Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

UMA TESÃO DE CRUZETA de Camilo Pellegrini

RAFAELA - escrava, vampira, prostituta, linda de morrer, maldade fluindo nas veias...

VALENTINA - rainha do pornô, dona da produtora de filmes eróticos "Setubal Produções". Carrega bebê-montro em sua bolsa, sua sobrinha Déborah.


SÔNIA - produtora de surubas, dona da casa de sexo grupal "Cê Que Sabe". Simpática, de bem com a vida. Sua única mágoa é um filho que perdeu.

Trovões. Chove muito lá fora. SÔNIA na bilheteria da casa "Cê Que Sabe". VALENTINA já espera lá dentro, agoniada com sua bolsa. RAFAELA chega ali de capa de chuva toda molhada, se dirige a SÔNIA.

R- Boa noite.

S- Uma boa noite pra você.

R-Quanto é que está a entrada?

S- Hoje que é uma noite mais calma é 500 reais.

R- Que é isso! Eu não vou ficar na casa não! É só um encontro! Sou uma profissional. O cliente que marcou aqui.

S- Cheiro interessante você tem. Me permite?

SÔNIA se aproxima para sentir o perfume de RAFAELA.

R- É alfazema.

S- (TOLA) Alfazema não diz que afasta homem?

R- (BUFA IMPACIENTE) Bom. Isso eu já não sei. Vai fazer o desconto?

S- Entra de graça. Se é pra apanhar o cliente, uma simpatia como você. Está em casa. Mas vai querer tirar o capo... o capô... capo... capa... ca... (ESPIRRA)

R- Tudo bem?

S- Desculpa. Um pelinho me coçando o nariz. A capa de chuva. Me dê.

RAFAELA tira a capa de chuva, veste um belo corpete. ELA entrega a capa a SÔNIA que sente a textura da vestimenta.

S- Está molhadinha.

R- É que lá fora está um toró.

Trovões. A luz falha um pouco.

S- Vou colocar aqui na chapelaria.

SÔNIA pega um belíssimo cabide. RAFAELA fascinada.

R- Que cruzeta mais linda!

S- (NUM SUSTO) Oi?

R- A cruzeta! Bárbara!

S- Está falando do cabide?

R- É sim! Uma tesão de cruzeta.

S- Bom. Fique à vontade.

RAFAELA adentra o lugar, VALENTINA se aproxima DELA.

V- Oi.

R- Boa noite.

V- Sozinha?

R- Esperando uma pessoa.

pausa

V- (SEGREDA) Eu trouxe algema! Você gosta? Curte algema?

VALENTINA tira uma algema da bolsa.

R- Não, obrigada.

pausa

V- Luva de pele de coelho? Olha que coisinha mais gostosa! Fáz cócegas!

R- Não estou interessada.

pausa

V- Mas eu tenho aqui uma que vai te fazer cair o queixo!

VALENTINA tira uma estranha caixa de dentro da bolsa. A tomada fica presa pra dentro.

R (CURIOSA) O que é isso?

V- Adivinha!

R- Parece pesado.

V- Um eletrodo indutor orgiástico. (PAUSA) Diz que não ficou chocada.

R- Nossa.

V- Uma mulherona linda assim não vai querer usar? Diz pra mim? Conta no meu ouvidinho.

R- Quero não.

V- Deixa eu ligar pra ver teus olhinhos brilhando!

VALENTINA tenta puxar o fio da tomada de fora da bolsa, sem sucesso.

V- Solta Deborah! Larga! Deborah, se você estragar, vai ter!

R- Deborah?

VALENTINA consegue arrancar o fio da tomada.

V- Ufa! Aqui. (CHAMA) Mocinha?! Tem tomada aqui?

SÔNIA se aproxima descrente. VALENTINA procurando pelas paredes.

S- Não entendi.

V- Tomada fêmea, querida! Pra eu enfiar o meu macho! A coisa funcionar!

S- (DE MÁ VONTADE) Tomada? Aqui, na casa?

V- Aqui não, filha. Na puta que te pariu.

S- Olha lá como fala, heim!

R- Não precisa disso, minha gente. Por favor.

V- Não estou vendo tomada nenhuma nessa joça.

S- (IMPORTANTE) Não tem tomada mesmo não. Não estava no projeto do arquiteto.

V- Arquiteto de c* é r#la. Esse lugar que é de quinta.

S- (FATÍDICA) A maioria do clientes já traz seus apetrechos com a própria bateria.

R- Não há necessidade dessa quizumba, meninas.

S- Então manda essa daí se controlar.

SÔNIA se afasta batendo os pézinhos, revoltadinha.

V- (REVOLTADA) Vamos embora daqui! Vou te levar pra tomar uma champanha! Vamos estourar uma champanha pra celebrar nossa revolta! O nojo que a gente tem desse lugar!

R- Não vou contigo. Pra onde? Estou esperando cliente.

V- (SE DESILUDE) Poxa. Não sabia. Pensei que estava assim à toa. Não imaginei que a distinta dama se tratasse de uma porfissional.

R- Você pode assitir se quiser. Pelo buraco quente da fechadura cuspindo vapor no teu olho. Pode ouvir nossos gemidos, se quiser. Gosta de ver?

V- (PERDIDA) Já é alguma coisa.

R- Mas o meu suor salgado, não. A minha carne na tua carne quente. Aquele calor insuportável.

V- A gente liga o ar condicionado! Vem! Vem pra casa comigo? Não tem jeito de te convencer? Eu sou da Setubal Produções. Já deve ter visto algum filme que eu produzi. "Orquídias Loucas"? "Meu amante tem frieira"? São clássicos do Noir Pornô? Te arranjo um trampo.

R- Não vai dar. Quem sabe em outra ocasião. Adeus.

RAFAELA se afasta. VALENTINA com o coração em frangalhos.

FIM............por enquanto........

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Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

GENESIS: WANDA VS. ZUMBI de Camilo Pellegrini

WANDA usa uma fantasia sensual de coelhinha. ZUMBI veste uma roupa antiquada e velha, sua carne está em decomposição.

NARRADOR- Wanda passou a tarde vendo dvds. Ela viu “Madrugada dos Mortos”, ela viu “Uma noite Alucinante”. Agora, já com sua roupa de trabalho ela pisa pela primeira vez na boate Shampoo. Será que Wanda irá sobreviver?

W- Sr. Zumbi? Sr. Zumbi???

Z- Alguém me chamou???

W- É o senhor? É o senhor mesmo???

Z- Zumbi vem a ser eu mesmo. Que prazer inenarrável conhecê-la. E o seu nominho, princesa?

W (A parte.)- Eu achando que Zumbi fosse um negão de dois metros de altura, com tranças caindo pelos ombros, corpo atlético, pele com o negrume da noite, talvez campeão de capoeira. (Pra ele.) Eu sou Wanda, mas espera! Espera!

Z- Espera? Mas esperar o quê, gracinha?

W- Não fala nada! Nada! Fica calado aqui. É só um segundo! Por favor!

Z- Eu faço tudo que a senhorita me mandar. Hum... que cheiroso!

W- O que você disse?

Z- Cheiroso?

W- Cheiroso, você disse???

Z- Foi, cheiroso...

W- Ah! Que ótimo! É um perfuminho que eu uso! Dá pra sentir??? Dá pra sentir meu perfuminho???

Z- Eu sinto um cheirinho que eu adoro!

W- Que maravilha! É bom mesmo o produto então! A vendedora me garantiu que era tiro e queda e nós aqui no meio dessa fumaceira toda! Tanto cigarro. Tem até uns puxando um fuminho ali atrás. Impressionante você ter notando. Que bom que você gostou, Zumbi.

Z (a parte.)- Não foi do perfuminho que eu gostei, foi do cheirinho dos teus miolos suculentos, gracinha, é cérebro que tem esse perfume assim, gostoso, ai meu Deus que larica...

W- O senhor está bem?

Z- Tô com uma larica assassina.

W- Então já posso começar? Lá vai heim?

Z- Vem com tudo, cheirosa (a parte.) Eu gosto dessas assim, que usam cotonete, couro cabeludo bem limpinho.

(Número Musical de Wanda de feliz 145 anos pra Zumbi.)

Z- Meu Deus! Eu havia me esquecido! Hoje é meu aniversário!

W- Feliz aniversário querido amigo, boníssimo companheiro, vamos cantar todos juntos, pro Zumbi nada!!!

TUDO!!!

W- então como é que é??? É pique é pique....

Z- Eu tinha me esquecido.

W- Ainda bem que o senhor tem amigos. A vida é muito dura sem amigos.

Z- Alguém lembrou, mas quem foi???

W- Achei que o senhor soubesse...

Z- Quem poderia ter me armado essa surpresa?

W- Era voz de mulher.

Z- Voz de mulher? Mas quem? Qual terá sobrevivido?

W- Poxa vida, tem bilhete. Tinha me esquecido do bilhete.

Z- Graças! Com bilhete fica tudo muito mais fácil. Deixe-me lê-lo.

W- Ufa! Não sei o que seria de mim se eu não lembrasse do bilhete! Se a mulher ficou lá horas me ditando o bilhete!

Z- Me dê esse bilhete aqui!!!

W- Calma! Afaste-se! É minha função lê-lo pra você em voz bem alta, com toda uma dicção! Por favor!

Z- Eu quero saber quem foi a bruaca! Me dê esse papel!

W- Controle-se Sr. Zumbi. Eu sei que o senhor deve estar muito emocionado e coisa e tal, mas não me obrigue a usar a força. Compreendeu? Chegue um pouco mais pra trás e me deixe fazer valer o meu salário. Lá vai (Lendo a carta ela se transforma em Naraiana.) Querido Zumbi, como eu posso expressar em palavras o prazer de ter te encontrado aqui no Rio de Janeiro?

Z- Naraiana???

W- Depois de cavucar cada cidadezinha das redondezas do vale do café, encontrar você na metrópole foi uma surpresa. Eu só queria te dizer que mesmo depois de você ter mordido o meu rosto, ter mastigado a minha sobrancelha na minha frente, fincado os dentes no meu crânio, apesar de tudo isso, eu não te odeio. Eu não sinto nada, na verdade. Talvez o naco de cérebro que você me arrancou fosse o responsável pela emoção, não sei. Mas o que eu te digo é da mais profunda sinceridade. Hoje eu sou uma velha deformada e vingativa, mas eu te digo, é o tédio que me move. O tédio.

Z- Naraiana???

W- Isso é tudo. Descobriu?

Z- Naraiana...

W- É isso mesmo!!! Parabéns! Tá escrito mesmo aqui em baixo, Naraiana. Você gostou da minha performance?

Z- Muito parecida com ela, muito parecida.

W- Obrigada. Ela me ensinou pelo telefone. Que bom que o senhor gostou.

Z- É você a Naraiana! Ta igual!!! Foi nisso que você se transformou? Confessa!

W- Não, não. Eu sou Wanda. Não confunda Wanda atriz com Naraiana personagem.

Z- Me desculpe, moça. É que a voz ficou tão parecida... o jeito de falar...

W- Eu sou boa. É como eu disse prum amigo meu. Não Vá dormir com a Wanda e acordar com a Naraiana, ou era o contrário?

Z- Eu me descontrolei. Então Naraiana, viva! Depois desses anos todos!

W- Ela está bem viva.

Z- E ainda pensa em mim. Me odiando. Quantos anos ela deve ter hoje? Oitenta?

W- E muito rica. Pode ter certeza.

Z- Ah, é? E tá te pagando bem?

W- O justo. Eu cobro o justo.

Z- Como eu fui louco por ela, Wanda, se você soubesse. Completamente apaixonado. Que mulher inteligente! Eu gostos dessas. Eu gosto dessas que tem cérebro.

W- Eu imagino.

Z- Antigamente as mulheres eram tão diferentes. Essas meninas de hoje não valem o peido de uma piranha. Não tem nada na cabeça.

W- Você tá... Você tá me colocando nesse bolo aí?

Z- Que bolo?

W- Esse bolo das meninas sem cabeça? Eu tenho muita cabeça, viu, meu chapa. E eu não nasci em 1912 mas eu sei um truque ou dois.

Z- Não, minha filha! Não tô falando de você não. Tá achando que o planeta corre em volta aí do teu umbiguinho? Porra! Me deixa pensar aqui um pouco! Fica buzinando, buzinando. Acabei de receber uma notícia, porra! Pára de pensar só em você, caralho! As pessoas tem sentimentos.

W- Como e grosso!!!

Z- Ah, garota! Vai plantar piroca na casa do caralho! Some da minha frente!!! Ainda vem na minha frente imitar essa vadia!!! Imitando a voz da vadia como se fosse ela! E bem no meu aniversário!

W- Olha aqui, rapaz...

Z- Foda-se!!! Vai se foder!!! Essa vaca dessa Naraiana já devia tá morta, enterrada.

W- Ela está muito viva, queridinho. E eu estou aqui para cumprir com os interesses dela, não me faça ir até aí calar essa tua boca.

Z(Grosseiramente sexual.)- Vem meu anjo. Vem aqui calar a minha boca, vem.

W- Eu vou sim. Olha só o presente que a Naraiana quer dar prá você. Ela insistiu muito pra eu trazê-lo. (Saca sua enorme pistola.)

Z- O quê??? Sua embusteira!

W- Não chame de embuste, meu querido Zumbi. Chame de tédio. É o tédio de Naraiana que vai me deixar rica.

Z- Você nunca conseguirá me deter, Wanda! Nunca!

W- Mas se a melhor parte é justamente a caçada!


NARRADOR – Wanda caçará Zumbi por muitos anos. Eles adentram a pista de dança, os tiros se confundido com a batida... Ai... tanta vingança me deixou um pouco deprimida. Que bola baixa. Vamos animar isso aqui? Bem que agora podia acontecer um strip tease!!! Um strip, pelo amor de Deus!!!

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