vamos ao cinema! Está passando um filme romântico que gostaria de assistir coladinho com você.
Deusimar – Um momento!
(Deusimar coloca óculos escuros, chapéu e cachecol em Carlos Miguel)
C. Miguel – Mas o que é isso?
Deusimar – Nós não vamos sair? Você tem que se proteger do sol. Sua pele é muito sensível.
Elizeth – E o cachecol?
Deusimar – Faz muito frio no cinema. O ar-condicionado é muito forte. Eu não quero que o meu amor pegue um resfriado.
C. Miguel – Eu te amo, Deusimar.
Deusimar – Eu também te amo, Carlos Miguel!
(Deusimar e Carlos Miguel se beijam)
Cena 02:
(Marcela aponta uma arma para Carlos Miguel)
Marcela – Canalha!
C. Miguel – O quê?
Marcela – Como você puede fazer isso comigo? Eu te amava, Carlos Miguel! Você, me trair com aquela…
C. Miguel – Do que você está hablando?
Marcela – Cínico! Cafajeste! Você não pode negar! Eu vi a sua foto na revista! Você e aquela vagabunda de mãos dadas no cinema!
C. Miguel – Deve haver algum engano, eu…
(Marcela dá três tiros em Carlos Miguel que cai mortalmente ferido)
Marcela – Meu Deus! Não! Eu matei! Carlos Miguel! Mi amor! Mi vida! Habla comigo! O que foi que eu fiz? E agora? O que vou fazer? Mujer destemperada dos infernos!
(Marcela acaricia o rosto do morto)
Marcela – Seus olhos se fecharam. Seus lábios se calaram. Jamais me beijarão. Calou-se a voz sorridente de tua boca amiga. Como é cruel o teu silêncio. Horrenda solidão. Espera-me no céu mi corazón. Espera que irei contigo ficar. Nuestro amor é major que a própria muerte.
(Marcela aponta a arma contra o seu próprio peito. Som de porta abrindo)
Marcela – Que barulho é esse? Quem será? Não! Ninguém pode te ver assim!
(Marcela tenta esconder o corpo. É necessário que outro ator esteja usando a mesma calça e os mesmos sapatos de Carlos Miguel. Marcela puxa o corpo de Carlos Miguel até a coxia, mas suas pernas ficam para fora. Num único movimento, Marcela empurra as pernas de Carlos Miguel para dentro da coxia, mas as pernas que voltam são a do outro ator)
Marcela – Não é possível! És teimoso até despueis de muerto!
(Carlos Miguel retorna pela outra coxia)
C. Miguel – Marcela!
Marcela – Carlos Miguel!
C. Miguel – Não. Eu não sou Carlos Miguel! Eu sou o clone de Carlos Miguel.
Marcela – O quê? Não! Não pode ser! Então… eu… Oh! Não! Que tragédia! Maldição!
C. Miguel – É brincadeira! Soi Jô! El verdadeiro Carlos Miguel! Eu estava brincando com usted! Não é engraçado? Fizeram o meu clone! A tonta da sua empregada e aquele cientista sem escrúpulos! O meu clone e a sua empregada vão se casar! Não é incrível? Já saiu em todas as revistas e jornais. Você não leu?
Marcela – Graças a Deus! Meu amor! Que bom que você está vivo! Eu te amo! Perdão! Perdão!
C. Miguel – Perdoar? Mas o que foi que você fez? É claro que eu estou vivo! Não estou entendendo… Marcela! Do que você está hablando? O que aconteceu? Diga-me pelo amor de Dios!
Marcela – Eu te matei!
C. Miguel – Como?
(Marcela mostra o cadáver)
C. Miguel – Meu Deus! É o meu clone!
Marcela – Quando vi a sua foto com a Deusimar na revista, eu fiquei descontrolada… com ciúmes e…
C. Miguel – Você me matou.
Marcela – Eu estava desesperada!
C. Miguel – Como teve coragem de me matar?
Marcela – Foi por amor! Eu te matei por amor! Perdão!
C. Miguel – Assassina!
Marcela – Eu estou perdida! Meu amor, por favor, me ajude! Eu não quero passar o resto dos meus dias na prisão!
C. Miguel – Que sensação horrível! Me ver assim… muerto!
Marcela – Perdão!
C. Miguel – Nós temos de ocultar esse cadáver. Mas e a sua empregada? Quando ela sentir falta dele… ela vai comunicar a policia!
Marcela – Eu tive uma idéia! Você vai até a casa da Deusimar e termina tudo com ela! Ela não vai desconfiar de nada! Você diz a ela que vai viajar pelo mundo e que não volta nunca mais!
C. Miguel – Pobrezinha…
Marcela – Você faz isso por mim? Nunca mais, entendeu? Diz pra ela que você não volta nunca mais!
Cena 03:
Deusimar – Meu amor! Que saudade! Tudo bem?
C. Miguel – Tudo.
Deusimar – Amor, acabei de chegar da costureira. O vestido é tão lindo! Não adianta que eu não vou te contar. O noivo não pode saber do vestido antes do casamento. Dá azar! Ah! Eu já hablei com el padre e está tudo cierto. A cerimônia será na Igreja de Santo Antonio como eu queria. É que eu fiz promessa pra ele. O casamento vai ser de manhã que é muito mais bonito. Você não acha? Os convites ficaram prontos. Já coloquei no correio. Convidei minhas amigas, minha família e todos os meus parentes. Já encomendei o bolo e o enxoval tá quase pronto!
C. Miguel – Deusimar, eu tenho uma coisa muito importante para te dizer. De hoje em diante, a minha vida não inclui mais você.
Deusimar – Que brincadeira é essa amor? Você está brincando, não é? Ah! Pára! Que brincadeira chata!
C. Miguel – Não é brincadeira. É a pura realidade. Estou indo embora. Vou partir. Para sempre!
Deusimar – E o nosso casamento?
C. Miguel – Não haverá mais casamento!
Deusimar – Mas… e os convidados? O vestido? A festa? Estava tudo indo tão bem… Você me disse que me amava.
C. Miguel – Eu não te amo mais!
Deusimar – E todas aquelas coisas lindas que você disse pra mim? Você disse que estava apaixonado!
C. Miguel -Primeiro me apaixono, depois me vingo!
(Deusimar se atira aos pés de Carlos Miguel)
Deusimar – Por favor, não me abandone! Eu imploro! Se você me deixar, eu morro! Eu desejaria morrer sem você!
C. Miguel – Já está decidido. É a minha palavra final. É melhor assim. Crea-me. Primeiro mando flores, depois a conta. Primeiro beijo docemente, depois arranco pedaços. Se me casar com usted vou transformar su vida num verdadeiro infierno. Vais comer el pão que o diablo amassou. Vou te abandonar na porta da igreja. Nosso filho, não vou assumir. Vou reclamar da sua comida e gastar todo o seu dinero. Nas madrugadas, suas lágrimas inundarão seu quarto vazio e frio. Sua cama boiará. Tu, solitária, abraçada ao travesseiro, será um náufraga de lamor. Eu chegarei sempre bêbado com cheiro de perfume barato de prostitutas. Tu fingirás estar dormindo porque sempre que reclamas te parto la cara! E eu ainda vou morrer antes de ti para que sofras bastante no meu entierro.
Deusimar – Eu não entendo. Eu fiz alguma coisa de errado? O que você não gosta em mim? Eu posso mudar! Eu posso me corrigir! Eu te amo!
C. Miguel – Por favor… não torne as coisas mais difíceis.
Deusimar – Eu não posso acreditar. Tudo estava indo tão bem. Quantas noites eu sonhei contigo, acariciando o seu rosto na televisão, te esperando… um dia você apareceu e eu me tornei a mulher mais feliz do mundo. E agora você… Carlos Miguel! No meu quarto tem o seu retrato espalhado por todas as paredes! Uma vez eu escrevi uma carta pra você… passei dias e dias, mês após mês, escrevendo… Eu te amo, eu te amo… Fiquei com calo nas mãos de tanto escrever… A carta ficou tão grande que tive que pedir ajuda para levar no correio. Você se lembra desta carta? Lembra? Por quê você não respondeu? Eu escrevi ‘eu te amo’ um milhão, trezentos e vinte e três mil, quinhentas e sete vezes. Não existe pessoa no mundo que ame mais você do que eu.
C. Miguel – Uma pergunta: Se me visses com outra mulher, tu seria capaz de matar-me?
Deusimar – Claro que não! Eu te amo!
(Carlos Miguel coloca uma arma na mão de Deusimar)
C. Miguel – Eu tenho outra.
(Deusimar aponta a arma para Carlos Miguel)
Deusimar – (jogando a arma para longe) Eu te amo!
C. Miguel -Se me amasse de verdade, você me mataria.
Deusimar – Você é um clone! Você me pertence! Você não pode me abandonar!
C. Miguel -Eu sei. Eu sou o clone de Carlos Miguel. E Carlos Miguel jamais de casaria com uma empregada doméstica. Adeus.
(Carlos Miguel vai embora. Deusimar pega a arma e aponta contra o próprio peito)
Deusimar – (cantarolando) Hei. Não creas que te guardo algum rancor. É sempre mais feliz quem mais amou. E este sempre fui jô.
(Deusimar aperta o gatilho. Som de tiro)
FIM
Trecho da peça Genética.
Amiga boa é lá do Acre
Personagens (por ordem de entrada):
Jonas
Fátima:amiga de Jonas
Patrícia: namorada de Jonas
(Jonas e Fátima estão sentados numa mesa de bar, numa conversa íntima. Chega Patrícia que os vê de longe e, sem graça, disfarçando um incômodo, se aproxima. Jonas e Patrícia riem e se divertem. Essa intimidade toda irrita Patrícia, que se controla para se aproximar dos dois.)
(Jonas e Fátima riem)
Patrícia: Oi.
(Jonas e Fátima riem muito entretidos.)
Patrícia: (mais alto) Oi!
(Finalmente, eles olham)
Jonas: Oi, meu amor! Que bom que você chegou. Olha, eu tenho um grande prazer em te apresentar, diretamente do Acre, a minha amigona Fatinha.
Patrícia: Ah! A tal amiga que foi morar no Acre! Oi. Fatinha ou Fátima?
Fátima: Fátima.
Jonas: Fatinha para os íntimos.
(Fátima e Jonas riem)
Patrícia: (disfarçando o ciúmes) Prazer.
Jonas: Senta aqui com a gente, claro. (eles sentam) A Fatinha tava me contando suas aventuras no Acre. Ela passou por cada coisa, né? Incrível.
Fátima: (ri) Ah! Para com isso!
Jonas: Deixa de ser humilde.
Patrícia: Você trabalha com quê?
Jonas: Eu já te disse! A Fatinha trabalha com assistência social para as populações carentes do Acre. Um trabalho sensacional. Se todo mundo fosse assim…
Fátima: Ah, para com isso Jonas. Que bobo.
Jonas: Ela tá tímida, mas é isso mesmo. Trabalho incrível. Eu tenho muito orgulho de te conhecer.
Fátima: Eu é que tenho muito orgulho de te conhecer.
(os dois dão as mãos e Pati tenta disfarçar a irritação)
Patrícia: E você vai voltar quando pro Acre?
Fátima: Na verdade isso é uma questão. Eu tô pensando em não voltar.
Patrícia: (disfarçando o incômodo) Mas por quê? Se é um trabalho tão incrível.
Fátima: Pois é. Eu já falei pro Jonas.
Patrícia: Falou o quê?
Fátima: Acho que eu fechei um ciclo. (olha para o Jonas) E tem outras coisas também.
Jonas: Olha, se precisar passar um tempo lá em casa até se restabelecer aqui, fica a vontade.
Patrícia: Na sua casa?
Jonas: Por que não? É perto do Centro, tem um quarto sobrando.
Patrícia: Não é o quarto em que você trabalha?
Jonas: (pegando na mão da Fatinha) É, mas pra Fatinha eu abro qualquer exceção.
Patrícia: Fica lá em casa!
Fátima: Oi?
Patrícia: Claro! Fica lá em casa. Imagina. Acho que com mulher ela pode se sentir mais a vontade, né meu amor?
Jonas: Não. Melhor ficar na minha casa.
Fátima: Tudo bem. É só uma possibilidade. Nem sei se eu vou poder sair do Acre agora.
Patrícia: Então fica no Acre! Pra resolver, né? Suas coisas. Quem sabe, você até não muda de ideia e nem volta mais pro Rio?
(Jonas ri)
Patrícia: Que foi?
Jonas: Isso eu acho que já vai ser um pouco difícil.
(Fátima e Jonas ri em cumplicidade)
Patrícia: Por quê?
(Eles riem)
Patrícia: (com muitas dificuldades para disfarçar seu ciúmes) Desculpa, eu perdi alguma coisa?
Fátima: Conta pra ela, Jô
Patrícia: Contar o quê? “Jô”.
Jonas: Não, conta você, Fatinha. A história é sua, conta você.
Fátima: Eu não. Morro de vergonha.
Patrícia: Pode contar. “Fatinha”.
Jonas: Tá, eu conto. É que a Fatinha… (ri) a Fatinha… (ri)
Patrícia: Fala!
Jonas: Tá querendo ir numa macumbeira.
Fátima: Não, não fala assim. Ela não é uma macumbeira. É uma espécie de feiticeira.
Jonas: Com esse nome? Mãe Cleide do Diabo? Tá mais pra bruxa. Ela disse que a tal da mulher faz encantamento, amarração pro ser amado só enxergar só ela. (mexendo em Fátima) Louqinha. Adoro você.
Fátima: (mexendo em Jonas) Não brinca assim.
Patrícia (disfarçando muito) É! Não brinca assim!
Fátima: É que, Patricia. Patricia, né?
Patrícia: É.
Fátima: Então Patrícia, é que eu to vivendo um grande dilema na minha vida, sabe? Tá muito difícil pra mim.
Patrícia: Que dilema?
Fátima: Bom, como o Jonas falou, eu devo tá louca mesmo. Eu to completamente apaixonada. Muito. Por alguém aqui do Rio mesmo.
Patrícia: (aliviada) Ah, agora eu entendi o real motivo de querer sair do Acre. Mas que bom! Tá apaixonada! Mas isso é ótimo. Que bom! Isso é maravilhoso.
Fátima: Mais ou menos. A pessoa tá comprometida.
Patrícia: (Volta a ficar tensa. Coloca, tentando ser discreta, sua mão na mão de Jonas) Comprometida?
Fátima: É.
Patrícia: E eu posso saber quem é?
Fátima: Desculpa. Eu prefiro não falar. Não é uma coisa simples.
Patrícia: (muito insegura) Não?
Fátima: É que pra essa pessoa eu sou apenas uma amiga. Uma amigona.
Patrícia: (muito insegura, quase sem mais conseguir se controlar) Amigona?
Jonas: Eu acho que você devia falar com essa pessoa.
Patrícia: Claro que não. Se tá comprometida!
Jonas: É, mas ela falando, a tal da pessoa pode, de repente, descobrir que gosta dela também.
Patrícia: Como assim de repente?
Jonas: Ué? De repente. O amor às vezes é tão efêmero. Às vezes a gente fica com alguém, mas na verdade gosta mesmo de outro alguém.
Patrícia: (muito insegura) É mesmo? (controla o choro)
Fátima: Eu não sei o que eu vou fazer. É tudo tão delicado.
Patrícia: Delicado? (quase sem controle) Olha aqui, “Fatinha… Eu… (Tempo. Nervosa, não consegue dizer)
Jonas: O que foi, meu amor?
Patrícia: (quase chorando) Eu tô percebendo tudo. Eu tô entendendo tudo.
Fátima: Jura? Você tá conseguindo me entender?
Jonas: Não disse que a Pati entenderia?
Fátima: Ai, que bom.
Patrícia: Você disse isso?
Jonas: (orgulhoso) Eu disse.
Patrícia: (Com falta de ar) Meu Deus! Você…Você está louca para ficar com…
Fátima: A Vandinha!
Patrícia: Oi?
Fátima: A Vandinha! Eu estou louquíssima por ela.
Patrícia: Vandinha?
Fátima: Que bom que você entendeu. Viu como é delicado? A Vandinha é uma amigona do colégio que eu reencontrei depois de 15 anos, agora nessas férias. Foi uma paixão fulminante,sabe? O pior que eu senti o mesmo da parte dela. Eu senti! Mesmo ela sendo comprometida com uma outra mulher. E eu tô desesperada. Eu acho que ela é o grande amor da minha vida. Ah, meu Deus. Só mesmo uma feiticeira. Por ela eu seria capaz de largar tudo, vir do Acre não seria nada. Por ela eu seria capaz até de morrer.
Jonas: Não fala assim, Fatinha. Assim você até me assusta.
Fátima: É o amor, Jo, amor! Assim como eu vejo o amor de vocês dois.
Patrícia: (confusa, mas extremamente feliz) Ai, que lindo! Eu tô toda arrepiada. (a abraça) Mas, olha. Fica tranquila. Eu vou te ajudar. Não precisa de feiticeira nenhuma. Eu vou te ajudar. Você vai ver. Você disse que ela sentiu o mesmo? Então vai ser moleza. (para Jonas) Nossa! Adorei a sua amiga, Jo. Jo, né? Gostei. Jo, meu amor. Até rimou. (ri) Que amiga especial! Jo, você tá certo. Vamos ajudar a Fatinha a se declarar para a Vandinha! De repente, ela sabendo, assume também essa paixão. Pra que encantamento se você tem os amigos?
Fátima: Ai, que fofa a sua namorada, Jo. Adorei! E com todo respeito, é linda também. Uma gata!
(Pati ri vaidosa. Jonas ri disfarçando um incômodo e pega na mão de Pati.)
Jonas: É. A MINHA gata.
(Pati ri vaidosa)
Patrícia: Que felicidade foi ter te conhecido. Como o Jo falou, uma mulher incrível. Vai dar tudo certo. Não é, meu amor?
Jonas: Claro! Sem dúvidas. Contando que você fique lá na MINHA casa se voltar mesmo pro Rio.
Patrícia: Isso! Fica na casa dele. Vai ser mesmo melhor pra você. Vai ter mais espaço. Isso só se você ainda não estiver morando com a Vandinha.
Fátima : (Para Jonas) Que bom poder contar com você. (para Pati) E agora com você. Amiga!
(Pega na mão dos dois)
Patrícia: Agora eu sei por que o Jô sempre fala a mesma coisa de você. Assino em baixo.
Fátima: É? E o que ele sempre fala?
Patrícia: Amiga boa, é lá do Acre! (ri alto)
(com a outra mão, pega na mão de Fatinha. Os três ficam entrelaçados)
FIM.
A síndrome da escova de dentes
(Beijo apaixonado de Léo e Patrícia.)
Patrícia: Léo, tá quase de manhã.
Léo: Hm… tá tão bom assim… (a beija)
Patrícia: É que, infelizmente, amanhã a gente trabalha.
Léo: Tem razão. Que pena, eu adoro ficar te beijando.
(Se beijam)
Patrícia: Eu vou escovar os dentes.
(Ela sai. Ele deita. Ela volta)
Patrícia: Ah! Comprei pra você. (mostra uma escova de dentes) Vou deixar no banheiro.
Léo: Uma escova de dentes?
Patrícia: É.
Léo: Pat, vem cá. Vamos conversar.
Patrícia: O quê?
Léo: Você não acha que tá bom do jeito que a gente tá?
Patrícia: Muito bom.
(Ela o beija, ele se esquiva)
Patrícia: Que foi?
Léo: Eu tô falando sério
Patrícia: Eu também.
Léo: Você não entendeu. Você comprou uma escova de dentes pra mim.
Patrícia: E daí?
Léo:E daí, Pat, que eu acho que a gente não precisa disso.
Patrícia: Escovar os dentes?
Léo: Não, Pat. Será que você não entende?
Patrícia: (tempo, fazendo um esforço para entender) O quê, Léo?
Léo: Pat, sabe o que significa isso, uma escova de dentes?
Patrícia: Bom, você não deve tá perguntando no sentido literal.
Léo: Claro que não.
Patrícia: Então não sei.
Léo: E eu pensando que com a gente seria diferente.
Patrícia: Léo, quer ser mais claro? Do que é que você tá falando?
Léo: Comprar uma escova de dentes pra mim significa comprar algo meu para deixar no seu apartamento.
Patrícia: E daí?
Léo: E daí? A gente não combinou que cada um não ia invadir o mundo do outro, que assim é que é bom?
Patrícia: Sim, mas o que uma escova de dentes tem a ver com isso?
Léo: Tudo! Uma escova de dentes é um símbolo muito forte, um movimento muito grande pra mim.
Patrícia: Léo, você dorme aqui todo final de semana há mais de dois meses. Foi só por isso que eu comprei uma escova de dentes. Não é bom escovar os dentes pra dormir? Só isso!
Léo: Pois é. Hoje foi uma escova de dentes, amanhã vai ser uma toalha, depois umas camisas, e quando a gente vai ver, já tá morando junto.
Patrícia: Que exagero. Você não quer ter uma escova de dentes, mas tá acabando com o meu Listerine!
Léo: A que escova de dentes é um símbolo muito forte. A gente ainda tá se conhecendo.
Patrícia: Léo, pode ficar tranquilo. Meu pensamento foi muito mais simples que o seu.
Léo: Agora não dá mais. Agora eu tô assustado.
(Tempo. Climão entre eles)
Patrícia: Sabe de uma coisa? Pode ir.
Léo: Oi?
Patrícia: Pode ir embora.
Léo: Por quê?
Patrícia: Porque é melhor. Você não quer que cada um tenha o seu mundo e não invada o mundo do outro? Você está invadindo a minha cama.
Léo: Não, espera aí, não é bem assim.
Patrícia: Então você pode dormir na minha cama, mas não pode escovar seus dentes? Por favor! Depois as mulheres é que são paranoicas. Vai, Léo.
Léo: Mas são quatro da manhã. A rua tá perigosa.
Patrícia: Ainda bem que você é um homem independente. Tchau.
Léo: Mas…
Patrícia: Vai logo. Quem tá assustada agora sou eu. Vai. E leva a escova de dentes que é pra ter certeza que o seu mundinho não invadiu o meu.
Léo: Pô, Pat…
Patrícia: Tchau.
(tempo)
Léo: Você não entendeu nada.
Patrícia: Tchau.
(Fecha a porta. Tempo. A campainha toca, ela abre, é o Léo)
Léo: Pat, me desculpa. Eu exagerei. Deixa eu ficar. Eu gosto de você e não vai ser uma escova de dentes que vai estragar isso.
Patrícia: Jura?
Léo: Juro. Desculpa. Isso é a maior besteira mesmo. Vamos dormir juntinhos, vai. (Se beijam)
Patrícia: Ai, que bom! Assim você vai poder usar o pijama que eu comprei pra você. É melhor que dormir com a roupa da rua.
(Léo volta a ficar apavorado.)
Léo: Ih! Lembrei que tenho que o levar um relatório para o trabalho que tá no arquivo do meu computador lá em casa. Tchau, Pat! Obrigado! A gente se fala.
(Sai correndo)
Pat: (atrás de Léo): Léo! Era uma piada! Eu tava brincando!!! Não tem pijama nenhum! Léo! (Ele já foi. Ela respira fundo) Homens!
FIM
Entrevista com Deus
Consegui uma entrevista com Deus. Depois de muita insistência, muitas negociações, muitos pedidos e muitas preces, finalmente o próprio Deus Todo Poderoso Criador do Céu e da Terra concordou em conceder uma entrevista exclusiva. Apenas 10 perguntas. Ele estava passando uma temporada no Rio de Janeiro. Tinha chegado em fevereiro, um pouco antes do Carnaval, para assistir o show dos Rolling Stones em Copacabana. Ele estava hospedado na suíte presidencial de um dos melhores hotéis cinco estrelas da cidade: O Copacabana Palace. Usava o codinome de Bart Simpson para afugentar suspeitas. Quando cheguei na recepção fui imediatamente conduzida para o elevador privativo da suíte presidencial. O Sr. Simpson havia deixado ordens expressas. No trajeto entre o primeiro andar e a cobertura, consegui interrogar o ascensorista que declarou que Mr. Simpson era um senhor muito simpático e bom de gorjeta. Distribuía generosamente notas de cem dólares para praticamente qualquer um que lhe desse “bom dia”. O próprio ascensorista me mostrou uma dessas notas, verdadeira, onde não pude deixar de notar uma frase emblemática: “In God We Trust”.
A porta da suíte estava entreaberta. Tentei anunciar a minha presença pigarreando, apertando a campainha, batendo à porta, mas como Deus não respondeu resolvi entrar. A suíte era majestosa. Ou melhor, divina. Tapete persa… E uma vista para o mar de tirar o fôlego. Resolvi aguardar. Pensei comigo mesmo. Se Deus é onipresente, ele deve saber que já estou aqui esperando… quem sabe ele está resolvendo um problema grave em alguma outra parte do planeta e já volta. De repente ouvi um ronco. Abri a porta do quarto e lá estava ele. Deitado na cama. O ar condicionado ligado… Deus estava dormindo. Confesso que fiquei chateada. Que desaforo! Quem ele pensa que é? Deus?
É preciso ter muito paciência para falar com Deus. Muitos esperam uma vida inteira sem sucesso. Mas aquele era o meu dia de sorte. Esperei longos 40 minutos até Deus acordar, se recompor para, enfim, me atender. O ascensorista tinha razão. Deus realmente é um senhor muito simpático. Aparenta ter uns 65 anos. Mais ou menos 1,70m de altura. Nem gordo, nem magro. Cabelo e barba brancos. Maçãs do rosto rosadas. E um dragão tatuado no braço. Um ar ao mesmo tempo decadente e charmoso. Pediu desculpas por ter perdido a hora. Explicou que bebeu demais na noite anterior. Duas garrafas de vinho. Romane Conti. Disse que sempre foi chegado a uma extravagância. Pediu licença e foi ao banheiro. Enquanto tomava um banho cantarolou a 9ª Sinfonia de Bethoven. Finalmente saiu do banheiro. Usava bermudão, camisa florida, chinelos Havaianas e chapéu panamá. Respondeu as perguntas saboreando um delicioso charuto cubano.
Por quê o senhor criou o mundo?
Deus – Eu precisava de companhia. Eu precisava de diversão. Nossa! Vocês realmente sabem se divertir!
De que criação o senhor mais se orgulha?
Deus – Que pergunta difícil! Adoro os animais… Se tivesse que escolher… os passarinhos.
O senhor se arrepende de ter criado o homem?
Deus – Claro que não! Eu amo vocês! O ser humano é fantástico! Veja só quanta coisa extraordinária vocês inventaram: gastronomia, poesia, teatro, arte, arquitetura, energia elétrica, os barcos, esportes, futebol, refrigerante, pipoca, geladeira, goma de mascar, máquinas, desenho animado, relógio, cinema, música, rock´n roll!
Mas nós também escravizamos, fazemos guerras, assassinatos em massa, destruímos a natureza, somos corruptos…
Deus – Não se pode fazer um omelete sem quebrar os ovos.
O que o senhor pensa sobre as religiões?
Deus – Assim como os grandes impérios, foram importantes para o processo de civilização do homem. Também são manifestações culturais muito ricas.
E as cruzadas, a inquisição, os fundamentalistas islâmicos…?
Deus – Lá vem você de novo… Omelete!
Por quê o mundo é tão injusto?
Deus – Se o mundo fosse justo, se tudo fosse perfeito, a vida seria muito chata…
Mas por quê tantas doenças, fome, miséria, por quê tanta barbárie?
Deus – Minha filha… Você não entende? A vida é imprevisível. E tem que ser assim! Esse é que é o grande barato! Hoje mesmo teremos o show dos Rolling Stones para três milhões de pessoas aqui na Praia de Copacabana e ninguém sabe ao certo o que pode acontecer. Nem eu. Pode ser uma noite maravilhosa como também podem morrer dezenas de pessoas pisoteadas… o Mick Jagger pode ficar rouco… alguém pode conhecer o grande amor da sua vida… Não é incrível? Não é excitante?
O senhor é acusado de ser reacionário, omisso, negligente e sádico. O que acha disso?
Deus – É impossível agradar a todos.
O que o senhor pensa sobre os ateus?
Deus – Geralmente são pessoas boas.
Se existisse uma eleição para Deus, o senhor seria reeleito?
Deus – Acho que não.
Por quê?
Deus – Eu não faço promessas.
Qual o sentido da vida?
Deus – Viver.
Qual o sentido da morte?
Deus – É a morte que torna a vida ainda mais bela.
Encerrada a entrevista, Deus me conduziu para o terraço de sua suíte, onde tomamos uma taça de champagne. Contou algumas piadas, muito engraçadas, sobre ‘Deus’ e ainda deu uma última declaração, que veio como um suspiro, ao observar, orgulhoso, o pôr do sol.
Deus – Espero sinceramente que vocês resolvam esses problemas.
Por último, Deus me convidou para assistir o show dos Rolling Stones na área Vip. Disse que era muito amigo do Keith Richards e que tinha um ingresso sobrando.
Fim.
Eu sei que não te amo mais, meu amor
Nota: cena da peça inédita “Eu Sei Que Não Te Amo Mais, Meu Amor” escrita em parceria com Haroldo Mourão, em 2009.
BREVE TEMPO. LUZ ACENDE SOBRE ANDREAS QUE ESCREVE EM SEU NOTEBOOK. TEMPO. SILÊNCIO. SOM DE PORTA BATENDO. ALICE COMO OUTRA MULHER (MARIA) ENTRA.
MARIA – Andreas, por favor, me leva embora!
ANDREAS – Vou chamar o táxi.
MARIA – De jeito nenhum! Me leva embora! Eu não ando sozinha por essa casa novamente nem por um milhão! Faz esse favor…
ANDREAS – Aqui no teatro é bem pior.
MARIA – Olha, cara… te lo juro… te lo juro que tudo lá encima é muito louco… me leva embora, eu tou te pedindo, cara… você não brinca com essas coisas… isso aqui é muito louco, te lo juro, andres! Eu não tô de sacanagem…
ANDREAS – Achou o vestido que te falei?
MARIA – Achei esse… o que deu pra pegar… e meter o pé… cara, Andres… eu não tou brincando…
ANDREAS – Eu sei.
MARIA – Você fica sempre aqui… nesse teatro?
ANDREAS – Vou ficando.
MARIA – Meu… Te lo juro… isso aqui… isso tá muito ruim… como você consegue…? Não tá sentindo uma “vibe” estranha…?
ANDREAS – Não me importo.
MARIA – Isso aqui me dá arrepios…
ANDREAS – Coloca o vestido.
MARIA – Mas…
ANDREAS – Vai.
MARIA COMEÇA A TROCAR O VESTIDO.
ANDREAS – Você tem um corpo bonito… é uma mulher bastante atraente.
MARIA – Jura, cara?…
ANDREAS – Te lo juro…
MARIA – É… eu sei…
ANDREAS – Então por que está tão acanhada?
MARIA – Porque eu tou com medo, né, cara…
ANDREAS – Sei… o medo faz dessas com a gente… o medo deve ser, na verdade, a nossa maior e mais estranha história…
MARIA – Eu tenho muitos medos…
ANDREAS – Fale de alguns…
MARIA – Ai…de fantasma, por exemplo.
ANDREAS – Os mortos estão por toda parte…
MARIA – Jura?
ANDREAS – Te lo juro, mamita…
MARIA – Então tem mortos aqui me vendo trocar de roupa…?
ANDREAS – Esqueça os mortos. Eles não levantam mais…
MARIA – Como estou?
ANDREAS – Linda.
MARIA – Jura?
ANDREAS – Te lo juro…
MARIA – Eu tenho um medo… digo… eu sempre tenho medo de ser… violentada…
ANDREAS – Sério?
MARIA – Te lo juro…
ANDREAS – Já teve um caso na família?
MARIA – Não propriamente… Uma vizinha…
ANDREAS – Sei…
MARIA – Ela foi estuprada numa noite… ela era linda… depois disso… você não sabe… você não sabe, cara…
ANDREAS – O que?
MARIA – Ela engordou propositalmente… a barriga dela… a barriga dela se tornou uma espécie de bolo… uma coisa horrível… aquela obesidade mórbida… te lo juro, Andres… ela era linda… virou um monstro…
ANDREAS – Você tem medo de perder sua beleza?
MARIA – Acho que tenho…
ANDREAS – Vem cá…
MARIA – Você é um cara bem louco…
ANDREAS – Sou?
MARIA – É. Você é.
(MARIA O BEIJA COM VIOLÊNCIA, COMO SE NÃO SOUBESSE O QUE É UM HOMEM HÁ MUITO TEMPO.)
ANDREAS – Sou.
MARIA – E você? Do que tem medo?
ANDREAS – Eu… de nada. Tenho. Tenho um medo, sim. Tenho medo de ser esquecido. De sumir na terra. De não ficar nenhum rastro meu por aí… sei lá… de virar poeira… e também de não conseguir dar amor de novo… É isso.
MARIA– (MUDANDO DE IDÉIA RAPIDAMENTE. COM MEDO SÚBITO.) Faz o seguinte.
ANDREAS – O que.
MARIA – Chama aquele táxi pra mim. Faz esse favor?
(TEMPO. OLHAM-SE)
ANDREAS – Oquêi, mamita.
LUZ APAGA SOBRE MARIA
ANDREAS – Outra mulher.
AGORA, ALICE, COMO OUTRA MULHER (PAMELA), ENTRA EM CENA TRAZENDO UM FINO PALETÓ PARA ANDREAS. ELA O ADMIRA E AJUDA-O A SE VESTIR. ELES SE OLHAM COM FERVOR. ELA ABOTOA SUA CAMISA, AJEITA SUA GOLA. BEIJAM-SE, ABRAÇAM-SE. ANDREAS COMEÇA DESPIR ARDENTEMENTE A MULHER. A MULHER, ENLOUQUECIDA, PARA SUBITAMENTE.
PAMELA – Eu quero fazer uma cirurgia no meu nariz. O que você acha dele?
ANDREAS – Do seu nariz…?
PAMELA – É… um pouco agressivo, não?
ANDREAS – Acho ele bom.
PAMELA – Bom?!
ANDREAS – Nada de extraordinário com seu nariz. (BEIJA-LHE OS SEIOS ARDENTEMENTE. ELA RI VOLUPTUOSAMENTE. BEIJA-O. ELE LEVANTA TOTALMENTE SEU VESTIDO DEIXANDO-A NUA DA CINTURA PRA BAIXO. ELA INTERROMPE NOVAMENTE O BEIJO DEIXANDO ANDREAS LOUCO)
PAMELA – O que acha dos meus lábios?
ANDREAS – Lindos.
PAMELA – Eu estou falando dos meus “grandes lábios”…
(ANDREAS OBSERVA CIRÚRGICAMENTE A VAGINA DA MULHER)
ANDREAS – Perfeitos. Perfeita.
PAMELA – Um pouco gorducha?
ANDREAS – Não… irretocável.
PAMELA – Vou corrigir isso também… (CURTA PAUSA) E aumentar os seios… gosto deles grandes… adoro mulheres com seios enormes.
ANDREAS – (MEIO DE SACO CHEIO, MAS ATENCIOSO) Você não tem que ir embora? Pra ver seu filho que está com sua avó doente?
PAMELA – Não… não. Eu posso ficar mais…
ANDREAS – Sinto muito. Eu tenho que ir.
PAMELA – Você vai a uma festa “da alta” com drogas, sexo e bate-estaca?
ANDREAS – O que você está dizendo?
PAMELA – Com essa roupa, você só pode ir a um bafom!
ANDREAS – Hoje é a estréia da minha mulher.
PAMELA – Uau, sua mulher é atriz??!
ANDREAS – Grande atriz.
PAMELA – Eu também adoraria ser uma atriz de teatro… mas por enquanto… sou uma atleta… do sexo… uma atriz também. Mas nem tanto atriz… gosto do que faço… (MUDA O TOM) Deixa eu te ajeitar… (CURTA PAUSA. AJEITA-O) Me fala da sua mulher! Como ela é? Assim… tipo…uma mulher do nosso tempo? Dessas anoréxicas… alta… branquíssima? Ou daquelas lindas e suculentas gordinhas irresistíveis?
ANDREAS – (DEPOIS DE OLHAR BEM PARA A MULHER) A minha mulher… Alice… Alice é… uma gaivota… é isso. A minha mulher é uma gaivota… acho que você não vai entender…
PAMELA – (MUDANDO DE IDÉIA RAPIDAMENTE) Preciso ir… acho que meu filho está chorando… eu sempre escuto… onde quer que eu esteja…
(A MULHER SE ARRUMA APRESSADA. FAZ QUE VAI SAIR, MAS RETORNA)
PAMELA – Andreas…
ANDREAS – O que é.
PAMELA – A sua mulher é uma gaivota. E você é um porco, cara. (SAI.)
TEMPO. ANDREAS FICA ESTÁTICO E NÃO TERMINA DE SE ARRUMAR. NÃO COLOCA OS SAPATOS. NÃO ACABA DE ABOTOAR A CAMISA. O ROSTO DESAFIADOR DE ALICE APARECE NO TELÃO. ALICE RI. LÁBIOS ENORMES DE ALICE. OUVE-SE TRÊS TOQUES DE CAMPAINHA DE TEATRO. ANDREAS MEXE NO NOTEBOOK. NO TELÃO, VÊ-SE TODA A CENA ANTERIOR SENDO SELECIONADA E DELETADA. MAIS UM PEDAÇO DO CENÁRIO DESABA. ANDREAS OBSERVA EM SILÊNCIO.
O Sacrilégio
Livremente inspirado em “A Vida Como ela é” de Nelson Rodrigues
Um casal de namorados
PAULINO: Sabe de uma coisa?
LURDINHA: O quê, meu docinho de coco recheado com mel?
PAULINO: Preciso te apresentar à mamãe.
LURDINHA: É mesmo?
PAULINO: Mesmo.
LURDINHA: Mas nós só estamos há duas semaninhas juntos.
PAULINO: Pois é. Já é hora. Minha mãe pergunta muito de você.
LURDINHA: Se você acha que é hora…
PAULINO: Tenho certeza.
LURDINHA: Quando?
PAULINO: Amanhã.
LURDINHA: Amanhã? Assim? Amanhã?
PAULINO: Tem que ser amanhã. Amanhã é o melhor dia.
LURDINHA: Então, amanhã.
PAULINO: Você vai adorar ela. É a melhor mãe do mundo. Ela é maravilhosa. Só vendo.
LURDINHA: A minha mãe também é maravilhosa.
PAULINO: Porque você ainda não conhece a minha. Tô dizendo. É a melhor mãe do mundo.
LURDINHA: Tá bom, Paulino. Tá bom.
Na porta da casa dele e da mãe.
LURDINHA: Eu tô bem?
PAULINO: Você fica linda de batom.
LURDINHA: Obrigada, meu docinho, eu sabia…
PAULINO: Mas é melhor tirar.
LURDINHA: Tirar?
PAULINO: Mamãe não gosta de pintura.
LURDINHA: Caramba, tudo bem, eu tiro.
PAULINO: E nada de gírias também. Mamãe não tolera gírias.
LURDINHA: E desde quando caramba é gíria? Caramba é caramba.
PAULINO: Pra mamãe é gíria.
(LURDINHA respira fundo. Os dois entram)
PAULINO: Mamãe?
ISAURA: Meu filho!
(abraço muito, muito apertado)
ISAURA: comeu?
PAULINO: Comi com a Lurdinha. Aliás, mãe, essa é a Lurdinha.
(finalmente vê a nora)
LURDINHA: Oi, dona Isaura é um prazer te…
PAULINO: Não abraça a mamãe. Ela não gosta que ninguém encoste nela. Só eu.
(Olhar implacável de Dona Isaura para Lurdinha)
PAULINO: Vamos sentar
(eles vão sentar.)
PAULINO: Não senta aí não, mãe. Faz golpe de ar.
ISAURA (para LURDINHA): Sente-se.
(Finalmente os 3 sentam. Silêncio)
ISAURA: Seu nome?
LURDINHA: Lurdes. Mas pode me chamar de Lurdinha.
ISAURA: Nome todo e direito.
LURDINHA: Lurdes Fonseca Gonzaga.
ISAURA: Gonzaga?
LURDINHA: É. Gonzagada.
PAULINO: Espero eu não seja parenta daquele cantor horroroso.
LURDINHA: Não. Não sou.
ISAURA: Mora aonde?
LURDINHA: Tijuca.
ISAURA: Sozinha?
LURDINHA: Sozinha.
ISAURA: Não tem vergonha?
LURDINHA: De quê?
ISAURA: De morar sozinha?
LURDINHA: Não.
ISAURA: Sua mãe morreu?
LURDINHA: Não!
ISAURA: Brigaram?
LURDINHA: Não!
ISAURA: Você é mulher da vida?
LURDINHA: Não!
ISAURA: Então devia morar com a mãe. Mulher de família não mora sozinha.
LURDINHA: É que minha mãe mora em outra cidade.
ISAURA: E o que você tá fazendo aqui?
PAULINO: A Lurdinha trabalha no Fórum. É advogada.
ISAURA: Eu falei com você? (para Lurdinha) É religiosa?
LURDINHA: Acredito em Deus, mas não sou devota.
ISAURA: Que bobagem é essa? Não é devota por quê? Devia ser devota.
LURDINHA: Eu?
ISAURA: Claro, evidente! É alguma desonra ser devota? Diga? É! Ora veja!
LURDINHA: Bom, eu preciso ir.
PAULINO: Já vai?
LURDINHA: Esqueci que eu tenho que pegar um documento no escritório. Foi ótimo, obrigada.
PAULINO: Eu te levo na porta.
(Lurdinha sai apressada. Paulino vai atrás)
LURDINHA: Santa Bárbara!
PAULINO: E então? É ou não é a melhor mãe do mundo? Não disse?
(Lurdinha sai)
Passagem de tempo. Eles estão namorando no banco.
LURDINHA: Não vejo a hora de chegar a data do nosso casamento, meu docinho.
PAULINO: Eu também, meu anjinho. Eu também.
LURDINHA: Eu tô vendo um apartamento lindo na rua…
PAULINO: Olha, se for uma rua barulhenta não serve porque mamãe tem um sono muito leve. Acorda com qualquer barulho.
(tempo)
LURDINHA: O quê?
PAULINO: “O quê” o quê?
LURDINHA: A sua mãe vai morar com a gente?
PAULINO: Mas claro! Então, você acha o quê? Que eu ia abandonar a minha mãe? Com ela sofrendo do coração? Nem que o mundo viesse abaixo!
LURDINHA: Mas, meu docinho! Não dá certo. Sogra e nora morando juntas não dá certo!
PAULINO: Claro que dá. Isso é lenda. Claro que dá.
LURDINHA: Eu não sei. Não gostei.
PAULINO: Meu anjo, escuta. Eu amo você. Não há nada que possa estremecer isso. Percebe?
(ele a beija e ela amolece)
LURDINHA: Tudo bem. Tua mãe vai morar com a gente. E quem vai ser a dona de casa?
PAULINO: Ela.
LURDINHA: Como?
PAULINO: Mas isso é óbvio. Você trabalha. Não pode cuidar da casa. Além do mais, você acha que minha mãe, uma senhora, vai receber ordens de uma garota como você? Claro que não.
(Lurdinha fica sem saber o que dizer, mas acaba cedendo de tanto amar Paulino)
LURDINHA: Seja o que Deus quiser! Mas a lua de mel vai ser em Fernando de Noronha. Só nos dois, juntinhos, agarradinhos…
PAULINO: E a mamãe? Não podemos, meu anjo. Imagine a mamãe, em casa, sozinha. Imagine se ela tem um treco!
(ela suspira fundo)
LURDINHA: Paciência!
Música. Na música. Ela se veste de noiva, dando a entender a passagem de tempo. Ele a carrega e a leva para casa. Eles se abraçam no fogo de recém casados.
PAULINO: Vamos para o quarto meu anjinho!
(Aparece a mãe de camisola e bob no cabelo)
ISAURA: Meu filho. Tô com dor.
(imediatamente, ele larga Lurdinha)
PAULINO: O que foi, mamãe?
ISAURA: Comi muito no casamento. Tô com dor de barriga.
LURDINHA (falando pra si): Velha miserável.
PAULINO: Eu não disse à senhora para não comer camarão? A senhora é teimosa que Deus te livre! Eu vou sair pra comprar remédio. Meu anjo, enquanto isso, cuida da mamãe.
LURDINHA: Não fico com a tua mãe coisa nenhuma. Eu vou é dormir.
Passagem de tempo – Paulino e D. Isaura
ISAURA: Tua mulher não serve pra nada. Não está nem aí pra mim.
PAULINO: Não fala assim, mamãe.
ISAURA: Ela não presta. É uma morta viva. Me odeia. Nem olha para mim. Isso daí não é mulher para você. Não é mulher pra você. Você merece outra mulher. Uma outra mulher. Ela não faz nada. Nada que eu mando. Um insulto. Um insulto.
Paulino e Lurdinha
LURDINHA: Nossa lua de mel foi um fiasco. Um fiasco. Três meses de casados e não ainda não tivemos lua de mel.
PAULINO: Deixa de ser espírito de porco. Teu gênio é de amargar.
LURDINHA: Como você fala assim de mim. Sou tua mulher. Você devia me proteger. Sua mãe não me deixa em paz…
PAULINO: Você tem muita implicância com a minha mãe.
LURDINHA: Não diga isso. Ela me humilha o tempo todo. Não aguento mais, não aguento mais.
(ela chora)
PAULINO: Não faz drama.
LURDINHA: Uma de nós tem que morrer
(tempo)
PAULINO: O que você falou?
LURDINHA: Isso o que você ouviu. Uma de nós tem que morrer!
PAULINO (recua): você é um demônio.
LURDINHA: O quê?
PAULINO: Mamãe tem razão. Uma hiena.
LURDINHA: Não fala assim
PAULINO: Pede perdão por essa blasfêmia. Pede.
LURDINHA: Não peço nada. Ou ela ou eu.
PAULINO: De hoje em diante durmo na sala.
LURDINHA: Ótimo. Melhor assim. (sai)
(Paulino fica sentado entra a mãe senta ao lado dele.)
ISAURA: Olha essa cara. Não há jeito. O negócio é a separação. Separação. Separação.
Passagem de tempo. Lurdinha e Paulino
LURDINHA: Marquei aqui por que em casa não dá.
PAULINO: O que você quer?
LURDINHA: Me separar de você.
PAULINO: Que ótimo. Eu também.
LURDINHA: Que ótimo. Já falei com o advogado.
PAULINO: Que ótimo. Eu também falei com o meu.
LURDINHA: Que ótimo. Então está tudo resolvido.
PAULINO: Que ótimo.
LURDINHA: Que ótimo.
Passagem de tempo. Lurdinha com a mala, Paulino e D. Isaura nos braços dele
ISAURA: meu filho, não tô nada bem. (morre)
PAULINO: Mamãe? Mamãe?
LURDINHA: É agora que ele se atira do 16 andar.
(Paulino chora. Lurdinha vai consolá-lo)
LURDINHA: Calma. Calma…
(ele olha para ela e repara em seu corpo e na hora pára de chorar)
PAULINO: Lurdinha. Você tá tão bonita.
LURDINHA: Melhor eu ir. (ela vai saindo)
PAULINO: Espera! (ela para) Vamos resgatar a nossa lua de mel.
LURDINHA: E a sua mãe?
(tempo. Entende realmente o que aconteceu)
PAULINO: Mamãe? Mamãe morreu! Mamãe morreu! Vem cá, meu anjinho! Você é minha mulher! Mamãe morreu!
(ele a agarra e os dois se beijam ardentemente ao lado do corpo de D. Isaura)
FIM
Vampiro carioca
O sol do verão carioca é aterrorizante. A grande bola de fogo nasce com força e rapidamente toma conta de tudo e de todos. Espetacular explosão de luz e calor. Os sobreviventes da noite se esquivam do sol percorrendo o caminho das sombras das árvores, dos prédios, das marquises e se escondem num ponto escuro qualquer da cidade. São sobreviventes das sombras, vampiros urbanos que, como eu, fogem desesperadamente do sol. Afinal, nós vampiros, quando expostos ao sol viramos pó. Pó! Muitos vampiros já foram vendidos em papelotes pelos traficantes da cidade. Pó de vampiro é a droga do momento. Melhor e mais cara que crack e cocaína. O cara bebe pó de vampiro com Red Bull e sai voando. A parada te dá asas… de morcego. O Cartel de Cali tá de olho na Transilvânia. CV agora significa caçadores de vampiros. PM é predador de morcego. Se descobrirem que sou vampiro eu tô perdido. Coloco os meus preciosos óculos escuros e parto rumo à minha tumba. Um elevador antigo com porta pantográfica num prédio estilo gótico no coração de Copacabana onde sou ascensorista nas horas vagas. Vampiro com insônia é assim: suga o sangue de suas vítimas durante a noite e trabalha de dia para arrumar uns trocados e conhecer pessoas. Antes do trampo, sempre paro na padaria da esquina para comer a média de pão com manteiga e café com leite nosso de cada dia. Mas meu prato favorito da culinária brasileira é Galinha ao Molho Pardo. Detesto Filé a Osvaldo Aranha. Como um bom vampiro, não suporto alho de jeito nenhum. Também não gosto de crucifixos. Por isso evito passar na porta de igrejas e jamais passarei férias em Salvador. São sete horas da manhã e o calor já é infernal. Vendi a alma pro diabo em 10 vezes sem juros e ele me mandou justamente para um país tropical. O pior lugar que existe para um vampiro. Mas já estou me adaptando à cidade. Freqüento rodas de samba na Lapa, vou ao Maracanã torcer pelo América… Sangue! Sangue! Pego onda à noite no Arpoador e já mordi o pescocinho de várias garotas de Ipanema.
Trecho da série Vampiro Carioca, exibida todas as sextas, meia-noite e meia, no Canal Brasil.
“Ai, que preguiça…”
Trecho do meu texto ‘Preguiça’, escrito em 2004. Nesta peça, o pecado capital da preguiça é abordado como uma hipótese de virtude.
Os filhos: Ronco, Carrerinha e Crisma
A empregada: Paulette
A mãe: Marilião
cena 4 – das obrigações e compreensões -
Ronco: Vai começar tudo de novo.
Carrerinha: Acho melhor você começar a pensar em fazer alguma coisa.
Crisma: Só se for por mim.
Carrerinha: Não sei o que é pior: domingo ou segunda feira. No domingo, eu olho o jardim florido, o sol raiando, aquela beleza, e não quero sair da cama, mas aí eu faço uma cama no jardim, né…
Crisma: E na segunda?
Carrerinha: Na segunda eu não saio da cama.O que mais odeio na vida é vencer o sono! Acho ele tão forte, o sono.
Ronco: Chega de falar. Vamos só pensar. Nada de ter que mexer tantos músculos pra articular uma frase.
Marilião: Você tem muita vida interior, Ronco!! Muita vida! Você é muito é preguiçoso!
Ronco: Mãe, a preguiça é uma coisa linda. (Marilião: Ahã..). A preguiça é uma atitude, uma forma de rebeldia, por isso, não se precisa ficar falando nela. Assim cansa. Cansaço não é positivo. (Marilião: Hã..) A preguiça é o estado onde a gente só precisa do pensamento.
Crisma: Ô mãe, (Marilião: Hã…). desde que nasci parece que minha vida tá acabando…
Marilião: Pois é, né filha, então sai daí, porque são poucos os anos que a gente têm, viu?
Crisma: E as horas que a gente passa dentro de ônibus, em fila de banco, então! Só piora! Dormir é uma grande atividade.
Marilião: Que qui você disse, minha filha?!
Paulette: Não liga, não liga pra nada não, tá…
Marilião: Não liga pra quê, hein, Paulette?!
Paulette: Pra nada disso aí! Eu, hein! Que domingo! Dai-me paciência!
Marilião: Falando em paciência. Carrerinha, que qui deu no protocolo?
Carrerinha: Que tem o protocolo?
Marilião: Não foi no protocolo?
Carrerinha: No protocolo?
Marilião: Que qui deu no protocolo?!
Carrerinha: O protocolo… Que qui negócio de protocolo?! Quero mais é um colo, o protocolo, que qui eu tenho que ver com o protocolo e eu lá sou homem de protocolo, eu vou no protocolo, ora! Já falei que vou no protocolo!
Marilião: Quando?
Carrerinha: No dia de protocolo! Agora, por quê no protocolo?? Não tenho esses protocolo, não, ahhh, daqui há pouco eu vou no protocolo!
Marilião: O tempo tá passando!!!
Carrerinha: Eu era pra ter ido antes de ontem no protocolo, porque era dia de protocolo, mas daí que o bebê da Soraia nasceu e eu fiquei de dar uma mão em tudo por lá…
Marilião: E deu?
Carrerinha: Não deu pra dar a mão. Sabe o que qui é. É que acabou que eu me atrasei, tava vindo de Niterói, de barca, lógico, pela Baía de Guanabara… Nossa, mamãe… se você visse a Baía de Guanabara, sabe o que me pareceu a Baía de Guanabara? “Uma boca banguela…” Quem falou isso?
Ronco: Você não sabe quem foi?
Crisma: Pronto, Marilião já foi.
Marilião: Fui e já voltei! Vão trabalhá ou vão lerdá?! Get a life! Get a life!
Ronco: Trabalho é coisa superada, mãe!
Marilião: Carrera, não esquece do protocolo!!
Carrerinha: PRA QUÊ todo esse protocolo???!… Qui merda de protocolo!!!
Ronco: Sabe o que é, mãe, (Marilião: Hã..) eu tenho um monte de coisa pra te falar… (A mãe não pára).
Marilião: Tou com preguiça de você, Ronco. Você hoje começou mal.
Ronco: Comecei mal por quê?
Marilião: Você sabe. Outra coisa: Pára de encher a cabeça da Paulette, viu?!
Ronco: Sim, eu comecei o meu dia deitado, repousando, sabe o que significa repousar, mãe?
Marilião: Graças que não!
Ronco: Significa repensar a vida inteira. Mãe, o sonho de Aristóteles está se realizando (Marilião: Ihhhhh). Ele sonhava que um dia não se precisaria mais de escravos, e então: uma fábrica japonesa já é totalmente robotizada.
Paulette: É mesmo, Seu Ronco?! Quer dizer que se daqui há um pouco tudo for assim eu posso deixar a minha função pros robôs?!
Marilião: (Cortando) O QUE?!??? O QUE?!? Olha o que qui você tá fazendo na cabeça dessa menina, Ronco!
Paulette: Tá fazendo nada, não, senhora, porque, poxa… olha só, eu comprei tanta coisa nesses anos de vida e de trabalho. Comprei meu microonda, minha lavadora de roupa e de louça, comprei uma bicicleta…
Ronco: UAU! Bicicleta?!
Paulette: Pois é, mas não posso usar porque não tenho tempo. Se esse negócio de robô der certo, aí eu vou poder apreciá tudo. E Seu Ronco, patroa, vive detchado porque ele sabe de um tudo, esse aí sabe das coisas, quem detcha sabe muita coisa ou não é?
Marilião: Não é.
Ronco: Isso mesmo, Paulette. A gente aqui repousando adquire conhecimento pra repensar o muuuundo…
Marilião: Ai, eu não vou suportar isso, não!
Ronco: Vai sim, mãe, repousar é questão pra viver. Olha, eu tava pensando…
(reação dos irmãos)
Paulette: Vai seu Ronco, vai!
Ronco: Eu tava pensando…Você sabia que a gente cresce quando tá no sono profundo? (Marilião: Ihhh..) E que é dormindo que os hormônios do crescimento entram em ação…
Marilião: É?
Ronco: Ô, mãe, a senhora tem que relaxar mais, ser mais vagarosa.Quem aproveita o tempo é ansioso.Há quanto tempo a senhora não vê o pôr do sol?
Marilião: O sol não se põe.
Ronco: Como não?
Marilião: O sol fica no mesmo lugar. A Terra é que gira. Enquanto o sol brilha pra uns, não brilha pra outros. Interessante, não? E é assim com quem não madruga! Vai correr atrás do teu, anda! Get a life! Get a life!
Ronco: Mas mãe, eu tava lendo a bíblia, eu não posso deixar de te falar essa, mas antes de ler a bíblia, eu pensei muito se eu devia ler ou não…
Marilião: Ahã.
Ronco: Então, sabe o que é, ai, que saco ter que explicar tudo!!!… Olha, mãe, por exemplo, a senhora sabe me responder quem é que inventou essa história de que a gente tem que crescer, evoluir, sei lá…
Marilião: Pra crescer tem que trabalhar!
Ronco: Pois é, (Marilião: Ah, concordô?!) mas se eu cresço mesmo assim…
Marilião: Assim como?
Ronco: Se eu cresço dormindo… e mesmo se eu não trabalhar…
Marilião: Não te faça de besta, Ronco!
Ronco: Tudo bem, tudo bem… E olha: o que eu tava querendo dizer, presta atenção, mãe, (Marilião: Âh?!), mãe, (Marilião: Âh?!) , cê tá me escutando?
Marilião: Ahã, ahã.
Ronco: Eu tava dizendo da bíblia, né, pois é, na bíblia, tem uma parte, eu me lembro bem, quando Jesus diz pra todos olharem os lírios do campo…
Marilião: Ahã, e daí? E daí?
Ronco: Ele tá convidando a gente à beleza? A ficar morgando, daí que ele diz que “ os lírios não fiam e nem tecem”…
Marilião: Ahã, e daí? Give me a break!
Paulette: (P/ Ronco) Ela num entendeu… manda outra.
Ronco: Também Ele fala dos corvos!!
Paulette: Que qui Ele fala dos corvos, Seu Ronco?!
Ronco: Que eles não semeiam e nem colhem, mas Deus os alimenta…”
Marilião: E onde é que você entra nisso, meu filho?
Ronco: Não entro!
Paulette: Também não. Me inclua fora dessa!
Marilião: O quê, Paulette?
Paulette: Tou muito exaurida. Minha cabeça tá igual chaleira. Tá fervendo!
Marilião: Que qui tá acontecendo, hein, Paulette?
Paulette: Seu Ronco,
Marilião: Ahã. E daí?
Paulette: O seu Ronco fala muita coisa e se eu ficá aqui vou acabar que nem eles ó! Que nem eles!!
Marilião: Não te faça de besta, você também, hein, Paulette!
Paulette: Seu Ronco me disse, Dona Marilião, que eu sou o “ventre da burguisia”
Marilião: Ihhh…
Paulette(P/ Ronco); É isso mesmo,seu Ronco? Então… Seu Ronco também me disse que eu preciso acreditar mais ni mim, porque a senhora não é nada sem mim…
Marilião: O quê?!
Paulette: Não vai me entender mal, gosto muito da senhora, gosto mesmo.
Marilião: Obrigadinho.
Paulette: Sei que a senhora é uma pessoa boa, sensívi.
Marilião: Muito agradecida, Paulette..
Paulette: E mesmo a senhora com essa briga eterna com a Dona Palmira…
Marilião: Que qui tem a Palmira?
Paulette: Essa vizinha pede-pede aqui da frente que vive pedindo dinheiro emprestado e a senhora não dá…
Marilião: Claro…
Paulette: porque ela tá desempregada…
Marilião: Claro…
Paulette:Revoltada como muitos brasileiros…
Marilião: Cê me paga, Ronco, cê me paga, viu?
Paulette: Eu acho que a senhora não tem a obrigação de resolver os poblema da Dona Palmira,
Marilião: Claro…
Paulette: Porque senão vem o país inteiro aqui na porta e quem se ferra sou eu pra fazer hora extra e ainda cavar amor no coração …Ai, meu Deus,não sei como começar a falá, mas vou falá: ó, eu quero que a senhora entenda …
Marilião: Ahã.
Paulette: Que aqui não é meu espaço, que eu tou trabalhando porque gosto da senhora e dos meninos, mas se Deus me desse a liberdade pra escolher entre servir e morgá o ano todo eu escolhia morgá !(reação dos filhos) E eu tou falando essas coisas porque Seu Ronco disse que eu tenho que falá o que me vem a mente…
Marilião: Ai, não tô acreditando…
Paulette: Mas às vezes eu tenho uma preguiça de falá, prefiro ficá olhando e gostando da senhora, mas se a senhora resolver me dar um bom aumento eu fico mais aliviada, era isso.
Marilião: Olha, Paulette, não sei em quem você tá se segurando, você tá indo por um caminho sem volta, menina, e Ronco está indo pelo caminho do exílio, revolução não se faz com preguiça, meu filho!! Vou mandar esse menino pro Peru!!
Paulette: Mas ih o aumento??!
Marilião: (Não dá importância) No final da peça a gente fala disso, tá? (Muda o tom) Ronco, você está amaldiçoando a sagração do trabalho!
Ronco: Paulette, você não tem que pedir aumento nenhum, você tem que dizer que quer trabalhar menos!
Paulette: O sinhor quer dizer que eu devia ter falado aquele negócio de ter mais tempo de folga?
Ronco: Também.
Paulette: Entendi.
***
Desculpe, precisava voltar
“Na fila do banco é tanta anestesia de ser, que é possível acontecer o sexo explicito e ninguém reagir.”
Ela tinha que entrar na Caixa Econômica. Sim, Caixa Econômica. Precisava resolver alguma coisa com seu pis, ou seria o seguro desemprego? Ela precisava entrar. Também tinha que depositar um cheque em outro banco. Precisava também tirar umas xerox na esquina, assinar uns papéis num escritório, pagar as contas atrasadas. Ela precisava. Era uma realização, pequenas vitórias do dia, pequenos desafios concretizados, alívios, espasmos de ser gente, adulta, sim, era preciso ser adulta.
Então se via: rua, carros, barulhos, freadas, bagunça, gente, gente, gente, quanta gente!
Copacabana é mesmo um bairro muito intenso. Alegre e triste, colorido e obscuro. Mas então, não podia desistir, acordou para isso, ou melhor, dormiu pensando nisso, não podia desistir. Chega de adiar o dia. Preparou uma pasta de documentos, abriu a caixinha do correio do prédio, tirou uma infinidades de contas e avisos atrasados e foi. Decidida, mulher, adulta, independente. Foi.
Nossa senhora de Copacabana! Lá estava ela. Altiva. “Hoje sou adulta”. Estava até mais bonita. Sentia. Olhavam-na. Era a roupa? Talvez. Se arrumou todo para tal missão. A unha fizera no dia anterior. Era preciso se sentir bonita. O desafio era grande.
Porta do banco. Aconteceu o primeiro calafrio. A fila era enorme. O banco estava sem ar condicionado. Homens, mulheres, crianças, adolescentes, idosos já não eram mais pessoas. Eram como animais na fila para ganhar sua ração. Hesitou, ouviu um latido de um cachorro singelo, se distraiu com ele, mas não podia, respirou fundo, o primeiro passo, entrou. Foi para a fila, não podia, tinha que pegar uma senha. O numero? 235. Que numero estava? 189. Haviam ainda 46 pessoas em sua frente. Fez a conta: cinco minutos para 46 pessoas, no mínimo 230 minutos de espera, que significam, quase 4 horas de espera. Começou a suar. O batom, ali, já havia saído. Ainda tinha tanta coisa pra fazer. Mas o que fazer? Esperar? Abriu a bolsa. Pegou um livro de contos estratégicos para filas. Começou a ler. Leu 15 minutos e não aguentou mais. Já era outra, a outra pior. Suava frio, apesar do calor infernal do banco sem ar. A moça ao lado bufava. O menino no colo da mãe chorava. Por que tinha que estra ali? Por quê? Ah! Lembrou. Tinha que receber o seguro desemprego. Aquele dinheiro viria em boa hora. Podia viver sem ele, mas com ele tudo seria melhor. Tudo? Pensou bem. E se voltasse amanhã? Não! Todo dia ela adiava, precisava encarar. Seu coração palpitava. Não entedia. Quanta dificuldade. Era apenas um banco. O mundo real. Olhou pra a porta e lá fora estava ventando. Adorava o vento. Lá dentro, calor, lá fora, a brisa que vinha do mar. Mar!!! Por que lembrou dessa palavra? Enquanto ela estava ali, na primeira etapa do dia, encarando 4 horas de espera, ele estava lá, na praia, num vai e vem eterno, o eterno movimento que acalma a sua alma nas horas de dor. Seus olhos mudaram. É como estivesse hipnotizada. Tirou os sapatos no meio da fila. Alguns olharam, outros disfarçaram, mas a verdade é que ninguém entendeu nada. Não reparou em ninguém. Só pensava no mar. Ali estava tão quente… e o seguro desemprego, e o pis? É verdade. Que loucura, coloca o sapato! Colocou -o de volta. Segurou na mulher gorda da frente pra ter certeza que estava ali. “ Desculpa, precisava voltar”. Ela disse, sem graça. Mas voltar da onde? Do surto. A mulher gorda olhou-a com raiva e disse: “ Gente louca!” Gente louca? Estava se referindo a ela? Muito provavelmente. Foi ela que a segurou nos braços e disse uma frase totalmente desconexa: “Desculpa, precisava voltar”. Então se enxergou. Será que estava louca e não havia percebido? Pensou na análise que tinha deixado de fazer alguns anos atrás. Mas não… loucas eram aquelas pessoas, naquela fila, naquele calor, naquele tempo… será que a necessidade é tão grande que reprime o ser humano a tal ponto que se deve aceitar essa condições? Coisa que não aconteceria em país desenvolvido. Odiava pensar isso: Só porque aqui é terceiro mundo. Odiava ter que admitir isso. Tentava entender as sequências históricas para chegar nesse ponto e não havia duvidas. Todas as questões arraigadas da colonização se faziam presentes naquele mesmo presente aterrorizador de estar numa fila de um banco público, sem ar condicionado, com poucos funcionários e gente, muita gente, que…
Um música. Uma música no ar. Ouviu uma música! Era uma boa música. Uma dessas novas cantoras com voz de quem acabou de acordar, gostosinha, sem muita extensão, mas cheia de simpatia, cantava uma especie de “new soul” americano, uma hino de paz. Da onde vinha? Olhou para todos os lados e procurou suspeitas. Olhou diretamente para os jovens que levam seus Ipods, MP3, celulares musicais, mini lapt tops, o que tiver que ser , para tudo quanto é lugar. Enfim, a música vinha de algum lugar e a deixava feliz. Um pouco de magia no deserto burocrático. Sem perceber seu corpo estava se mexendo. Não! Não estava no filme “Vivendo a vida adoidado” cantando beatles e todo mundo ali ia começar a dançar numa coreografia uníssona, como se estivem ensaiado a vida toda. Sabia disso e tentou se controlar. Mais uma vez, o controle social civil para se adequar ao padrão cotidiano. Mas a música estava lá. Um ipod oculto, um celular que chamava e ninguém atendia de propósito. Ou seria do próprio bancário que para escapar de sua rotina opressora, ouvia secretamente debaixo da mesa a música dos anjos? O fato é que a música a fez lembrar do mar mais uma vez. Lembrou dele, da sua cor, da cor do céu. O sol nessa época proporciona cores espetaculares na natureza. Ai, que dor estar ali. Mas não tinha o direito para ir para o mar. Era meio da semana, todos deviam estra trabalhando ou resolvendo alguma burocracia da vida!!
Horror. Como pensar que poderia estar no mar? E a roupa bonita, e unha que fizera? Não podia. Mas a música… Ah, o poder da música é algo que jamais iremos compreender. Nem ela. A música causava um efeito tão libertário, tão avassalador . É pra isso que estamos vivos? Para encarar as filas de banco? A musica falava algo sobre o quanto você me fez bem, o como não fez bem , mas já estou bem… ou seja, mais uma musica sobre amor, de novo, nada além do padrão, mas não era isso que importava, o que importava era a musica simpática no caos. MARRRR!! Ele gritava agora em seus ouvidos e reinsistir era muito difícil. Tirou o sapato de novo. Que louca, deveriam pensar. Ou não. Na fila do banco é tanta anestesia de ser, que é possível acontecer o sexo explicito e ninguém reagir. Tirou o sapato, tirou o casaco, soltou o cabelo. Mais uma vez chamou a mulher gorda da frente. “Pode segurar a minha bolsa por um instante?’ A mulher olhou de novo, com repreensão, sem entender absolutamente nada, mas no automático que estava segurou sem questionar. Então foi!! Quatro horas de espera! Haveria tempo suficiente. Fugiu! Fugiu dela, fugiu deles, fugiu do banco, fugiu da vida, fugiu do presente, fugiu do passado, fugiu! É muito difcil ser adulta por muito tempo. É facial ser mulher, ser adulto, alguém é? Ela foi mulher. Não foi adulta. Ou foi adulta e não foi mulher? Não importa. Ela foi!
Pro mar!!!! quatro de horas na fila, ou quatro horas nadando, quebrando e transgredindo a rotina imposta as massas? Copacabana, princezinha do mar. Posto Cinco! A musica do banco ainda estava em sua cabeça. Tudo bem. Melhor que a voz de qualquer um reclamando qualquer coisa, o que é comum na cidade grande. Melhor que o telefonema da operadora que liga para cobrar o atraso. Melhor que. Obrigada à pessoa que ouvia a musica! E a bolsa? Não confiara demais na mulher gorda? Tudo bem, é só uma bolsa… nem é só, mas tudo bem… Ali tava tão bom. Um alívio. O inverno é lindo mesmo. É sol sem calor, um carinho no corpo. E lá ficou até chegar a hora de voltar e ser atendida. Quando voltou para o banco, toda molhada , com um sorriso na cara, feliz, ninguém reparou. A moça gorda estava lá com a sua bolsa, e como se o tempo não passasse a devolveu. Estranhamente a música ainda tocava. Será que era o som ambiente? Vai saber… Era mulher, adulta, criança, era ela mesma… Agora sim podia continuar seu dia. E assim foi.
Cabelo todinho cor de rosa
(trecho de “Luz” – 2000)
Shirley que divide um conjugado com Luz está aos prantos ajoelhada na frente da t.v. quando chega Luz.
L- Que é isso?
S- Morreu a Gigi! (Luz despenca para os braços de Shirley. Se abraçam. Shirley num pranto sincero.) Num merecia! Não com aquela cara! Tão feia! Como sofreu Meu Deus!
L(Dura.)- Calma. Pára. Tem que ser forte.
S- Não com aquela cara Meu Deus! E a bochecha caída! Toda ruim! Não teve um dia feliz na vida!
L- Respira. Te pego uma água.
S- Sim por que a coxa era um escândalo, não tinha coxa melhor na avenida. Por isso fazia tanto. Mas os cornos! Deus Meu! E como era sofrida! Não, por que ela me contava! Cada coisa Luzia! Cê nem imagina! Nossa vida é fichinha! Um dia chegou toda virada e me disse… me contou…
L- Toma. Shirley, toma a água. (Shirley obedece.)
S- E assim do nada, morta! Passou na televisão agorinha!
L- Acalma…
S- Ah, que tristeza! Mona feia não devia morrer nunca!
L- Não era uma que tu odiava?
S- Que é isso? Minha amiga!!! Confidente!!! Vinha aqui e me contava! Cê nem imagina! Histórias do arco da velha! Tudo a maldita sabia! E bordava também! Ela bordava e vinha aqui com a cestinha dela, tão bonitinha a cestinha, me mostrava os bordados que ela fazia de dia. Lindos! Dizia que não dormia direito, passava o dia bordando… (novo ataque de choro.)
L- Pára!!! Pára de chorar! Olha pra mim. Tem que ser forte! Pra nós não tem essa. Forte!!! Entendeu? Senão te pisam aí e não sobra nada! E chega de choro nessa casa! Morreu? Morreu. Já chorou o que tinha que chorar e pronto. (Shirley segura mas volta a chorar.) E pára com esse choro!!!
S- Não consigo!
L- Chega! Homem não chora!!! Te dou na cara, heim!
S- Tá. Pronto. Parei.
L- Morreu como?
S- Ora, como Luzia? Como? O assassino!
L- Aquele…?
S- O tal! (Novas lágrimas.) Toda cortada encontraram! E o cabelo lembra? Pintou de louro anteontem. Quase branco.
L- Ah, foi?
S- Pois o cabelo quase branco de tão claro, errou na mão! Eu falei, bota pouco minha filha assim já é exagero! Mas pensa que me ouve a desgraçada? Que nada, bota logo a bisnaga toda, não queria deixar nada pra eu não usar também! Vê lá se vou querer imitar aquela coisa! Vou eu botar qualquer porcaria na cabeça! Pois na tevê, quando passou no jornal, a cabeleira branca da Gigi ficou rosa, menina! Rosinha, tamanha a sangueira!
L- Foi com machado? Ouvi no rádio uma vez. Só usa machado.
S(transportada.)- Se eu morresse… assim… tivesse que morrer… queria morrer como a Gigi. Com o cabelo todinho cor de rosa. (Pranto quase doce.)
L- Deus me livre!
A Beleza da Morte
Zé Roberto, com uma faca de cozinha nas mãos, corre atrás de Ana Lúcia.
Zé Roberto: Eu vou te mataaaaar!
Ana Lúcia: Para, stop, freeze, autos!
Zé Roberto: Isso não é “pique-esconde”, Ana Lúcia.
Ana Lúcia: Calma, Zé Roberto. Se vou morrer, vamos fazer a coisa direito.
Zé Roberto: Como assim direito? Eu vou te matar e pronto! Mulher traidora! Pérfida!
Ana Lúcia: Tudo bem, Zé Roberto, já concordei com você. Mas quero pelo menos morrer com dignidade.
Zé Roberto: Uma mulher indigna que quer morrer com dignidade, essa é boa!
Ana Lúcia: Zé Roberto, lembra que todas as manhãs eu tiro a casca do pão francês pra você?
Zé Roberto: E daí?
Ana Lúcia: E daí que eu também sou boa, não sou?
Zé Roberto: Ana Lúcia, você me traiu sem dó nem piedade, na frente de todo mundo!
Ana Lúcia: Todos os domingos, corto com tesourinha os pelinhos do seu nariz!
Zé Roberto: Ana Lúcia, não muda de assunto! Você é uma safada! Me traiu com meu melhor amigo!
Ana Lúcia: Grande amigo! Dar em cima da sua mulher! Se você parar pra pensar, te traí com o seu pior inimigo, ou seja, fui até bacana…
Zé Roberto: Não tente inverter as coisas, Ana Lúcia! Eu vou te matar, te degolar!
Ana Lúcia: Olha aí! Olha aí! Você tá falando como se eu fosse uma galinha.
Zé Roberto: Mas você é uma galinha!
Ana Lúcia: Por tudo que a gente viveu, pelas casquinhas do pão francês! Não me mata com uma faca de cozinha! Vou ficar com cheiro de cebola no caixão!
Zé Roberto: Você quer que eu te mate como?
Ana Lúcia: Lembra daquele filme que a gente viu? Aquele que a mocinha morria de falta de ar?
Zé Roberto: Você quer que eu te enforque?
Ana Lúcia: Não Zé! A mocinha morria de nervoso.
Zé Roberto: Nervoso tô eu!
Ana Lúcia: Posso também morrer de tuberculose igual a “Dama das Camélias”, acho lindo!
Zé Roberto: Quem?
Ana Lúcia: A protagonista do livro do Alexandre Dumas!
Zé Roberto: Do que você tá falando???
Ana Lúcia: Tá vendo, não lê nada e aí fica sem imaginação na hora de matar!
Zé Roberto: Ana Lúcia isso vai ser um assassinato passional!
Ana Lúcia: Passional significa que você ainda é apaixonado, ou não?
Zé Roberto: Eu estou apaixonado pela vontade de acabar com a sua vida.
Ana Lúcia: Posso pelo menos escolher as cores do caixão?
Zé Roberto revira os olhos.
Ana Lúcia: Poxa, tenho direito!
Zé Roberto: Você tem o direito de ficar calada!
Ana Lúcia: Olha, já que estarei morta, quero no caixão cores vivas para contrastar! Imagina que lindo, meu rosto branco, pálido, e uma fita laranja na lateral. Ai, até me deu arrepio!
Zé abaixa a faca de cozinha e vai saindo.
Ana Lúcia: Que foi Zé?
Zé Roberto: Cansei, Ana Lúcia, cansei.
Ana Lúcia: Não vai mais me matar?
Zé Roberto: Amanhã.
Ana Lúcia: Ah, não! Agora que eu tava acostumada com a idéia da morte!
Zé Roberto sai.
Ana Lúcia: Droga!
Ana Lúcia olha para a faca de cozinha e a pega.
Ana Lúcia: Ai, sempre eu que tomo a iniciativa na relação!
Ana Lúcia corta seu próprio pescoço e cai sorrindo no chão.


Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
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Domingo