Tema da semana (06 a 12 de setembro):

Tolerância

12/06/2008 ! Julia Spadaccini

A solidão de uma solidão

Mulher liga para o disque vida. João atende.

João – Disque vida, Boa noite.

Mulher – Oi.

João – Boa noite, em que posso ajudá-la?

Mulher – Ainda não sei…

João – O que você está sentindo?

Mulher – Nada.

João pega a lista de sintomas do disque vida e lê.

João – Está se sentindo angustiada?

Mulher – Não.

João – Ansiosa?

Mulher – Não.

João – Solitária?

Mulher – Não.

João – Sente dores no peito?

Mulher – Nenhuma.

João – Vontade de cometer atos suicidas.

Mulher – Não.

João – Tem alucinações.

Mulher – Depende.

João – Do que?

Mulher – Do que é uma alucinação.

João – Algo que você pensa que vê, mas não vê?

Mulher – Mas se eu acho que vejo, como vou saber que não vejo?

João – (Um pouco nervoso) A senhora está triste?

Mulher – Não.

João – Nervosa.

Mulher – Não.

João deixa a lista de lado.

João – (Constatando) Então a senhora está bem.

Mulher – Estou?

João – (agressivo) Se não sente nada é porque está bem.

Mulher – Você acha? Não tenho tanta certeza disso…

João – Em que posso ajudá-la?

Mulher – Não sei…

João – Está passando por algum problema?

Mulher- Não, por quê? Você está?

João – Eu estou aqui para ajudar a senhora e não para falar de mim.

Mulher – Sei. Mas se você quiser falar, tudo bem, tá?

João – Não tenho o que falar.

Mulher – Sei como é.

João – O quê?

Mulher – Não ter o que falar.

João – Como?

Mulher – Não ter o que falar é um problema.

João – Não, não é… Problemas são coisas concretas! Coisas que podemos falar sobre.

Mulher – Nossa como você é rígido.

João – Como é?

Mulher – Essa coisa de um sentimento ser concreto… Muito estranho…

João – (nervoso) Olha, hoje é o meu primeiro dia aqui. Só quero resolver a sua dificuldade e
ponto final, ok?

Mulher –Qual é o seu nome?

João – João.

Mulher- João, calma.

João- Eu estou calmo. Você, por favor, me conta algum problema.

Mulher – Não tenho.

João – Como não tem? Todo mundo tem problemas. Todo mundo tem. Todo mundo! Minha
vizinha tem! Minha avó tem! Eu tenho! Todo mundo tem!!!!

Mulher – João. Calma. Eu vou te ajudar.

João – Vai?

Mulher – Por que você está tão nervoso, João?

João – Eu não estou nervoso.

Mulher – Está.

João – Eu não estou nervoso, não estou! Eu estou ótimo. Pode me falar, desembucha logo o seu
problema, fala! Fala! Fala que eu te escuto! Fala!

Mulher – Eu continuo aqui…

João – Por que você está fazendo isso comigo? Por quê? Vocês mulheres são todas iguais! Todas!

Mulher – De que mulher você está falando, João?

João – Eu não entendo. Fiz de tudo, de tudo.

Mulher – Sim.

João – Estou tão sozinho que outro dia vi um cachorro amarrado num poste porque o dono tinha
entrado na padaria e me deu uma vontade enorme de desamarrar o cão e passear com ele e
depois devolver…

Mulher – Sei.

João – Os copos ficam me olhando, e tem um… ela usou um copo antes de ir embora e ficou
aquela marquinha da boca, parece que aquela marquinha vai pular em cima de mim e me sufocar e…

Mulher – Coloca para fora, João!

João – (Aos berros) Por que Meu Deus! Por quê??? E eu não fiz nada de errado!!!! Não fiz! Sei
que não fiz! Ela foi embora de uma maneira tão definitiva!!! E eu acreditei tanto naquele amor!!!
Acreditei! E agora não consigo voltar para a casa!!! Não consigo! Tô tão sozinho!!!!

Mulher- Respira João… respira…

João – Tá.

Mulher – Conta até 10…

João – 1, 2, 3…

Mulher – Isso, continua respirando… isso… anota o meu telefone…

João – Tá.

Mulher – Olha. Quero que você saiba que pode me ligar a hora que quiser, ok?

João – Posso mesmo?

Mulher – Pode. Eu estou aqui para isso.

João – Obrigada.

Mulher – De nada.

Mulher desliga o telefone e vai dormir tranqüila. 30 minutos depois João se joga da janela do
Disque Vida.

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