Vendendo a alma para o diabo
Nossa! Que fila!
Sente-se, por favor. Aceita um whisky 12 anos?
Café.
Em que posso ajudá-lo?
Gostaria de vender minha alma para o Diabo.
Perfeitamente. Para ‘estarmos’ analisando a sua proposta, precisamos de algumas informações…
Tudo bem.
Nome?
J. J. S.
Idade?
42.
Nacionalidade?
Brasileira.
Profissão?
Professor.
Situação financeira?
Péssima.
Religião?
Nenhuma.
Algum desvio de conduta?
Costumo me embriagar até cair todas as sextas depois do trabalho.
Saúde?
Colesterol alto.
Benefício pretendido?
Quero ser rico, famoso e comer todas as mulheres possíveis e imagináveis.
Um momento, por favor.
(O computador analisa os dados do cliente…)
Pronto. De acordo com o seu perfil, o senhor tem direito ao Pacote Standard. Só poderemos deixá-lo sem dívidas… Um apartamento quarto e sala no subúrbio, um carro usado… você também tem direito a namorar uma ex-chacrete.
Só isso? Eu ofereço minha alma para arder no inferno por toda a eternidade e vocês só retribuem com um apartamento quarto e sala no subúrbio, um carro usado e uma ex-chacrete?
Políticos, artistas, jogadores de futebol, advogados e religiosos costumam receber bem mais…
Eu não consigo entender!
É a lei da oferta e da procura. Esses grupos já têm uma tendência natural para aderir à nossa doutrina. São clientes vips. Recebem um atendimento especial e dão um enorme retorno para a nossa empresa. É o que chamamos de clientes multiplicadores. Pacote Golden.
Mas eu tenho mais de 300 alunos!
Não é suficiente.
Que absurdo!
A ex-chacrete não é de se jogar fora…
Eu nunca fiz mal a uma mosca! Sempre fui honesto…
Desculpe, mas o problema é que a nossa concorrência é desleal! O sujeito pode fazer as maiores barbaridades durante toda a vida, mas se ele se arrepende verdadeiramente um segundo antes de morrer, está salvo. Já perdemos muitas almas valiosíssimas na última hora! Isso sim é um absurdo! Vocês deveriam reclamar! É por isso que, agora, nossos contratos são rigorosos. Nosso ‘approach’ é agressivo.
Minha alma não pode valer menos que a de um advogado…
Sinto muito. Mas é só isso que podemos oferecer. É pegar ou largar. Próximo!
(…) Você tem uma foto aí dessa ex-chacrete?
FIM
Devagar com o andor que o santo é de barro
..

O corretor
Corretor: Esse imóvel, como a senhora pode ver, é coisa rara no mercado. Não vai achar nada igual.
Mulher: Você disse que tem vista pro Cristo.
Corretor: Tem, sim senhora.
Mulher: Onde que eu não estou vendo?
Corretor: Se a senhora chegar aqui, desse canto, vai ver o Cristo.
Mulher: Não estou vendo nada.
Corretor: Abaixa um pouquinho.
Mulher: Nada.
Corretor: Abaixa mais.
Mulher: Só se eu me enfiar debaixo da geladeira.
Corretor: Agora tá vendo?
Mulher: O que? Aquele monte de concreto?
Corretor: Concreto sagrado. É um pedaço do manto sagrado do Cristo.
Mulher: De costas?
Corretor: Costas sagradas.
Mulher: Essa cozinha é muito apertada.
Corretor: Aconchegante.
Mulher: Não cabe o fogão.
Corretor: Hoje em dia ninguém mais cozinha em casa.
Mulher: O banheiro fica ao lado da cozinha.
Corretor: Mais prático pra quem faz digestão rápida.
Mulher: Tem dependências?
Corretor: De empregada? Se eu fosse a senhora não colocaria ninguém estranho dentro de casa. Perde-se a privacidade. É perigoso…
Mulher: O anúncio diz que o apartamento é claro, arejado. Mas a sala não tem janela.
Corretor: Não esta sentindo a corrente de ar? Estou até com medo de pegar um resfriado. Atchim!
Mulher: Corrente de ar? Da onde?
Corretor: Está vindo direto do banheiro.
Mulher: Deve ser corrente de “Bom Ar”, porque o banheiro também não tem janela. Tem que usar “Bom Ar” quando for usar…
Corretor: A senhora é engraçada.
Mulher: Me responde uma coisa com sinceridade: Quantas vezes esse apartamento já foi assaltado?
Corretor: Assaltado? Imagina! Assim, a senhora me ofende.
Mulher: Por que então a porta da sala tem sete fechaduras, duas trancas e três alarmes!?
Corretor: O proprietário é prevenido.
Mulher: E esses furos na parede?
Corretor: O que é que tem?
Mulher: Parecem marcas de bala perdida.
Corretor: Hahaha. A senhora é engraçada mesmo. Texturização. Texturização de parede. E vou lhe dizer, o proprietário pagou uma nota por isso. Foi idéia de um decorador famoso. Um toque urbano.
Mulher: E esse barulho de trânsito, é o tempo todo?
Corretor: Que barulho?
Mulher: Vai me dizer que não esta ouvindo o barulho do trânsito?
Corretor: Aposto que se não tivesse uma buzininha, uns carros passando, a senhora ia reclamar de solidão… Eu tenho clientes que ficam deprimidas sem um som ambiente.
Mulher: Som ambiente de trânsito?
Corretor: Distrai a mente, acalma os ânimos.
Mulher: É, como o senhor disse, não existe nada igual no mercado.
Corretor: Positivo.
Mulher: O senhor é mesmo convincente.
Corretor: É porque eu trabalho com o que gosto. Eu costumo dizer: Eu não vendo imóveis, eu vendo sonhos. Essa é a alma do negócio. Os sonhos.
Fim.
Sebo das almas
Um rapaz está caminhando numa galeria escura. Passa por um senhor sentado numa cadeirinha de plástico, mordendo clipes.
Rapaz: O senhor sabe onde tem uma xérox por aqui?
Senhor: Quer copiar o que?
Rapaz: Minha certidão de nascimento.
Senhor: Você não está certo de que nasceu?
Rapaz: O que?
Senhor: Que o que?
Rapaz: O senhor…
Senhor: Disse que é ali!
Rapaz olha uma loja escura. Entra.
Homem barbudo.
Homem: Pois não?
Rapaz: Quero fazer uma cópia da minha certidão.
Homem: Que tal uma nova?
Rapaz: Como assim?
Homem: A xérox é ali, mas aqui você pode nascer de novo! E sem juros!
Rapaz: Não estou entendendo.
Homem: Não leu o letreiro?
Rapaz volta para olhar e está escrito: “Sebo de Almas – Uma segunda chance pra você!”
Homem: E então? Vai querer ver o mostruário das mais novas, das mais complexas, das simpáticas?
Rapaz: Eu estou contente com a minha.
Homem: Estou sugerindo trocar, não ia dizer nada, mas sinto que seu corpo está pedindo por uma melhor, que combine mais com seu físico aventureiro. A sua tá num desgaste danado… se quiser fazer escalada não vai aguentar…
Rapaz: Olha, eu não…
Homem: Tenho uma aqui que foi feita pra você.
Rapaz: Como eu…
Homem: É de uma velha senhora. Ela perdeu a alma depois que o marido morreu… mas é uma alma boa, idônea, cheia de vontades secretas, um verdadeiro labirinto, certamente é uma alma parente de Jacques Cousteau, da mesma categoria. Combina com esse teu copro moreno, sarado.
Rapaz: O senhor não pode estar falando sério.
Homem: É boa sim! Parece mentira, mas não é! E essa alma pode ser sua agora, agora mesmo!
Rapaz: Mesmo que fosse verdade, estou satisfeito com a minha.
Homem: Não está.
Rapaz: Estou.
Homem: Dá pra ver que tem uma alma muito tosca, de primeira encarnação. Se levar essa daqui, dessa senhora, capaz de morrer e nem voltar mais pra terra.
Rapaz: Ah, entendi, o senhor é espírita.
Homem: Não sou não meu filho.
Rapaz: Está querendo me doutrinar, me levar para a sua igreja…
Homem: Meu filho, vou te contar o que aconteceu.
Rapaz: (irônico) Conta…
Homem: Eu nasci com uma alma ótima, cheia de pretensões, tipo de alma que vai se dar bem na vida. Queria muitas coisas, sonhava e filosofava. Meu olhar para o mundo era genial. Mesmo. Eu escrevia coisas muito expressivas, tinha a certeza de que era a reencarnação de um grande gênio da humanidade, talvez, Platão, ou, Stephen Hawking…
Rapaz (começando a se interessar): Mas ele está vivo.
Homem: Platão?
Rapaz: Não, o físico.
Homem: Não, não está, aquele corpo está sem alma há 10 anos, mas ninguém percebe… é triste não?
Rapaz: Nossa, coitado, além de tudo…
Homem: Mas, continuando a minha história, um belo dia, quando olhei a minha volta, estava casado, em frente a TV, vendo o Fla x Flu… não me lembro bem o que fiz entre uma coisa e outra, por isso tenho a certeza de que me roubaram a minha. Talvez o gato. Dizem que se olharmos muito para os olhos de um gato, ele rouba a alma. Pois tenho reparado que estou com vícios de gato… não tomo banho, faço coco em forma de bolinhas secas e arranho o sofá da sala sem mais nem menos. Me aproximo da janela e tenho vontade de pular… coisa de gato mesmo…
Rapaz: Mas se é assim, o senhor então vai ter sete vidas.
Homem: Não, não, sinto que ele já gastou as seis. Meu gato é muito burro.
Rapaz: Ah, tá…
Homem: Quer a alma da senhora? Faço um preço tranquilo. Tenho também a de um cara muito bacana que esqueceu a alma dele no meio do supermercado, a mulher fez uma lista enorme, aí, no meio das compras, entre os laticínios e Magipack, deixou ela por ali… achei dois dias depois, a coitada estava perdidona… entrou na máquina de pão e ficou ali…
Rapaz: E se eu não gostar?
Homem: Dou o dinheiro de volta em 3 dias. E tem garantia de 1 ano.
Rapaz: Só?
Homem: Alma velha nunca se sabe , né?
Rapaz: Tá, vou tentar… quem sabe….
Homem: Tá aqui. Você toma isso, vai dormir e no dia seguinte já é outra pessoa.
Rapaz: Só isso?
Homem: Só.
Rapaz: Tá bom.
Dia seguinte o rapaz volta. Encontra novamente o senhor do clipes.
Rapaz: Ué? A o Sebo das Almas fechou???
Senhor: O senhor morreu.
Rapaz: Como assim? Tão novo…
Senhor: Foi olhar um passarinho na janela e caiu… Dizem que o gato tentou salvar, mas não conseguiu…
Rapaz: (resmungando) Que massada! Eu sabia que não devia ter comprado uma alma! Bem que a Josefina me avisou que esse negócio de promoção é um motim para acabar com o cérebro das donas de casa, igual a novela das 8, tudo igual! Por isso que eu nunca mais compro nada sem ver o certificado antes, no meu tempo as pessoas não enganavam as outras assim e….
Rapaz sai dando bengaladas na parede.
FIM
trecho de “LAS ENGRANAJES”
de Raul Hernandez Garrido
(NINA, llevando una bolsa de la compra, en el mercado, ante el puesto del carnicero.)
CARNICERO:
Nada más, ¿no? Con esto valdrá por hoy, digo yo.
NINA:
Me lo apunta si me hace el favor.
CARNICERO:
Dicen que a su marido le sobra el dinero con todo lo que trabaja ahora en la fábrica.
NINA:
Lo que digan no es cuestión mía ni suya. Se lo ruego, apúntemelo.
CARNICERO:
¿Por qué iba a hacer trato especial con usted?
NINA:
Siempre he sido buena cliente. Ahora nos falta el dinero.
CARNICERO:
Como a todos.
NINA:
Se lo ruego.
CARNICERO:
Encima de ser esquiroles, así de miserables… Tendría que pensar en pagar ya de una puta vez. Su cuenta va aumentando.
NINA:
Aquí se le está hablando con educación.
CARNICERO:
Cuando pague tendrá toda la educación que quiera.
NINA:
A mí nadie me llama ladrona. Ya le daré su dinero para que se lo meta por donde quiera. Ya creo que se lo pagaré, y entonces se lo rebozaré por la cara. Pero si tiene más problemas, coja esta mierda y para usted. No me la llevo.
MENDIGA:
(Este papel lo incorpora la madre:)
Hija, por el amor de Dios, dame una limosna.
NINA:
Déjeme en paz. No me moleste.
MENDIGA:
Tengo que mantener a cuatro hijos. Mi marido está en el paro. Vivimos en la calle. Ayúdeme con la voluntad. Si no quiere darme dinero, le agradecería algo de comida. Con lo que quiera.
NINA: n>
(Abrazando con fuerza el paquete de carne contra sí:)
No tengo nada…
MENDIGA:
Cualquiera puede caer en necesidad. Es sólo una limosna. Es lo justo. Aunque tú no lo entiendas. Es una decisión difícil, pero será por tu bien. No es nada lo que pido.
NINA:
Es mío. No me lo volverás a quitar.
(NINA la empuja, haciéndole caer al suelo, y echa a correr. Los presentes ayudan a levantarse a la MENDIGA.)
CARNICERO:
¿Se encuentra bien?
MENDIGA:
(A NINA, gritando:)
Así se te pudran los dientes, hija de mala madre.
MONJA:
Le avisé. Es de la piel del diablo.
FUNCIONARIA:
¿Quiere poner una denuncia?
MENDIGA:
Yo sólo soy una pobre mujer. No me hagan daño. Por amor de Dios, denme una caridad.
***
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Um homem bom
Personagens: o homem e a senhora
Uma senhora, bem velhinha bate na porta de um homem executivo estressado
Homem: Pois não?
Senhora: Boa tarde.
Homem (sempre com pressa e sem paciência): Boa tarde.
(silencio)
Homem: A senhora deseja alguma coisa?
Senhora (ri) : Ah! É verdade. Eu vim pra isso. Minha cabeça, sabe? Não é mais a mesma. Ontem mesmo , eu tava andando na pracinha…
Homem: Me desculpe, é que eu to com um pouco de pressa. O que a senhora quer?
Senhora: Ah! Claro, claro. Imagina que eu já tinha me esquecido. Como eu tava dizendo, eu não ando com a cabeça muito boa. Ontem mesmo eu tava andando na pracinha…
Homem: Olha, minha senhora, eu sinto muito, mas eu na vou poder conversar…
Senhora: Pois é, eu adoro conversar, sabe. Falar sobre a vida, as mocinhas. Ontem mesmo, eu tava andando na pracinha…
Homem: Então, minha senhora. É exatamente isso que eu não posso fazer. Eu tô muito ocupado…
Senhora: Isso mesmo, ocupado. Tá todo mundo sempre ocupado. Ontem mesmo eu tava andando na pracinha…
Homem: Por favor, senhora, por favor.
Senhora: Ah, por favor, não me chame de senhora. Nós já temos intimidade suficiente pra você me chamar de Martinha.
Homem: Olha, minha senhora…
Senhora: Martinha.
Homem: Martinha, o que for. Infelizmente eu vou ter que fechar a porta.
Senhora: Também acho, meu filho, também acho.
Homem: A senhora acha o quê?
Senhora: A vida. Não tá certo não. A vida tá fechando a porta. Olha, ontem mesmo eu fui comprar umas flores lá na feira que fica perto da pracinha, aliás, como a feira deu uma piorada, não é não meu, filho, eu sempre vou lá e…
Homem: Deus, dai-me paciência.
Senhora: Mas foi isso mesmo que eu falei: “Deus, dai-me paciência“. Porque as pessoas andam muito estressadas. Isso não ta bom não. Isso não ta bom não.
Homem: Isso não ta bom .
Senhora: Não ta bom.
Homem: Dona Martinha…
Senhora (ri): Imagina. Dona. Eu não sou dona de nada não. Eu era uma mulher muito classuda…
Homem: Martinha. Olha. Eu teria o maior prazer em passar horas do meu dia conversando , sabendo sobre a sua vida, mas não vai dá. Eu já to bem atrasado para o trabalho.
Senhora: Essa juventude trabalha demais. Não pode. Assim como é que você vai conhecer uma mocinha ?
Homem: Pois é. Eu preciso trabalhar muito pra comprar…
Senhora: Ah. Por falar em comprar, você não gostaria de comprar o paninho de prato que eu tô vendendo? Que cabeça a minha, eu já ia esquecer de te mostrar. Afinal foi pra isso que e vim.
Homem: Ah, então foi pra isso que a senhora veio?
Senhora: Eu tenho aqui coloridos, que acho que o você devia comprar. Pra dar uma colorida na vida, sabe? A minha comadre me disse que depois que ela pintou a parede de verde, a vida dela melhorou que foi uma beleza. É que o filho mais velho…
Homem: Eu compro tudo. Eu compro tudo. Quanto é?
Senhora: Vai comprar tudo. (ri) Mas que maravilha. Olha, cada um custa cinco reais, sabe como é, trabalho feito a mão.
Homem: Faz um seguinte. Toma aqui. (dá um anota grande de dinheiro na mão dela.) E pode ficar com troco.
Senhora: Mais que rapaz simpático. Ta aí. Um homem bom. Um homem bom. Deus abençoe , meu filho. Deus vai te dar tudo o que você quiser.
Homem: Obrigado, obrigado. Agora com licença, a senhora já vendeu, eu já comprei, eu vou precisar ir.
Senhora: Posso te fazer uma ultima perguntinha?
Homem: Faz.
Senhora: Será que eu posso ficar aqui?
Homem: Com licença.
(Ele fecha a porta. Ela vai embora )
Passagem de tempo. Dia seguinte.
A senhora volta no mesmo horário na casa do homem e toca a campainha. Ele atende.
Homem: Dona Martinha.
Senhora: Ih. O senhor adivinhou meu nome.
Homem: A senhora esteve aqui ontem. Esqueceu?
(tempo)
Senhora: Eu estive aqui ontem?
Homem: Esteve. Nesse mesmo horário em que eu estou atrasado para o trabalho..
(tempo)
Senhora: Ih! Me desculpe, meu filho. Eu não esqueci não, não esqueci não… Otávio?
Homem: Oi?
Senhora: Seu nome é Otávio?
Homem: Não, meu nome é Daniel.
Senhora (olhando bem pra ele): É verdade. Você não tem nada a ver com o Otávio. Otávio é meu filho. Você como se chama?
Homem: Eu acabei de falar, meu nome é Daniel. Mas infelizmente, hoje eu não vou poder conversar com a senhora…
Senhora: Daniel é o seu nome? Nome bonito.Muito bonito. Ontem mesmo, eu tava andando na pracinha…
Homem: Dona Martinha. Eu já comprei com a senhora.
Senhora: Você já comprou?
Homem: Ontem.
Senhora: Ontem?
Homem: Ontem.
(tempo)
Senhora: Ah, é verdade. Agora eu lembrado bem do senhor. É o homem bom.
Homem: Pois é, então, já que a senhora lembrou, com licença que hoje o dia ta cheio.
Senhora: O senhor não quer comprar de novo?
Homem: Ah, meu Deus. O que a senhora ta vendendo hoje?
Senhora: Eu tenho aqui uns paninhos de prato…
Homem: Mais paninho de prato? Eu comprei tudo ontem.
Senhora: Por falar nisso, ontem eu tava andando na pracinha…
Homem: Ta,ta, eu compro.
(a senhora abre a bolsa e não vê os paninhos)
Senhora: Engraçado…
Homem: A senhora…
Senhora: Não precisa de me chamar de senhora. Nós já temos intimidade pra isso.
Homem: Martinha. Você esqueceu que em vendeu todos os seus paninhos de pratos pra mim?
Senhora: É verdade. É o homem bom. Então me desculpa. Qual é o seu nome mesmo?
Homem: Daniel.
Senhora: Daniel. Daniel, sabe que ontem eu tava andando na pracinha e…
Homem: Olha, Martinha, não vai dá pra ouvir, eu tenho que ir.
Senhora: Será que eu poderia ficar aqui…
Homem: Passar bem.
(Ele fecha a porta e ela vai embora)
No dia seguinte, mesma hora. A senhora volta e toca a campainha. O homem atende.
Homem: Oi dona Martinha, eu sabia que era você.
Senhora: Ah, o rapaz já me conhece?
Homem: Conheço. Conheço. Conheço bem.
Senhora: Que bom. Ontem mesmo eu tava andando na pracinha…
Homem: Hoje eu também não posso conversar.
Senhora: Otavio?
Homem: Não! Otavio é o seu filho.
Senhora: Você conhece meu filho?
Homem: Não, eu não conheço o Otavio.
Senhora: Ele já morreu
(tempo)
Homem: Desculpe
Senhora: Por quê?
Homem: Eu não sabia que seu filho tinha morrido.
Senhora: O meu filho morreu?
Homem: Ué, a senhora não disse que o Otávio…
Senhora: Otavio é meu marido. Ele já morreu.
Homem: E o seu filho?
Senhora: Também.
Homem: Também morreu?
Senhora: Também se chama Otavio.
Homem: Bom, olha. Eu preciso fechar…
Senhora: O senhor quer comprar uns paninhos de pratos?
Homem: A senhora já vendeu pra mim.
Senhora: Já vendi?
Homem: A senhora com certeza não lembra. Mas já vendeu, anteontem. Eu comprei tudo.
Senhora: Comprou tudo? É um homem bom. Será que eu posso ficar aqui…
Homem: Obrigado. Passar bem
(fecha a porta. Dessa vez ela continua em frente a porta. O homem abre a porta de novo)
Homem: Dona martinha. Ainda não foi embora?
Senhora: O rapaz me conhece?
Homem (quase chorando): Dona Martinha, a
senhora sabe onde fica a sua casa?
Senhora: Claro. Eu moro com o … com o…
Homem: Otávio.
Senhora: O Otávio já morreu.
Homem: Estou falando dos seu filho. O filho Otavio.
Senhora: O meu filho … O senhor sabe pra onde ele foi?
Homem: A senhora não mora com ele?
Senhora: Com meu filho?
Homem: O seu filho.
Senhora: Eu morei com o Otavio.
Homem: Vamos facilitar. Onde e que a senhora mora?
(tempo)
Senhora (aponta): Eu acho que é pra lá.
Homem: Acha?
Senhora: Meu filho!
Homem; Eu não sou seu filho.
Senhora: Otávio!
Homem: Eu não o Otávio. Eu sou o Daniel.
Senhora: Eu sempre quis te reencontrar. Tá tão bonitão.
(Ela da um forte abraço nele. Tempo. Pela primeira vez ele se sente tocado)
Senhora: Eu te amo muito meu filho. Nunca mais vai embora assim.
(tempo)
Senhora: Será que eu posso ficar aqui?
(tempo)
Homem (sem forças): Pode.
Senhora: Eu to te atrapalhando, meu filho?
(tempo)
Homem: Não.
(eles vão entrando)
Senhora: Eu fiz uns paninhos de prato pra vender, sabe? E um homem muito bom. Muito bom, comprou tudo. Ele me lembra muito você, Otávio. Mas olha aqui. O homem bom não sabe. Eu separei um paninho pra você. Esse eu não vendo . Esse é seu. É o nosso segredo. (ela entrega pra ele)
(Homem respira fundo e pega)
Senhora: Mas você também parece ser um homem muito bom. Muito bom.
Homem (emocionado): Obrigado. A senhora é muito bonitinha. Martinha.
Senhora (ri): Eu to muito feliz de ta aqui com você. Posso te contar uma coisa?
Homem: Pode.
Senhora: Ontem mesmo. Eu tava andando na pracinha e… (ela pára. Tempo)
Homem (pela primeira vez bem curioso): E.?
Senhora: E…
(tempo)
Senhora: Esqueci.
FIM
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo